Quinze Semanas
5 Capítulo 5 - Blaise Zabini
Notas iniciais
Capítulo 5
Hermione se sentou na cama, cansada apesar de ter dormido. O sono havia sido inquieto, cheio de acordadas bruscas e silêncios pesados que o apartamento não costumava ter. Não que Draco imaginasse, mas ela dormia particularmente mal sem ele — e estava arrasada com a falta do marido. Geralmente, quando Draco estava de plantão, ela lia, revisava casos, estudava sobre os julgamentos do dia seguinte. Muitas vezes aproveitava para fazer exercícios, visitar os amigos ou os pais; ela também se oferecia como babá para os Potter com frequência, e o pobre Albus ouvia histórias e mais histórias: contos de fadas, canções de ninar, jurisprudências de casos que haviam tramitado pela Suprema Corte na semana.
Ela sempre soubera que Draco estaria de volta pela manhã, então, por mais difícil que fosse, ela conseguia dormir. Mas dessa vez era diferente. Ele havia se recusado a ficar na casa que construíram juntos, e havia sido doloroso sustentar o olhar de rejeição nos olhos cinzentos quando ele virou as costas para tudo que um dia os dois haviam erguido. Por todos os deuses, tudo que ela queria era um abraço.
Era cedo demais para ir ao trabalho, mas tarde demais para tentar dormir de novo sem perder o horário. Ela se levantou e foi até a cozinha. Bolota se aproximou miando — um som insistente e acusatório, como era de seu feitio.
— Bom dia, Bolota. — Hermione pegou o gato no colo e fez carinho entre as orelhas. — Vamos tomar café?
Ela colocou a ração para o gato branco e gordo e abriu o armário pensando no que poderia comer. No geral, Draco fazia as compras do café da manhã para os dois, e no momento só havia o chá preferido dele na prateleira — uma caixinha azul com folhas de bergamota que ela reconhecia sem sequer precisar ler o rótulo. Será que se ele tomasse o chá, ainda lembraria que gostava? Ela tentou não pensar nisso e decidiu tomar café na lanchonete do Ministério.
Sim. Ela voltaria ao trabalho mesmo estando de férias. Sentia que, se ficasse no apartamento por mais tempo, acabaria enlouquecendo.
O apartamento era um duplex — uma cobertura no coração de Londres, todo pintado em cores claras e com conceito aberto, obra de design feita por Daphne Nott, com uma varanda que circundava todo o primeiro andar. Hermione e Draco passaram meses decorando cada cômodo, cada cor, tecido, cortina e obra de arte foi debatida exaustivamente até que um dos dois cedesse. A única coisa em que concordavam de imediato: dois escritórios e um laboratório de poções. Isso era inegociável. Hermione não confiava em poções de outras pessoas, e Draco preferia preparar ele mesmo alguns remédios dos seus pacientes. E dois escritórios eram essenciais para evitar brigas — Hermione achava Draco desorganizado, e Draco achava Hermione pouco prática.
Talvez a parte que Hermione mais amasse na casa fosse a biblioteca. Magicamente modificada com um feitiço indetectável de extensão e interligada com a Mansão Malfoy, ela abrigava centenas de livros trouxas e bruxos sobre os mais variados temas. Se ela quisesse algo que não tivesse ali, bastava usar o Pó de Flu — as lareiras das bibliotecas estavam conectadas. Às vezes ela ficava por lá até tarde, folheando os livros de medicina do marido, a voz dele ressoando imaginária em sua cabeça conforme lia.
Decidida a fazer algo útil, Hermione tomou um longo banho quente e arrumou o cabelo, esticando-o num alto rabo de cavalo. Abriu o closet e pegou seu melhor conjunto burocrata: capa e vestido de manga longa azul royal, pois como diria Narcisa Malfoy, 'Para trabalhar no Ministério não basta ser competente — você precisa parecer competente.' Isso incluía, muitas vezes, usar maquiagem pesada às oito da manhã de uma segunda-feira. Não que Hermione ligasse muito, mas Blaise e Narcisa eram cirúrgicos quanto a vestuário, e ela havia aprendido, com alguma resistência, a ceder nesse ponto.
Na verdade, ela reparou que já fazia alguns meses que não comprava roupas por conta própria. Narcisa mantinha o closet dela abastecido das mais variadas vestes, na maior parte do tempo acertando o gosto pessoal de Hermione com uma precisão desconcertante. Porém, sempre que aparecia algo ousado demais, colorido demais ou geometricamente improvável, Hermione sabia que Blaise havia interferido — o estilo dele era muito mais inovador que o da sogra, e havia um prazer evidente nessa subversão. Mas só de pensar em passar pelo Beco Diagonal e trombar com fotógrafos ou intrometidos lhe dava calafrios. Que Narcisa e Blás continuassem usando-a de modelo vivo. Sem problemas.
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Hermione entrou no Ministério pelas lareiras, esgueirando-se com a cabeça baixa e passos rápidos, dando acenos curtos para os que a cumprimentavam. Estava quase alcançando um elevador vazio quando uma voz anasalada a interrompeu:
— Senhora Malfoy? Senhora Malfoy! — O rapaz gritou de longe. — Lady Malfoy, preciso falar com a senhora!
Toda tentativa de passar despercebida escorreu pelo ralo. Hermione girou nos saltos altos e pôs seu sorriso mais polido nos lábios. Vários funcionários já encaravam o guarda cruzando o átrio em sua direção.
— Sua pesagem anual de varinhas está vencida. Não posso deixar a senhora entrar no Ministério. — O jovem tinha o rosto cheio de espinhas e um tom autoritário que claramente havia praticado no espelho. — Por favor, me acompanhe.
