Quimera

40 Presença


Notas iniciais
Perdão. Essa é a única coisa que eu posso pedir. Mil perdões. Entre vida, faculdade, trabalho, eu acabei me afundando em algumas situações ruins que me sugaram, e isso me levou a uma série de bloqueios. Foram algumas barras que eu tive que passar, mas isso não justifica. Eu tenho um compromisso com vocês, com minhas histórias, e escrever é uma das poucas coisas que me motiva verdadeiramente. Eu amo escrever, e amo essas fanfics. Obrigada a todos que continuam acompanhando, mesmo depois de tanto tempo. Eu vou tentar escrever mais e postar mais rápido, porque, no meio de tanta confusão, é isso aqui que eu amo. Obrigada ♥ A fic deve ter mais uns cinco? Seis capítulos? Conseguem acreditar??? No meu planejamento dá mais ou menos isso, vamos ver se eu consigo manter ele!

— A vitória definitiva é ver que você fez seu melhor, ganhou muito mais do que deu. Essa vitória é a mais difícil.

Naruto estava exultante.

Mais que isso, ele estava extasiado. Quando viu, por milímetros borrados e confusos, a mão de Hinata tocar a borda da piscina, soube que ela tinha conseguido. Sua garota tinha conseguido. Gritou mais alto que todo mundo, e abraçou Sakura pelos ombros, sacudindo-a junto de toda a torcida, que, afinal, também queria que a Academia vencesse. De repente, ele não se importava se o vissem gritar o nome da garota, ou acenar – mesmo sabendo que ela não veria – e agir como um namorado orgulhoso. Era isso que ele era, e se alguém tivesse algum problema, não se incomodaria em descer a porrada.

Os microfones anunciaram a vitória da Academia Canadense na primeira categoria solo, nado livre. O Namikaze observou Hinata ser abraçada pelos companheiros de time, e, quando Shikamaru sussurrou em seu ouvido, ele observou seu semblante mudar – e foi lindo. Os olhos arregalados com as bochechas coradas, o sorriso brilhante. Ela era toda brilhante.

Sentindo-se revigorado, não estava mais ansioso para suas próprias lutas. Mesmo de longe, Hinata o inspirava, o acalmava. Teve o mesmo sentimento vindo de Sasuke, emocionado e contido, e de Gaara, o mais próximo, que vibrava igualmente animado. Os demais da equipe estavam dispersos pela arquibancada, pulando e entoando o grito de guerra da Academia, mostrando aos outros colégios quem eles eram.

A vitória de Hinata levou a Academia ao topo do ranking, e, àquela altura, pela contagem de pontos, era quase impossível alguém ultrapassar o primeiro lugar. Aparentemente relaxados, os demais nadadores se esforçaram, e Naruto achou incrível ver o nado revezamento, quando o amigo mergulhou de costas e garantiu, com honras, o primeiro campeonato nacional do time de natação da Academia Canadense – soava bem –.

Internamente, aquela faísca de euforia foi ligeiramente apagada pela consciência do outro Hyuuga no estádio. Sabia que Neji tinha presenciado aquela corrida. Tinha visto como Hinata nadava, como ela parecia flutuar a frente de seus adversários. Em contrapartida, sabia também que aquilo seria informado para Hiashi – o fato dele a ver apenas como uma boa aquisição o deixava simplesmente furioso. Estava um passo a frente, e o garoto, um passo atrás. Não podia deixar que ele se aproximasse de Hinata.

Balançou a cabeça, afastando, por hora, aqueles pensamentos. Se concentrou na competição – no fim do dia, as equipes seriam premiadas com o troféu, as medalhas, o pódio e os confetes. Naruto se lembrava de assistir as disputas colegiais quando era menor. Era fascinado pela atmosfera de vitória, as pessoas gritando seu nome. Ele queria aquilo.

O time de judô, embora famoso, nunca tinha ganho as nacionais. Seus veteranos passaram para ele o sonho de levar a grande taça para casa – mesmo com todos os títulos regionais, nada se comparava ao glamour de vencer em Tóquio, representar Kobe. Foi com esse pensamento que Naruto desceu as arquibancadas, levando o time consigo. Começariam a se vestir e alongar, conhecer o largo tatame e se concentrarem.

