Morte à Rainha

Ele se olhou no espelho e viu uma alusão de si mesmo por trás de uma grossa camada de poeira. Limpou uma parte com a mão, sem saber bem o motivo – não queria se sujar, tampouco ver seu rosto. Mesmo assim o fez e, pela última vez em dias, viu um par de olhos azuis bem abertos, entrecortados por uma cicatriz.

Lavou as mãos e o rosto na água gelada da pia. Não havia com o que se secar, então usou a própria camisa.

....

Fênix rompeu com a Rainha da Morte.

Rejeitou toda a obsessão por vingança que norteara sua vida até então.

Aliou-se a Atena, tornou-se um de seus cavaleiros.

Tentou se convencer de que, enfim, se libertara.

- Uma falácia! – sua garganta rugiu por si só, deixando escapar uma perturbação que o cavaleiro guardava havia semanas.

Ikki de Fênix não havia se libertado. Nada, nada se faria tão facilmente. Não bastava querer ver-se livre: ele ainda não o era.

O cavaleiro assinara um contrato. Oferecera sua alma em troca de poder. E ele ainda possuía o poder. O contrato com a Rainha da Morte não mudara, ele não recuperara sua parte do acordo.

Esse era um fardo com o qual ele não poderia conviver.

Destrua o demônio. O que mais pode fazer?

Era a única saída. Teria que usar do próprio poder recebido para ir ao encontro da Rainha da Morte. Então a destruiria, sem piedade, sem um resquício da benevolência que descobrira há tão pouco tempo.

Se voltaria ileso ou não, isso pouco importava.

Certos assuntos não podem ser adiados.

Fênix estendeu o braço, observando cada instante do ato, cada dedo em sua mão se cerrando devagar em torno da palma. Reuniu no punho parte do seu cosmo, a parte mais sombria e perigosa — a pluma negra da ave Fênix.

Quando o fez, notou que o ambiente em torno começara a mudar. As trevas por trás dos móveis se avolumavam, sem cerimônia, parecendo prenunciar o que viria a seguir. Seu reflexo no espelho estava completamente só do outro lado, envolto numa névoa pálida e tremulante. Ele não notou a expressão lívida estampada em seu rosto.

Não hesite!

Por instinto ou premeditação, Fênix desfechou um golpe contra o espelho, gritando com toda a força:

GOLPE FANTASMA DE FÊNIX.

Houve um chiado agudo, quase insuportável, seguido do mais absoluto silêncio. Tudo ficou diáfano, distante e nada mais era digno de certeza – ele sequer acreditava ainda estar ali.

Quando abriu os olhos, enxergou a mesma névoa pálida que o envolvia em seu reflexo. Levantou-se do chão — um chão coberto de pedregulhos e formas indefiníveis; fosse qual lugar era aquele, não era o mesmo de antes.

Encontrou uma pilha de entulhos a um lado. Restos de móveis, brinquedos quebrados, latas enferrujadas e uma grande e caótica massa cinzenta dispunham-se em montes por onde se olhasse. Inexplicavelmente, aquilo parecia familiar ao cavaleiro.

Descobriu um espelho partido no chão. O que viu refletido na face de prata o atingiu de um modo inesperado: Fênix via seu reflexo, como deveria ser, porém emoldurado pelo cenário de antes, o banheiro do galpão abandonado, com seus azulejos partidos e desbotados.

O cavaleiro reprimiu uma risada nervosa.

Impossível...

Era inadmissível, mas ao mesmo tempo evidente por si só: Fênix entrara no espelho.

É uma ilusão. O golpe fantasma... é claro.

Tal pensamento o sustentou pelos minutos seguintes, até que uma voz, funesta e soberana, lhe tocou os ouvidos e tornou sua indiferença uma lembrança remota.

- De volta outra vez, cavaleiro.

Ele olhou para a criatura que se assomava na névoa. Reconheceu imediatamente o demônio, a Rainha da Morte.

