Quimera

50 Epílogo: Renascida


— Eu fechei meus olhos e o mundo inteiro estava morto. Eu voltei a abri-los, e tudo tinha nascido novamente.

Obrigada.

— Naruto, vem! Anda logo!

Hinata virou-se para trás, rindo tão alegremente que Naruto sequer se deu ao trabalho de reclamar sobre como estava cansado, carregando todas aquelas coisas. Em vez disso, sorriu, replicando a animação que sua namorada demonstrava. Seu rosto estava iluminado, e o garoto pensou, por um breve instante, se Hinata era um anjo – ou o próprio sol.

— Você sabe que todos estão nos esperando. Estamos atrasados! – reclamou, ainda dando risada. Não estava realmente incomodada com isso, porque o motivo pelo qual se atrasaram foi muito bom.

Hinata usava um vestido colorido, de alças e tecido que esvoaçava. Kushina, certamente, saberia dizer qual era, mas, para Naruto, tudo que importava era que aquela incrível peça de roupa podia ser tirada bem rápido. A garota ainda costumava corar quando ele fazia comentários como aquele, mas, se fosse para ver Hinata envergonhada, Kami, Naruto faria de novo.

Venceu a pequena subida que separava o estacionamento da trilha para onde estavam indo. Para a infelicidade do Uzumaki – que pagaria o preço que fosse para não ter que andar muito mais que cinco minutos com seus próprios pés –, o local escolhido por Sakura para o piquenique não era, exatamente, acessível. Fora dos limites da cidade, a natureza realmente fazia seu trabalho, mas Naruto preferia apreciar tudo aquilo com as janelas abertas do seu carro.

Aproximou-se de Hinata, com duas mochilas e uma cesta em mãos. Cansado, largou tudo no chão, fazendo careta.

— Nada disso! Vamos, estamos quase chegando. – a garota insistiu, mas Naruto abriu um sorriso feroz.

— Sua sorte é que eu te amo. – a garota estava prestes a responder quando ele a puxou pela cintura em um movimento brusco. Hinata soltou um gritinho, rindo, mas abraçou seu pescoço, mantendo seus corpos tão juntos quanto possível.

Naruto a beijou, de maneira ansiosa, quase agressiva. Era como se estivesse faminto para provar o gosto adocicado daqueles lábios, sempre cobertos por gloss, tornando-os tão atrativos — talvez faminto não fosse a palavra certo; estava viciado. Naruto estava viciado em Hinata, e não fazia questão de parar de alimentar o monstro interior que apenas se tornava mais dependente daquela garota.

Desejou não precisar respirar, porque, distraído com a maneira que Hinata acariciava sua nuca, esqueceu-se de inalar oxigênio. Com um grunhido, afastou as bocas, apenas para continuar distribuindo beijos por toda a extensão do pescoço da Hyuuga. Ela arfou, a pele arrepiando conforme fazia uma trilha úmida em direção ao seu colo.

— Vamos nos... a-atrasar. – Hinata conseguiu gaguejar, tentando se livrar das mãos ocupadas de Naruto. Ela não estava realmente tentando, porque não se importou quando o garoto apertou a base de suas costas contra seu peitoral.

— Eles não precisam de nós. – sussurrou, no pé de seu ouvido, provocando sensações muito apropriadas. Hinata lutou contra todos seus instintos de dizer para voltarem para o carro, conseguindo afastar o rosto o suficiente para que Naruto a visse.

O Uzumaki se considerou um sujeito de sorte – a visão de Hinata depois de um amasso, com os lábios inchados, o rosto corado e os olhos brilhantes era um presente dos deuses. Nada no mundo se igualaria a ela.

— Nós estamos com a comida. – ofegou, tentando recuperar o fôlego – Vamos encontrar nossos amigos, amor. – sua voz baixou, quase em um sussurro. Naruto já sabia o que viria depois – Por favor? Por mim? – bastou ela piscar duas vezes aqueles cílios grandes e grossos, contornando os olhos mais pidões que Naruto já tinha visto, para ele saber que estava totalmente na mão dela. Resmungou alguns palavrões, soltando sua cintura, a contragosto.

— Você é uma criatura muito perigosa. – reclamou. Hinata imediatamente alterou sua feição, sorrindo com as maçãs proeminentes – Aprendeu esse truque muito rápido. – murmurou, lutando contra a vontade de sorrir. Quer dizer, droga, ele faria qualquer coisa por aquela mulher.