Hermione suspirou e olhou o relógio no pulso. Se chegasse dez minutos antes ao tribunal da Suprema Corte, conseguiria pegar a primeira sessão do dia e ninguém notaria que ela estava ali. Se entrasse atrasada, seria outra história.
— Isso é realmente necessário? — Ela perguntou com educação. — Tenho quase certeza que minha varinha está válida até o fim do mês.
— Mudança de regras, Milady. — O guarda respondeu, dando de ombros. Começou a andar até um canto do átrio; Hermione o seguiu. — Sua varinha, por gentileza.
Hermione suspirou e pousou a varinha sobre o instrumento de medição, observando seus detalhes — a cor avermelhada do cabo, o entalhe de pequenas runas na bainha. Não demorou para que o equipamento cuspisse uma tira de pergaminho.
— Hermione Jean Malfoy, madeira de carvalho, corda de coração de dragão. Vinte e seis centímetros. Em uso há cinco anos e sete meses, correto? — O rapaz perguntou, e Hermione assentiu, impaciente. — Último feitiço, há dez minutos. Consolatium.
Ele olhou para Hermione com uma expressão de puro choque. Ela apontou para os sapatos — um modelo de bico fino na mesma cor da roupa, com um salto que intimidaria a maioria das pessoas.
— Os saltos são muito altos. O feitiço ajuda a doer menos.
— O Consolatium é um feitiço de conforto — você pode usá-lo para amaciar sapatos, aliviar o peso de uma bolsa ou ajustar um travesseiro sem acordar ninguém. — Ela disse com brevidade, tentando não rir quando entendeu a expressão petrificada do rapaz. — Estou liberada?
O jovem, vermelho como um pimentão, assentiu freneticamente. Hermione saiu a passos apressados e entrou no elevador antes de deixar o riso escapar. O guarda espinhento havia confundido seu feitiço de conforto com o Cumsolatio — o feitiço da masturbação.
Pelo menos havia algo para rir naquele dia de merda.
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— Você não estava de férias? — Susan Bones sussurrou quando Hermione se sentou ao seu lado.
Ela havia chegado alguns minutos atrasada, pois precisou passar em sua sala para pegar as vestes cor de ameixa da Suprema Corte. Mas os membros seniores ainda conversavam entre si, de modo que ela não chamou tanta atenção quanto imaginou.
— É uma longa história. — Ela cochichou de volta. — Você tem algo para comer aí? Não consegui passar na lanchonete, me pararam na entrada.
— Aqui... — Susan tirou um pacotinho de bolachas de arroz e Hermione murchou. — Desculpe, estou de dieta para o casamento.
— Serve, obrigada. — Hermione enfiou duas bolachas na boca no exato momento em que o presidente da sessão começou a falar.
— Daremos início à sessão 52.299 do Ministério da Magia, cidade de Londres, dia 29 de abril de 2009 — Percy Weasley começou, a voz amplificada magicamente. — Presidida por mim, Percy Weasley, Vice-Presidente da Suprema Corte dos Bruxos.
Hermione murchou ainda mais. As sessões de Percy eram maçantes — não porque ele fosse um mau vice-presidente, mas porque ele tendia a ser verborrágico, gastando todo o seu vocabulário para parecer mais importante e inteligente do que os fatos requeriam. O resultado invariável era parecer mais arrogante.
— O réu, senhor John Peters, é acusado de roubo e desvio de dinheiro dos cofres do Banco...
Susan estava compenetrada; como escrivã do Ministério, registrava tudo com a varinha em posição precisa. Hermione se voltou para o comportamento do sr. Peters e folheou o processo, caçando erros e inconsistências com a concentração de quem havia aprendido que o diabo mora nos detalhes.
A bancada onde Hermione estava ficava no meio do grande salão, com seis cadeiras. A ordem habitual era: ela na ponta, como Primeira Secretária; Susan como escrivã; o Presidente da Suprema Corte; seu vice; o representante de acusação; e na outra ponta, o Chefe do DELM. Entretanto, naquele dia a bancada estava incompleta, com apenas quatro membros.
Hermione tinha duas atribuições no Ministério — uma por mérito, outra por herança. Bem, talvez 'herança' não fosse a palavra mais precisa, já que a herança era de Draco e ele a havia abdicado em favor dela: uma cadeira permanente ligada à família Malfoy na Suprema Corte dos Bruxos.
Por méritos próprios, Hermione era a Primeira Secretária do Departamento de Execução das Leis da Magia — o DELM. Havia concluído duas faculdades e estava terminando a especialização em Direito Público Mágico. Durante quatro anos, fora chefe do Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas na divisão de Seres, mas sempre que podiam, tentavam reduzi-la à amiga de alguém, ou esposa de alguém, diminuindo sua competência ou apagando sua participação nas conquistas da libertação dos elfos, do acolhimento dos lobisomens e da renegociação dos acordos de paz com duendes e centauros.
Não basta ser competente. É necessário parecer competente.
E por isso ela se lançou às anotações da defesa do sr. Peters com ainda mais convicção, determinada a encontrar todos os furos possíveis antes que alguém tentasse usá-los.
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— Pedi para Topsy arrumar seu antigo quarto. Acredito que você se sentirá mais confortável... — Narcisa disse com cuidado enquanto jantavam.
Os dois haviam comido em silêncio e não tocaram no incidente do dia anterior. Hermione não havia ido até a Mansão Malfoy, e Draco agradeceu internamente por isso.
(Na verdade, ela foi — e ele só soubera dias depois. Uma Hermione aos prantos queria convencê-lo a voltar para casa, mas Narcisa não permitira. Aquela fora a primeira briga entre as duas, e terminou com Narcisa acalmando a nora num canto do corredor.)
