Quietly Musical

1 Prólogo: "When will my life begin?"


Notas iniciais
Eu estava doida pra escrever uma fanfic da Seleção e já tenho essa toda esboçada, então espero que gostem. A música desse capítulo é "When will my life begin?" de Enrolados.

Acordei de manhã com o som de passos suaves ecoando. Ainda me sentia um pouco grogue, por ter acabado de acordar, mas logo me toquei. Ninguém nessa casa acordava mais cedo do que eu, na verdade, eu acordava todo mundo. Por isso, me forcei a rolar para fora da cama, como todas as manhãs, e me dirigi para o corredor, procurando que havia me despertado. Esperava que fosse a mamãe ou o papai, mas eu não esperava pelo que eu vi.

– May? – Questionei, olhando para minha irmã mais nova que já havia chegado na sala. – O que você está fazendo acordada? Geralmente eu tenho que te jogar da cama.

– Mia. – Ela me deu um sorriso torto e nervoso, seus olhos se dirigindo para a porta. Entendi o que estava acontecendo.

– May! – A puxei cuidadosamente pelo braço, se tivesse sequer uma marca em seu braço nossa mãe me matava. – Você não pode ir lá pra fora. Você sabe que não!

– Mas, America... – Ela começou, mas logo a interrompi.

– E não me chame de America, você sabe que eu não gosto desse nome. – Respondi friamente. Sentia-me culpada por agir assim com minha irmã mais nova, mas era um mal necessário. – Agora, o que te possuiu pra tentar sair de casa?

– Hoje é o festival para o aniversario do Príncipe Maxon e eu queria ver como estão as preparações. – Respondeu lentamente, sabia que ela não queria me deixar mais raivosa do que já estava.

– Não importa! Você poderia ter se arranhado e se batido! E quem contrataria uma Cinco machucada? Quer morrer de fome? – Repeti as palavras que mamãe havia martelado em nossas cabeças desde pequenas.

– Eu sinto muito, Mia, mas nunca saímos de casa... – May murmurou e vi lágrimas começarem a se formar em seus olhos. Suspirei, nunca conseguia ficar irritada com minha irmã por muito tempo.

– Mas é necessário, querida. – Falei gentilmente, limpando uma das lágrimas que tinha caído. – Agora vamos, são quatro e meia da manhã! Ou seja, agora dá tempo de tomar banho antes de começarmos nossas tarefas. – Ouvi minha irmã grunhir, mas logo a direcionei para o banheiro. – Vamos, vá se arrumar.

Assim que May se foi (batendo o pé com força no chão, não se importando se iria acordar Gerard), desabei no sofá. Me sentia exausta: sempre acordava nesse horário e dormia relativamente tarde, então ainda fico surpresa que não tive um colapso. Olhei para fora da janela, quando vestígios do sol estavam começando a se formar. Entendia May, eu também adoraria ir lá fora, falar com os vizinhos, ver as crianças brincarem, participar do coral Nicholal e simplesmente andar pelas ruas. Mas não posso, isso deixaria mamãe louca.

Pensei no que minha irmã queria ver. Hoje seria o festival anual para o aniversario do Príncipe Maxon: acontecia em todas as províncias e hoje o coral Nicholal iria se apresentar. Esse ano seria ainda mais especial, já que o príncipe estava fazendo dezenove anos: a idade onde começava sua Seleção. Ou seja, seria o maior festival de todos os tempos... E eu não podia ir. Não podia nem sair de casa, a não ser que eu estivesse agendada para um trabalho.

Minha mãe... Sempre teve esse problema, pensando que nos machucaríamos se saíssemos de casa e com machucados ninguém nos contrataria e morreríamos de fome. Me lembre bem de quando eu era menos, lutava muito contra isso, me rebelava, saia de casa escondida, mas eu não faço mais isso. Não posso mais. Mas May, como não entendia, fazia, deixando mamãe louca. Me levantei, indo pegar nossas roupas para já estar tudo pronto quando May sair do banheiro.

Coloquei os vestidos em cima da cama. O maior era verde e o menor era azul, com mangas curtas e saias até abaixo do joelho. Eu não gostava muito de vestidos, mas fazíamos nossas próprias roupas: mais barato e fazer calças e blusas gastava mais pano. Tirei nossas sapatilhas gastas de debaixo da cama, deixando tudo pronto.

– Acabei. – May saiu do banheiro, seus corpo enrolado por uma toalha ainda pingando. Suspirei, sabendo que teria que limpar o chão novamente.

