Quinze Semanas

2 Capítulo 2 - O Hospital


Notas iniciais
oii
Capítulo 2 — O Estilhaço do Destino

Quando a coruja riscou o céu noturno e colidiu contra a vidraça, o som pareceu o de um tiro no silêncio do quarto. Hermione sentiu as pernas bambearem antes mesmo de tocar o pergaminho. O estômago revirou violentamente, e uma descarga de adrenalina — gélida e paralisante — disparou por seu sangue. A mensagem de Theodore Nott era uma cicatriz no papel: curta, direta e brutal, a letra borrada pelo nervosismo de quem a escrevera.

Draco. Inconsciente. St. Mungus. Traumatismo craniano.

Ela sabia que ele estava enferrujado. Sabia que a vida como Medibruxo e Curandeiro havia substituído a agilidade dos campos de Quadribol pela precisão cirúrgica e pelos turnos exaustivos. Draco tornara-se um homem devoto ao lar, um herdeiro que preferia o calor da lareira e as raras folgas com os amigos mais íntimos ao brilho das festas da aristocracia. Céus, ele trabalhava tanto! Ele só queria uma última partida, um último sopro de adrenalina antes da viagem para a Austrália. Na pior das hipóteses, Hermione imaginara um resfriado, um atraso na Chave de Portal ou ele adormecendo sobre um prontuário. Um acidente grave, uma colisão capaz de apagar sua consciência, jamais fora uma variável em sua equação de felicidade.

Aquele Draco, o homem que ela amava, era o triunfo de uma redenção improvável. Ele era a antítese do rapaz de dez anos atrás, que carregava o ódio como uma armadura e o coração estraçalhado pelos destroços de uma guerra perdida.

Hermione irrompeu pelo saguão do St. Mungus como um furacão de desespero. As cinzas de Pó de Flu ainda grudavam em suas vestes, mas ela nem sequer se lembrou de que estava de camisola de seda, com creme nos cabelos e chinelos de quarto. O casaco jogado por cima era sua única proteção contra o mundo.

Madame Marcy, atrás do balcão da recepção, nem esperou o pedido de informação. O olhar de pena da senhora foi como uma adaga.

— Sra. Malfoy! O Dr. Malfoy chegou há uma hora. Segue inconsciente. — A voz da recepcionista parecia vir de debaixo d'água. — Sofreu um acidente jogando Quadribol. A mãe dele já foi avisada. Ele está no segundo andar, quarto 10, ao lado da própria sala de atendimento dele.

Hermione mal ouviu o final da frase. Ela disparou pelo corredor, o som de seus chinelos batendo no mármore ecoando como o tic-tac de um relógio que ameaçava parar. O coração parecia querer saltar do peito e chegar ao quarto antes dela, enquanto o cheiro de antisséptico e magia medicinal a sufocava, transformando cada passo em uma eternidade de medo puro.

Foi o cheiro, aquele odor específico de produtos de limpeza mágica misturados com éter e ervas medicinais, que trouxe os corredores de Hogwarts. Não as salas de aula nem o Grande Salão, mas os corredores da Monitoria Chefe, onde ela e Draco haviam convivido durante aquele ano final e impossível. A convivência forçada revelara o segredo mais bem guardado da Sonserina: Draco Malfoy devorava os mesmos livros que ela e possuía uma sede de aprendizado que rivalizava com a sua. Ria às escondidas dos casais enfiados em armários de vassouras. Tinha pavor genuíno de que os amigos descobrissem sua obsessão por romances de jornal para senhoras de meia-idade. Era uma figura contraditória — confuso e retraído, mas mantendo aquela arrogância magnética de quem nasceu para mandar. Para Hermione, ele era a maior de todas as tentações: o mistério absoluto. Como não se apaixonar por um homem assim?