Draco havia passado o dia anterior dormindo ou gemendo, a cabeça latejando demais para que ele abrisse os olhos por mais de alguns minutos seguidos. As coisas só melhoraram quando Arthur Rosier o visitou na hora do almoço e deixou um enorme frasco de analgésico, com recomendações expressas sobre os horários corretos. Quando melhorou o suficiente, encontrou a mãe na sala de jantar, comendo sozinha diante de uma janela que não deixava entrar muito sol.
— Obrigado. — Draco respondeu à oferta do quarto.
— Nunca imaginei que voltaria a usar aquele quarto — Narcisa falou como se estivesse pensando em voz alta. — Já estava pensando na decoração para os meus netos.
Draco engoliu, desconfortável.
— Lamento o incômodo, mamãe.
— Não é incômodo nenhum, querido — Narcisa sorriu com genuína suavidade. — Fico feliz que queira ficar um pouco aqui. Essa casa é grande demais para mim.
— Eu posso imaginar... — Ele respondeu sem graça. — Eu não costumo vir com frequência?
— Ah, você vem às vezes. Mas nós dois costumamos almoçar fora, pelo menos quatro ou cinco vezes por mês. Às vezes você me leva ao Morgana's. — Narcisa comentou por cima da taça. — Geralmente Hermione e eu jantamos juntas nos sábados que você está de plantão.
Ele engoliu em seco, ficando em silêncio por alguns minutos. Sentia o olhar da mãe sobre ele como um peso suave, enquanto mantinha os olhos baixos brincando com a comida no prato.
— Você não pode ficar assim toda vez que a vê, ou toda vez que falamos dela, Draco. — Narcisa suspirou e depositou a taça na mesa com deliberação. — Até uma semana atrás, ela fazia parte da sua vida — mais até do que eu. Ela está arrasada. Anteontem, quando você ficou daquele jeito no apartamento de vocês, ela entrou em desespero e chorou compulsivamente; precisei de vários minutos para acalmá-la. Ela ficou naquele hospital em cada momento, sem dormir, sem comer direito, cuidando de você. Eu entendo seu receio, mas...
— Eu não a conheço, mãe. Não há motivo para pensar nela como alguém que me importa, porque para mim ela é um estranho. — Draco retrucou. — Lamento por não atender suas expectativas.
— Não são as minhas expectativas que você está frustrando. — Ela se remexeu na cadeira com firmeza. — São as suas. Você brigou com deuses e demônios por aquela bruxa, e agora não consegue sequer olhar nos olhos dela. Não tentou uma única vez, filho.
— Van Meer disse duas semanas... Devo me desculpar por ter sofrido um acidente? Pois saiba que não foi proposital. — Draco disse num tom levemente áspero.
— Veja bem como fala comigo! — Narcisa foi firme.
— Desculpe, mamãe. — Draco suspirou e abaixou a cabeça.
— Eu só... — Narcisa respirou fundo antes de continuar, como quem se prepara para cruzar uma ponte estreita. — Está sendo difícil para todos nós. Os primeiros dias foram terríveis; não sabíamos como você ia ficar. O acidente foi grave, Draco — você abriu um buraco no chão e outro na cabeça. Quando falei com Theo, ele tremia como uma folha no vento. Arthur não conseguia te acordar. O Dr. Fawley, o diretor do hospital em pessoa, testou diversos feitiços e poções e você sequer se mexia. Eu fiquei com medo de perder você, filho... Eu não aguentaria te perder. Perdi tantos ao longo da vida. Eu não sou tão forte quanto pareço.
Narcisa tremeu os ombros. As lágrimas escorreram sem pedir licença. Ela abaixou o rosto. Draco se levantou e foi até a mãe, ajoelhando-se ao lado da cadeira dela.
— Eu estou aqui, mãe. Sempre estarei. Shh... não fiquei assim, não chore... — Draco falou baixinho. Narcisa agarrou o filho pela roupa e o apertou com uma força que contradiz toda sua elegância habitual, chorando copiosamente. Eles ficaram assim por vários minutos, e mesmo quando os joelhos de Draco começaram a protestar ele não reclamou.
— Senti sua falta, filho. — Narcisa fungou delicadamente enquanto soltava o filho. — Não faça mais isso com a sua velha mãe.
— Não farei, mãe. Eu prometo.
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No dia seguinte, Draco foi acordado por alguém abrindo as janelas. A luz do sol o atingiu como um insulto pessoal.
— Vamos, Bela Adormecida. Acorde. — Blaise Zabini estava radiante, vestindo roupas de exercício na cor verde fluorescente que apenas ele teria coragem de usar. — Já são onze da manhã.
— Porra, Blás, fecha essa janela. — Draco usou um travesseiro para cobrir o rosto. — Está muito cedo.
— Jamais. — Ele riu, e com um aceno de varinha tirou as cobertas de cima de Draco. — Uhh, tatuagem nova? Ficou boa, hein, gostosão.
Draco estava com uma calça de moletom cinza, mas se sentiu nu diante do comentário. Havia ficado surpreso quando tomou banho pela primeira vez na Manor — seu eu de dezoito anos tinha pavor de tatuagens, já bastava a Marca Negra. Mas agora ele tinha mais tatuagens pelo corpo do que dedos nas mãos.
— Você sempre foi assim, Blás? — Draco respondeu, sentando-se e coçando os olhos.
— Não, Draquinho. Só com loiros tatuados. — Ele abriu um sorriso diabólico.
— Qual delas é a nova? — Draco estava genuinamente curioso.
— A bússola. — Blais apontou para a costela de Draco. — Eu lembrava do narciso na barriga. Mas da bússola não.
Draco tocou a tatuagem. A pele ao redor dela estava completamente cicatrizada.
— Deve fazer um tempo. — Ele deu de ombros e suspirou. — É só mais uma das coisas sobre mim que eu não sei.