— Eu te amo. – falou, puxando sua mão para entrelaçar seus dedos. Naruto se abaixou e pegou as bolsas de novo, mantendo um braço livre para segurar Hinata – Ficou com um pouco de gloss aqui. – virou-se para ficar na frente dele, erguendo os pés e passando o dedão no canto inferior de seu lábio. Céus, aquilo era golpe baixo. Por pouco não largou tudo e voltou a beijá-la. Só não fez isso porque foi distraído por outra coisa. Seu sorriso, agora, era animado, quase rasgando – Que bom que eu vi. – soltou um risinho, de quem contava uma piada sem-graça.

Ele nunca se acostumaria.

— Então por que você não vai na frente e me mostra o caminho antes que eu largue tudo e volte a me sujar com seu batom? – propôs. Hinata, ficando mais vermelha, empurrou seus ombros, sorrindo. Voltaram a andar, imersos em sua bolha de felicidade contagiante.

Fazia quase dois meses, agora.

Hinata via tudo.

No hospital, cada dia de teste era mais promissor que o outro. Hinata se cansava mais rápido na primeira semana, mas já era capaz de distinguir formas sem que seus olhos lacrimejassem. Os médicos acompanhavam de perto sua evolução, propondo testes lentos para estimular sua visão.

Naruto jamais esqueceria o momento em que ela o reconheceu, quando os médicos pediram para apontar cada uma das pessoas no quarto. Sentia tanta emoção que seu coração parecia prestes a explodir; poucas sensações no mundo seriam tão intensas quanto aquela. Hiromi, ao seu lado, chorava sem se importar, porque estava tão feliz que escorria por seus olhos, incapaz de armazenar tamanha felicidade dentro de si.

No início, ainda estava com a visão embaçada, e ponderaram a hipótese dela precisar de óculos; afinal, não esperavam que mesmo toda a tecnologia da medicina seria capaz de reverter um quadro como o de Hinata. No entanto, nas semanas seguintes, a perspectiva melhorou, e, conforme os dias passavam, mais nitidamente Hinata era capaz de enxergar.

Naruto não saiu do hospital. Muitos insistiram para isso – Hiromi sentia-se culpada dele dormir nas poltronas desconfortáveis da sala, Hiashi – por incrível que pareça – também ofereceu acomodações em sua casa. Kushina ligava todos os dias para saber notícias e tentar convencê-lo a pelo menos dormir no hotel, onde ainda estavam hospedados, mas o garoto foi irredutível.

Não iria embora, a não ser que Hinata estivesse com ele.

Conforto, boas noites de sono, refeições apropriadas – nada daquilo sequer importava. Como um pai, não queria perder nenhum momento. Quando Hinata começou a identificar objetos, quando o chamou pelo nome, apontando em sua direção, quando os médicos abriram as janelas e ela viu a luz do sol. Naruto morreria de fome, de sono e de dores nas costas, mas não perderia nada.

Ao seu lado, segurou sua mão quando Hinata teve medo. Caminhou com ela quando foi conhecer o hospital. Limpou suas lágrimas – muitas delas – quando ele trouxe um livro aquarela, e ensinou cada uma das cores. Chorou quando ela também o ensinou; quando a ouviu dizer que o amarelo era a cor do sol, e o verde era a cor da esperança, e o roxo era a cor da dor, dos hematomas, mas o azul era a cor da serenidade, e a cor mais bonita do mundo, porque era a cor dos seus olhos.

Nada daquilo podia ser substituído, ele sabia disso. Ficar com Hinata bastava, e ver seu sorriso, tão largo que podia machucar sua bochecha, era sua recompensa.

Naruto nunca esperou amar alguém tão intensamente quanto amava Hinata, mas, de alguma maneira, o destino achou que ele merecia conquistar alguém tão puro, tão singular, tão extraordinário quanto ela – e, por Kami –, que o amava também!

Pouco mais de um mês depois da cirurgia, Hinata teve alta, com uma série de recomendações, remédios, e, principalmente, esperança. Hiashi a levou para sua casa na capital, apenas para descansar e voltar ao ritmo fora do centro de pesquisas – ele foi muito generoso deixando Naruto se hospedar com eles, mesmo exigindo que ficassem em quartos separados; o que não adiantou muito, porque o Uzumaki era mestre em escapulir do seu quarto durante a noite.

Em casa, todos os cuidados com Hinata foram redobrados. Ela estava se acostumando com os cômodos, os espaços, as formas, a luz. Não foi muito difícil, porque, como tudo que ela fazia, Hinata tinha se adaptado muito bem. Como se tivesse nascido para aquilo – para enxergar. Se ela era espetacular sem a visão, agora era simplesmente... inigualável.

