Quinze Minutos de Morte


“TODO SONHO tem um significado” — dissera-me uma vez Christabel, numa das várias noites em que conversávamos sobre coisas comuns. Eu havia dito que sonhara com um labirinto habitado por fantasmas do meu passado.


“Se me lembro bem... labirintos significam que há uma pessoa má intencionada na família.”


“Ótimo.” – rebati — “Eu não tenho família.”


Chris ergueu uma sobrancelha surpresa, então descontraiu o rosto e fixou em mim seus enormes olhos verdes.


“Como não?” – disse em seu tom bem-humorado, com um quê de provocação – “Não me considera um membro da sua família, Nachi?”


Sorri de leve.


“Ora, e por acaso você teria más intenções com relação a mim, Christabel?” – perguntei, a princípio sem apreender o que havia acabado de dizer, mas sem me arrepender depois.


Ela não disse nada. Apenas desviou o olhar e eu notei que enrubescera. Então, pouco depois, seus olhos se voltaram para mim e ela sorriu de um modo que eu jamais me esqueci.


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A lembrança de Christabel tem-me vindo à mente com freqüência desde o dia do incidente — ou melhor dizendo: desde o dia em que despertei do coma.


Ela apreciava como ninguém tudo o que se relacionava a sonhos e seus significados. Volta e meia eu lhe visitava com o pretexto de um sonho estranho e ela traduzia e interligava prontamente cada elemento, de um modo que, confesso, excedia minha capacidade de abstração.


A verdade, se querem saber, é que eu não enxerga um sentido naquilo tudo, nem levava fé que fosse ter qualquer influência sobre a minha vida. Eu simplesmente precisava de um motivo para vê-la. É provável que isso também justificasse os vários sonhos que não tive.


Christabel...


Talvez soubesse me dizer o que foi aquilo? Aquela visão pavorosa, que ainda hoje desponta como uma cicatriz em meus sonhos. A ferrugem, as chamas, a criatura... até que ponto fora apenas o sonho de um paciente em coma e até que ponto fora real? Sim, porque havia ali algo mais, algo maligno, e eu diria que não há dúvidas quanto a isso.


Fênix estava diretamente ligado à coisa, e isso é outro fato. O pesadelo começou no momento em que fui atacado no Coliseu, durante a Guerra Galáctica. Bem quando o relâmpago agudo do “Golpe Fantasma” atravessou minha testa. Então tudo silenciou e o espetáculo teve início.


No hospital — quando acordei, duas semanas e um dia depois – mostraram-me exames que provavam que meu cérebro havia sofrido dano irreversível, que não sabiam explicar como eu conseguira voltar à consciência, que só podia ser um milagre – o que de fato, foi.


Mas milagres não atormentam as pessoas na medida em que são coisas boas. Havia algo mais estranho, que não era bom, muito pelo contrário: era terrível.


Algum tempo depois de acordar, notei que havia algo na minha mão. Quando vi o que era, precisei reunir toda a força que me restava para conter um grito. Aquilo sim, mais que incompreensível, era enlouquecedor.


Havia uma luva de tecido branco embolada na minha mão. Bem ali, no mundo real, a mesma luva que eu segurara pouco antes de o sonho ter fim.


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No início, senti uma dor aguda nos ouvidos, como se alguém arranhasse um quadro-negro dentro da minha cabeça. Corri as mãos até eles e cerrei os olhos com força, num esforço inútil de amenizar a dor. Quando isso finalmente aconteceu, abri os olhos e dei-me conta de que já não havia ninguém no Coliseu. Nem torcidas, nem competidores... e nem Fênix. Apenas eu, de pé no centro do pentágono que era o ringue.


Então notei que algo mais acontecia. As paredes da arena estavam mudando. Era loucura, mas de longe elas pareciam se descamar, como se envelhecessem séculos diante dos meus olhos. Começou nas bordas do estádio, expandindo-se aos poucos para o centro. Notei que, quando abandonavam uma tênue camada superficial, chão e paredes tomavam a aparência de algo semelhante a ferro sujo e oxidado, como se revelassem uma terrível porém verdadeira face do mundo.