Assim que terminei meu banho e saí do banheiro, vi que May estava penteando seus cabelos, encarando a janela. A luz do sol fazia sua pele brilhar, seus cabelos vermelhos se tornavam fogo e seus olhos pareciam pedras preciosas. De qualquer modo, fechei as cortinas, deixando o quarto escuro novamente. May me lançou um olhar de apreensão.

– Você sabe que o sol faz nossas sardas ficarem mais escuras. – Falei, começando a me vestir. – E sabe como a mamãe não gosta das nossas sardas.

– Mamãe não gosta de nada legal. – Minha irmã murmurou, passando a mão pelas sardas em seu nariz e bochecha. Fiquei calada, não gostava de minhas sardas, mas qualquer palavra poderia deixar May ainda mais chateada comigo e não era isso que eu queria.

– Vamos. – Puxei seu braço com cuidado, a direcionando a porta enquanto tentava pentear meus cabelos e colocar meus sapatos ao mesmo tempo. – Temos que nos apressar.

– Por quê? Não vamos sair daqui mesmo.

– Ainda temos muito pra fazer hoje, May. – Lhe dei um sorriso, poderia mostrar quantas coisas ainda tínhamos para fazer dentro de casa.

7 AM, the usual morning lineup
Start on the chores and sweep 'til the floor's all clean
Polish and wax, do laundry, and mop and shine up
Sweep again, and by then it's like 7:15

07:00, a programação matinal
Iniciar nas tarefas e varrer até p chão estar todo limpo
Polir e encera, lavar roupa e passar pano até tudo brilhar
Varrer de novo, e então já é tipo, 07:15

Começamos com nossas tarefas: eu varri o chão, enquanto May começava a lavar as roupas sujas. Depois, polimos tudo o que podíamos, passamos pano no chão, tiramos o pó dos vasos mais antigos. Arrumamos nossos instrumentos, ajeitamos o estúdio de pintura de May, arrumamos os brinquedos de Gerard e, claro, varremos o chão novamente. Logo, nossa casa estava perfeita.

– Viu, matamos pelo menos algumas horas. – Sorri para May enquanto nós duas bufávamos. Ela me deu um olhar irritado e apontou para o relógio.

Cinco e quinze. Oh.

And so I'll read a book
Or maybe two or three

E então eu vou ler um livro
Ou talvez dois ou três

– Podemos ler alguns livros. – Lhe dei alguns livros sobre a arte da Nova Ásia e peguei uns três para mim sobre a música japonesa da Nova Ásia. Era geralmente essas músicas que o coral gostava de apresentar e eu entendia bem o motivo.

– Eu já li todos os livros dessa casa, Mia. – May cruzou os braços, nem sequer olhando para os livros. Suspirei, era obvio que ela não ia cooperar.

I'll add a few new paintings to my gallery

Vou adicionar alguns quadros novos para minha galeria

– Eu não acredito que você me convenceu a isso. – Minha irmã murmurou, pincelando tinta verde em uma tela em branco.

– Você gosta de pintar. – Respondi, imitando seus movimentos. Logo, colocamos nossos pinceis a baixo.

– Você mostra a sua primeiro. – Ela disse e eu assenti, levantando meu quadro.

May caiu na gargalhada e eu sabia muito bem o porquê. Na minha tela estava uma boneca de palitos, com uma desculpa de vestido verde esquisito. Seu cabelo vermelho era apenas linhas verticais que saiam de sua cabeça.

– Cala a boca. – Arfei. Odiava quando zombavam da minha inabilidade em desenho. – Você não deve ter feito muito melhor.

May levantou seu quadro e imediatamente engoli minhas palavras. No quadro, estava uma garota ruiva e esbelta, com um penteado elaborado, sardas claras, bochechas vermelhas e um belo vestido verde. Ela estava com suas mãos atrás das costas e dava um sorriso tímido para nós.

– Está... legalzinho. – Murmurei, cruzando os braços. – Mas o meu está melhor.

– Huhum.

– Cala a boca.

I'll play guitar and knit

Vou tocar o violão e costurar

– O que você está tocando? – May questionou, costurando uma calça nova para Gerard, que já estava precisando.

– Eu não tenho certeza. Nem um nome. Alguma sugestão? – Falei pausadamente, enquanto passava meus dedos pelas cordas.

– Que tal “Quando minha vida vai começar?”, porque eu gostaria de uma resposta sobre isso. – Respondeu, continuando a costurar.