Naruto esperava que voltassem para Rokko, mas Hiashi não permitiu que Hiromi e Hinata voltassem para a casa delas, em Chome – aparentemente, ele ficou sabendo das condições em que viviam. Embora a casa fosse modesta, não tinha a estrutura adequada para cuidar de Hinata, ao menos por enquanto. Convenceu elas a ficar em Tóquio, com ele. Naruto achava que seria uma decisão permanente, e não estava pronto para isso – ainda não tinham discutido sobre aquilo.

O futuro.

— Finalmente! – ouviu um grito, que o tirou de seus devaneios.

Sakura estava acenando animadamente, e algumas pessoas se levantaram para encontrá-los no final da trilha. A campina era grande, e a lagoa, cristalina. Aquele pequeno paraíso era um ponto turístico pouco conhecido no interior. Tinham combinado aquele piquenique enquanto todos ainda estavam na ilha, depois da formatura, e foi a Haruno quem sugeriu o lugar. Era realmente bonito, colorido pelas flores, iluminado.

Hinata respondeu o aceno, feliz. Naruto, se soltar sua mão, ajudou-a a descer o pequeno barranco, talvez protetor demais. Todo cuidado era pouco.

— Sério, achei que iam furar com a gente. – Sakura reclamou, abraçando Hinata, e depois Naruto.

— Vontade não faltou. – rolou os olhos, cumprimentando Sasuke, e Gaara logo atrás.

— Eu tive que arrastar ele. – a garota provocou.

— Que bom que alguém liga para os amigos. – a Haruno deu a língua, arrastando Hinata para longe do Uzumaki, que protestou – Não quero nem saber, não vai monopolizar minha garota hoje! – Naruto sabia que uma briga com Sakura era perdida, então apenas suspirou, resignado.

— Pelo menos deixa eu pegar os óculos dela. – resmungou, puxando os protetores da bolsa e colocando no rosto de Hinata, beijando o alto de sua testa – Quando quiser, eu te sequestro de volta. – sussurrou ao abraçá-la, e Hinata assentiu, rindo.

Vendo a garota se afastar, Naruto voltou-se para Sasuke, acompanhando-o até a sombra, onde colocariam toda a comida. Estava calor o bastante para nadarem, e logo estaria se livrando da camiseta.

— Como ela está? – o Uchiha perguntou. Naruto sentia-se bem sabendo que seu melhor amigo realmente se importava com sua namorada.

— Muito bem, Teme. Ela é incrível. – a fitou com uma espécie de adoração comedida – Já se adaptou muito bem, e o dr. Sakoto disse que ela está perto de 100%. É inacreditável. – confessou, assombrado.

— Eu imagino. – assentiu, compartilhando do sentimento – Já falou com ela? – o loiro fez uma careta, lembrando-se do assunto.

— Ainda não. – suspirou – Não achei o momento certo.

— E quando seria? Quando o semestre começar? – provocou, levando um tapa no braço – Ei!

— Preciso de tato, ok? Ela pode querer morar com Hiashi e a mãe. – mordeu o lábio.

— Tenho certeza que não. Ela vai aceitar, cara. E vocês vão poder voltar para Rokko nas férias.

— Duvido que a dona Kushina queira ficar sozinha naquela casa gigante. Ela vai comprar alguma coisa na capital, perto do Nagato também.

— E seu pai? – Sasuke terminou de esvaziar a bolsa e puxou uma latinha de energético.

— Mal ficava em casa mesmo. – rolou os olhos – Está animado com a ideia de morar perto do trabalho e da minha mãe.

Muita coisa ainda precisava ser consertada, mas estavam no caminho certo.

O senador pareceu ponderar suas escolhas de vida por algum tempo – Naruto, ocupado demais no hospital, também não foi para a empresa, mas soube, através de algumas fontes confiáveis, que as ações foram consideravelmente valorizadas depois do seu pequeno surto. Nagato confidenciou, um dia, que Minato estava ligeiramente empolgado, lidando com reuniões o dia todo, convencendo a todos de que estava orgulhoso do filho mais novo e da bondade em seu coração.

Quando voltaram a se encontrar, durante a reunião dos acionistas, o Namikaze não interrompeu Naruto enquanto ele explicava suas diretrizes. Não se falaram, mas, quando o garoto voltou para pegar alguns papéis em sua sala, a placa de identificação havia sido trocada, agora dizendo Uzumaki Naruto. Ele engoliu em seco, sorrindo um pouco.

Talvez desse certo. Talvez.