Ele aceitara as humilhações do pós-guerra como uma penitência necessária, mantendo o queixo erguido enquanto reconstruía o nome Malfoy do zero. Lucius, no dia em que soube que o filho escolhera uma nascida-trouxa, dissera com uma curiosidade gélida: "Draco está cometendo o erro de sua vida, ou está desbravando o único caminho que vale a pena. Estou ansioso para ver quem ele se tornará."

A risada de Draco, rara e melodiosa como música proibida, tornara-se o vício de Hermione. Antes que ela se desse conta, as Cervejas Amanteigadas em Hogsmeade transformaram-se em seis anos de um casamento que parecia um sonho inabalável.

A memória dissolveu-se no momento em que ela cruzou o limiar do quarto.

Ao entrar, Hermione sentiu o oxigênio ser arrancado de seus pulmões. Seus piores medos, aqueles que ela enterrava sob camadas de lógica e eficiência, materializaram-se diante dela em tons de roxo e escarlate. O coração se contraiu em uma dor física, quase insuportável, ao ver o rosto de Draco — geralmente tão esculpido e aristocrático — inchado, cortado e irreconhecível sob a luz fria das luminárias mágicas. O platinado impecável de seus cabelos estava empastado, encharcado por um sangue escuro que parecia zombar da vida que eles planejavam para o dia seguinte.

À porta, a voz de Narcisa Malfoy flutuou, mas Hermione não conseguiu se virar. A covardia, um sentimento estranho à sua natureza Grifinória, a dominou. Como poderia encarar Narcisa? Como olharia nos olhos da mulher que, seis anos atrás, confiara a ela o seu bem mais precioso? Hermione ainda conseguia sentir o peso da promessa que fizera no dia do casamento: ela jurara que cuidaria de Draco, que seria o seu porto seguro. E agora, ali estava ele, inerte e quebrado por algo tão tosco e trivial quanto uma partida de Quadribol. A culpa era um veneno correndo em suas veias.

— ... Draco é forte, Sra. Malfoy. Ele vai acordar antes que a senhora sinta falta dele — o Dr. Arthur Rosier entrou no quarto, sua voz tentando infundir um otimismo clínico no ambiente pesado. — Vemos pancadas assim o tempo todo em batedores. Logo ele estará bem o suficiente para que a senhora possa lhe dar o sermão que ele merece.

Rosier tentou um sorriso leve, mas Narcisa não reagiu. Ela era uma estátua de gelo e mágoa, os olhos fixos na figura imóvel sobre a maca.

— Ele pode ficar com alguma sequela? — A pergunta de Narcisa foi um fio de seda: fina, delicada, mas carregada de uma emoção violentamente controlada.

— É sempre uma possibilidade em traumas cranianos, mas a chance é pequena — respondeu Rosier, sua cautela profissional agindo como um balde de água fria. Ele encostou a porta, o clique do trinco ecoando no silêncio, e finalmente notou Hermione encolhida no sofá, as mãos trêmulas escondidas nas dobras do casaco. — Oi, Mione. Que bom que você está aqui.

Ele se aproximou, a voz baixando para um tom de confidência entre colegas.

— Fizemos tudo o que era possível. Consertamos a fratura no crânio e selamos as hemorragias principais. Não houve danos aos órgãos internos, e o braço quebrado já foi restaurado. Minha única preocupação agora é o osso temporal; ele foi reduzido a estilhaços. É por isso que você ainda vê esse sangue, mas as poções regenerativas estão em fluxo máximo. Acredito que em quarenta e oito horas ele estará cem por cento de volta para você.

Hermione apenas assentiu, incapaz de articular uma única palavra. Sua garganta parecia obstruída por vidro moído. Ela sentiu o sofá afundar e, em seguida, o toque familiar e elegante do braço de Narcisa ao redor de seus ombros.

— Tudo ficará bem, minha querida — a voz da sogra sussurrou, uma promessa que era tanto para Hermione quanto para si mesma.