A medida que cruzavam o corredor, o alvoroço se transformava em silêncio. Fora dos ginásios apenas os organizadores e alguns poucos estudantes, reconhecidos por seus uniformes. O extenso centro metropolitano parecia aterrorizantemente ensurdecedor. Os vestiários do salão de lutas estavam tão vazio quanto, e, pouco a pouco, os lutadores acomodaram-se em seus respectivos armários, colocando suas bolsas e puxando os quimonos brancos – suas roupas de guerra.

Naruto vestiu-se mudo, analisando a equipe que tinha escolhido. Assim como seus veteranos confiaram nele, ele confiara nos primeiranistas; e seus colegas de sala, desde Sasuke até Kiba. O Namikaze confiava em cada um deles. Estavam na frente por uma pequena margem de pontuação, e uma vitória direta – com uma queda limpa – garantiria uma segurança maior. Além disso, ele era Namikaze Naruto, e, assim como seu nome, ele honraria a fama que o precedia, e acabaria tudo com um wazari.

No momento em que vestiu suas roupas e a faixa de capitão, o loiro procurou mudar a atmosfera. Agora, ele era alguém com quem podiam contar, que os treinou e os guiou até aquele momento. Todos estavam muito quietos, perdidos em pensamentos. Não demorou até que os primeiros barulhos dos estudantes chegando começasse a alcançá-los – foi então que percebeu o quão tarde era. As lutas eram as últimas categorias da competição, e, por um instante, quis saber como seus colegas, seus amigos, tinham se saído em suas próprias batalhas.

— Muito bem, campeões. – sua voz de trovão soou pelo cômodo, e eles se organizaram em um semicírculo – Nada do que eu lhes disser agora vai conseguir acabar com a ansiedade e o nervosismo. – a sinceridade nua e crua fez alguns rirem tremulamente – Mas vocês estão aqui. Estão neste ginásio, em Tóquio, morrendo de medo das outras escolas. Muitos jamais vão ter essa oportunidade na vida. É por isso que temos que agradecer por isso. Agradecer o chaveamento e todos os oponentes fortes. Agradecer por estarmos tão inquietos que provavelmente vamos ter dor de barriga. – mais risadas – É isso que importa. Subirmos naquele tatame e acabarmos com aqueles desgraçados. – bateu nas mãos e ouviu gritos de incentivo – Não menosprezem nenhuma escola, não importa quantos pontos elas tenham. Temos que vencer todas, e levar o troféu para casa. E agradecermos por chegarmos tão longe, com força, garra e determinação!

Talvez ele realmente tivesse o dom da oratória – de repente, nenhum deles parecia mais nervoso. Apenas gritavam e se cumprimentavam e apontavam os punhos para o ar. Naruto sorriu, satisfeito. Organizou a todos em uma fila e os guiou para fora, caminhando em direção as luzes.

Seus olhos foram ofuscados momentaneamente pelos holofotes, enquanto a voz dos narradores ecoava por toda a arcada. Quando se acostumou, mergulhou no mar de pessoas que balançavam os braços alucinadamente, carregando bandeiras. Não foi difícil encontrar a Academia e seus uniformes vermelhos, mas não encontrou uma pessoa em especial.

Distraído com as apresentações, procurou esvair toda a apreensão de seu corpo. Foi quando capturou, por acaso, uma chama flamejante que se destacava no meio da multidão. Ela sacolejava os braços sem se importar, e parecia gritar muito. Tinha trajes sofisticados, com um chapéu floppy esvoaçante e cores pastéis. Era mais velha que a média de estudantes, e estava acompanhando de um garoto alto de cabelos igualmente vermelhos.

Naruto deixou o queixo cair.

Seus olhos marejaram sem que permitisse. Não se lembrava da última vez em que sua mãe fora assistir uma de suas competições – sempre tão ocupada com sua agenda, ele jamais cobraria algo assim. Kushina parecia sem fôlego, mas, ainda assim, elegante, no meio de tantos adolescentes. E Nagato! O irmão mal tinha tempo para dormir, e estava com ela, usando roupas de trabalho e o cabelo despenteado. Ambos torciam enlouquecidamente, os olhos cravejados sobre ele.

