Quiromancia
1 único.
Notas iniciais
Ele podia jurar que aquele era o sorriso mais lindo que já havia visto em toda sua vida, mesmo mascarado pelo arame e borrachas de aparelho, manchado pelos vários cigarros ao longo do dia e uma imperceptível ruga de preocupação. Nao suspirou vendo o olhar de concentração do baixista ao puxar cada corda, tentando um acorde novo, alguma coisa que soasse levemente agradável a ele mesmo e ao resto. Ninguém ali se intrometia no processo de Saga, era um tanto quanto solitário, quase como colher cada nota em meio a uma plantação onde nem todas estavam maduras o suficiente pra entrar em sincronia com a anterior. Fascinava-se com o som que acabava ouvindo depois de longos minutos, curto, mas melodioso agradável a qualquer um da banda que parasse e ouvisse a composição.
Mas ninguém ali se importava, não além dele que se debruçava sobre os bumbos e tambores para observar aquela delicada moldagem de uma canção ou não. Já perdera a conta de quantas músicas apreciara e Saga, sem qualquer coração amassou, dispensando o que, aos olhos do baterista, seria um dos novos hits do Alice Nine. Perfeccionista, ligeiramente atrapalhado e com um fuso horário de sono mais fodido que uma prostituta italiana no gabinete de Berlusconi.
O loiro era quase uma perfeição imperfeita viva. Algo entre uma pintura de Leonardo Da Vinci que apresentava suas rachaduras e não perecia em sua beleza e uma Vênus de Milo com seus braços quebrados. Inspiração encontrada nos mais improváveis locais. Na covinha de um sorriso, na curva de um nariz, nos dedos machucados e insensíveis de cordas grossas, nas olheiras de um trabalho estressante, na voz cansada e rouca de cigarros, dentes tortos prontos a serem alinhados, na camisa cheirando a tártaro e perfume masculino—sempre levemente amassada ou nas fotos de pouquíssima resolução do cachorro idoso que o acompanhava. Inspiração que fazia Nao pensar em si mesmo, o ritmo da bateria normalmente acompanhava seu coração: pratos, tambores e no último caso, quando ele se aproximava, pronto em toda sua maquiagem e roupa, um bumbo duplo frenético e descontrolado.
Por ser melhor amigo dele, conseguia ler em cada ruga uma frase, como um bom conhecedor de vinho entende apenas pelo aroma da taça e sentia-se cada dia mais atraído aquela quiromancia corporal. Em si borbulhava a vontade de tomar o passo à frente, conduzi-lo em um tango para dois. No seu ritmo, no ritmo das notas graves e pesadas do baixo e no bater seco dos pratos.Não queria uma valsa suave, queria que as cordas estourassem de pressão e baquetas desfizessem-se e apenas um pedaço de fósforo sobrasse. E acendesse, queimasse numa flama que vazaria deles, se consumisse em meio ao tocar dos pares de lábios.
Ainda reunia, em um canto (cada vez mais inflado de vontade) de seu peito a coragem para ultrapassar a barreira feita por si mesmo, uma bateria e uma mesa, escancarar qualquer porta que ainda o atrapalhasse.
Seu vôo no desejo foi breve, impedido por um copo de Starbucks quente para aquele inverno que ainda os castigavam, aquecendo as mãos calejadas e doloridas de esforço. Assentiu um sim com a cabeça para o guitarrista mais velho que apenas lhe sorrira, continuando a distribuir com seu parceiro de cordas o suprimento vital para a banda.
E dali foi a queda, a asa delta que bate no chão e o vinho cuspido pelo expert após sua prova. E não passava dali, com certeza era um provador profissional de Sakamoto Takashi, sabia o gosto dele, mas não o suficiente para apreciá-lo.
Pois nas linhas de sua quiromancia, encravadas no rosto do baixista contorcido em um sorriso tímido de agradecimento ao Tigre, sabia que a linha dele não cruzaria nunca com a sua, apenas uma tangente que se tocara em um ponto remoto para continuarem paralelas há de eterno.
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