A transformação alcançou o ringue. Ocorreu-me o sinistro presságio de que me atingiria também, devorando minha pele a partir dos pés. Mantive-me bem no centro, as gotas de suor gelado rolando pela testa, o coração palpitando acelerado. Testemunhei o pentágono ser devorado pelas mil bocas invisíveis, deixando para trás uma plataforma de grades que parecia levitar sobre um manto de escuridão. As cordas ao redor do ringue agora eram arame farpado; a estrela no chão tornara-se um pentagrama de ferro enegrecido.


Quando a coisa chegou até mim, fechei novamente os olhos. A sensação de formigamento nas minhas pernas se alastrou por meu corpo como gotas geladas — algo muito íntimo ao cair em desespero. Olhei tomado por hesitação e pavor; vi que meu corpo continuava intacto; a armadura de Lobo que eu vestia, no entanto, ia fazendo-se em pedaços, e de pedaços em pó. Em um período de segundos, minha armadura foi consumida por completo e eu estava ali, indefeso diante de uma ameaça sem nome.


A sensação de perda serviu como um choque de realidade; o que quer que fosse aquilo, não poderia ser real. Tive certeza de ser apenas mais um daqueles pesadelos em que se acorda de olhos arregalados, respirando aliviado por nada ter acontecido de verdade. Mas logo fui contestado.


“Não é um sonho.” – ecoou uma voz esganiçada pelo carrossel de ferragens que era o Coliseu.


Olhei ao redor, mas tudo estava escuro; a única iluminação vinha do holofote acima do ringue.


Foi então que notei algo mais no estranho cenário: havia luzes alaranjadas caindo do alto. Vinham devagar, lançando círculos de fulgor no escuro, como pequenos balões de fogo. Tremeluziam e bruxuleavam, sumiam e ressurgiam. Mais tarde, só bem mais tarde, eu cogitaria serem pequenos corpos em chamas, como os que incidem ao redor de grandes incêndios.


“Venha, cavaleiro.” – A voz reverberou outra vez, de algum ponto na escuridão.


Fiz um esforço enorme para falar, mas tudo o que saiu foi um sussurro: “Quem é você?”


Ela aparentemente não ouviu.


“Não vai vir até mim?” – disse, parecendo decepcionada, ou seja lá o termo que melhor definisse aquilo – “Tudo bem. Eu vou até aí.”


Escancarei os olhos para todos os lados. Agora sim sentia um medo profundo, medo de morrer, e era uma sensação tão sólida quanto uma rocha.


Sempre preferi ser sobressaltado sem aviso que aguardar por isso. Saber que algo de ruim viria, sem saber de que direção e em que momento, era torturante, sem dúvida pior que a sensação condensada num único segundo. E agora o ser vinha até mim, sem mais avisos.


Que, por Deus, seja à minha frente e agora.


Notei que algo se assomava no negrume à minha direita. Virei-me de imediato para contemplar a criatura que permaneceria nos meus sonhos pelo resto dos dias que se seguiram, determinada a não ser esquecida.


Era uma mulher vestida de noiva.


“Achei você.”


A despeito de um ímpeto incontrolável de correr o quanto pudesse, o mais longe que pudesse, aquela visão perturbadora de alguma forma me proibia de desviar o olhar.


Notei primeiramente que seu traje não era exatamente um vestido de noiva. Parecia uma combinação de vestido de noiva e roupa de palhaço. Era colorido, e as cores davam a impressão de transitarem conforme a criatura se movia, como se uma fonte externa as emitisse. Cobria todo seu corpo, com exceção das mãos, cobertas por luvas brancas, e do rosto, oculto por um longo véu.