Ali, as duas mulheres — a nascida-trouxa e a aristocrata de sangue puro — tornaram-se uma única entidade de dor e espera. Em outra época, Narcisa jamais estaria ali; jamais tocaria na pele de Hermione sem sentir o peso de séculos de preconceito. Druella Rosier, sua mãe, estaria se revirando no túmulo. Mas o amor é o maior dos niveladores. Dez anos atrás, Narcisa fizera uma escolha definitiva: manter os velhos hábitos e perder o filho, ou abraçar o novo mundo para mantê-lo vivo. A escolha fora fácil. Narcisa faria qualquer coisa por Draco, inclusive amar a mulher que ele escolhera.

As horas rastejaram, pesadas e sufocantes, e Draco não dava sinal de retorno.

O tic-tac do relógio na parede parecia marcar o ritmo da agitação crescente de Hermione. Seus pés não paravam, sua mente girava em cenários catastróficos. Narcisa, observando o desmoronamento silencioso da nora, suspirou com uma compaixão profunda.

— Por que você não vai para casa, Hermione? — sugeriu ela suavemente. — Separe as coisas dele, tome um banho, respire um pouco de ar que não tenha cheiro de hospital e volte para cá. Ele vai precisar de você inteira quando acordar.

Hermione quis protestar, mas a exaustão venceu sua resistência. Ela estava nervosa demais para ser útil. Respirando fundo, guardou sua ansiedade em um canto escuro da mente e partiu. A volta para casa foi como uma caminhada para a forca. A alegria vibrante que costumava preencher o apartamento parecia ter escorrido pelos dedos. Ela entrou e saiu em menos de cinco minutos — um furacão de desespero, pegando roupas e objetos pessoais sem sequer olhar para as fotos deles nas paredes, com medo de que as imagens felizes a quebrassem por completo.

Três dias haviam se arrastado como séculos sob a luz estéril e amarelada do St. Mungus. Draco era pouco mais que uma estátua de marfim, imóvel e pálido, cuja existência era confirmada apenas pelo ressonar baixo e rítmico de sua respiração — um som frágil que mantinha a sanidade de Hermione por um fio.

As duas mulheres habitavam aquele quarto como fantasmas. Hermione era o retrato da devastação: os cachos, antes vibrantes, estavam emaranhados e sem vida; suas roupas, as mesmas de dias atrás, estavam amarrotadas pelo sono inquieto na poltrona de couro rígido. Ela era um caco de si mesma, mantida de pé apenas pela teimosia. Narcisa, embora exibisse olheiras que nem o melhor feitiço de beleza poderia ocultar totalmente, permanecia impecável. Para a matriarca Malfoy, estar menos que magnífica não era apenas uma falha de etiqueta; era uma rendição ao caos, e Narcisa Malfoy não se rendia.

Enquanto observava a nora, Narcisa perdeu-se em reflexões ácidas sobre o passado. Era quase irônico recordar que, anos antes, ela chegara a pensar que preferia romper com o filho a aceitar aquela "mancha" na linhagem. Acreditara, com a convicção cega dos fanáticos, que jamais suportaria a presença daquela jovem em seu mundo. Quão errada o destino a provara ser.

O vínculo entre as duas não fora forjado em flores, mas em fogo e ruína. Narcisa aprendera a confiar em Hermione quando o mundo ruiu: quando Lucius foi condenado ao frio de Azkaban e o Ministério confiscou cada grama de ouro e cada centímetro de seda da Mansão naquele inverno de 1999. Por Morgana, levaram até suas roupas íntimas! A mulher que fora a joia da aristocracia bruxa, a senhora da casa mais mágica da Grã-Bretanha, vira-se despida de tudo, exceto da dignidade. Durante o inverno de sua alma, Narcisa chegara a pensar que Draco fora enfeitiçado, pois como ele poderia amar alguém tão... diferente? Mas o tempo revelara a verdade: até ela, em sua solidão gelada, passara a ansiar pela presença de Hermione. A garota era culta, calma e, acima de tudo, possuía uma honestidade que o mundo de máscaras de Narcisa nunca conhecera.