Virou-se, procurando por Hinata com os olhos. Ela estava perto das garotas. Ergueu o braço, acenando. De longe, ela correspondeu, e Naruto sabia que estava sorrindo.

Hinata baixou o braço, incapaz de desfazer o riso que deixava suas bochechas doerem. Simplesmente não conseguia parar.

Estava tão feliz.

— Hina, seu vestido é lindo! – Ino elogiou, admirando a saia esvoaçante.

— Obrigada! – agradeceu – É um passatempo que eu descobri. Amo ficar escolhendo roupas. – confessou, e as garotas riram com ela.

Entre muitas outras coisas, Hinata descobriu uma paixão por costurar, personalizar, comprar e combinar roupas.

Era como se tivesse nascido de novo.

Descobriu tantas coisas que amava. Como ajudar sua mãe a cozinhar, e decorar os pequenos bolinhos com calda colorida. Amava pintar cadernos de desenhos, separar contas de artesanato – era realmente boa nisso –, assistir desenhos para ler as legendas em inglês, para aprender uma língua nova, digitar documentos para Hiashi. Cada pequeno passatempo somava-se a uma nova Hinata, que, encantada, vivia a vida como se nunca tivesse visto nada.

E, de certa forma, realmente não tinha.

Com muito tempo livre, dr. Sakoto – e seus pais – a fizeram ficar em repouso quase absoluto. Podia treinar a visão um pouco por dia, mas, quando Naruto invadia seu quarto de madrugada, ela sempre trapaceava, com as luzes acesas e ele lhe mostrando catálogos de cores, como os de tintas que Kushina usava. Eram suas partes preferidas do dia.

Havia tanto para aprender. Tanto para descobrir. O mundo era uma tela em branco, e Hinata, agora, conhecia as cores com as quais gostaria de pintá-lo.

Como tinha imaginado, as cores eram, realmente, a melhor parte. Ela chorou quando conheceu o azul do céu pela primeira vez. Era claro, contagiante, mas de uma maneira tranquila. Não gostava muito de marrom, mas amava o cinza dos dias nublados. As nuvens brancas eram deslumbrantes, assim como o violeta de suas íris – e como ela entendia quando Naruto a elogiava.

Depois de alguns dias, talvez duas semanas, já era capaz de ficar com os olhos abertos durante todo o dia, sem que lacrimejassem ou incomodassem. Hiashi insistiu que ela ficasse no quarto, mas, depois de um tempo, Hinata bateu o pé, e ele deixou que ela explorasse a casa – era enorme, com muitos cômodos e móveis planejados. Ela também gostava de aprender o nome de tudo.

Sentia-se como uma criança novamente, descobrindo o mundo. Era fantástico, quase surreal.

— Nós vamos mesmo ficar fora da água com esse calor? – Sakura reclamou, já puxando a blusa por cima da cabeça. Hinata amou seu biquíni amarelo, com detalhes em rosa nas alças. Cada detalhe contava.

Foi suficiente para todos seguirem seu exemplo. A Hyuuga retirou o vestido, corando um pouco ao se lembrar de certas cenas com aquele mesmo movimento – Naruto era um caso perdido e um pervertido –. Deixou seu maiô a mostra, todo azul. Talvez aquela fosse sua nova cor preferida. Hiashi parecia querer recompensar o tempo perdido, de alguma forma, e lhe deu passe livre com o cartão de crédito. Ela e Hiromi passaram uma tarde incrível no shopping, enquanto ainda estavam na capital.

Ino esperou até que ela tivesse guardado todas suas coisas, e estendeu as mãos para segurar seu braço. Com cuidado, a levou para a beira da água. Hinata agradecia imensamente pela ajuda que todos estavam lhe dando – em outros tempos, acharia o excesso de zelo desnecessário e irritante; mas Hinata era amada, e sabia que todos só estavam preocupados.

A água molhou seus tornozelos, e ela estremeceu. Não levou muito tempo até que se acostumasse com a temperatura, e seguiu as meninas até o outro lado do lago, com uma pequena nascente. Tomou cuidado para não molhar o rosto, nem os olhos, mas não deixou de se divertir. Ainda amava a água, e não via a hora de voltar a nadar.

Imaginava como seria a sensação. Passou dias sonhando com aquele próximo momento. Mergulhar, nadar com toda sua força, usando óculos de natação, enxergando debaixo d’água. Se já era boa quando não via – bater o recorde nacional não lhe deixava ser simplesmente humilde quanto a isso –, como seria com visão?

