Quimera
47 Tempo
Notas iniciais
— O tempo é um senhor que não pode ser visto.
Tóquio, como sempre, estava linda. As luzes da cidade nunca se apagavam, mesmo com o sol ao pico, de modo que os raios iluminavam as janelas dos arranha-céus e incidia sobre os carros de uma das vias mais movimentadas, que ligava leste e oeste da capital.
Naruto adorava andar de carro naquela rodovia. Quando criança, costumava acompanhar o senador em suas intermináveis reuniões, na tentativa de passar algum tempo com ele, e também para ser exibido aos tabloides. Minato colocava-o no banco de trás da limusine, e Naruto ia acompanhando o movimento dos demais carros com o rosto colado na janela. Tudo parecia tão grande e rápido. As luzes de neon dos anúncios intermináveis passavam como borrões coloridos, e ele amava.
Conforme crescera, permaneceu o mesmo sentimento nostálgico de passar por aquela rodovia, futuramente com ele ocupando o banco do motorista. No conversível que ganhou de aniversário, percorria as vias rápidas com o capô abaixado, o vento contra seu rosto, uma música no último volume. Era simplesmente indescritível.
Naquele momento, muitas lembranças do passado voltaram em sua memória enquanto seus olhos estavam pregados a frente, no para-brisa. Não estava dirigindo, porque, se estivesse, muito provavelmente ele, a segunda pessoa no carro e mais meia dúzia de cidadãos já teriam sofrido um acidente.
Sakura dirigia como uma louca, cortando e costurando pelo trânsito, quase sempre tão organizado quanto possível. O Centro Nacional de Pesquisas ficava há pouco mais de meia hora dali, mas a garota prometeu conseguir fazer em quinze minutos – dez, se fosse rápido o suficiente. Naruto rezou para que não.
No entanto, a partir do momento em que entraram no carro, Sakura iniciou um monólogo apressado, ocultando boa parte dos detalhes, explicando uma narrativa que deixara Naruto atônito; melhor dizendo, sem qualquer tipo de reação. Sua cabeça girava em uma infinidade de pensamentos desconexos, quase todos voltados para a mesma pessoa.
— Hinata esteve aqui esse tempo todo? – repetiu, quase que um sussurro. Recostado no banco, mantinha os olhos fixos a sua frente, sem visualizar todos os carros, e identificar todas as buzinas por onde passavam – Com Hiashi. Pesquisando uma doença rara. E agora ela está prestes a fazer uma cirurgia experimental que pode fazer ela voltar a enxergar. – estava conversando consigo mesmo, tentando reorganizar cada elemento, mas Sakura concordava impacientemente.
— Isso, isso. Ela me ligou assim que assistiu sua coletiva, que, inclusive, foi muito boa, parabéns. – disse em um fôlego só, conseguindo mudar de marcha e fitá-lo ao mesmo tempo – Não conseguiu falar com você, e está prestes a entrar na cirurgia. Ela me implorou para tentar falar com você antes. Por isso precisamos chegar o mais rápido possível.
Quando Sakura o rebocou do hotel, dizendo apenas algumas palavras-chave confusas, Naruto sentiu que toda sua capacidade de reação tinha se esvaído, e, com uma explicação razoável, seria capaz de pensar racionalmente em como reagir de modo apropriado; ledo engano. Depois que a Haruno explicou a ele toda a história, era como se sua mente, perturbada e caótica, tivesse se desfeito em poeira.
Apenas algumas semanas tinham se passado, mas, para ele, eram como anos. O último ano na Academia passou como um borrão, quando Naruto acreditava que seria a melhor fase da sua vida. Se parasse para pensar, uma retrospectiva indistinta percorreria sua mente, mostrando um garoto que ele sequer reconheceria.
Capitão do time de luta, dono de uma série de recordes e troféus de primeiro lugar. Namorado da garota mais gostosa da escola, capitã das líderes de torcida, loura e linda. Rico, poderoso e infeliz. Naruto era infeliz. Não conseguia pensar em um momento sequer em que estivesse realmente satisfeito, daquela maneira.
Se sua vida fosse uma peça, as cortinas do primeiro ato se fechariam no momento em que seus olhos pousaram sobre Hyuuga Hinata, nadando livremente, brilhando sob a água. E o segundo ato se iniciaria, junto de uma transformação lenta, gradual e, bem, ligeiramente estúpida.