Quando se aproximou do ringue, percebi o quanto era enorme. Atravessou as cordas de arame farpado antes que eu pudesse perceber como, e então estava ali, à minha frente, sua presença tornando a minha insignificante.


A sensação de vazio diante daquele ser era algo impossível de ser colocado em palavras.


“Ajoelhe-se.” – a voz transcendental ressoou por trás do véu.


Continuei a olhá-la de pé – não conseguia me mover, ainda que tentasse. Então um peso descomunal incidiu sobre as minhas pernas e caí de joelhos, conforme o desejo da criatura.


“Quem sou eu, você indagou.” – disse – “Meu nome não pode ser pronunciado. Não pela boca desprezível de um humano.”


Suas mãos levitaram para o véu e empurraram-no lentamente para trás da cabeça. Imaginei que enfim veria sua face aterradora, que estaria livrando uma boca monstruosa que sugaria minha alma e poria um fim naquilo tudo. Mas isso não aconteceu. Não ainda.


Ela usava uma máscara. Lisa, alva, ao mesmo tempo feliz, triste e inexpressiva. Eu não via olhos por trás do par de órbitas negras, mas sem dúvida podia sentí-los. Era um olhar faminto, cobiçoso. Seus olhos eram tintos de sangue.


“...porém, como toda criatura cujo nome verdadeiro não se pronuncia, possuo um nome vulgar, e portanto compatível com vocês, humanos.” – fez uma pausa – “A Rainha da Morte. Soa familiar?”


A Ilha da Rainha da Morte foi o que me veio de imediato. A Ilha descrita como “o inferno na terra”, onde Ikki treinou para se tornar o cavaleiro de Fênix.


“Pois bem. O nome da ilha que imagina não se deve a uma causa trivial...” – pareceu rir – “Eu sou a ilha. Ela pertence a mim.”


Minha mente tentava conectar cada palavra, mas parecia ter parado de fazê-lo já nas primeiras cenas daquela sucessão de absurdos. Eu ouvia e assentia, mas nada era assimilado.


Então a Ilha da Rainha da Morte, berço do treinamento de Fênix, o inferno na terra, onde a vivência era impossível, tinha esse nome porque pertencia à própria “Rainha da Morte”, e não por qualquer outro motivo.


Preferi refletir sobre isso mais tarde, quando estivesse menos próximo de enlouquecer.


“Onde Fênix entra na estória, você se pergunta a seguir. Nós temos um trato. Eu lhe concedo poder para que se vingue daqueles que arruinaram sua vida. Ele, por sua vez, usa desse poder para me trazer alimento.”


Trazer alimento. De repente, vi-me contendo um ímpeto incontrolável de rir. Talvez o tivesse feito, não fossem as circunstâncias. Eu era a presa da estória, por mais que desejasse ter ouvido errado, e aquela diante de mim era meu predador.


Em qualquer outra ocasião aquilo bastaria para que meu corpo reagisse, se libertasse do transe. Mas não agora. Desde o início mantive-me leviano e assim continuei naquele instante. Algo dizia que, caso contrário, estaria pondo em risco minha sanidade.


“Regojize-se por ter tomado conhecimento disso antes de morrer, cavaleiro. Agora se apresse, termine o ritual.”


Ela estendeu as costas da mão enluvada à frente do meu rosto.


“Beije-a.”


Como da primeira vez, continuei a olhá-la sem reação. E, novamente, uma força invisível encarregou-se de fazer com que eu cumprisse a ordem. Minha mão se ergueu sozinha e segurou a ponta dos seus dedos. Minha cabeça foi projetada a um centímetro da mão enluvada.


Termine o ritual... era o ultimato. Eu beijaria sua mão e morreria, tinha certeza disso. Ela arrancaria a máscara e devoraria minha cabeça, como faria uma fêmea louva-a-Deus com seu parceiro.


“Não... isso não” – pensei alto.


Eu era um cavaleiro de Athena, estava entre os homens mais fortes do universo. Não podia morrer ali. Pouco importava se fosse ter meus sentidos destruídos, eu tinha que reagir. Não fosse naquele momento, nunca mais seria.