A natação era seu próximo grande passo, e já tinha conversando com os médicos sobre a possibilidade. No próximo mês, já poderia tentar, mas longe do cloro, por enquanto. Estava ansiosa. De certa forma, foi o esporte quem lhe abriu tantas portas.

Foi como conseguiu uma bolsa na Universidade de Tóquio.

Bolsa integral para Ciência Empresarial.

As coisas tinham mudado, afinal.

Hiashi não escondera suas motivações, nem por um instante. Disse como gostaria que ela se tornasse sócia das empresas que administrava, e como a achava competente para ser sua próxima herdeira, junto com seu irmão mais novo – Neji –. Hinata pensou no assunto, e também conheceu uma das centrais. Conheceu as pessoas, o que elas faziam, a quantidade de dinheiro e ações envolvidas. Era confuso, mas também era interessante.

Por fim, Hinata aceitou enviar uma carta de requisição para o curso. Ainda tinha planos – um mestrado em Psicologia, planos para novas bolsas patrocinadas, o avanço da pesquisa na área de doenças oculares. O poder que teria para mudar as coisas era inimaginável, e ela queria isso.

Mas grandes mudanças estavam por vir. Sakura iria para Quioto, e Ino para Osaka. Gaara tinha conseguido uma vaga em uma faculdade na América, e partiria em breve. Até mesmo Kiba iria para outro estado. Shikamaru ficaria em Tóquio, mas se inscreveria no próximo semestre. Por outro lado, ficou feliz quando soube que Sasuke não apenas cursaria a mesma universidade, como o mesmo curso que ela. Estava se preparando para assumir as empresas da própria família.

Naruto ainda não tinha dito nada.

Todo o mistério a deixava, sinceramente, irritada. Ela não aguentava mais fazer planos no escuro, mas o garoto fugia do assunto sempre que perguntava. Nem Sakura, nem Sasuke, disseram algo, disfarçando.

Hinata amava Naruto. Amava tanto que doía. Cada célula do seu corpo ansiava por estar com ele, perto dele. Ouvir sua voz, sentir seu cheiro. Ver Naruto. Embora soubesse que nem mesmo faculdades em estados diferentes seria capaz de impedir seu relacionamento, a mera possibilidade a deixava com o estômago embrulhado. O que ele planejava para o futuro?

Teriam alguma chance juntos?

— Nossa, eu devia ter comido alguma coisa antes de entrar, estou faminta. – Ino reclamou. Sakura tinha mergulhado para molhar o cabelo, mas Hinata ficou de pé, com a água em sua cintura, tomando cuidado com o rosto.

— Eles não vão comer tudo. – Sakura respondeu – Eu acho. – riram.

— Nós trouxemos bastante comida. – Hinata assegurou. As meninas aglomeraram ao seu redor, todas sorrindo. Ela realmente gostava das amigas que tinha feito ao entrar na Academia.

— Nem acredito que semana que vem não estaremos mais juntas. – a Haruno suspirou, um pouco melancólica – Eu vou entrar no curso preparatório de medicina, a Ino vai fazer um teste para uma academia de dança e a Hina vai fazer ciência empresarial aqui em Tóquio! Quer dizer, isso não é louco? Estamos indo para a faculdade.

— E só vamos poder nos encontrar nas férias. – Ino choramingou. Hinata riu, tentando conter as lágrimas – A Hina foi a que se deu melhor. Vai ficar com o namorado gostoso e está na mesma sala do Sasuke! – provocou, livrando um pouco o clima de despedida.

— Hina, vai ser sua obrigação ficar de olho no meu namorado! – Sakura implorou, mas todas estavam rindo. A morena assentiu, divertida. Estava feliz pelo casal ter se entendido, de alguma maneira.

— Sim, senhora! – entrou na brincadeira, mas seu sorriso vacilou – Mas não sei se eu e o Naruto vamos mesmo ficar juntos. – enrolou um dedo no cabelo, hesitante – Quer dizer, ele não me disse nada até agora. Acho que vai para outra cidade, ou alguma coisa assim. – suspirou.

— Deixa de ser boba, menina! – Ino protestou – Ele é louco por você, duvido que vá para qualquer lugar longe da onde você esteja. Além disso, o pai dele trabalha na capital, e o irmão também. Nem faria sentido. – opinou a loira.

— Olha, Hina. – Sakura se pronunciou – Acredita em mim, o Naruto vai falar com você. Eu não sei muitos detalhes também, só o Sasuke, e ele não quis me contar. – fez careta – Mas acho que ele está se preparando para alguma coisa. E eu concordo com a Ino, o garoto é totalmente adestrado. – rolou os olhos, e Hinata corou.

