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3 A pessoa certa não existe


Notas iniciais
Permitam-me lhes apresentar um pouco da vida do Augusto.

"Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar."

– Machado de Assis

Deixei-a colocar nossas histórias, junto com aquele meu livro do Tolkien, um resto do meu perfume preferido e o CD do Nando Reis que a pedi para escutar, mochila a dentro e a observei sair pela porta do que eu gostava de chamar de “nosso canto”.

Não se atirou ao chão como uma criança mimada, implorando para que eu não ultrapassasse a porta do hall. Ao contrário de todas as nossas idas e vindas, manteve-se muda e apática. Afinal, depois de tantas mentiras engolidas a seco e dias sem dar notícias plausíveis, o limite já havia se esgotado para ambos. Não teria um segundo tempo para pensar, pois o que tinha foi usado durante um mês e meio. No fundo nós dois sabíamos que era improvável demais para dar certo.

“Se você prefere assim e ficará melhor, tudo bem. Não precisa mais voltar a ver minha cara se não quiser.” Falei como forma de quebrar o silêncio entre nós, não queria puxá-la pelo braço e insistir dizendo que eu tinha mudado, nem desejava também que ela se jogasse ao chão e chorasse pedindo uma segunda, terceira, quarta chance. Aquele papo de “o problema sou eu e não você” era pura perda de tempo quando o problema não era nem ela nem eu, e sim nós dois juntos.

Costumo acreditar que manter um relacionamento é uma das etapas mais difíceis da vida. É como sadomasoquismo porque ele te sufoca mas você gosta, e pede mais, e fica mais, e beija mais, e ainda se permite sentir saudades. Quando se dá por si, está com status nas redes sociais mudado e a senha da sua tela de bloqueio é a letra inicial do primeiro nome dela. Enquanto por outro lado, é só questão de tempo para as guerrinhas por bobeiras começarem e desgastarem o que foi construído com tanto carinho, paciência e bichinhos de pelúcia agarrados com aquelas mensagens de “eu te amo”. Já comprei muito desses.

Acontece que não tem essa de tampa da panela, metade da laranja, pessoa certa e muito menos príncipe encantado. Não tem mulher gostosa que você consiga evitar todos os olhares masculinos mesmo andando de mãos dadas com ela, nem namorada nada ciumenta que te deixa ir no bar do Betão, por exemplo, com o Zé, sem fazer careta ou desconfiar do perfume feminino da sua mãe quando te deu três beijos na bochecha e pediu para ligar quando chegasse em casa. E se existe, ela tem outro.

Nunca dei sorte com essas coisas, sabe? Arrumar uma garota que não precisa ser Jamie Oliver na cozinha mas que pelo menos aceite o convite de se sentar ao seu lado para assistir onze caras correndo atrás de uma bola, além de achar que a retribuição do favor é deixá-la perguntar quantas vezes quiser o que é impedimento.

Dava tudo errado e acabei desistindo de tentar procurar em cada esquina o que era amor. Até que ele veio até a mim em forma do que não era minha cara metade, mas que deixava meu coração acelerado de uma forma assustadora e um sorriso largo demais para o tamanho da minha boca.

Me dei conta de que não a estava perdendo só mais uma vez e sim definitivamente quando já estava no carro. Esmurrei o volante e permiti ser “mulherzinha” naquela hora. Deixei as lágrimas escorrerem sobre meu colo e pensei em fazer o retorno na próxima esquina, mas quando chegasse lá, eu provavelmente a encontraria arrumando em uma caixa – daquelas que se esquece no fundo do armário — todas as nossas fotos e doando os ursos de pelúcia. Contive a vontade de ligá-la e pedir desculpas com todas as forças que tinha para manter a sanidade mental, e assim, não errar de novo.

“Lágrimas não são argumentos”, dizia Machado. E já era hora de um choque de realidade, de saber que aqueles lábios serão gozados por outro, do meu abraço deixar de ter o formato de seu corpo, e arrumar o jeito de recompensar a parte do meu coração que deixei com Yasmin para começar tudo outra vez, a partir do zero. Afirmando sempre que alma gêmea não existe, a gente precisa é da pessoa errada de vez em quando.

Notas finais
PS: Feliz natal, gente! Tudo de bom pra vocês e suas famílias. Ho ho ho.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.