– Haha. – Falei vagamente, sem tirar meus olhos do violão. Internamente, não consegui deixar de pensar que era uma boa idéia.

And cook

E cozinhar

– Bom dia America, May. – Nossa mãe falou ao se sentar. Eu estava fazendo torradas enquanto May exprimia laranjas para fazer o suco. – Podem me explicar porque o café da manhã está- – Ela olhou para o relógio da cozinha. – Cinco minutos atrasado?

– Eu estava criando uma nova música e me distrai. – Respondi desconfortável, o olhar de mamãe me cortando como uma faca.

– Você sabe que não temos tempo para nos distrair, America. – Recuei ao ouvir “America”, todos sabiam que eu não gostava do nome, menos minha mãe.

– Nunca temos. – May murmurou e eu chutei sua perna enquanto nossa mãe não nos olhava. Imediatamente me arrependi. E se tivesse deixado uma marca?

– Sim, mamãe. – Respondi alto e claro. Ela não gostava quando falávamos baixo.

– Bom dia minhas queridas. – Papai chegou no quarto, trazendo Gerard em sua cadeira de rodas, com um olhar distante como sempre.

– Bom dia, papai. – Eu disse enquanto May sussurrou um “bom dia”. Dei um beijo na bochecha do meu pai e me agachei ao nível de Gerard. – Bom dia, irmãozinho. – Dei um beijo em sua bochecha, mas ele nem respondeu, apenas olhou para outro lado.

Engoli o choro, como sempre fazia quando meu irmão fazia isso. Sabia que não era sua culpa, mas eu queria que ele pelo menos falasse uma palavra novamente. De qualquer modo, dei um beijo em sua testa fria (ela estava sempre fria, era assustador) e sorri, saltitando em direção do prato de torradas.

– Quem vai querer tomar café?

And basically
Just wonder when will my life begin?

E, basicamente,
Só me pergunto quando minha vida vai começar?

Then after lunch it's puzzles and darts and baking

Depois do café da manhã é quebra-cabeças, dardos e fazer doces

– Lembre-se, May, não deixe nada queimar. Essa vai ser nossa doação para o festival! – Exclamei enquanto minha irmã fazia biscoitos.

– Então vem aqui fazer! – Ela falou, sua face e avental sujos com massa de biscoitos.

– Estou ocupada.

– Você está jogando dardos.

– E ajudando o Gerard com o quebra-cabeça.

– Eu te odeio.

– Já ouvi essa antes.

Paper mache, a bit of ballet and chess

Papel machê, um pouco de balé e xadrez.

Tentei manter meu corpo em equilíbrio para não cair de cara no chão. Geralmente, nos pediam para dançar junto com nossas apresentações, por isso tinha que treinar um pouco de balé. May estava fazendo suas esculturas de papel machê, que até que nos davam bastante dinheiro. Gerard estava nos encarando, apontando para a mesa de xadrez a sua frente.

– É sua vez de jogar! – May falou, enquanto fazia a escultura do que parecia ser um urso.

– Ok! – Falei no meio de um pirueta. Tentei me mover na direção de meu irmão, mas escorreguei no tapete e caí no chão. Assim que me apoiei na mesa, fiz minha jogada.

Logo após, Gerard fez sua jogada. Eu sabia que, se ele falasse, teria dito “Xeque Mate”.

– Que droga. – Murmurei, deitando no chão.

Pottery and ventriloquy, candle making

Cerâmica e ventríloquia, fazer velas

– Nossa, Gerard, esse vaso está... maravilhoso. – Dei um sorriso torto, olhando a coisa que adivinhei que era um vaso e que meu irmão mais novo segurava.

– Ela mente. Isso está horrível. – May, ou melhor, sua boneca, Lapis, falou, enquanto May tomava um copo de água.

– Isso é perturbador. – Murmurei enquanto acabava com a minha vigésima vela. – Bem, pelo menos a mamãe não vai mais poder reclamar de falta de velas caso caia a energia, não?

Then i'll stretch, maybe sketch, take a climb
Sew a dress!

Então eu vou alongar, talvez esboçar, escalar
Costurar um vestido!

– May, já disse pra parar de pintar a parede. – Reclamei enquanto ela se pendurava em uma corda para alcançar uma parte mais alta da parede. Costurava mais um vestido, já que estava gastando muito os meus enquanto praticava balé.

– Eu preciso de exercício! – Ela respondeu, ainda desenhando.