Mas o tempo passou, e, com ele, alguns dos melhores momentos de sua vida, ao lado da garota mais incrível. Hinata foi capaz de mudá-lo profundamente, do fundo de seu âmago, até a superfície. Não somente para conquistá-la, mentindo e fingindo, mas ser uma boa pessoa, se importar com os outros, dar valor as amizades, aproveitar sua família.
Ser corajoso.
Perder Hinata tinha sido um golpe duro, porque, de repente, ele se viu só, vazio. Infeliz, sim, mas a solidão era a pior parte. Saber que não tinha mais em seus braços a pessoa mais preciosa que um dia foi sua; mas carregar as consequências de suas próprias decisões, e aceitar sua responsabilidade, apenas esperando que o melhor acontecesse.
Naruto queria o melhor para Hinata.
E, agora, isso seria possível.
Hinata voltar a enxergar parecia um sonho. Um sonho distante, de outra realidade. Naruto não entendia nada de ciência, biologia ou medicina, mas entendia uma coisa; se fosse possível, se fosse realmente possível, então ele tinha que estar naquele hospital.
Se ela queria falar com ele, então Naruto enfrentaria cinquenta mil carros a duzentos quilômetros por hora, para fazer isso acontecer.
— Não se preocupe, nós vamos conseguir. – Sakura quebrou o silêncio, que Naruto não sabia dizer se durou segundos ou minutos – Hiromi me mandou o endereço, elas estão no terceiro andar. A cirurgia começa meio dia. – faltava tão pouco tempo.
Ele não tinha a menor ideia do que diria quando a encontrasse; se conseguisse chegar. Tanto tempo separados. Naruto tinha medo de vê-la e não conseguir se controlar. Controlar as próprias pernas, para correr até ela. Controlar os próprios olhos, para não chorar como um bebê. Controlar seu cérebro, para saber o que dizer.
Sequer conseguia imaginar como Hinata deveria estar se sentindo naquele exato momento. Quantas coisas teriam acontecido; quantos exames, novidades. Se ainda a conhecia bem – e ele sabia que sim –, ela estaria com medo. Aterrorizada, mas ansiosa. Não conseguira dormir nos últimos dias, nem mesmo com chá quente. Naruto só queria apertar sua mão e dizer que ele acreditava.
Nunca tinha se considerado um homem religioso, mas, naquele momento, Naruto rezou.
Hinata respirava profundamente há alguns minutos. Assim que desligou o celular, implorando a Sakura para que conseguisse falar com Naruto e levá-lo até ela, concentrou-se em acalmar seus próprios batimentos cardíacos – a enfermeira disse que, se não o fizesse, teria que lhe dar um sedativo, e ela precisava ficar acordada até o último minuto.
De repente, sentiu um aperto muito forte no peito. Pensar em entrar em uma cirurgia como aquela, tão complexa, experimental, a deixava aterrorizada. Tinha de conseguir falar com Naruto antes disso. Precisava saber que ele estaria ali quando saísse. Precisava dizer que o amava, com todo seu coração.
Dr. Sakoto garantiu que a cirurgia decorreria com todos os cuidados e preparativos adequados, mas não estava certo quanto ao tempo que levaria. Nunca haviam tentado algo daquilo antes, ao menos não em um paciente efetivo, com uma condição tão rara. As pesquisas eram positivas, com resultados promissores, mas o futuro era incerto.
Hinata não tinha medo de não enxergar; ela já era cega. Tinha vivido uma vida daquela maneira, e não tinha vergonha da sua condição. Se tornara uma boa pessoa, uma boa aluna e uma boa atleta. Sua deficiência visual não a impedira, em nada, em suas habilidades.
Mas ela tinha medo das expectativas. Sabia como sua mãe estava; conseguia sentir as vibrações no ar, na maneira que ela segurava sua mão, como sussurrava com Hiashi pelos cantos. Sabia que ambos, seus pais, esperavam pelo melhor, e ela não queria que se decepcionassem.
Procurou não pensar, na medida do possível em como seria. Quer dizer, ela nunca, efetivamente, enxergou. Seria inédito. Não tinha como imaginar. Conhecia formas, figuras, texturas. Sabia como era uma bola, ou uma cadeira. Mas não conhecia as cores. Ah, as cores. Como seria azul? – a cor da tristeza, das lágrimas. Mas a cor dos olhos de Naruto. Ou vermelho – a cor do fogo, quente, como sangue e rosas. Mas a cor que Naruto dizia que seu rosto assumia sempre que se envergonhava.