Emocionado, ergueu o braço e acenou de volta, assistindo Kushina abrir um largo sorriso.

Vê-los na arquibancada lhe deu uma espécie de gás extra. De repente, não havia nada nem ninguém que pudesse vencê-lo. Percebeu que Sasuke também sorria, ao seu lado, feliz pelo amigo. Ainda aéreo, foi atraído pelas vozes dos narradores nos alto-falantes.

“Com uma modesta coleção de vitórias e a atenção dos olheiros das melhores universidades do país, Namikaze Naruto lidera um dos times preferidos da competição juvenil e conta com uma torcida de peso! Nas arquibancadas, sua mãe, Uzumaki Kushina, que recentemente deu início a um novo projeto filantrópico junto à Organização Nacional dos Direitos Humanos, Namikaze Nagato, seu irmão e engenheiro robótico da Tokyo Fanuc”, gritos animados. Naruto sorriu, revirando os olhos internamente por toda aquela propaganda desnecessária “e seu pai, o senador Namikaze Minato!”.

O sorriso em seu rosto se desfez.

O corpo esmoeceu, e sua vista nublaram-se. Considerou ter ouvido errado. Quer dizer, era possível? Tomado por um sentimento diferente, correu os olhos para toda a fileira em que sua mãe estava. Ao lado dela, oposto a Nagato, estava uma figura mais velha e despojada. Usava um boné surrado, que não escondia os olhos azuis muito brilhantes. Trajava roupas esportivas, com uma pólo escura e bermudas – aparentemente caras, mas, ainda assim, casuais –. Tinha as mãos nos bolsos e os ombros eretos. Se não tivesse sido avisado no alto-falante, para todo o ginásio, Naruto jamais acreditaria que aquele era Minato, que aquele era mesmo seu pai.

Engoliu em seco, novamente ansioso, talvez duas vezes mais. Ele parecia fitá-lo diretamente, como se percebesse seu nervosismo de longe. Curiosamente, porém, não havia, sobre ela, a velha aura de pressão inflexível, apenas uma expectativa moderada, um sorriso encorajador. Era quase como nos velhos tempos – quando ele ia em seus torneios mirins, e torcia como todos os outros pais.

Minato acenou de um lado para o outro, sendo cumprimentado pelos mais próximos, dando aquele sorriso brilhante que era sua marca registrada. Enquanto os demais times entravam e se posicionavam para o sorteio do chaveamento, Naruto se recompunha na frente de todos, tentando não aparentar sua tensão, ou a risada idiota que insistia em aparecer. Fechou a cara, como um bom capitão, e aguardou ser chamado.

Seu pai estava ali. Estava ali por ele. Para torcer, apoiá-lo, vê-lo vencer. Não podia decepcioná-lo. Apesar de todas as desavenças, as discussões, as recriminações e as atitudes questionáveis, ele ainda era seu pai, e Naruto queria deixá-lo orgulhoso.

Quando a Academia foi chamada, ele caminhou confiante até a mesa dos juízes e técnicos. Comemorou quando viu que tinham pego alguns antigos rivais, cujos lutadores já conheciam, bem como seu estilo de luta. Retornou, dando as boas novas aos seus colegas. Seu novo entusiasmo contagiou toda a equipe, e eles estavam verdadeiramente confiantes.

As rodadas iniciais começaram sem grandes surpresas. Naruto tentou permanecer atento aos seus lutadores, gritando comandos e incentivos junto de todos os outros no banco. Procurou ignorar sua família na arquibancada, atenta a seus movimentos. O fato de ter diversos tatames nas rodadas eliminatórias ajudava a fugir dos holofotes. Os narradores davam seu melhor, descrevendo os acontecimentos mais relevantes, um golpe ou outro mais chamativo, e as derrotas, como um todo. A Academia acumulava uma quantidade considerável de pontos para não se deixar nervosa naquela fase, mas, mesmo assim, Lee deu seu melhor e derrubou o adversário com um wazari perfeito. Comemorando, Naruto viu o grande telão mostrar a liderança deles.