And I'll reread the books
If I have time to spare

E eu vou reler os livros
Se eu tiver tempo de sobra

– Mia, esses livros são chatos! Eu já li um milhão de vezes! – May exagerou, enquanto se esparramava no sofá, jogando o livro sobre Arte Moderna no chão. Nem Gerard queria mais tocar no seu livro.

Suspirei, mas tinha que admitir: já estava cansada do meu também.

I'll paint the walls some more
I'm sure there's room somewhere

Eu vou pintar as paredes um pouco mais
Tenho certeza que há espaço em algum lugar

– Não tem mais lugar. – Ouvi May murmurar, abaixando seu pincel e tinta.

– Como assim? – Perguntei. Estava esperando para vê-la pintar, queria tentar aprender alguma coisa.

– Não tem mais lugar na parede. Sempre teve lugar na parede. – Parecia chocada, mas eu também estava.

May começara a pintar naquela parede quando tinha cinco anos. Era impossível que já tenha acabado o espaço. Mas se tivesse... A quanto tempo não saímos de casa?

And then I’'ll brush and brush
And brush and brush my hair
Stuck in the same place I’ve always been

E então eu vou escovar e escovar
E escovar e escovar o meu cabelo
Presa no mesmo lugar que eu sempre estive

– Você está penteando seu cabelo a meia hora, Mia. – May falou, mas tinha certeza que ela estava penteando o seu a uns vinte e cinco minutos.

– Eu sei, respondi, eu sei.

And i'll keep wanderin' and wanderin'
And wanderin' and wonderin'
When will my life begin?

E eu vou continuar me perguntando e me perguntando
E me perguntando e me perguntando
Quando minha vida começa?

May e Gerard já haviam cochilado enquanto eu tocava violão, ambos extremamente entediados. Eu também estava e o título de May, “Quando minha vida vai começar”, parecia muito bom agora. Olhei para a minha irmã, ela tinha um espírito tão livre, não merecia ficar confinada, mas era necessário... Mas uma saidinha não faria mal, não? Talvez eu pudesse convencer mamãe... Comecei a dedilhar meu violão novamente.

– Just tonight, the festival will happen here – Cantarolei, tocando o violão. – Just like they do on the prince’s birthday each year . What is it like? Where they sing and dance? Now that I’m older, mother might just... Give me a chance.

Apenas hoje, o festival irá acontecer aqui.

Como fazem no aniversario do príncipe todos os anos

Como é lá? Onde dançam e cantam?

Agora que sou mais velha, minha mãe pode... me dar uma chance (de ir).

– Mãe, eu preciso falar com você. – Assim que minha mãe chegou em casa, eu já estava pronta para argumentar.

– Então, fale rápido, America. Onde estão seus irmãos? – Ela questionou, levantando uma sobrancelha.

– Eles estão descansando, mas esse não é o caso. – Falei, acompanhando seu passo enquanto andava inspecionando a casa. – É sobre... o festival.

– O que tem o festival? Vocês já fizeram os biscoitos, não? – Assenti. – Então, não vejo qual pode ser o problema.

– Eu queria levar May para o festival! – Exclamei rápido, antes de perder a coragem. – Ao ver o rosto de mamãe, logo comecei a adicionar. – Claro, você, papai e Gerard também podem ir e-

– America. – Ela interrompeu antes que eu conseguisse continuar. – O que eu disse sobre sair sem ser para trabalhos? – Engoli o seco.

– Eu sei, mas-

– Sem “mas”. Quer ser machucar? Quer que percamos nossos trabalhos? Quer morramos de fome?! – A voz de minha mãe era rígida o bastante para que eu abaixasse minha cabeça envergonhada.

– Não, mamãe, desculpe por perguntar. – Com isso, minha mãe pareceu satisfeita, indo cuidar dos materiais do jantar.

Me sentei no sofá. Estava com vontade de chorar. Eu sabia que mamaãe não estava sendo justa, mas não conseguia discutir com ela. Não podia a deixar estressada, mas, de qualquer modo, meu lado rebelde exigia que eu fosse lá e gritasse que estava sendo injusta e levar May para o festival de qualquer jeito. Mas não podia fazer isso. Não podia. Não podia.

– America. – Ouvi a voz de May falar ao meu lado, mas não conseguia vê-la. Estava tudo embaçado. Embaçado demais. – Não chora, por favor, podemos ir pro festival.

– Não, May, não podemos. – Respondi, limpando minhas lágrimas. – Você ouviu a mamãe; simplesmente não dá.

