Quinze Minutos
1 15 Minutos
“Tempo... Não vou mais medir o tempo,
não vou mais contar as horas,
vou me entregar ao momento.”
Titãs.
Legenda:
Narração
– Fala da personagem
“Pensamento da personagem”
Ela não devia estar tão preocupada com o horário. Era exatamente 19:00h de uma sexta feira nublada. Talvez ela devesse se preocupar mais com a provável chuva que parecia querer cair dali a poucos minutos. Estava longe de casa e sem uma sombrinha...
“Maldita hora que resolvi deixar a sombrinha em casa... se chover, como vou fazer pra voltar?”
Seu cérebro também não ajudava nenhum pouco. Ao invés de pedir uma água, ou até mesmo um suco ao garçom do pequeno restaurante em que resolvera marcar o encontro...
“Ele acha mesmo que eu iria entrar no pulgueiro que ele estava imaginando me levar... fala sério, homens em 99% das vezes agem como completos idiotas retardados...”
... pedira um café. O garçom...
“Por sinal um belo espécime masculino... se não tivesse cara de tapado imbecil quem sabe não aceitaria sair com ele. Claro por que se ele continuar me comendo com os olhos...”
... se espantara com o pedido repentino. Café à uma hora dessas? Até ela mesma espantou-se. Não muito, pois adorava a bebida. O garçom saíra com o pedido anotado. Eram 19:05h.
“Bem, ninguém pode dizer que isso não é normal, afinal cinco minutos são toleráveis. Talvez o trabalho... sim... claro. Me distraí com o café. Ele ligou falando algo que não entendi bem.. que horas eram? Ah sim, umas 18:30h. Sei que tinha algo relacionado ao trabalho...”
O garçom demorara mais que o esperado para voltar com seu café. Dissera apenas um obrigada num tom seco e ele se retirou.
“Dez minutos para preparar um miserável café? Afinal que lugar é esse? Nem tem tanta gente aqui pra ser servida a não ser aquele casal pegajoso ali na mesa da direita... espera.. se ele curvar mais o corpo sobre aquela mulher talvez precise usar cadeira de rodas pois certamente vai partir a coluna em duas!!”
Mas se lembrara de algo. Agora não haviam se passado cinco, mas quinze minutos.
“Quinze minutos sentada numa mesa velha e carcomida... olha eu até vejo um cupim voando ali perto da lâmpada. Tá, talvez não tão velha nem carcomida... estou irritada e quando fico assim não vejo mais a beleza das coisas. As regras de educação elementares que as pessoas deviam praticar naturalmente me dizem que quinze minutos de atraso é o limite. Passado disso é um insulto. Eu me sinto insultada, então por que não me levanto e vou embora? Ah claro.. esqueci.. agora ele vai ter que pagar meu café!!”
O café fumegante descia por sua garganta, mas ela tomava o cuidado de resfriá-lo antes que pudesse lhe causar algum dano em sua boca.
“Claro, seria um fim trágico de noite se além de ser insultada, eu ter que gastar meu dinheiro pagando esse café e ainda queimando minha língua com ele... não, esse gostinho eu não vou dar...”
Ela agora fitava a rua à frente desolada. Olhava para fora esperando que acontecesse algo, um sinal de que ele estaria vindo. Mas infelizmente não havia sinal de movimentação a rua. Terminara o café e pousara a xícara suavemente sobre a mesa.
“Certo, terminei meu estimado café. Agora são exatamente 19:30h, meia hora mais do que o prazo estipulado para a chegada. Eu sei, os pontuais sempre se fodem na vida. Li uma frase uma vez que dizia que a pontualidade é não lembro o que dos entediados. Eu acho sinceramente que o gênio inventor dessa frase só pode ser um idiota que adorava fazer gracinhas na adolescência, marcando encontro e nunca indo em nenhum. Filho da puta desmarcador de compromissos, isso é o que ele é.
Lembro uma vez quando fui convidada a ir a um casamento. Ah, as noivas são peritas nisso. Não sei quem foi o retardado que inventou ser bom a noiva atrasar um pouco para a cerimônia. Nesse casamento a noiva atrasou três horas. Eu fiquei lá sentada olhando o noivo passar de branco pra verde limão e outras matizes nessas três estafantes horas. Até aproveitei e resolvi pensar um pouco sobre casamento ali mesmo.