Uma a uma, as escolas foram sendo eliminadas, enquanto as torcidas iam à loucura. O ginásio pareceu ter crescido duas vezes de tamanho, para acomodar todas aquelas pessoas. Naruto viu, além dos estudantes e dos outros competidores, as líderes de torcida, organizadas com faixas e pompons coloridos, entoando os gritos de guerra da Academia – o loiro não soube dizer se tinham vencido ou não a competição de coreografias. Vez ou outra, seus olhos procuravam, inconscientemente, por Kushina, com seu cabelo chamativo; definitivamente ela era a mais animada, e seu rosto estava suado, embora ainda mantivesse uma pose indiscutivelmente elegante. Minato sorria um pouco, conversando com os que estavam ao seu lado, e mantinha as mãos casualmente dentro do bolso. Nada de ternos ou microfones para coletivas.

Nenhuma das vitórias pareciam tão importantes quanto a última. Naruto lutou duas vezes, contra duas escolas semi-finalistas, e venceu em poucos minutos, com uma queda precisa. Saiu do tatame com uma espécie de orgulho contido, enrijecendo quando o sorriso do Namikaze mais velho chegou até seus olhos. Era autêntico – de repente, aquilo se tornou melhor que qualquer troféu.

Caminhou até o grande tatame— o sonho de todo lutador colegial era subir ali. Extensos tapetes verdes acolchoados, estendidos sobre uma plataforma octagonal cercada por grades protetoras, no centro do maior espaço da ala norte. Câmeras de TV focavam no tatame principal da competição, onde somente as oito melhores escolas disputavam o nacional de judô. Ele cumprimentou os juízes e seu adversário – a escola campeã do último ano. Seus olhos assumiram um brilho diferente. Se vencesse aquela, então a somatória de pontos da Academia seria alta o suficiente para declararem campeã.

Prostrou as mãos para trás e estufou o peito. O outro garoto era mais alto, com músculos menos proeminentes. Os olhos faiscavam – provavelmente ele tinha consciência da importância daquela luta, e não desistiria tão fácil. Naruto raciocinou rapidamente, e seria perigoso deixá-lo alcançar seus ombros. Acertar as pernas era o mais óbvio, por serem longas e ele ser mais alto, então as firmaria para dificultar uma queda. Teria de arriscar com um agarro, desequilibrá-lo pelos calcanhares, ou acertá-lo nos braços.

Ouviu o alarme de início muito longe de sua audição. Posicionou os pés e dobrou a cintura. Pensou em Hinata, por um instante, e respirou fundo. Ele tinha que conseguir.

Avançou, e o adversário recuou para o lado, criando uma distração. Rodaram, se encarando, com reconhecimento. Naruto queria acabar logo com aquilo – investiu com as mãos em seu braço direito, e encontrou um ponto de apoio fixo, mas, no último instante, ele se livrou com um empurrão. No impulso, aproximou-se de seu trapézio, como supôs, e retrocedeu rapidamente. Não deixou que ele tomasse espaço, e investiu novamente, dessa vez girando a cintura para apoiá-la contra a bacia. Aproveitando a desatenção de milésimos, jogou a perna direita para trás, e suspendeu seu corpo. Ele era mais alto, mas Naruto tinha mais massa, e erguê-lo não foi difícil. Soube que estava ganho no momento em que os pés dele saíram do solo. Era uma queda perfeita. Ele tentou empunhar-se ao quimono de Naruto, mas, com a força da gravidade ao seu favor, derrubá-lo de costas foi inevitável. Não tardou, e o apito dos juízes soou, apenas um minuto e poucos segundos do início.

Tudo ao redor parecia mais brilhante quanto seguraram seu braço e ergueram-no. Seus companheiros pareciam gritar mais, e a torcida parecia mais enlouquecida. Sorriu, como nunca antes, com as bochechas esticadas e os dentes a mostra. Piscando para afastar a emoção, virou-se imediatamente para seus pais. Kushina gritava, agarrada a Nagato, que tentava acalmá-la enquanto ele mesmo sorria; Minato tinha o rosto tão iluminado quanto o do próprio filho. Naruto, emocionado, não reparou que ele segurava o celular contra o ouvido.