Respirar não estava ajudando. Suas mãos suavam e tremiam quando voltava seus pensamentos para o Namikaze. Ele conseguiria chegar a tempo? Sequer estaria a caminho? Hinata não conseguia deixar de pensar que foi embora, e deixou de atender suas ligações. Estava magoada, sim, e precisava de tempo; e, com o tempo, foi tomada pela ideia da cirurgia, e pelos estudos a distância. Tsunade tinha sido especialmente atenciosa com sua situação, e seria eternamente grata.
Eram muitas as coisas que passavam pela sua cabeça. Os monitores diminuíram os bips frenéticos, apenas o suficiente para deixar as enfermeiras, e suas agulhas, longe.
Hinata ouviu um clique na porta, e passos até sua cama.
— Tem certeza de que não quer almoçar, filha? – Hiromi acariciou seu ombro coberto pela roupa de hospital.
— Sim, okaa-san. – suspirou – Meu estômago está um pouco embrulhado, não vou conseguir comer nada.
— Eu imagino. – pelo movimento do colchão, ela teria se sentado na cama, próxima aos seus pés – O doutor logo deve estar chegando. – ela parecia querer distrair Hinata, mas o tremor em sua voz apenas atenuou a tensão inevitável.
— Okaa, não se preocupe. Vai dar tudo certo. – garantiu.
— Ah, eu sei que sim. – suas mãos se cobriram, mas ambas estavam geladas – E eu sei que ele vai conseguir chegar. – acrescentou, baixo.
Hinata estremeceu. Estava rezando para que isso acontecesse; contudo, cada minuto passado no relógio matava um pouco de sua esperança.
Uma corrida contra o tempo foi iniciada.
Quanto mais Hinata esperava, pedia para que as horas passassem mais devagar, mais sentia que o destino estava contra ela. Movimentações começaram a acontecer, e Hiromi se afastou para que as últimas medições fossem feitas. Tiraram sua pressão, sua temperatura e trocaram o soro de seu braço. No entanto, quando foram preparar os últimos medicamentos para a cirurgia, Hinata interveio.
— Podemos esperar mais um pouco? Por favor? – implorou, ligeiramente desesperada.
Elas concordaram, saindo para cuidar dos pós-operatórios necessários. Enquanto isso, Hinata tentou ligar novamente para Naruto, ou Sakura, mas ambos deram foram de área de serviço; uma centelha de esperança surgiu, imaginando se estavam a caminho, mas, com seu tempo se esgotando, estava se segurando para não começar a chorar.
Suas unhas estavam destruídas, bem como sua estrutura física e psicológica – culpou o soro por suas pernas bambas e a mente nebulada, mas, no fundo, a mera possibilidade de entrar em cirurgia sem conseguir falar com Naruto a deixava melancólica; àquela altura, as chances eram mínimas.
A porta se abriu repentinamente.
— Querida, nós precisamos ir agora. O remédio tem um tempo certo para agir, e é essencial para que tenham efeito durante toda a cirurgia.
Hinata suspirou, sentindo o coração cair.
— Tudo bem. Estou pronta.
As enfermeiras voltaram, aplicando uma injeção em seu braço. Hiromi continuou segurando sua mão enquanto elas prendiam seu cabelo sobre a touca, arrumavam sua roupa e substituíam os medicamentos para dopá-la.
Não sentiu nada quando o líquido penetrou seu organismo. Provavelmente já estaria anestesiada e inconsciente quando começasse a fazer efeito. Sentiu a cama ser deitada completamente, e seu corpo estendeu-se, sem relaxar. Hiromi apertava sua mão com força, enquanto Hinata engolia em seco, aceitando que era aquilo, e não havia mais tempo.
As enfermeiras começaram a mover sua maca. O clima estava silencioso, e pesado. Muitos pensamentos passavam pela cabeça da garota naquele momento, e nem todos eram bons; sentia que deveria estar exultante, porque, se tudo desse certo – e daria –, Hinata voltaria para aquele quarto podendo enxergar. Mas, por algum motivo, sentia-se tão triste.
Fechou as pálpebras, e o brilho perdeu intensidade. Aquele brilho seria transformado em cores? Formas? Luz? Ela poderia encarar o teto e distinguir cada pequena forma que houvesse, ou ver traços de poeira passando pela janela?
Controlou-se para não deixar que um rastro de lágrima descesse por sua bochecha. Foi colocada em movimento, saindo do quarto, em direção ao andar da cirurgia, totalmente equipado. Era surpreendente em que um simples centro de pesquisas pudesse realizar cirurgias daquela magnitude, mas não havia nada de simples em toda a situação, afinal.