— Bom, sobre você e seus segredos sórdidos, talvez eu saiba uma coisa ou outra. — Zabini disse com o mesmo sorriso sacana. — Mas sobre suas finanças, sei tudo. Agora vá tomar um banho e vista algo decente — vamos jogar Magigolfe e eu farei o relatório do mês. Enquanto isso, vou conversar com a Tia Cissa. Precisamos organizar um baile de primavera.
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Ser massacrado num esporte deveria ser uma atividade corriqueira na vida de Draco, pois Zabini simplesmente o humilhou: 240 pontos contra 103.
Magigolfe era uma merda.
Quem teve a ideia de colocar uma bolinha do tamanho de um Pomo para correr por um gramado com buracos invisíveis, tacos que amolecem na hora menos esperada, obstáculos que surgem do nada, castelinhos que cospem fogo e poças de lama de profundidade desconhecida? Que ardesse no inferno. Draco perdeu as contas de quantas bolinhas foram para o limbo.
— Ah, o doce sabor da vitória. — Zabini estava radiante enquanto entravam e se sentavam no restaurante. — Não fique triste, Draco. Da próxima eu trago Daphne — aí você vai ver o que é perder de lavada. Mas vale a pena; rende sempre as melhores risadas.
Draco assentiu mal-humorado. A cabeça doía um pouco, mas a limonada ajudava. O dia estava estranhamente quente para abril. Eles estavam num clube de campo, com piscinas, um gigantesco salão de baile, campos de Quadribol, a área de Magigolfe e uma sauna de qualidade muito duvidosa que Draco jurou nunca frequentar. Ao que tudo indicava, dez anos e uma guerra trouxeram alguns costumes trouxas para o mundo bruxo.
— Bom, vamos ao que interessa. — Blaise começou, pegando uma pasta de dentro da bolsa. — Seus emolumentos do mês.
— O que exatamente é isso? — Draco foi franco.
— Seu retorno dos investimentos e ações. — Blaise respondeu simplesmente.
— E por que você cuida disso?
— Bom... — Zabini se apoiou no encosto da cadeira. — Quando você tinha uns vinte e dois anos, seu pai foi condenado. Acho que sua mãe mencionou isso, correto?
— Sim. — Draco suspirou resignado. — Superficialmente.
— Tio Lucius foi condenado a quinze anos de prisão. — Foi a vez de Blaise suspirar. — E você se viu com uma herança que não queria e não sabia administrar. Você estava brigado com seu pai na época; ele também não fez questão de facilitar as coisas.
— Por quê? — Draco estava surpreso. Apesar de tudo, ele amava o pai.
— Hermione. — O moreno respondeu simplesmente.
Bom, isso era uma coisa que Draco conseguia entender. Lucius era um homem de regras próprias e, por mais tortas ou duvidosas que fossem, ele as seguia com fidelidade absoluta — mesmo que isso significasse brigar com o único herdeiro, ou marchar atrás de um maluco genocida.
— Entendo... — Draco respirou fundo. Brigar com o próprio pai por conta de uma mulher nunca era um bom sinal. E então ele se deu conta de algo. — Como você sabe administrar dinheiro?
— Enquanto você, Arthur e Theo brincavam de mochileiros, eu fui estudar, docinho. — Blaise levantou o dedo, chamando o garçom, e olhou para Draco. — O de sempre? Ah, esquece... Dois raviólis de cordeiro, por favor. E aquele vinho branco dos duendes que fica no fundo da dispensa, sim. Obrigado.
Draco observou o garçom se afastar.
— Sou Advogado, especializado em Administração de Empresas, Draco. — Blaise sorriu. — Mas ao invés de trabalhar preso na burocracia do Ministério, prefiro ficar com empresas privadas. Mais dinheiro, menos reuniões.
— Isso não explica por que deixei a fortuna da minha família na sua mão. — Ele acrescentou rapidamente. — Não que não confie em você, é claro.
— Relaxe, meu amigo. — Blaise riu. — Sou bom com dinheiro; sei em qual empresa investir. Só uni o útil ao agradável. Faço as mesmas aplicações que você. Se você perder, eu também perco.
— Compreendo. Então você é Advogado... — Draco assentiu, mexendo distraidamente no colar de ouro branco enquanto o garçom servia a mesa. — E Theo, o que ele faz da vida?
— Oficialmente? Theo é linguista e tradutor. Fala Gobbledegook, sereiano, lê runas perfeitamente, e fala mais meia dúzia de idiomas que ninguém mais entende. — Zabini respondeu entre uma garfada e outra. — Por Merlin, essa carne está divina.
— E extraoficialmente?
— Filantropo é um jeito bonito de chamar. Theo era o único herdeiro dos Nott e, depois que uma tia distante morreu, ficou ainda mais rico. Ele também ficou com toda a fortuna dos Greengrass como dote da Daphne.
Mesmo dentro das famílias bruxas mais tradicionais, dotes eram coisas antiquadas, em desuso há muito tempo — pagava-se dote quando a família da noiva era considerada indigna, ou carregava algum grave problema.
— Por que Theo ficou com o dinheiro todo? Astória também tem direito a um dote — os Greengrass não tiveram filhos homens. — Draco não se aguentou de curiosidade.
— Você não parou um segundo para pensar por que sua mulher é a Mimi e não Astória? Vocês tinham casamento arranjado há mais de uma década.
— 'Mimi'? — Draco franziu o cenho.
— Apelido. O dela. Ela odeia, mas acabou aceitando depois que eu usei por três anos seguidos. — Blaise deu de ombros. — Você costuma usá-lo quando acha que ninguém está ouvindo.