Quando voltou para os bancos, foi atacado por uma dezena de braços fortes e musculosos. Pularam sobre suas costas, gritaram em seu ouvido e bateram em suas costas. Ele xingou e riu, cumprimentando a todos que conseguia. Aquela bolha de vitória deixava tudo com um gosto indescritível – estavam dividindo um momento único, que pertencia a todos.

Naruto não saberia dizer o que aconteceu na hora seguinte. Atordoado, gritou mecanicamente, torcendo pelos demais, mas já esperava, assim com o resto da equipe, o fim do torneio. A somatória de pontos era elevada, e suas atuações foram perfeitas. Mesmo Gaara, que foi derrubado uma vez, conseguiu dois ippons impecáveis. Era inevitável ficar ansioso, e a vitória, depois de tanto tempo, finalmente parecia real.

Seus olhos procuravam na arquibancada, tentando não fixar os olhos em sua família. Avistou Ino, com seus pompons chamativos, e supôs que Sakura e Hinata estivessem próximas a ela. Pensar na Hyuuga deixou seu coração aquecido – imaginou sua reação enquanto ouvia a narração apressada e confusa, com Sakura lhe dizendo o que estava acontecendo, e ela comemorando junto com eles. Naruto sentia-se nas nuvens; suas duas mulheres preferidas estavam na torcida, por ele. Não precisava pedir por mais nada.

O sinal tocou, quase inaudível por cima dos torcedores furiosos. Os lutadores se recolheriam para a contagem de pontos e análise dos juízes. A Academia tentava não se gabar, mas, se os cálculos de Naruto estivessem certas – e elas estavam – eles venceriam com uma margem considerável.

“Chegamos ao fim de mais um campeonato nacional estudantil. Ao longo do último ano, escolas de todas as províncias disputaram entre si uma vaga entre as 16 melhores representantes de cada região. Tivemos ótimas provas esse ano, em todas as modalidades. Ouvi dizer que quebraram o recorde de natação estilo livre, procede isso?”. Abraçados pelos ombros, os integrantes da equipe riram, porque aquele recorde era deles. Naruto enlargueceu o sorriso, porque seus companheiros não pareciam se importar que fosse de Hinata. Pareciam tê-la acolhido. “Ótimo pessoal esse ano, realmente. As competições nacionais costumavam durar todo um fim de semana, mas eu, particularmente, gostei das mudanças”, Naruto também tinha gostado. “Oh, ali vêm os juízes, será que já temos os resultados da categoria judô desse ano? É sempre a mais esperada, e muitos dos campeões da liga olímpica já passaram por esse pódio. É chegado o momento!”.

Subitamente, o silêncio. As torcidas se calaram, e os capitães levaram seu time para o grande tatame, agora maior e sem as grades. Dezesseis escolas se posicionaram de modo que pudessem encarar os técnicos, em um semi-círculo apertado. As vozes morreram, sendo abafadas pelo alto-falante, que parecia mais ruidoso agora.

“Já temos os resultados”, um dos juízes entregou a eles três envelopes, ficando com outros três em sua mão. “Com medalha de bronze, o terceiro lugar do campeonato nacional colegial na categoria judô é a escola Kyuu Kaichi, de Nagano!”. Gritos. A torcida do colégio tradicional vibrou, e confetes surgiram de algum lugar, sendo jogados pela arquibancada. Naruto aplaudiu, como um bom capitão e competidor.

“A vice-campeã do campeonato nacional colegial deste ano é...”, pausa dramática. “A Corporação de Ensino Gakushin!”. Naruto apertou mais forte os ombros de Sasuke. Gakushin tinha sido a vencedora nos últimos dois anos, e, tradicional e disputada pelos patrocinadores, seus atletas eram treinados incessantemente para o torneio nacional. A escola ter ficado em segundo era uma faca de dois gumes: ou eles tinham ficado em primeiro, ou sequer tinham entrado para o pódio. Observou, de soslaio, o capitão da Gakushin receber o gigante troféu prateado, disfarçando uma careta de desgosto. Câmeras da TV gravavam cada detalhe da premiação.