“NÃO” – berrei ante o esforço para combater aquela resistência sobre-humana. Consegui afastar um pouco a cabeça e puxei a mão com toda a força que pude reunir.


Ela guinchou, como se sentisse uma dor terrível, e seu guincho, fazendo jus ao cenário em torno, soou como um portão enferrujado.


Percebi que, quando puxei, trouxe também sua luva.


E aquilo que ficou não poderia ser uma mão.


“BEIJE MINHA MÃO, HUMANO.”


Era uma garra enorme – paradoxalmente, muito maior que a luva que eu segurava -, com dedos compridos, grossos e podres. Não se distinguiam unhas e pele; cada dedo ia se afinalando e terminava numa ponta negra e afiada. Havia veias arroxeadas pulsando furiosamente por toda a extensão da garra; uma delas, no ponto onde eu beijaria, estourara e agora jorrava com um líquido escuro.


Aquela visão pavorosa, tão próxima de mim, foi a gota d’água para que a situação se invertesse.


Pensei em meus amigos. Pensei nas pessoas que deveria proteger. Pensei que tinha que rever Christabel. Nada daquilo podia ser tirado de mim.


“NÃO VAI ESCAPAR.” — Ela ergueu a mão intacta para retirar a máscara.


Então a luz do holofote se intensificou. Ainda não sei como aconteceu de fato, mas ela foi se expandindo, e era uma luz terna. A rainha da morte ergueu a cabeça e guinchou com sua garganta enferrujada, parecendo temer a morte tanto quanto eu temera. Recolheu a garra estendida e se afastou antes que pudesse mostrar sua verdadeira face – e agradeço aos deuses que não o tenha feito.


A luz ocupou todo o ringue e bloqueou minha visão. Mas meus olhos não doíam. Tudo ficou branco, quieto, e eu renunciei a todo medo que sentira. Por fim olhei para o alto e me entreguei ao silêncio.


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Acordei num quarto de hospital. Fui informado que quinze dias haviam se passado desde o episódio no Coliseu. Perguntei o que acontecera em seguida; disseram que Seiya, Shiryu, Shun e Hyoga haviam ido no encalço de Ikki — que havia roubado a armadura de Sagitário — e que tudo indicava que haviam sido bem-sucedidos. Que, naquele mesmo dia, Fênix abdicara do mal.


A luva branca estava ali, como um souvenir da minha viagem ao inferno. Ainda hoje a mantive comigo, mas não mostrei a ninguém – achava que quem não tivesse passado pelo que eu passei não poderia compreender. Hoje decidi me livrar dela: voltei ao Coliseu e ali mesmo, no centro do ringue, ateei-lhe fogo. Talvez agora os vários pesadelos que tive desde aquele dia cessem.


Ainda não me encontrei com Fênix, e nem faço questão de encontrá-lo. Acredito que também para ele a rainha da morte seja algo a se esquecer.


Agora recolho as cinzas daquele fragmento de irrealidade. Não pretendo jogá-las em qualquer lugar específico – não creio que a criatura que por pouco não me devorou merecesse isso -, apenas na lata de lixo mais próxima e fim.


Amanhã retornarei à Libéria, meu local de treinamento. O único lugar com pessoas que realmente se importam comigo.


Chistabel costumava dizer que certos sonhos servem para abrir nossos olhos, nos alertar sobre coisas que estão à nossa frente e não conseguimos enxergar. Meu pesadelo foi o melhor exemplo disso. Só encarando a morte de frente, pude perceber que aquele torneio que tanto almejava vencer – e que, diga-se, foi interrompido pela aparição de Fênix – não era nada se comparado aos meus amigos, aos que poderia proteger com meu poder.


Pela primeira vez vi-me consciente de ter um propósito, de estar munido de uma causa para com o mundo. E tinha certeza: aquilo era mais importante que tudo.