O clima se tornou mais leve, e Hinata tentou esquecer aquele assunto. Afinal, aquela era a despedida de seus amigos, e queria aproveitar ao máximo. Não demorou até que Gaara se juntasse a elas, trazendo comida, e até Shikamaru entrou na água, embora parecesse estar cochilando. Naruto ficou na beira, sem entrar, acariciando os ombros de Hinata distraidamente. Seu toque era suficiente para fazê-la esquecer de tudo, e todos.

Tudo estava bem.

A garota fitou o rosto de cada um de seus amigos. Sua família. As pessoas que a aceitaram como ela era, com ou sem visão. Agora, era capaz de olhar seus rostos, ver seus detalhes, gravá-los em sua memória. Lembrar-se deles. E Hinata nunca esqueceria.

Desejou ter tido mais tempo com eles, mas, quando voltou para a Academia, mal teve tempo de colocar o conteúdo em ordem. Tsunade foi realmente compreensiva, concordando em lhe dar aulas particulares, e todos os professores ajudaram. Ela teve intensivos, testes e provas a mais, para conseguir, ao mesmo, fazer as provas de admissão.

Todas as universidades onde se inscreveu foram complacentes com a situação. Seu currículo era impressionante, e ganhou quatro cartas de recomendação de grandes nomes da Academia Canadense. Tóquio foi a primeira a aceitá-la, e, estando perto da mãe e de Hiashi, não precisou considerar outras.

Ainda teria que estudar muito nas férias, principalmente as matérias do primeiro semestre. Ler – realmente ler, com letras – ainda a confundia um pouco, mas todos eram pacientes, e ela tentava aprender rápido. Compensar o tempo perdido.

Mas conseguiu terminar a tempo da formatura, e participou da cerimônia. Foi lindo, é claro – Hiromi chorou mais que qualquer pessoa no salão, quando chamaram o nome de Hinata. Ela viu, viu, todos seus amigos, e seus professores, e um diploma com seu nome. Foi um momento emocionante.

E, desde então, o tempo pareceu andar tão rápido.

— Ei, princesa, quer ir embora? – Naruto sussurrou em seu ouvido, já no fim da tarde. Muitos dormiam, conversavam baixinho, ou assistiam o céu mudar de cor. Hinata estava entretida, secando no sol, vendo as cores se misturarem. Estava em paz, mesmo com o coração apertado.

— Claro. – assentiu. Estavam hospedados na casa de Naruto, em Kobe, até que Hinata voltasse para a casa de Hiashi, em Tóquio, onde Hiromi estava também.

Levantou-se, e Naruto colocou o robe em seus braços. Ela revirou os olhos, sorrindo. Ele era superprotetor. Já tinha se despedido de Gaara, que viajaria aquela noite, e Tenten apenas passou para cumprimentá-los. Sakura e Ino a abraçaram por cinco minutos, e algumas lágrimas caíram.

— Prometa que iremos nos falar todo dia! – exigiram, e Hinata riu.

— Eu prometo. Chamadas de vídeo! – garantiu. Depois, abraçou Shikamaru, e Sasuke, mais rapidamente.

Pegaram as bolsas, e voltaram pela trilha, de mãos dadas. Foram em boa hora – mais um pouco e ficaria escuro demais para caminhar com segurança, e Naruto surtaria, com certeza.

— Você gostou de vir hoje? – o loiro perguntou.

— Com certeza. – confirmou – Foi ótimo passar um tempo com as meninas, e relembrar tudo. Vou sentir muita falta delas. – suspirou.

— Eu sei, amor. Também foi sentir falta de todo mundo. Eles eram uns canalhas, mas eu amo eles. – brincou, arrancando uma risada deles – Agora, cada um vai para um lugar.

— Sim. Outros estados, até outro país! E outros vão ficar em Tóquio. – arriscou, para ver sua reação. Naruto não comentou nada, e ela reprimiu um resmungo. O nervosismo estava voltando.

Quando chegaram no carro, Naruto guardou tudo no porta-malas, e correu para abrir as portas do conversível para Hinata, que corou. Ele era um perfeito cavalheiro. E lindo. Atencioso. Inteligente. Dedicado. Audacioso. Incrível.

Pensar em tudo poderia acabar apenas não parecia certo para ela.

O caminho foi silencioso. Hinata gostava de ver as luzes, e admirar tudo com o vento no cabelo. Mantinha uma das mãos na de Naruto, e ele soltava apenas quando mudava de marcha. Seus dedos eram macios, e sempre cobriam os dela. Ela também gostava de admirar isso.