“E finalmente, a grande campeã deste ano...”, espera. Naruto prendeu a respiração. “Senhoras e senhores, uma salva de palmas para a medalha de ouro, Academia Canadense!”.

A arquibancada explodiu.

Era como se todo o ginásio fosse ruir. Gritos, estrondosos e caóticos, preencheram o lugar, mais forte que qualquer outro. Entoaram o hino do time e os nomes dos lutadores. Naruto foi cegado pelas luzes dos holofotes, e já não conseguia ouvir mais nada, como se estivesse imerso em gelatina. Soltou um urro, abraçando a Sasuke, que o puxou primeiro. Em seguida, Gaara apertou seus braços, e ele o puxou pelas costas. Kiba e Lee estavam em algum lugar atrás dele, e cada um dos lutadores, reservas e titulares, do primeiro e do segundo ano, se uniu ao abraço coletivo. Em algum momento, uma lágrima deve ter escapado, se perdendo na confusão de quimonos e membros.

O Namikaze se desvencilhou o suficiente para receber as congratulações dos juízes, que traziam as medalhas, e, mais importante, o troféu. Era grande, pouco menor que sua própria altura. Com barras douradas, formando três andares, exibia uma estátua realizando o tai-otoshi – um dos movimentos mais famosos, onde o oponente agarra seu adversário pelo braço e o força a perder o equilíbrio com a perna; foi a técnica que Naruto usou.

Os avaliadores colocaram, um por um, as medalhas, pesadas e grandiosas. Em seguida, congratularam-nos e entregaram o troféu à Naruto, que, emocionado, o ergueu com um grito de vitória. A arquibancada o acompanhou, ensurdecendo o lugar. Em meio a sorrisos, Naruto percebeu que jamais esqueceria aquele momento. O peso da taça em suas mãos, os braços de seus amigos ao seu redor, as pessoas que ele amava assistindo-o.

Ninguém poderia conter a festa, então permitiram que a arquibancada entrasse, e uma onda de uniformes brancos e vermelhos tomou conta do espaço. As demais escolas também se encontraram com seus respectivos estudantes, e a Academia prevaleceu no tatame principal, recebendo os cumprimentos e as comemorações.

Exultante, Naruto escapou pela tangente, acenando com a cabeça a quem o elogiava. Estava feliz, e com certeza participaria da festa da vitória, mas, naquele momento, ele precisava encontrar algumas pessoas. Carregando o troféu como a um filho, abraçado em seu peito e protegido da melhor maneira que conseguia, andou contra o fluxo de gente até chegar na entrada do ginásio. Não precisou procurar muito; Kushina correu em seu encontro, o puxando para um abraço esmagador, sem se importar se ia quebrar o troféu, que ficou entre eles.

— Meu menino! – Kushina o apertou pela cabeça, sufocando-o – Que orgulho! Eu sabia que vocês iam vencer! – gritou, distribuindo beijos pelo seu rosto.

— Okaa-san! – reclamou, rindo – Eu não sabia que vocês vinham! – não conseguiu o tom acusatório que pretendia, porque estava radiante.

— Okaa-san quis fazer uma surpresa. – Nagato respondeu, surgindo atrás da mulher –Parabéns, pirralho. – o abraçou também, menos forte e emocionado que Kushina. Naruto sentia que suas bochechas rasgariam de tanto que sorria.

— Obrigado, mesmo. Ter vocês aqui foi a melhor coisa. – seu tom sincero fez Kushina choramingar, tornando a esmagá-lo, e os três riram.

Naruto se soltou a tempo de ver Minato se aproximando, com as mãos nos bolsos e um largo sorriso. Cumprimentava algumas pessoas que o paravam, sempre polido e diplomático. Sem o terno e a postura rígida o tempo todo, o homem parecia realmente charmoso, e Naruto entendeu porque as pessoas confiavam nele – tinha uma aura confiante.

— Aí está nosso campeão. – saudou, estendendo a mão a sua frente. Naruto a pegou instantaneamente, sentindo os dedos se fecharem e uma corrente morna passar por ele – Muito bem, filho, muito bem. Você foi ótimo. – aqueles elogios fizeram, de repente, tudo valer a pena.