Decidi não chegar atrasada nem cinco minutos no meu casamento. Vou pelada, mas vou na hora. Se for pra atrasar eu nem me daria o trabalho de dar as caras. Aliás, melhor que casar é eu não casar. É, esse é um bom plano. Vou no máximo, como diria meu pai, “juntar meus trapos” e morar com o homem escolhido.
E falando em homem escolhido, deu tempo também de pensar num noivo. É, por que no dia eu estava lá sozinha, talvez se tivesse acompanhada as horas passariam mais depressa, mas eu não estava... pensei se eu chegaria atrasada se meu noivo fosse o Keanu Reeves. Definitivamente não. Nem se fosse o Hugh Jackman. Muito menos o Jensen Ackles. Não, provavelmente eu chegaria antes deles ou até faria questão de ir junto mesmo e ao invés de entrar com meu pai entraria logo de mãos dadas com um deles pra acabar mais depressa.
Ah! Também pensei na persistência e força de vontade do noivo, que passadas duas horas eu já não conseguia entender por que permanecia de pé lá na frente. Pensei que ele não fugiu dali por que o suor que escorria do seu corpo devia ter grudado ele no chão. Mas foi engraçado pensar que ele podia ter dado um ataque ali pra quebrar a monotonia da espera, do tipo: dar uma voadora na futura sogra e uma chave de pescoço no futuro sogrão, uma rasteira derrubando as testemunhas e por fim sair correndo e fugir com a madrinha...
Ou quem sabe subir no altar, pegar o microfone e falar: ‘Olha, sinto muito fazer vocês esperarem tanto.. mas a verdade é que eu não vou casar com Carolina... meu verdadeiro amor é padre Romualdo!’ e curtir a lua de mel com o padre em Dubai.”
Ela não percebera o garçom que se aproximou dela novamente, mas não teve como deixar passar a pequena tossidinha que ele dera ao seu lado...apenas olhou para ele.
– Deseja mais alguma coisa?
– Apenas mais um café, por favor...
Não reparara que agora eram exatos 19:43h.
Dessa vez o garçom parecia preparado e lhe trouxe uma xícara fervilhante de café bem mais depressa. E também se mostrava preocupado, pois lhe perguntaram se desejava mais alguma coisa.
– Não, apenas o café está bom.
“Na verdade, se você tiver uma Colt, pra quando aquele infeliz chegar aqui eu puder acertar uns bons tiros nele... ou melhor ainda uma Sniper, assim eu não ia precisar ver a cara dele tão de perto, podia acabar com ele lá longe... mas sei que você não poderia me fazer esse favor.
To até vendo ele chegar aqui com cara de ‘cão arrependido’ dizendo que se atrasou. Vai me falar que o serviço foi duplicado justamente hoje e além desse infeliz contratempo, tinha um trânsito infernal e quem sabe até um acidente que congestionou tudo. É uma desculpa bem típica para os que se atrasam. Claro por que não é ele que está aqui agora fazendo papel de idiota... juro, juro que vou embora se der 20:00h. Quem ele pensa que é, hein?”
O relógio atrás do caixa marcava 19:54h. Ela sentia que estava se aproximando o horário estipulado que sua paciência permitia a espera.
“Qualquer pessoa em sã consciência teria ido embora as 19:15h. Mas eu tinha que ficar. O que eu esperava? Que ele seria tão pontual como eu? Ah, é claro que não é, tá mais que comprovado isso. Se ele pensa que pode me ligar depois disso.. é bem melhor ele tirar a mula velha dele da chuva, depois disso é impossível.”
O garçom caminhou em direção a mesa desconcertado. A ocupante em questão não havia chamado por ele nenhuma vez aquela noite, mas agora o chamava delicadamente levantando a mão. Ele foi meio sem coragem e perguntou polidamente o que ela desejava.
– A conta, por favor. – Respondeu afável.
“É... não tenho muito motivo pra descontar minha frustração no garçom, coitado. Está apenas fazendo seu trabalho. Certamente ele não marcou encontro com ninguém nesse exato momento e deixou a pobre moça esperando desalentada. Diferente de uma certa pessoa que conheço.
Mas... mas e se aconteceu realmente algo grave? Do tipo: foi atropelado, esfaqueado, assaltado, seqüestrado, enforcado, decapitado? Será que estou com raiva e ele está agora desmemoriado, numa cama de hospital, sozinho e sem ninguém? Sem saber quem é e por isso não ligou desmarcando?