– Podemos sair escondidas. – Isso sim chamou minha atenção, limpei meu rosto violentamente, me voltando para May rápido. – Ela não vai perceber, então podemos ir para o festival e podemos dançar e você pode cantar com o coral Nicholal e...

– Não, May. – A interrompi. Minha voz soava rígida e fria, até para mim. – Nós não podemos. Mamãe disse que não.

– Mas ela só está sendo paranóica. Nós não precisamos ouvir-

– Mas eu disse que não. – O silêncio era mais alto do que qualquer coisa que já havia ouvido. May e Gerard me encaravam, seus olhos arregalados. Eu não perdia minha paciência. Eu era sempre gentil. Mas dessa vez minha voz estava irritada, coberta pela irritação que eu sentia a bastante tempo.

– Entendo... – May murmurou, suas mãos formando punhos a seu lado. – Você é que nem ela! Paranoica!

– Não, eu não sou que nem a mamãe!

– Sim, você! Você é igualzinha a ela! – Minha irmã já estava indo em direção a seu quarto, pisando forte.

– Volte aqui agora, mocinha, essa conversa ainda não acabou!

– Sinto muito, mamãe. – Sua última palavra pingava sarcasmo. – Mas eu acho que não vou obedecer. – Com isso, ela fechou a porta com força, de modo que tenho certeza que nossos vizinhos ouviram.

– Arg! – Grunhi, me jogando no sofá e colocando as mãos no rosto. – Por que ela não entende? Não é tão complicado... – Falei, começando a me sentar novamente, mas minha raiva já havia evaporado completamente. Era complicado, sim, principalmente porque May não sabia. – Kenna... Kota... Era assim que vocês se sentiam comigo? – Sussurrei a última frase, sentindo como se fosse chorar.

– Eu ainda acho que vocês deveriam falar pra ela, seria muito mais simples. – Uma voz feminina familiar veio de trás e eu dei um pulo.

– Illex! – Exclamei, logo me arrependendo. Ela odiava ser chamada de “Illex” tanto quanto eu odiava ser chamada de “America”.

– Eu já disse que é Holly, America, ou já se esqueceu? – Fez questão de falar meu nome inteiro.

– Desculpe, Holly, eu estava distraída e- espera, o que vocês está fazendo na minha janela? – Logo percebi que a menina de cabelos castanho-avermelhado estava entrando pela janela da sala, pulando no sofá.

– Oi, Ger, como você está? – Holly perguntou para Gerard, enquanto bagunçava seus cabelos. Se tinha alguma coisa que meu irmão odiava mais do que ser chamado de “Ger” era quando bagunçavam os cabelos que ele passava meia hora arrumando.

– Hum, Holls, o que você está fazendo aqui? Não que eu não esteja feliz em te ver, mas você sabe como a minha mãe é e-

– Nada mais diga, Mia. – Ela me interrompeu, segurando sua mão aberta a sua frente. – Eu vim ver se você ia para o festival. Sabe, podia se apresentar com o Nicholal Chorus.

– Você sabe que eu não vou, eu nunca posso ir. – Respondi, minha amiga sabia muito bem disso. Então, por que perguntava?

– Entendo, então não vai se importar se nós usarmos PONPON no nosso número, não é? – Ela perguntou com voz inocente, olhos verdes brilhando.

– O que?! – Me sentia indignada, ela devia saber que a resposta seria não. – PONPON é meu número, Holly!

– Eu sei e ele é maravilhoso. Por isso queremos usar! – Ela ficou de joelhos, segurando suas mãos juntas a sua frente. – Por favor, Mia! Eu quero ganhar o prêmio de Melhor Coro e Melhor Coreografia esse ano!

Já devia imaginar. Todo ano, a família real mandava juízes pelos festivais que aconteciam em cada província para julgar coisas como “Melhor Doce”, “Melhores Atrações” e outras coisas. Mas quem ganhava o prêmio de Melhor Coro ou Melhor Coreografia aparecia na televisão. E se tinha algo que Illex Aquifolium (agora entendem por que a Holly não gosta de ser chamada pelo nome?) queria ganhar era um desses dois prêmios.

– Tudo bem... – Suspirei. Eu adorava cantar PONPON, era meu número favorito, mas Holly precisava dele mais.

– Ai! Obrigada, Mia! Minha amiguinha do coração! Minha melhor amiga! – Holly griatava, pulando em cima de mim.

