Quinze anos
1 Pesadelo
A festa era como a realização de um sonho.
A música, as pessoas me parabenizando e sorrindo para mim o tempo todo, os vestidos de gala e os vários cavalheiros que vinham me cortejar e me tirar para dançar até que eu ficasse exausta; mas ainda extasiada de tanta felicidade.
Fui ingênua em não questionar quando meus pais fizeram questão de organizar tudo, alegando que fariam uma grande comemoração para a data “especial”, que seria a melhor festa de todas; e mesmo eu sabendo das dificuldades que estávamos enfrentando por conta da falta de dinheiro, não me importei, eu queria aquilo.
A bajulação, a sensação de todos estarem ali apenas por minha causa, para que soubessem e presenciassem o momento em que eu deixava de ser apenas uma menina, para me tornar uma verdadeira mulher.
E é claro que eu ignorei os avisos. Estava com tanta inveja das outras garotas, mais velhas, algumas até mesmo menos bonitas do que eu e que já haviam tido seus momentos de júbilo, que tomei como mentira quando me disseram que logo o sonho terminaria e tudo viria a ruir.
Infelizmente, eu devo dizer, elas estavam certas.
Meus pais não haviam gasto sequer um centavo na grandiosa festa de debutante e esperaram pacientemente até o dia seguinte ao meu aniversário de quinze anos para me revelarem o grande motivo de sua empolgação.
“Você já é uma mulher agora, querida. Gostaríamos de apresentá-la a alguém muito especial.”
E assim como haviam me alertado.
O que eu tomei inicialmente como a realização de um sonho, se transformava rapidamente no pior dos pesadelos.
Começando pelo homem que agora era me apresentado como meu futuro marido, um desconhecido; sendo prontamente cortejado por meus pais, que ignoravam o fato de que aquele diante deles possuía seus mais de trinta anos, e eu sabia, a partir do momento em que havia entendido as intenções de meus pais, que isso continuaria a ser ignorado desde que ele continuasse dando dinheiro a eles.
E então, depois de um tempo, também passaram a ignorar os hematomas que cobriam todo meu corpo, ignorar as lágrimas que escorriam de meus olhos e me pergunto se também ignoraram meu corpo jogado no rio.
Esfriando enquanto desejava apenas voltar aos dias em que era apenas uma menina, para desejar nunca ter se transformado em uma mulher.
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