Bem, tenho certeza que se ele realmente tivesse intenção de desmarcar me ligaria pelo menos com um dia de antecedência.. sabem, as regras de educação elementares... mas ligou faltando trinta minutos dizendo que viria... ele não tem perdão!!!”
O garçom se aproximava com a conta a pagar e entregou a mesma à mulher sentada inquieta na mesa sete. Ela pegou o papel já desesperançosa que alguém mais fosse sentar aquela mesa nessa sexta à noite a não ser ela mesma que, por sinal, já se levantava para ir embora.
Olhava estarrecida para a conta...
“R$2,50 cada xícara de café? O que eu bebi, ouro derretido?”
... quando a porta a frente se abriu e em sua direção um homem alto, esguio, cabelos negros que contrastavam com o tom branco de sua pele. Aparentemente caminhara muito, pois era possível ver pequenas gotas de suor descendo por suas têmporas, além é claro o fato de estar ofegante e ter pedido um tempo para respirar, antes de começar a falar.
“Bem, só falta ele falar que teve que salvar um cão num prédio incendiado...”
– Fiz você esperar muito?
“Nãããão... eu acabei de chegar. Fico me perguntando por que as pessoas fazem as perguntas se já sabem as respostas... ele sabe que eu esperei até praticamente perder a minha juventude e ainda me pergunta...”
– Eu cheguei as 19:00h, e agora são praticamente 20:00h... é, acho que não esperei muito, só uma hora.
– Eu te liguei, mas a ligação estava ruim... não sei se você escutou quando disse que tive que fazer um plantão a mais... tentei ligar antes mas seu telefone só dava ocupado...
– Bem, não tenho culpa se a bateria acabou.. mas você tem meu telefone fixo... você e essa sua mania de não ligar nunca, só em cima da hora...
Ela não teve tempo pra dizer mais nenhuma palavra, pois ele a envolveu num abraço sufocante que a fez perder o ar, cobrindo sua boca com um beijo ardente e o garçom que aguardava para receber ficou ruborizado com a cena.
– Espero que me perdoe... você sabe...
– É, eu sei, você costuma tratar as pessoas como gostaria de ser tratado...
“Acho que vou te deixar plantando sozinho num lugar qualquer por uma hora, de preferência um lugar bem fechado, como uma floresta, ou uma gruta, que tenha animais selvagens ou quem sabe peçonhentos. Me sinto obrigada a te tratar da mesma forma... não que você tenha me feito isso, mas sabe como é, quando as mulheres resolvem se vingar, elas fazem a coisa toda muito bem feita...”
– Você chegou a fazer algum pedido?
– Sim, realmente. E aqui está. Foram dois, mas como você não chegava tive que beber o seu também. Espero que não se importe, mas prefiro não continuar mais aqui...
Ela passara a conta para ele, que jogou uma nota de cinco sobre a mesa. Ambos saíram do restaurante e caminhavam tranquilamente pela rua.
“Ahh, vocês queriam que eu continuasse com raiva depois de um beijo daqueles? E a bem da verdade, espero que ele não tenha se cansado muito... dois cafés expressos fumegantes simplesmente tiraram meu sono... “
“Como é dificil entender as pessoas e as suas razões, Vou viver emoções numa boa e perder corações...”
The Mads
Notas finais
Mais uma fic escrita em tempo record: dois dias. Teria terminado em um só, mas os irmãos me expulsam do pc e daí fico sem tempo.
A idéia de escrever 15 Minutos surgiu do nada. Estava indo dormir e daí veio o lampejo e de repente toda a história estava pronta em minha mente. Claro, as referencias e tudo mais foram fáceis... e então vem os agradecimentos:
A minha amiga que realmente se atrasou 3 horas para o próprio casamento.
E a um atraso oportuno que resultou nesse texto
A citação no começo da história é uma música dos Titãs chamada Caras como Eu. No começo eu achei que não teria uma ligação direta com o que escrevi, mas depois que a coloquei fiquei tranqüila e pensei: dane-se, eu gostei e vou por ela lá em cima. u.u
A citação aqui em baixo fechando tudo é uma música da banda The Mads chamada Acima de Tudo.
É isso. Espero realmente que vocês tenham gostado do meu súbito lampejo que resultou nessa loucura.
Abraços, Kisa!
Arte da capa por Lipe *joga flores, beija e agarra*
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