— Honestamente, não parei para pensar. — Draco deu de ombros e pegou outra garfada. Ficou ligeiramente incomodado com a intimidade de Blaise com Hermione. — O que aconteceu com Astória?
— Astória foi deserdada.
Draco quase cuspiu a comida.
— O quê? Como assim?
— Astória confessou ao pai que estava apaixonada por Pansy. Estávamos no último ano. O velho Greengrass surtou, tirou ela do testamento e morreu poucos meses depois. Astória e Pansy estão juntas desde então... Na verdade, elas terminam e reatam constantemente. Mas já estamos acostumados. — Blaise fez um gesto elegante de desdém. — Elas sempre voltam. É só não tomar partido de nenhuma das duas e tudo fica bem.
Draco estava em choque. Blaise comia alegremente, como se sua fala fosse tão simples quanto um mais um.
— Pelas barbas de Merlin... — Draco murmurou. — Por isso Pansy terminou comigo no sexto ano!
— Exato, docinho. Vocês dois jogam no mesmo time. — Blaise deu um tapinha na mão de Draco. — Enfim, vamos ao que interessa.
Blaise Zabini desatou a falar sobre os investimentos da família Malfoy. Discursava sobre taxas, ações, alíquotas e variações de mercado, alterando o gráfico com a ponta da varinha com a fluência de quem faz isso todas as semanas. Ele usava tantos termos, falava tão rápido e com tamanha empolgação que Draco simplesmente acenou e concordou com tudo, torcendo para que acabasse logo.
— ...O rendimento do trimestre passado foi menor, mas acho que se comportou melhor porque coloquei parte fora do país. — Zabini explicou. — O mercado trouxa desse mês reagiu bem, muito provavelmente ainda um reflexo da crise americana.
Draco acenou com veemência, como se tivesse entendido tudo.
— Você não entendeu nada, não é? — Blaise suspirou e depois riu.
— Não. — Draco retrucou, encabulado. Ele odiava não entender as coisas.
— Fique tranquilo, normalmente você não entende mesmo. — Blaise o tranquilizou com um prazer suspeito.
— Então para que isso tudo? Fiquei torrando no sol à toa? — Draco fez uma careta de indignação.
— Assim você fere os meus sentimentos! Passamos um ótimo tempo de qualidade juntos. — Zabini sorriu. — Mas eu trago os resultados em galeões para facilitar sua vida.
Com um toque de varinha, o gráfico mudou.
— Em resumo, perdemos 3.548 galeões num investimento que não deu certo e em algumas ações que caíram mais rápido do que eu previa. — Blaise falou, e Draco fez uma careta. Era muito dinheiro. — Mas investimos mais noventa mil libras na bolsa de valores, que dá mais ou menos dezoito mil galeões.
— Devo ficar feliz ou triste? — Draco sondou.
— Calma, Draquinho. Tirando custos e perdas, esse foi seu lucro do mês. — Blaise bateu a varinha no papel e um novo gráfico surgiu. — Oitenta e nove mil, oitocentos e setenta e dois galeões novinhos nos cofres da família Malfoy.
A boca de Draco caiu. Ele entendia pouco sobre sua nova vida adulta, mas sabia que a média de um salário no Ministério era de quinhentos a mil e duzentos galeões por mês. Quanto era rico, afinal?
— Porra. — Draco encostou na cadeira. — Isso é muito dinheiro.
— Vocês sempre foram ricos, Draco. — Blaise retrucou com aquela cara de 'é óbvio' que foi vagamente familiar.
— Mas eu não tinha noção do quanto. — Ele ainda estava impressionado.
— Ah, tem sim, meu amigo. Gosta de comidas caras, vinhos opulentos, relógios importados. E se pudesse, vestiria a esposa de diamantes. Só esqueceu disso por ora. — O sorriso brotou novamente. — Você é um homem de gostos caros.
— E qual é a sua porcentagem nisso? — Draco cerrou os olhos.
— Uma mixaria. Cinco por cento do lucro bruto.
Draco achou razoável. Razoável demais, para falar a verdade.
— Sinto que tem algo mais. — Draco estreitou os olhos.
— Ah, eu ajudo a Tia Cissa a organizar alguns eventos. Nada demais, e sua esposa me agradece profundamente por isso. Dou um palpite ou outro no guarda-roupa da Mimi. Ajudei a planejar seu casamento. — Ele completou num tom orgulhoso.
— Hum... — Draco balançou a cabeça desconfiado.
— É só isso. — Zabini bufou. — Você é um dos meus amigos mais antigos, seu babaca. Não me custa nada cuidar do seu dinheiro — faço as mesmas aplicações que você. Se você perder, eu perco junto. E você me deu liberdade para fazer o que quisesse, desde que não mexesse no dinheiro antigo. A fortuna dos Malfoy está intacta. Todo esse dinheiro que fazemos girar é só seu.
— Interessante. Então tenho um cofre pessoal? — A maioria das famílias bruxas tinha apenas um cofre; era mais fácil de gerenciar.
— Sim. Não me lembro do montante exato, mas beira onze milhões de galeões hoje. Hermione também tem o dela.
Draco assobiou.
— É um bom valor, mas não chega aos pés do cofre principal. Aquele sim garante financeiramente algumas gerações com segurança. — Blaise disse.
— A título de curiosidade... quanto temos no cofre principal? — Draco fingiu desinteresse enquanto bericava o vinho.
— Bom, você herdou a fortuna dos Lestrange também. São muitos números. Mas essa aqui é uma estimativa.
Blaise escreveu no papel um número com a ponta da varinha. Um número obscenamente alto — mais alto do que Draco havia sequer imaginado como possibilidade.
— Santo Merlin. Isso é sério, Blás?
