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2 Alguma coisa entre cadernos, cerveja e um livro sem enredo
“Acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo”
— Paulo Leminski
Sempre me considerei meio intelectual, meio de esquerda e brasileiro de corpo e alma. Não posso dizer que nunca tive raiva do meu próprio país e que se tivessem me dado a oportunidade de escolher onde nascer, eu não escolheria nascer em berço de ouro em um país primeiro mundo. A verdade é que não gosto de nada escancarado, problemas graves que não se solucionam por culpa de representantes eleitos e corrupção exposta do jeito que é, na lata. Era mais ou menos sobre ser meio intelectual, de esquerda e vanguarda do proletariado que alguns homens, comuns, debatiam um pouco após a cadeira onde sentava o Zé, enquanto aguardávamos atendimento em frente ao balcão do nosso ponto de “desesperados de sexta a noite” principal.
O interessante daquele bar do Lavradio é que ele me recorda a série de desesperos e comemorações que já passei por ali, desde quando um professor de faculdade encontrou um dos meus textos e me indicou para ser colunista no jornal local até quando uma ex-namorada me deu o maior fora do mundo. E era nostálgico mas ao mesmo tempo perturbador ao saber que um lugar onde o atendente atende por Betão, guarda e ainda guardará momentos que não fizeram só parte da minha vida, mas também dos clientes assíduos que iam desde os tais esquerdistas até estudantes e empresários frustrados.
Zé é um desses clientes que levantam a mão, fazem um gesto e o garçom já trata de trocar as tulipas vazias por outras transbordando. Uma para mim, outra para ele.
Acredito que todo mundo tem um amigo tipo o Zé, aquele cara da faculdade que tem tesão pelos fones de ouvido assim como por uma modelo da Victoria’s Secret, e que não é nada pragmático. Um rato de bar e roedor de poesia. Questionava-se sobre o amor, sobre a vida, e assuntos filosóficos acompanhados de qualquer uma bebida alcóolica, desde que em bastante quantidade. E assim estava satisfeito.
“Más escolhas, boas histórias.” Era o que me dizia sempre, e dessa vez não mudou muito o enredo. Eu estava lá para buscar conselhos, na ponta do balcão, acenando pro Betão trazer mais uma, rabiscando em um guardanapo e escutando José balbuciar alguma história em que eu já sabia de cabo a rabo.
— Eu só preciso de uma história nova, que cative o leitor de algum jeito, é a minha única chance, e eu não consigo pensar em nada. Você não tem ideia do quanto eu quero isso, não é?
— Dê tempo ao tempo, amigão.
— Como se eu não trabalhasse com prazos.
— Prazos. Que merda de prazos o quê. – Aquele ponto eu já não sabia mais em qual nível da imbecilidade Zé se encontrava. O quanto estava bêbado e o porquê tragava um cigarro apagado. – Escuta bem, Gustos. Escreve sobre a vadia da Yasmin.
— Não vou levar proveito de ex-namorada, obrigado.
— Então se inspira em Cazuza, meu amor. – e mostrou a língua, debochou e pediu alguma mistura louca entre vodca e cerveja.
Idas ao bar nem sempre são proveitosas, e apesar dos conselhos de um bêbado em desespero, Zé é um cara em que devo tirar meu chapéu para agradecer pelas furadas que ele já me tirou. E me tirou de mais uma da forma mais incrível de todas, te explicarei o porquê: voltando para casa, um dos homens da vanguarda esquerdista que eu comentei acima, deixou um caderninho com algumas anotações cair ao entrar em um táxi.
Devo deixar claro que sou homem de que não tira vantagem quando um distraído deixa uma nota de cem reais cair logo a minha frente, porque afinal, sou distraído também e um dia, quem sabe, não serei eu a deixar as notas caírem? Corri como um cavalo atrás do carrinho amarelo mas nada do motorista me ver. Guardei o caderno branco na jaqueta e entrei em outro táxi para evitar surpresas do gênero bebida mais volante. E aqui estou eu, folheando essas páginas e mandando uma SMS para o amigo do bar.
“Cazuza para que se você é um gênio?”
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