— Hum... — Um som gutural, quase um lamento, partiu da cama.

O tempo parou. Draco se mexeu, os músculos protestando sob os lençóis de linho. As duas mulheres avançaram como se fossem puxadas por um único fio invisível. Ele piscou, as pálpebras pesadas lutando contra a claridade mágica do quarto.

— Oi, Draco... como se sente? — A voz de Hermione era um sussurro trêmulo, carregado de uma esperança devota.

Narcisa, com a elegância que lhe era nata, sentou-se à borda da cama, os dedos finos e pálidos acariciando os cabelos platinados do filho. Draco parecia desnorteado; seus olhos cinzentos vagavam pelo teto, sem foco, como se estivesse tentando decifrar um idioma esquecido.

— Água... — A voz dele saiu arranhada, seca como pergaminho antigo. Ele esticou os dedos, testando a dormência que se espalhava pelos braços, o movimento lento e descoordenado.

— Vou buscar! E vou chamar o Arthur, ele não vai acreditar! — O êxtase de Hermione era quase palpável; ela irradiava uma luz que preenchia o quarto. Ela estava tão embriagada pelo alívio que não notou a névoa de estranheza que nublava o rosto do marido. Ela não viu o vazio em seu olhar.

Hermione saiu tagarelando do quarto, os pés quase flutuando, a mente já planejando o jantar de boas-vindas e as férias atrasadas, sem perceber que, atrás daquela porta fechada, o homem que ela amava era a imagem viva da confusão.

Draco tentou se sentar, mas o mundo inclinou-se violentamente para a esquerda. Seus movimentos eram lentos, coreografados por uma tontura nauseante que fazia seu cérebro latejar contra as paredes do crânio. Ele não tinha a menor ideia de como havia parado naquela cama de lençóis estéreis. Antes que pudesse forçar as cordas vocais a funcionar, a voz de sua mãe, tingida de uma doçura que ele estranhou, preencheu o vácuo:

— Você caiu da vassoura enquanto jogava Quadribol, Draco. Fraturou o crânio e o braço. Mas respire... está tudo bem agora. Estamos no St. Mungus.

Draco Malfoy sentiu-se subitamente ultrajado. A bata de algodão áspero do hospital era curta e fina, e o vento que circulava pelo quarto trazia uma sensação de nudez humilhante às suas partes íntimas. Ele era um Malfoy; a vulnerabilidade física era uma ofensa ao seu sobrenome.

— Banheiro... — murmurou.

Ele tentou se levantar sozinho, mas seus músculos pareciam feitos de névoa. Narcisa avançou para impedi-lo, mas ele a repeliu com um gesto brusco. Havia uma teimosia ali, uma mistura de cabeça-dura e orgulho puro que nem o trauma conseguira apagar. A caminhada de apenas cinco passos teve a exaustão de uma maratona olímpica; suas pernas tremiam como gelatina, ameaçando colapsar a cada centímetro.

Quando finalmente alcançou o banheiro, Draco não se importou com a etiqueta. A sede era um incêndio em sua garganta. Ele abriu a torneira e bebeu a água corrente direto da pia, sentindo o metal frio contra os lábios. Recuperando o fôlego, ele se apoiou na porcelana e, finalmente, ergueu os olhos para o espelho.

Um grito ficou preso em sua garganta.

Ele não reconheceu o homem que o encarava de volta. O reflexo devolvia a imagem de um estranho maduro: o rosto tinha linhas mais profundas, emoldurado por uma barba cheia, loira e espessa que ele nunca deixaria crescer. O cabelo platinado, antes curto e impecável, agora caía em ondas desgrenhadas até os ombros. Ao girar levemente, ele viu — através da abertura da bata — uma forma preta e sinuosa que descia por sua omoplata e desaparecia pelas costas.