Fizeram algumas curvas, e lembrou-se vagamente do caminho até o elevador. Hiromi tinha deixado sua mão, mas deveria estar seguido ao lado das enfermeiras até onde pudesse. Logo estaria na sala de cirurgia, e ficaria inconsciente por muitas horas. Estava em uma espécie de torpor sobre toda a situação – não conseguia entender, completamente, o que ela representava em sua vida, ou mesmo para pesquisas científicas futuras.
Com um suspiro, tentou fazer com que seu corpo relaxasse e cedesse aos medicamentos, para fazer com que sua mente desligasse de tantos pensamentos. Contudo, não conseguiu. A maca deu um solavanco entre uma quina de corredor e outra, e foi quando muitas vozes ergueram-se, preenchendo o silêncio com anarquia.
— Ei, me larga! Me solta, eu preciso... HINATA! HINATA, ESPERA! ME LARGA! HINATA!
Com um estalo, Hinata sentou-se, puxando o intravenoso, sem se importar com a dor.
— Naruto?
Sua voz era inconfundível. As lágrimas, que, outrora, tinha conseguido segurar, escaparam sem dificuldade, molhando suas mãos conforme caíam, fechando sua garganta, esquentando seus olhos.
Naruto não estava contando com uma série de seguranças perseguindo-o enquanto ele tentava localizar, às cegas, em qual dos infinitos corredores estava Hinata. Sakura, por algum milagre, fez com que chegassem vivos até o centro de pesquisas, enorme, cheio de janelas de vidro e parecendo muito com um ginásio gigante, em vez de uma sociedade milionária e corporação cirúrgica.
Estacionou de qualquer maneira, ocupando duas vagas e meia, e Naruto saltou do carro como se estivesse pegando fogo. Já tinha ficado sem tempo – segundo as informações que Sakura tinha, naquele momento, Hinata já devia estar sendo levada do quarto.
Entrou as pressas pela porta automática, sendo questionado pela secretária quem ele era e o que tinha ido fazer ali. Fitou as placas gigantes no alto, indicando cada setor, mas, onde seus olhos focaram, ele só viu opacidade. Não teria tempo para ser cordial; avistou catracas, que só eram liberadas com acesso de crachás. Sakura veio correndo atrás dele, e Naruto tomou a única decisão que consideraria inteligente – ele pulou.
Imediatamente, três seguranças começaram a persegui-lo, mas seu porte atlético lhe deu vantagem na perseguição. Deslizou por um corredor e subiu um lance de escadas em segundos. Sakura tinha lhe dito que os quartos eram no segundo andar, e a cirurgia no terceiro. Assim, se estivesse com sorte, conseguiria encontrar Hinata no meio do caminho.
Tinha que encontrá-la. Seu peito, apertado e ofegante, parecia sangrar a cada passo em direção a um corredor vazio, portas fechadas e nenhuma ideia de onde estava. Não havia placas ou localizações, e Naruto corria cegamente, levado por seu instinto e uma oração um tanto desajeitada.
Avistou, como uma intervenção divina, um grande hall e setas para elevadores. Viu duas enfermeiras desaparecerem na esquina, e algo lhe disse, no âmago, que era Hinata. Acelerou o passo, no entanto, trombou com dois seguranças, que o seguraram enquanto se debatia furiosamente.
Seu olhar virou-se para uma maca parada, e, fraco de alívio, viu Hiromi encarando-o com os olhos arregalados.
— Ei, me larga! – gritou, tentando se soltar do aperto do brutamontes – Me solta, eu preciso... – olhou para frente, para a pessoa deitada – HINATA! HINATA, ESPERA! – jogou-se para frente, desesperado – ME LARGA! HINATA!
Ela se levantou. Abriu os olhos, e, quanto Naruto viu as pérolas o encarando, molhadas, foi como se nunca tivesse deixado de vê-las, nem por um instante.
— Naruto?
Hiromi interveio, puxando os braços dos seguranças.
— Deixem ele! Está com a gente, deixem ele! – os seguranças afrouxaram o aperto, o suficiente para que Naruto voltasse a correr, tropeçando nos próprios pés, lançando-se para frente com exasperação.
Bastaram dois passos até que alcançasse Hinata.
Três enfermeiras se afastaram, chocadas. Uma delas tinha um leve sorriso, encarando as outras como quem pergunta: “O que fazemos?”. Naruto não se importava; deteria aquela maca o suficiente para que pudesse dizer a Hinata o quanto sentia muito.