Tinha a aparência de uma mulher esguia, completamente coberta por um vestido longo, tão antiquado quanto excêntrico. Era muito alta, ou talvez não; talvez tudo simplesmente diminuísse na presença dela. Sua máscara alva, com um par de furos no lugar dos olhos, era uma mescla de infinitas expressões e, ao mesmo tempo, a completa ausência de expressão.

Chamava a atenção o fato de que uma de suas mãos era coberta por uma luva delicada, enquanto a outra, descoberta, era uma garra enorme e apodrecida pulsando desvairadamente.

- Você não devia ter voltado. — Sua voz ecoava várias vezes entre as montanhas de escombros, num esforço para ser enfática. Aquilo irritava o cavaleiro.

- Eu vim te destruir, demônio.

Ela silenciou por um instante, então gargalhou deleitosamente; o som parecia um atrito metálico.

- Pois bem, destrua-me! – disse, tornando a gargalhar. – Mas sua alma pertence a mim, cavaleiro. Cada fragmento de você pertence a mim. Isso nunca mudará!

Por um momento, Fênix não soube o que dizer.

- Pois prove! – foi o que lhe veio de repente.

Ela de súbito ergueu a mão intacta e cerrou os dedos, como se esmagasse algo no ar. Fênix teve a insólita sensação de que órgãos se comprimiam dentro de seu corpo, numa explosão inconcebível de dor. O sangue irrompeu da sua boca e respingou pelo chão, tingindo de vermelho a superfície rugosa.

Ele caiu de joelhos e ofegou em arquejos profundos.

- Ma... Maldita!

Ele não sabia se ela ria, ou se uma montanha de entulhos desmoronava. Quando olhou de volta, pôde perceber claramente que o rosto por trás da máscara se divertia com seu sofrimento; os olhos tintos de sangue do demônio observavam e aguardavam com ansiedade.

Ela ergueu mais uma vez a mão intacta.

- PARE! – o cavaleiro berrou, sentindo a dor se espalhar pelo corpo.

A Rainha recolheu o braço, gracejando, e esperou com ar presunçoso. Fênix ficou de pé com esforço e limpou o sangue da boca com as costas da mão.

- Você não sabe... com quem está lidando, demônio.

Antes que ela pudesse falar ou encenar sua gargalhada maçante, Ikki se impôs:

- Eu sei o seu nome.

Aquela frase ecoou e repetiu-se como nenhuma outra dita até então.

Eu sei o seu nome.

Eu sei o seu nome.

Eu sei o seu nome.

Por um período de tempo que poderia ser um minuto ou uma hora, houve silêncio, e nenhum dos lados reagiu. Foi como o momento posterior a uma grande explosão; ninguém sabia o que fazer, como agir. Fênix tinha certeza de que, apenas dizendo aquelas palavras, violara um enorme tabu da criatura.

Finalmente, a Rainha, incrédula e muito menor que antes, sibilou:

- É uma calúnia. Meu nome não pode ser conhecido por um...

- Nós, cavaleiros, – interrompeu-a — não somos como os outros humanos. Você deveria saber disso.

Ikki fechou os olhos e concentrou seu cosmo – dessa vez um cosmo dourado e terno, o qual a Rainha não conhecia. Havia mais alguém com ele, ela percebeu, alguém muito mais poderoso que qualquer demônio.

O cavaleiro começou a falar numa língua há muito esquecida. A Rainha da Morte levou a mão e a garra aos ouvidos e arqueou o corpo como um escorpião que se preparasse para ferroar; da sua garganta irrompeu um rugido arrebatador, todavia incapaz de refrear a fala do outro.

- CALE-SE! – Ela berrou num tom que já não era arrogante ou irônico; seus olhos tintos de sangue estavam escancarados, em pânico.

A Rainha da Morte não poderia ser morta enquanto seu verdadeiro nome não fosse dito. Era uma regra: dizer o nome do demônio significava ter autoridade sobre ele. Isso, por sua vez, implicava poder matá-lo.

Proferir seu nome, contudo, era um enorme desafio para a boca humana.