— Que merda é essa...? — Sua voz saiu um sussurro de horror. Ele tentou apalpar o desenho, sentindo a textura da pele tatuada.

Narcisa, observando-o da porta, balançou a cabeça com um sorriso nostálgico. — Eu fiz exatamente a mesma pergunta quando você apareceu em casa com esse Dragão das Ilhas tatuado nas costas, Draco. Você me disse, com aquele seu ar de superioridade, que eu era de outra geração e que tatuagens eram a nova moda. Até brincou dizendo que a culpa era minha por ter escolhido esse nome para você.

Ela o ajudou a se acomodar na cadeira de apoio para o banho; ele parecia um castelo de cartas prestes a desmoronar.

— Onde... onde está o papai? — Draco perguntou, a voz vacilante, sentindo como se tivesse três quilos de areia movediça dentro da cabeça. Concluir uma frase era um esforço hercúleo. — Por quanto tempo... eu dormi?

Narcisa estacou, os olhos azuis nublados por uma confusão súbita. Lucius estava preso há mais de dez anos; como Draco poderia perguntar por ele daquela forma, como se esperasse vê-lo entrar pela porta a qualquer momento? Ele visitava o pai no cárcere com certa frequência.

— Você ficou fora do ar por três dias, filho. Eu acho melhor você voltar a deitar...

Ela começou a empurrar a cadeira para o quarto, mas, naquele instante, a manga da bata de Draco escorregou. O mundo parou. A Marca Negra. O crânio e a serpente, o símbolo de sua escravidão e do terror, saltaram aos seus olhos com uma vivacidade cruel. Em um espasmo de desespero e nojo, ele arrancou uma toalha do suporte e a jogou sobre o próprio braço, escondendo a mácula como se fosse uma ferida aberta e infectada.

— O que houve, filho? Está tudo bem... — Narcisa tentou acalmá-lo, mas Draco estava em queda livre.

Ele sentia-se atordoado, exposto e profundamente confuso. As peças do quebra-cabeça não se encaixavam. De repente, a voz de Lucius ecoou em sua mente, um ensinamento de infância que ele usava como âncora: "Só abra a boca depois de pensar exatamente no que vai falar".

Draco cerrou os punhos sob a toalha.

— ... Aqui, Arthur! Eu disse que ele estava bem! — A voz de Hermione irrompeu no quarto, vibrante, transbordando um alívio que parecia iluminar as paredes estéreis. Ela entrou quase saltando, os olhos brilhando ao apontar para o marido que, com movimentos desajeitados, tentava se acomodar novamente nos lençóis.

Arthur Rosier aproximou-se com um sorriso profissional e tranquilo, as mãos firmes ajudando Draco a subir na cama enquanto tirava a varinha. O zumbido da magia diagnóstica começou a preencher o ar.

— Até que enfim, cara! Achei que teria de trazer aquela minha meia do fundo do armário para te acordar — Arthur brincou, tentando dissipar a tensão enquanto apalpava com firmeza a cabeça, o abdômen e o braço de Draco. — Pensei que sentiria saudades nas suas férias, mas pelo visto você me ama demais para ficar longe deste hospital.

Draco não respondeu. Ele estava rígido, os olhos cinzentos faiscando com uma desconfiança selvagem.

— Amor, você lembra do que aconteceu? — Hermione aproximou-se, a voz suave como uma carícia, estendendo-lhe um copo de água.

Draco a olhou. Realmente a olhou. Seus olhos percorreram o cabelo castanho preso em um coque caótico, as olheiras profundas que emolduravam olhos cor de chocolate exaustos, o corpo magro sob roupas amarrotadas. Houve um silêncio de chumbo. Levou quase um minuto de análise gélida para que as engrenagens de sua mente encontrassem uma única peça que fizesse sentido naquela aberração de realidade.

— Granger? — O nome saiu como um cuspe, carregado de um veneno que não era ouvido há anos. — O que caralho você está fazendo aqui?