— Isso é somente o que temos em espécie e joias guardadas no Gringotes, fora as peças de uso cotidiano de Mimi e Tia Cissa que ficam em casa. Não estou contando nenhum dos imóveis, relíquias mágicas, quadros, ações, artefatos ou a coleção de animais da sua mãe. Juntando tudo, acho que o valor sobe uns trinta por cento... — Blaise pareceu ponderar. — Quanto vale um unicórnio adulto? Sua mãe tem seis. Devem valer alguma coisa.
Draco ficou em silêncio por um momento, absorvendo o impacto.
— Algo mais que eu precise saber?
— Ah, tenho acesso a qualquer casa, qualquer propriedade da família Malfoy. Sou seu inventariante e você é o meu. — Blaise disse, dando de ombros. — Se acontecer algo — se você for preso ou morrer — cuido de tudo para o conforto das senhoras Malfoy.
— Acho que sou jovem demais para pensar em morrer. — Draco retrucou, irônico.
— Você fala isso porque não viu seu estado na semana passada. — Pela primeira vez em todo o dia, Blaise falou sem sorrir, e a mudança era suficiente para parar qualquer conversa. — Vi sua cabeça quebrada, Draco. Meu estômago embrulha só de lembrar. Por favor, vamos mudar de assunto.
Eles comeram as sobremesas em silêncio. Draco resolveu ir para o assunto que havia tirado seu sono na noite anterior.
— Fale sobre o meu casamento. Por que a Granger?
Blaise riu com vontade. Draco o olhou sério.
— Desculpe, mas é muito engraçado você falar assim. Parece que temos treze anos de novo.
— Fale logo... — Draco disse, irritado, e Blaise levantou uma sobrancelha. — Tudo bem, esquece. Descubro sozinho. Vou perguntar para Theo.
— Calma, bonitão... — Blaise suspirou. — Não disse que não responderia. O que quer saber?
Draco respirou fundo antes de falar, passando os dedos distraidamente pelo colar de ouro branco no pescoço — um hábito que, ao que parecia, seu corpo lembrava mesmo quando a cabeça não lembrava de nada.
— Por que a Granger?
— Porque você a ama. — Blaise disse simplesmente. — Você idolatra o chão que aquela bruxa pisa. Quando ela fala, você para de fazer tudo para ouvir.
— Corta essa. — Draco desprezou a ideia com um gesto de mão. — Eu quero a verdade, Blás. Eu perdi uma aposta? Ela me enfeitiçou? Fui obrigado?
— Se ela ouvir você falando isso, você vai acordar amanhã com um membro a menos. — Blaise deu de ombros. — Por mais difícil que seja de acreditar, você a ama de verdade. É um marido bastante devoto. Vocês são daquele tipo de casal meloso que completa as frases um do outro e fica falando sobre o parceiro quando está longe.
Draco fez uma careta involuntária. Ele era casado com Granger. E era feliz. As duas informações na mesma frase ainda causavam um curto-circuito.
— Sério?
— Não estou inventando nada. — Blaise levantou as mãos em defesa.
— É só que... — Draco passou a mão pelos cabelos; ao que tudo indicava, usava o cabelo penteado para o lado, pois suas mãos fizeram o gesto automaticamente ao sair do banho. — Parece tão diferente do que eu imaginei. Eu jurei que seguiria o caminho do meu pai. Meu sonho era trabalhar no Ministério...
— Mas você trabalhou. — Blaise serviu mais vinho. — Por quatro anos, assim que seu pai foi colocado em prisão domiciliar antes do julgamento, você assumiu o cargo dele. E odiou cada segundo — parecia que ia para a forca, e olha que só ia uma vez por semana.
— E por que não trabalho mais no Ministério? Eu entreguei a Cadeira na Suprema Corte? — Draco perguntou, horrorizado.
— Não! — Blaise riu. — A cadeira ainda está nas mãos dos Malfoy.
Por um instante, Draco suspirou aliviado.
— Então quem...
— Nossa amada Lady Hermione Malfoy controla aquela cadeira com punho de ferro. E, particularmente, acho que faz um trabalho magnífico.
— Por Merlin, essa mulher está em todos os lugares da minha vida. — Draco passou a mão no rosto.
— Pois saiba que você fez questão que ela estivesse. — Blaise usou um tom calmo, sem julgamento. — Ela é uma pessoa maravilhosa, sabe? Engraçada, astuta, esperta, e todos nós gostamos dela. Bom, Pansy acha ela metida — mas a opinião de Pansy não conta.
Draco não sabia o que responder. Primeiro Narcisa, agora Blaise. Ela deve ser muito cativante, pensou, com mais ironia do que convicção.
— Chame o maître, vou pagar o almoço. — Draco disse, colocando a mão no bolso em busca da bolsa de galeões.
— Meu amigo, você não precisa pagar nada. — Blaise colocou o braço no ombro de Draco e com o outro braço fez um gesto amplo. — O Morgana's Club é nosso. Um pequeno investimento meu, seu e de Theo. Rende alguns trocados por mês, se é que você me entende.
— E deixe-me adivinhar: é você quem administra?
Blaise sorriu e deu dois tapinhas em Draco.
— Eu sabia que tinha sobrado um pouquinho de cérebro aí dentro!
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— Tem certeza que quer fazer isso? — Pela primeira vez no dia, Blaise pareceu inseguro.
— Tenho. — Draco foi firme. Eles tinham acabado de atravessar pelo Pó de Flu e estavam no meio da sala do apartamento. — As roupas que tenho na Manor são antigas, e as que os elfos domésticos trouxeram eu não... não me senti confortável com elas.
Por Merlin, os elfos haviam trazido uma calça jeans. Que tipo de bruxo que se preze usaria aquilo? Draco precisava de ternos, casacos e capas.