— Obrigado por ter vindo, otou-san. – respondeu, com a voz embargada e o troféu a tira-colo.

— Ah, eu não perderia isso por nada. – o sorriso de raposa despontou – Foi uma publicidade positiva muito boa. Quer dizer, se você perdesse, ficaria ruim para a nossa imagem, mas sua vitória realmente elevou as coisas, filho. Atuação perfeita. – Naruto vacilou, como se não conseguisse raciocinar.

— Como é? – sua voz falhou.

— Minato! – Kushina ralhou, advertidamente, mas o Namikaze mais velha a ignorou.

— Eu nunca tinha visto utilidade nesses torneios que você compete, até que Hiashi me informou sobre a participação da primogênita dele. É claro, a menina consegue ser bem útil para uma inválida. – rolou os olhos despretenciosamente – Então meus assessores fizeram algumas previsões e percebemos que ter minha imagem associada a esse torneio seria ótimo para a campanha. O pai que apoia seu filho e vai vê-lo competir! – estendeu o braço e bateu duas vezes no ombro de Naruto, orgulhosamente – Melhor que o esperado. Agora, as transações com as empresas Hyuuga vão decolar!

— Agora chega, você foi longe demais! – Kushina se exaltou, furiosa. Minato pareceu verdadeiramente confuso quando a fitou.

— O quê?

Naruto não expressou quaisquer reações. Era como se as palavras estivessem escorrendo para dentro de sua mente, sendo processadas, analisadas. A princípio, elas não faziam sentido. Toda a felicidade que ele estava sentindo anulava suas outras reações. Sentia-se desorientado, como se alguém puxasse-o pelos pés para dentro de uma banheira muito fria. Seu sorriso endureceu do tamanho que estava, congelado, e ele não conseguia mexer as mãos.

Não entendia porquê estava tão afetado. Ele esperava por isso, não esperava? Era Namikaze Minato de quem estavam falando. Em que universo seu pai realmente iria vê-lo competir, sem segundas intenções? No passado, talvez , quando ele era pequeno demais para ser útil em sua campanha.

— Naruto, meu filho... – Kushina o chamou, com a voz triste. Ele se sentiu mal pela mãe. Ela tinha torcido mais que todos, gritado até ficar rouca, ela estava realmente orgulhosa.

Ele não conseguia acreditar. Como aquele homem tinha conseguido estragar até mesmo a luta? Sua maior paixão, seu hobby. Algo que ele era bom. Transformou seu esporte em uma mera campanha política – mais um dos seus teatros. Até mesmo os sorrisos que ele lhe deu eram falsos, pensados cuidadosamente para a imprensa? Impressionante.

Seus dedos se apertaram em torno do troféu, até ficarem com os nós brancos. Trinta segundos antes, aquele tinha sido um dos momentos mais felizes e completos de sua vida. Agora só sentia raiva. Queria jogar aquele pedaço de metal fora, arrancar aquela medalha. Que sentido tinha? Ele nunca conseguiria causar orgulho à Minato. E, mesmo que tentasse se convencer de que não precisava da aprovação dele, no fundo, ainda se sentiria incompleto.

Uma série de ofensas cruzou sua mente, e ele encarou Minato fixamente. Seus olhos já não tinham o mesmo brilho, e sua boca estava crispada em uma linha fina. Estava se sentindo frio por dentro. Arrependido. Vazio. Por mais que quisesse xingá-lo, socá-lo e dizer todas as verdades que se passavam em sua cabeça, optou pelo melhor que poderia fazer naquele momento: ficar em silêncio.

Deu as costas a eles, e Kushina gritou seu nome, mas não o seguiu – provavelmente Nagato a tinha segurado. Naruto agradeceu o irmão. Depois encontrar um jeito de se redimir com os dois, que realmente o amavam. Voltou para sua equipe, para seus colegas e amigos. Esqueceria aquele episódio, e esqueceria seu pai. Pelo menos por enquanto, ele poderia tentar se orgulhar de uma conquista própria. E, então, ele pensaria. E ele mudaria aquela situação.