Ele começou a se agitar, uma força bruta e anormal surgindo de seus músculos debilitados. Hermione, em um instinto de puro afeto, tentou tocar seus braços, tentando ancorá-lo.

— Não me toque! SAI DAQUI, AGORA! — Draco rugiu.

Ele tentou saltar da cama, pegando todos de surpresa com uma agressividade predatória. Hermione estacou, o corpo paralisado por um choque que parecia ter transformado seu sangue em gelo. O que estava acontecendo? Onde estava o homem que sussurrava promessas em seu ouvido? Onde estava o marido que nunca, nem uma única vez em seis anos, levantara a voz para ela?

— O que foi, Draco? Você precisa de mais alguma coisa? Eu estou aqui... eu posso te abraçar, amor... — Ela tentou dar um passo à frente, a voz embargada, uma súplica desesperada por normalidade.

— SUMA DAQUI, PORRA! — Draco gritava, o rosto vermelho de fúria e puro terror. — SAIA DE PERTO DE MIM!

Hermione sentiu o peito arder. Todas as lágrimas que ela reprimira durante os três dias de vigília começaram a transbordar, queimando sua pele. O próprio marido a olhava como se ela fosse uma doença. O que ela fez de errado?

— Draco, pelo amor de Merlin, você ficou maluco? — Arthur interveio, usando o próprio peso para empurrar o loiro de volta contra o colchão. — É com a sua mulher que você está falando assim!

— ME SOLTA, SEU MERDA! EU NÃO SEI QUEM É VOCÊ! — Draco berrou, debatendo-se como um animal enjaulado. Ele desviou o olhar para Narcisa, uma súplica desesperada e infantil cruzando seu rosto maduro. — Mãe! Chame o meu pai! Agora! Mande o papai vir aqui tirar essa gente de cima de mim! Quero ir embora desse lugar.

O quarto mergulhou em um silêncio sepulcral.

— Filho... — A voz de Narcisa foi um sussurro de agonia, o som de um coração se partindo em tempo real. — Seu pai não virá. Seu pai não sai de Azkaban há mais de dez anos.

Draco parou de lutar. Ele olhou para a mãe como se ela estivesse falando uma língua estranha, uma loucura desprovida de sentido. A realidade estava se fragmentando. Em um gesto frenético, ele agarrou um exemplar do Profeta Diário que jazia na mesa de cabeceira. Ele precisava de uma âncora. Ele se lembrava de dezembro de 1998. O julgamento das pessoas, o frio de Hogwarts, o peso da derrota... era ali que ele morava.

Mas a data impressa no jornal, em letras pretas, nítidas e impiedosas, dizia: 20 de Abril de 2009.

O ar sumiu de seus pulmões. O que havia acontecido? Quase onze anos. Mais de uma década de sua vida havia sido arrancada, deixando em seu lugar apenas o eco de gritos e a visão de uma mulher que ele devia odiar, mas que o olhava com o coração nas mãos.

Draco Malfoy não estava apenas ferido; ele estava perdido no tempo, um estranho habitando o corpo de um homem que ele não conhecia.


Notas finais
E... choque de realidade! 💔 Confesso que meu coração ficou na mão escrevendo esse surto do Draco. Para quem esperava um reencontro meloso, o "Granger" saindo como veneno foi um balde de água fria, não é? Como este é o início da nossa jornada, eu adoraria saber o que vocês estão achando da dinâmica entre a Narcisa e a Hermione. Eu sempre imaginei que a dor pelo Draco seria o único ponto capaz de unir essas duas de forma tão profunda. O que vocês acham que vai acontecer agora? Será que o Draco de 1998 vai conseguir lidar com o mundo de 2009? Se você gostou do capítulo, deixe um comentário! O feedback de vocês é o que me motiva a postar o próximo capítulo mais rápido. Beijos e até a próxima!