— Exiba seus dotes, Zabini. — Draco fez um gesto apresentando o apartamento. — Leve-me até o closet.
— Não tenho certeza se... — Blaise olhou o relógio. — Se você não quiser encontrar Hermione aqui, temos que ser rápidos. Ela sai do trabalho em vinte minutos.
— Que seja. Eu só quero vestir algo que não esteja rasgado ou com o nome de uma banda de rock trouxa estampado no peito. — Draco disse, seguindo Blaise escada acima. — Que tipo de amigo deixa o outro vestir isso?
— Como se você ligasse para a opinião de alguém. — Blaise revirou os olhos. — Até tinha um estilo, sabe? Bad boy combinava com as tatuagens.
— É outra coisa que ainda não digeri. — Draco observou o apartamento com mais calma enquanto cruzavam cômodos e corredores — era realmente maior do que ele havia percebido da primeira vez. Passou por uma porta entreaaberta que mostrava o que parecia ser um laboratório de poções organizado com esmero obsessivo. — Que tipo de pessoa tem tatuagens, Blás?
— A primeira foi esse 'A' no pulso, o símbolo anarquista. — Blaise apontou. — Uma declaração: você se comprometeu a nunca mais se filiar a nenhum governo, nenhuma causa, nenhum mestre. Depois de tudo que aconteceu, faz sentido.
— Essa é uma atitude que eu consigo entender. — Draco foi obrigado a concordar quando pararam em frente a uma porta.
— Um feitiço bloqueia a entrada de qualquer um além de vocês dois. — Blaise explicou, girando a maçaneta e indicando que Draco entrasse. — Vou aproveitar para dar uma olhada na sua adega. Tenho um jantar especial hoje.
Blaise se afastou cantarolando, deixando Draco sozinho.
Ele deu um passo para dentro do quarto — e foi nocauteado pelo cheiro.
Caramelo. Baunilha. Algo mais fundo e quente que não tinha nome, mas que fez a cabeça de Draco girar lentamente, como um compasso encontrando o norte. Era o mesmo cheiro que o havia perseguido no hospital, no corredor, nos sonhos feitos de fragmentos. Levou alguns segundos para que ele parasse de tentar identificá-lo e simplesmente deixasse que fosse.
O quarto era similar ao resto da casa — cores claras, linhas limpas — mas havia algo diferente no ar ali. O foco inegável do ambiente era a cama de dossel, uma peça antiga de madeira com grandes detalhes dourados e um enorme edredom de aspecto absurdamente macio. O dossel era de um tecido tão leve que parecia flutuar, e Draco ficou tentado a tocá-lo. Um sofá recamier de veludo vermelho-sangue dominava um dos cantos do quarto — por algum motivo Draco sentiu que conhecia aquele sofá, que havia sentado nele antes, que havia olhado para ele da cama enquanto a manhã entrava pelas janelas. O pensamento veio e foi embora antes que ele pudesse segurá-lo.
Nas laterais da cama havia cômodas, e em cada parede havia uma porta. Uma delas estava fechada, mas a outra estava escancarada, revelando o que parecia ser um enorme closet.
O ambiente era grande, com armários de portas de vidro nas laterais e ilhas dividindo o espaço ao meio. De um lado, roupas claramente femininas: vestidos, casacos de pele, capas, roupas de gala. Um paredão de sapatos que iam desde simplórios chinelos de dedo até saltos tão altos que pareciam armadilhas mortais. As roupas exalavam aquele cheiro de caramelo. Draco balançou a cabeça para se concentrar.
As ilhas estavam recheadas de abotoaduras, prendedores de gravatas, cintos, anéis, colares e brincos. Havia uma quantidade considerável de estojos de joias que Draco não teve coragem de mexer. Nas gavetas de baixo ele achou roupas íntimas e pijamas. No fundo do closet havia uma enorme penteadeira — a bancada estava coberta de maquiagens, perfumes e poções, mas ao lado de tudo isso havia três malas. Ao puxar uma, sentiu o peso considerável. Ele não queria mexer em nada pessoal dela, então recorreu ao único hábito que parecia intacto:
— Accio Mochila Escolar.
A bolsa de couro puído voou direto para sua mão. Draco abriu sua metade do armário e começou a passar a mão pelos tecidos até encontrar o que o agradasse — gravatas, ternos escuros, camisas de linho. Começou a enfiar tudo na bolsa com a eficiência metódica de quem fez isso antes, num quarto de dormitório, às vésperas de algo que não sabia nomear. Quando a bolsa não coube mais nada, lançou um feitiço de aumento e continuiu, até sentir que teria roupas por pelo menos duas semanas.
Estava quase saindo quando viu um caderno de couro verde apoiado em cima de uma cômoda, ao lado de alguns porta-retratos com fotos do casal. Teria passado despercebido se Draco não tivesse notado as letras gravadas na capa: D.M. Sem pensar muito, enfiou-o na mochila e saiu.
Quando chegou ao final da escada, percebeu que demorara mais do que imaginou — e que Blaise já não estava mais sozinho.
— ...Tia Cissa disse que ele não comeu muito, e que teve pesadelos à noite toda.
— Eu sabia que aquela tentativa de recuperar a memória manualmente era péssima, mas ele deixou. Eu iria falar o quê? — A voz da mulher suspirou. — Sei que Arthur estava tentando fazer o melhor. Mas acho que aquilo deixou Draco mais retraído. Como ele está hoje?
— Eu acho que está bem... Na medida do possível. Tomou sol, comeu, bebeu... — Blaise deu de ombros. — Não reclamou de dor para mim, mas também não disse se lembrou de algo.
— Só de ele não sentir dor, fico aliviada. — A voz feminina era fraca, como quem havia poupado energia para dizer coisas mais importantes e ficara sem. — Bolota fica miando na porta do escritório dele, esperando ele voltar. Eu sei que vai passar, mas...
