Quietude

13 Capítulo 13


Bucky coçou a pele rosa e sensível da junção de seu ombro com o braço de metal. A coceira vinha incomodando-o há alguns dias, mas era uma evolução em comparação à dor aguda cada vez que ele tentava algum movimento.

— Você vai se machucar se continuar fazendo isso — Steve advertiu após a terceira vez que ele cravou as unhas na carne, sem sequer encará-lo.

Estava recostado sobre o saco de boxe do outro lado do aposento, esboçando uma pintura em que Sam aparecia com um bico de falcão e penas muito realistas. Bucky bufou em resposta ao seu comentário, mas logo deixou a postura enfadada e aproximou-se.

Steve desviou os olhos do desenho, acompanhando os movimentos do outro enquanto ele abria espaço entre rascunhos e gizes de cera para se sentar ao seu lado. Com um gesto displicente, Bucky estendeu a mão para a tinta esmalte vermelha, girando-a entre os dedos da mão esquerda. Em seguida, ele ofereceu o recipiente para Steve.

— Você pode pintar a estrela no meu braço?

O Capitão arregalou os olhos.

— Achei que você queria esquecer qualquer relação com a HYDRA — falou, porém Bucky balançou a cabeça.

— Se não fosse tudo o que a HYDRA me fez eu já estaria morto Steve. Nunca teria vivido tanto tempo quanto você se fosse um cara normal, não teria te reencontrado — ele disse e, então, tomou fôlego. — Também é mais fácil quando as coisas são familiares.

Steve sentiu a enorme culpa por não ter ido atrás do outro quando ele caíra daquele trêm fechar sua garganta. Ao mesmo tempo, não tinha certeza se teria coragem de se lançar contra uma geleira se soubesse que Bucky estava vivo. E, assim, não haveria reencontro, mas toda uma vida passada em outras décadas.

Tinha custado muita dor, mas Steve apreciava o fato de estarem os dois ali, em dois mil e dezesseis.

Fitou a tinta em suas mãos por um longo segundo, antes de voltar a encarar o Soldado.

— Tem certeza?

O outro anuiu.

— Por favor.

Steve suspirou, deixando de lado o lápis carvão e escolhendo um pincel entre os materiais espalhados ao seu redor. Um cheiro acre tomou o ar quando ele abriu a tinta, vermelha como sangue.

— Venha cá — pediu.

Bucky assumiu o espaço à sua frente, meio recostado em seu joelho esticado. Em silêncio, o Capitão traçou o contorno da estrela. Bucky se encolheu um pouco diante da pressão do seu toque, mas não se esquivou.

Devagar, Steve fez a tinta correr pelo metal, sentindo a quentura da pele do outro e o peso daquela proximidade. Seu escudo estava apoiado na parede, ao lado da televisão, e de vez em quando o Capitão lançava olhares para ele a fim de tomar as proporções da estrela. Ao terminar, um desenho poderia completar o outro.

— Está pronto — anunciou. Bucky sorriu, contorcendo-se o máximo que o machucado em cicatrização permitia para tentar ver o desenho. No processo, as costas dele apoiaram-se ligeiramente sobre o seu torso.

Aquele tipo de contato tinha se tornado raro nas últimas semanas, pois a conversa que tivera com Natasha havia tornado as coisas muito mais complexas. Existia tanto o que ele queria perguntar para Bucky, saber se tinha sido tolo durante todo o tempo ou se estava sendo tolo naquele instante, contar a ele que “até o fim da linha” tomara um sentido muito maior do que deveria ter originalmente; mas, ao mesmo tempo, não sabia o que dizer.

Existiam outras alternativas, no entanto.

Mesmo nas poucas vezes em que chamara uma garota para sair, suas mãos não haviam suado tanto quanto naquele momento. Ainda assim tocou o rosto de Bucky, guiando-o para si. O capitão respirou fundo. De alguma forma o que estava prestes a fazer demandava mais coragem do que enfrentar uma guerra.

Muito lentamente, Steve aproximou-se do outro, dando a chance para que ele se afastasse se quisesse. Mas Bucky não se afastou, e quando seus lábios se tocaram foi estranho e doce.

Quando se deu conta, o Soldado estava beijando-o de volta, meio desesperado, tomando tudo o que podia, como se aquilo fosse um sonho que desvaneceria no segundo seguinte. Achava que o outro iria corresponder, mas não esperava que fosse daquela forma, sem hesitação ou reservas. Steve deixou que Bucky passasse as mãos por suas costas, ao mesmo tempo em que pousou os dedos sobre a cintura dele.

Levou um longo tempo até o beijo cessar, porém Bucky não se apartou quando isso aconteceu. Steve entrelaçou os dedos no cabelo dele, acarinhando-o quando o outro descançou a fronte sobre sua clavícula.

— Você está bem? — perguntou, inseguro, porém logo sentiu o Soldado aquiescer.

— Sempre achei que seria eu a fazer isso.

Steve riu diante daquela resposta, permitindo-se se sentir um pouco aliviado.

— Devo pedir desculpas?

— Não se atreva — Bucky negou. — Há quanto tempo você quer isso?

— Muito. E você?

— Quase a vida toda.

As provocações de Tony sobre sua inocência de repente pareceram muito merecidas.

— Você pretendia me dizer algum dia?

Bucky levantou o rosto, voltando a mirá-lo e balançando os ombros. A estrela recém pintada em seu braço reluziu com o movimento.

— Talvez; tinha planos para contar quando você fosse velho e fosse seguro.

Oh, como sempre, Bucky tentara protegê-lo a todo custo. Mas ele era velho agora, o mundo já não se importava tanto com dois homens se beijando e, de qualquer forma, tinha aprendido a brigar.

— Já sei me cuidar.

O Soldado deu um ligeiro suspiro, concordando.

— Eu não teria correspondido se não tivesse certeza disso disso — ele falou, levando a mão direita aos lábios. — Só me ajude a não deixar ninguém apagar essa memória, Stevie.

O Capitão percorreu um caminho ascendente pelo braço de metal, contornando-o com a ponta dos dedos até chegar no rosto de Bucky, acariciando sua bochecha e resvalando em sua boca, sentindo-se arrepiar com o gesto.

Definitivamente, aquela era uma promessa que podia fazer.

Notas finais
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!