Quando chegaram, não era mais que sete horas, mas, por algum motivo, Hinata estava exausta. Passaram pelo hall, cumprimentando Chiyo, que mal se importou em constranger o casal – já estava acostumada com eles, àquela altura. Hinata praticamente tinha se mudado para lá, depois que teve alta.

Subiram para o quarto de Naruto – ninguém se daria ao trabalho de fingir que Naruto obedeceria qualquer regra que fosse, e escaparia para a cama de Hinata assim que tivesse a chance. Em vez disso, Kushina lhes deu um sermão sobre responsabilidade, e depois ajudou Hinata a arrumar uma gaveta de roupa no armário do Uzumaki.

— É tão cedo, eu me sinto uma velha. – reclamou, enquanto pegava todos os produtos para lavar os olhos. As vezes tinha preguiça, mas Naruto era teimoso e sempre a obrigava.

— Você fez muito esforço, amor. Vamos descansar um pouquinho e se der fome nós roubamos alguma coisa na cozinha.

Entraram no banheiro juntos. Naruto se despiu para tomar um banho, enquanto Hinata se inclinava na pia e pingava colírio. De rabo de olho, espiou o loiro pelo espelho. Sorriu sozinha, enquanto admirava a coleção de gominhos e músculos que compunha o deus grego que era seu namorado. Quer dizer, Hinata realmente podia aproveitar aquele corpo, agora. E, embora ele sempre seja cuidadoso, cada toque, cada beijo, cada momento era único. E quente.

Mas não havia nenhum contexto sexual. Naruto tomava uma ducha, e Hinata seguia suas rotinas de limpeza. Juntos. Conversando, rindo, dividindo o mesmo banheiro – embora fosse um banheiro bem grande –. Como um casal.

Aquilo era tão normal, tão corriqueiro. Hinata conseguia vê-los fazendo isso por anos. E o bolo em sua garganta voltava, porque ela não estava pronta para abrir mão dessa parte da sua vida ainda.

Quando terminaram, voltaram para o quarto. Naruto tomou cuidado para que ela não tropeçasse nas roupas do chão, que ele sempre deixava ao se despir pelo caminho – Hinata não se importava, porque gostava da sensação dos braços do garoto em suas costas.

A enorme cama de dossel era confortável, e gigante – mas, de alguma maneira, Hinata terminava se aconchegando nos braços de Naruto. Ele a abraçava com força, junto de seu corpo, e ficava acariciando seu cabelo até cochilar. Era assim desde o hospital, quando os médicos deixavam que ele ficasse.

— Quer que feche a janela? – Naruto perguntou, distraído. Com as cortinas balançando, as luzes da varanda entravam para o quarto. Eram amarelas, azuis e alaranjadas.

— Não. Eu gosto. – murmurou, acariciando o peitoral nu com a ponta dos dedos – É incrível, não é? – comentou.

— Eu não teria reparado, até você dizer. – Naruto respondeu, sincero. As pequenas coisas nunca pareceram importantes para ele. A maneira que a lua entrava pelo parapeito. As letras miúdas. Os traços de tinta em quadros que ele não parava para admirar – Você mudou tudo.

Hinata virou o rosto para cima. Para olhá-lo. Naruto a fitava com um brilho no olhar que ela simplesmente não conseguia descrever. Era tão intenso – uma vez, ele tinha lhe dito que seus olhos refletiam todos os sentimentos que tinha por ela. Amor. Admiração. Zelo. Paixão.

Quantas coisas ela tinha perdido, apenas com um olhar.

— Eu amo a cor dos seus olhos. – sussurrou. Naruto engoliu em seco, virando-se apenas para aproximar seus rostos. Não sabia o que dizer – É minha cor preferida. Azul. O seu azul.

Será que Naruto, um dia, ouviria palavras tão lindas quanto aquelas?

— Não é meu. – murmurou, com a voz rouca – É seu. Seu azul. Sou seu, Hinata. – ela fechou os olhos. Ver era bom, nada sentir a intensidade que vibrava de Naruto; não havia nada igual – Seu para sempre.

Hinata abriu os olhos, para encará-lo.

— O que vai acontecer com a gente? – finalmente perguntou. Sua voz saiu fraca.

Naruto franziu a sobrancelha, afastando-se um pouco.

— O que quer dizer? – ficou confuso, por um momento.

— No... no próximo semestre, com a faculdade. Ainda não sei que você pretende, não sei se... se vai ficar, ou... – gaguejou, se perdendo nas palavras. Empurrou algumas lágrimas para dentro.