Fênix continuou a falar. Um rumor transcendental o conduzia em seu intento, sussurrando cada sílaba do vasto nome.

A criatura rugiu de forma bestial no momento em que seu corpo começou a mudar. A roupa se rasgou em segundos, revelando uma pele podre e corroída, com cicatrizes que remetiam a flagelos seculares. As costas se curvaram de modo acentuado e a corcunda sobrepôs a cabeça, afundando-a entre os ombros esguios. A mão intacta transformou-se à semelhança da garra: quatro dedos compridos e putrefatos terminando em pontas afiadas, pulsando continuamente.

A máscara alva, imaculada, inexpressiva, finalmente caiu.

- NÃO FAÇA ISSO COMIGO, IKKI. – foi uma voz doce e ao mesmo tempo diabólica que falou.

Fênix imediatamente reconheceu a voz, era inconfundível. No entanto, não ousou abrir os olhos; não poderia se desconcentrar naquele momento, não poderia ceder ao logro da Rainha da Morte.

Esmeralda estava morta. Ele a vira morrer.

- OLHE PARA MIM! POR FAVOR!

O cavaleiro conteve um ímpeto incontrolável de atacar o demônio naquele exato momento. A ferida causada pela morte de Esmeralda ainda não cicatrizara; era doloroso, mais que qualquer outra coisa, ouvir de novo aquela voz, tanto mais reproduzida pela garganta corrompida de um demônio. A Rainha da Morte não tinha esse direito.

O cosmo dourado impediu-o a tempo. Deveria terminar o ritual; se não o fizesse, ele próprio morreria. O demônio não perdoaria alguém que tivesse chegado tão perto de matá-lo, sem ter chegado ao fim.

Quando, finalmente, Fênix disse a última sílaba do nome, a voz roubada de Esmeralda silenciou. Ele abriu os olhos e viu que a criatura estava paralisada, seu rosto monstruoso, decadente, com um par de olhos escarlates flutuando debilmente sobre as órbitas, suas presas muito afiadas seladas por uma força invisível.

Ele se aproximou. Seu rosto ficou a poucos centímetros da face apodrecida.

- Minha alma pertence a mim, somente a mim. Você nunca conheceu Ikki de Fênix e se esquecerá desse dia assim que regressar ao inferno.

Ikki caminhou para a montanha de escombros mais próxima. Não demorou para que encontrasse um machado cravado à meia altura do monte. Arrancou-o, experimentou a constância do cabo e retornou à presença da criatura.

Derrubou-a no chão golpeando o dorso da Rainha com a ponta nua do cabo.

Que arda no Tártaro.

Pôs-se à frente da cabeça paralisada e desferiu um único e certeiro golpe. O sangue verteu vigorosamente pelo seu pescoço decapitado, um sangue escuro e denso, que se espalhava pelo chão como uma peste.

Fênix assistiu aos últimos espasmos do corpo morto da Rainha. Uma rainha que já não reinava, que era, outra vez, apenas mais um demônio entre tantos outros no submundo.

Ele largou o machado e andou na direção oposta. O espelho partido ainda jazia no chão, refletindo a versão do mundo que ele queria enxergar. Tocou-o e novamente ouviu um chiado breve e intenso. O ambiente em volta se desdobrou e saiu de foco; em seguida, enegreceu.

Fênix voltara ao mundo real. Sua mão direita sangrava e o espelho na parede tinha uma teia de rachaduras do centro às bordas. Seu reflexo, embora divido em mil versões ligeiramente desiguais, era exatamente o que um espelho deveria refletir. Ele ficou aliviado.

Sem se importar com o ferimento ou com as marcas que deixara no lugar, Fênix abriu as portas e saiu.

O vazio se fora. Era inacreditável, mas, pela primeira vez desde que se lembrava, ele se sentia livre. Livre.

Não havia mais o fardo da Rainha da Morte. Não havia mais a pluma negra. Ele mal conseguia expressar o que aquilo representava, o quanto representava.

- Obrigado, Atena.

Olhando para o céu sem nuvens, Ikki de Fênix sorriu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.