– Sua única amiga, né, Holls? – Pior que era verdade. Ninguém do coral gostava muito dela, talvez por pegar muitos solos. “É por causa que eu sou muito divosa.” Holly havia me dito uma vez.

– Mas eu também sou sua única amiga, Mia-Mer-Ca. – Eu grunhi ao apelido, mas isso também era, infelizmente, verdade. Tudo porque Holly era a única garota louca o suficiente para invadir minha casa. – Mas, sério, Am, se for pro festival, com aquela sua única parte rebelde que resta, você vai poder cantar com a gente, ok?

– Eu não vou, Holly, mas eu vou torcer por você! – Dei um abraço nela e então a dirigi para a janela. – Falo com você depois, minha mãe está em casa e ela vai pirar se ver alguém tão destrutiva quando você aqui.

– Você tem sorte que eu tenho que começar a me arrumar agora ou a Whitney me mata, se não eu ia ficar até que eu enjoasse! – Falou dramaticamente, pulando pela janela. – Tchau, Mia e Ger!

Gerard tinha um olhar mortal muito assustador para um garotinho. As vezes eu acho que a Holly tem mais chances de fazer o Gerard falar do que todos nós juntos, só para ele poder xingá-la. Mas, então, meu irmão direcionou seu olhar para mim. Imediatamente, reconheci como o olhar de “Você vai?”.

– Mas é claro que não, Gerard. – Ele me deu o olhar de “Não acredito”. Recuei um pouco, meu irmão mais novo era o único que fazia isso comigo. – Olha, se eu for, mamãe vai ter um surto. E não me olhe com esse “Eu sei que você quer”. Porque eu não quero...

Gerard continuou com o olhar de “Eu não acredito”. O encarei de volta. É claro que eu não queria ir. Minha mãe ia ter um ataque, meu pai ia ficar decepcionado e May ficaria... feliz. Engoli o seco. Claro que eu não quero ir pro festival perigoso, com música, danças, doces, minha melhor amiga e... e...

– Se eu for, você não conta pra ninguém, não é? – Ele me encarou. – Oh, certo, mudo, então... Eu te trago um chocolate, ok?

Gerard deu um sorriso minúsculo, o máximo que eu o vi fazer nos últimos tempos e levantou sua palma aberta. Não pude conter o sorriso louco que se espalhou por meu rosto quando toquei sua palma com a minha, sentindo o frio pela briga com May ser substituído por calor. Fazer uma coisa louca não poderia ter deixado meu irmão mais novo tão feliz assim... Poderia? Gerard apontou para a direção dos quartos.

– Ah, certo, May. – Me senti um pouco desconfortável. – Eu vou falar com ela, já já. – Gerard me deu aquele olhar novamente. – O que foi? Eu vou falar com ela, só que não agora. – Ele continuou. – Ta bom, eu falo com ela agora, Senhor Mandão.

Fui em direção do quarto que dividia com May, batendo cautelosamente na porta. Quando não recebi resposta, entrei assim mesmo. Afinal, era meu próprio quarto, May não podia me expulsar... certo? Pelo menos eu espero que não. Encontrei minha irmã esparramada na cama, com a cara no travesseiro. Hesitei ao sentar ao seu lado, acariciando seus cabelos.

– May, vamos, não fique assim. – Murmurei, enquanto tirava massas e massas de fios vermelhos para poder observar sua face. – Olha, prometo que se tirar o rosto do travesseiro, vou te contar algo muito legal. Algo que eu sei que vai gostar muito. – Ela continuou sem me responder. – Vamos, May, confie em mim.

– Me fale primeiro. – Sua voz mal era clara com seu rosto no travesseiro, mas ainda pude lhe entender.

– Tudo bem. – Cedi, tinha muitas coisas para preparar para meu primeiro ato de rebeldia em anos que não tinha tempo para discutir com May. – Hoje, quando der oito horas, coloque seu melhor vestido. Vamos sair.

– Temos um trabalho? – May questionou, finalmente tirando seu rosto vermelho do travesseiro.

– Não. – Respondi, um sorriso se formando em meu rosto. – Nós duas vamos para o Festival do aniversario do Príncipe Maxon.

Notas finais
Então, sobre a Oc. Eu tive que fazer isso. Já perceberam que a America não tinha nenhuma amiga antes da Seleção? Isso é muito estranho, eu tive que mudar isso. Acham a Holly um pouco Mary Sue? Me avisem se isso acontecer, por favor. Ah, o apelido dela é "Holly" porque Illex Aquifolium é no nome cientifico dessa planta.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.