Antes que Draco pudesse se perguntar quem era Bolota, uma nuvem branca voou em seu peito. Um enorme gato gordo e branco esfregava o focinho nele com uma insistência que não aceitava recusa.
— Ah, aí está você. — Blaise sorriu, aparecendo perto de Draco. — Olha, Mimi — Bolota reencontrou seu grande amor.
Draco se aproximou segurando a mochila e o gato com certo desconforto.
— Pode pedir para o seu gato parar de se esfregar em mim, por favor?
— O gato é seu, Draco. Ele dorme no seu pé todas as noites. — Hermione respondeu num tom suave, e Draco seguiu a voz até a cozinha. — Inclusive você briga comigo quando eu coloco ele para fora do quarto...
Quando a viu, foi como um soco suave no peito.
Hermione estava vestida de roxo, parecia uma rainha. O cabelo estava liso e preso num longo rabo de cavalo, e usava brincos de safira que pegavam a luz quando ela se movia. Tinha braços lindos e estava fechando um armário — inclinando levemente o corpo para empurrar a porta com o ombro, um gesto pequeno e cotidiano.
E então o cheiro de caramelo o envolveu completamente, e o mundo mudou.
Draco estava num lugar claramente trouxa — um supermercado em Knightsbridge, iluminado por luzes fluorescentes e cheio do ruído mecânico de caixas registradoras. Ele estava numa fila, e uma senhora à sua frente reclamava sem parar com o atendente sobre um preço errado numa embalagem de biscoito. Mas nada incomodaria ele naquele dia. Ele esperou sua vez com paciência, pagou numa máquina com um cartão preto e liso — cartão de crédito, em nome de D.L.M. — e em suas mãos levava uma sacola com pão, farinha, ovos, leite e chocolate.
Mas a coisa mais importante estava no bolso da calça. O anel de noivado.
Draco havia esperado por aquele anel com toda a paciência que possuía, porque queria especificamente uma Alexandrita — uma pedra que era verde-claro à luz do sol, mas que na luz das chamas tornava-se vermelha como brasa. E o velho joalheiro não havia decepcionado. O anel era belíssimo: todo em platina, cravejado com diamantes em cascata, e a pedra principal era obscenamente grande, quase do tamanho de uma unha, no corte esmeralda. Algo que pudesse estar em qualquer geração passada da família Malfoy sem que ninguém levantasse uma sobrancelha — e que ao mesmo tempo era completamente dela.
Estava ansioso para chegar em casa, que ainda estava em reformas e meio vazia. Era cedo — pouco mais de seis da manhã. Ao fechar a porta, não perdeu tempo e foi até a cozinha:
— Topsy? — Ele chamou baixinho. Um alto creck anunciou a chegada da elfa doméstica, que trajava um vestidinho verde-claro cheio de babados e rendinhas, com um brilhante par de sapatinhos pretos nos pés. — Bom dia! Tudo bem?
— Bom dia, jovem mestre! — Topsy respondeu, feliz. — Como Topsy pode ajudar hoje?
— Me ensine a fazer panquecas para a senhorita Hermione, por favor. Quero fazer algo especial hoje.
— Com prazer, jovem mestre! — A elfa movia os bracinhos de empolgação. — O presente da senhorita chegou?
Draco acenou, cúmplice. Pegou o objeto no bolso e se abaixou até a altura da elfa.
— Veja só. — Ele abriu a caixa. A elfa fez um sonoro 'ohh', as mãos cobrindo a boca. — Você acha que ela vai gostar?
A elfa abraçou Draco em lágrimas.
— O jovem mestre é um homem tão bom! — A elfa fungou. — A senhorita Granger já é tão amada por nós elfos...
— Não sou bom, Topsy. Não sou. — Draco suspirou, fechando a caixinha com cuidado. — Mas por ela eu posso tentar ser.
Draco balançou a cabeça. Os outros dois o encaravam, como se ele tivesse ficado imóvel tempo demais.
Sentiu um nó na garganta ao encarar a mulher. Ela estava com um pacote de pão na mão, e por algum motivo ele sentiu culpa, como se fosse um monstro por deixá-la preparar a própria comida num apartamento que era dos dois.
— Eu fazia seu café da manhã todos os dias? — Draco perguntou, e ela assentiu em silêncio.
— Estamos em Knightsbridge? — Draco engoliu em seco, a garganta apertada.
— Sim, estamos. — Os olhos de Hermione se iluminaram e encheram d'água ao mesmo tempo, aquela combinação impossível de quem está feliz e partido ao mesmo tempo.
Draco ficou sem saber o que fazer. Sem saber o que dizer. Havia tido uma memória — dela, deles — e ela era a primeira coisa que ele havia sentido com clareza em dias. E ele não sabia o que fazer com isso.
— Peguei tudo que precisava, Blás, vamos. — Draco chamou o amigo, que segurava duas garrafas de aspecto antigo. Blaise abriu a boca para falar algo e Draco balançou a cabeça.
Lentamente, Blaise se aproximou de Hermione e deu dois beijinhos em seu rosto.
— Conversamos mais outro dia, mon ami.
Draco viu, pelo canto do olho, Hermione enxugar uma lágrima com a ponta do dedo. Não se sentia confortável para tocá-la — eram casados, e essa estranheza era sua, não dela, e ele tinha ciência disso de uma forma que o incomodava mais do que qualquer outra coisa naquele dia. Mas havia algo que ele podia fazer. Algo pequeno. Uma coisa que custava nada e que, por algum motivo que ele não conseguia nomear, parecia importante.
— Boa noite, milady.
Ao entrar na lareira, ele poderia jurar ter ouvido ela chorar.
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