— Ah. Isso. – suspirou, quase parecendo aliviado. Abriu um sorriso, enquanto Hinata mantinha o rosto confuso, baixo – Há quanto tempo vem pensando nisso, meu amor?

— Co-como assim? – desvencilhou-se dos braços de Naruto, sentando-se na cama. Ele a imitou, parecendo achar graça.

— Hinata. – soltou uma risada, segurando o rosto em sua mão. Hinata inclinou-se, como se procurasse mais pelo toque – Meu amor. Eu não disse nada porque não sabia como pedir. Não sabia se estava pronta. Mas se soubesse que estava com essas preocupações na cabeça... — deixou a frase morrer, rindo de novo.

— Não estou entendendo, Naruto. – começou a ficar irritada.

— Hina, eu entrei para a faculdade de Tóquio também. – o coração de Hinata falhou uma batida – Em Ciência Empresarial.

— O... que? – estava verdadeiramente confusa.

— Eu fui aceito. – deu de ombros, sorrindo largamente – Bolsa de esportes. Vou entrar para o time de judô. Sasuke esteve me ajudando a... – parou, hesitante – A encontrar um apartamento.

— Uau. – suspirou – Nossa, eu... parabéns. – estava um pouco atônita.

— Hinata. – Naruto revirou os olhos. A garota imaginava que ele fazia muito isso; um hábito – Não disse isso para te impressionar. – sua voz estava um pouco sarcástica, mas logo ele suspirou. Parecia um pouco mais pálido – Tudo bem, aqui vai: eu quero que você more comigo.

Que?

— Que? – repetiu em voz alta, pega totalmente de surpresa. Suas mãos teriam caído na cama, se Naruto não as tivesse entre seus dedos. Ele sorria hesitante – Calma, o que?

— Foi por isso que eu demorei tanto para falar. Estava criando coragem para perguntar se você queria morar comigo. Nós ficaríamos em um apartamento perto do campus, e você teria todo o acompanhamento médico, e perto das empresas dos nossos pais, e eu tenho carro. Claro, eu também vou entender se você quiser continuar com a Hiromi e Hiashi, ou se sentir mais segura na casa deles. Se não estiver se sentindo pronta para dar esse passo eu não vou ficar triste, eu vou continuar do seu lado te apoiando com o que for, eu-

— Shhh. – Hinata colocou o indicador contra os lábios de Naruto, apertando e interrompendo o monólogo nervoso. Enquanto o loiro aguardava, ansioso, Hinata abriu um sorriso lentamente – Seu idiota. É claro que eu aceito.

— Você me chamou de idiota? – resmungou contra o dedo dela, mas também abriu um sorriso.

A garota se inclinou, puxando o rosto do Uzumaki contra o seu. O beijou com paixão, tentando fazer com que ele entendesse todo o amor que estava sentindo naquele momento. Era tão grande, tão intenso, que não conseguia manter dentro de si.

Quando se afastou, a primeira coisa que viu ao abrir os olhos foi o azul intenso que a encarava. Mesmo um cego veria o tamanho do sorriso de Naruto. Brilhava, como uma pedra preciosa.

— É verdade mesmo? – sussurrou – É real? Não estou sonhando, não é? Fantasiando tudo isso?

— Meu amor, nem ilusão, nem sonho, nem quimera. – Naruto riu – Eu, Uzumaki Naruto, amo você, Hyuuga Hinata, e essa é a realidade. Um fato, que nada, nem ninguém, pode mudar.

E a beijou novamente, apenas para garantir.

Notas finais
50 capítulos. 200k de palavras. Centenas de acompanhamentos e comentários. Um milhão de momentos. Quando eu comecei essa fic, eu tava entrando na faculdade. Hoje, eu to saindo. Já escrevi Quimera na casa dos meus pais, no meu apartamento, em outro apartamento, de novo na casa dos meus pais. No onibus, no trabalho, no celular, no computador, na aula. De madrugada, de dia, de noite. Vocês acompanharam Quimera, mas Quimera me acompanhou. Uma nova escritora, uma nova pessoa. Novas ideias, nova escrita. Desde a primeira virgula até a última, eu me encontrei de novo. Faria algo diferente? Talvez. Mas o que eu posso garantir com certeza: é o fim de um ciclo, e eu estou triste, mas também muito feliz. Para você que acompanhou, fielmente, toda a nossa história: meu muito obrigada. Quimera não teria chegado ao fim sem você. Meu muito, muito, MUITO obrigada. Nos vemos por aí. Com todo o amor do mundo, Ero Hime.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!