Hinata. Seu coração falhou. Ela estava tão linda quanto se lembrava. Mais magra, com as maçãs proeminentes, e não cheirava como seu shampoo preferido, mas, mesmo assim, era a garota mais linda que já tinha visto. Sentada, com um intravenoso dependurado, puxando seu braço para trás, ela o tinha seguido perfeitamente, como se, de fato, pudesse enxergar onde ele estava. Talvez pudesse mesmo; aquele sempre tinha sido um estranho poder que ela tinha.
— Hinata, eu-eu... – soluçou, segurando suas mãos com força. Estavam geladas. Aproximou-se até que estivesse perto o suficiente para tocar suas testas.
Hinata estava tremendo, o coração acelerado. Ele entrou, fazendo barulho, gritando, provavelmente perseguido pelos seguranças – exatamente como seu Naruto faria. É claro que ele deixaria para a última hora e faria uma entrada triunfal, quase a matando do coração.
— Você conseguiu. – sussurrou, chorando um pouco mais. Seguiu seu cheiro, sua presença, sua essência. Nada tinha mudado. Quando ele segurou suas mãos, pequenas correntes elétricas lembraram-na sobre como era quando suas peles entravam em contato.
— É claro que eu consegui. – ele riu um pouco, fungando – Hinata, eu sinto muito! – sua voz estava urgente, e pequenas conversas ao redor indicavam certa pressa. Não importava. Nada mais importava – Eu sinto muito, muito mesmo! Eu jamais queria ter mentido para você, eu não queria ter te enganado, eu-eu sinto muito! Me perdoa, por favor. Eu te amo, Hinata, eu te amo, eu te amo, eu te amo!
Seus rostos, colados, derramavam lágrimas. Hinata soluçou, apertando seus dedos com força, sentindo seu calor, seu perfume. A cada palavra, seu coração se apertava mais, enchendo-se de dor, mas também de confiança. Era como se nuvens escuras se dissipassem, e o sol, finalmente, voltasse a brilhar.
Foi então que ela percebeu; não havia um resquício, sequer, de mágoa a ser guardada dentro de si. Ou raiva, ou tristeza. Apenas amor.
O amor de Naruto bastava.
— Naruto, eu te amo. – choramingou, a voz entrecortada – Me desculpa por ter ido embora, eu-eu não sabia o que-que fazer. – soluçou – Mas eu te amo. Por favor, não me deixa, não vai embora. Eu estou com tanto medo. – Naruto soltou suas mãos para abraçá-la com força, protegendo seu tronco ao redor dos braços.
— Eu não vou a lugar algum, minha Hime. – sussurrou em seu ouvido, enquanto Hinata tremia dentro do abraço, agarrando sua camisa. Afastou-se o suficiente para poder beijar cada extensão de seu rosto; estava salgado – Estarei aqui quando acordar, tudo bem? Vai dar tudo certo. Eu te amo, Hinata, vai dar tudo certo, acredite em mim. Eu te amo.
— Eu te amo, Naruto. – repetiu, respirando fundo enquanto se acalmava.
Ele se inclinou, capturando os lábios, também salgados, em um beijo rápido, mas intenso. Era como se todas as cicatrizes se fechassem, todas as rachaduras, subitamente, se unificassem. Foi o suficiente para selar a nova promessa que tinham feito um ao outro. Não irei embora.
Naruto se afastou, soltando a mão de Hinata lentamente, enquanto limpava o rosto e acenava para as enfermeiras.
— Sinto muito por atrapalhá-las.
— Está tudo bem, querido. – uma das enfermeiras mais velhas parecia ter lágrimas de emoção no canto dos olhos – Estamos indo, então. Só podem vir até aqui. Fiquem à vontade para esperar na sala. – seguraram nos cantos da cama, colocando-a em movimento novamente.
Hiromi acenou, com um soluço, e Hinata voltou a se deitar. Naruto deu um passo para trás. Sakura tinha chego pelo elevador, e assistido a cena, emocionada. O Uzumaki virou-se, abraçando a sogra, para cumprimentá-la e consolá-la.
As portas do elevador se fecharam, e Hinata desapareceu de vista. A cirurgia começaria em breve, e, com ela, uma contagem regressiva.
O tempo funcionava de maneiras curiosas. Esteve ao favor de Naruto, e, agora, cada minuto de esperava demonstraria como ele estava contra eles.
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