Notas iniciais
Qui Vivra Verra: expressão da língua francesa que trata de forma poética a imprevisibilidade do futuro. Em tradução literal para o português: Quem viver verá.

A manhã de domingo se descortinava como qualquer outro dia preguiçoso; a única folga que Désirée tinha durante a semana, o único dia em que podia se permitir a dormir até mais tarde.

Uma preguiça interrompida mais cedo que de costume, o telefone que teimava em chamar roubava-lhe as últimas horas de sono, por mais que não tivesse a menor vontade de se retirar do conforto que a cama lhe permitia. Céus, quem em sã consciência quer me acordar na pouca folga que eu tenho?

Por não ter se levantado da cama para atender a ligação, a secretária eletrônica terminou por fazê-lo ao final do sexto toque:

Você ligou para Désirée Cabarne, não posso atender agora, por favor deixe um recado após o sinal.

— Desy, aqui é a Camille. Estou aqui em Lumiose, que tal tomarmos um café mais tarde?

A loira pulou da cama, tamanha a surpresa com quem lhe fizera aquela ligação. De todas as pessoas que poderia imaginar que lhe despertariam, nenhuma lhe trazia tanta alegria quanto Camille. As duas estudaram juntas por vários anos; estavam para se formar quando a outra decidiu abandonar tudo para viajar com os Pokémon. Désirée nutria uma certa inveja da amiga, sendo ela mesma incapaz de fazer o mesmo. Não quando seus pais tanto lhe incentivaram o estudo e as boas notas que sempre teve, não quando um futuro estável como jornalista se construía a frente.

Do alto de seus vinte e sete anos, os últimos cinco no editorial de uma revista de grande circulação em Kalos e em três destes publicando uma coluna semanal, não se arrependia nem um pouco das decisões que tomara; afinal tornara-se uma jornalista de renome com base em muito esforço, boa desenvoltura com as palavras e, porque não dizer, uma certa dose de talento.

Pensando melhor, talvez se arrependesse um pouco por ter deixado de aproveitar um pouco a juventude. Não o bastante para que ficasse pensando nisso. Não, ela era feliz em seu trabalho, afinal.

Ela acabou por pular o banho, não tendo como retornar a ligação; evitava o risco de perder a chamada quando Camille ligasse novamente. Em especial pelo apreço que tinha com a amiga, já a alguns anos afastada em suas viagens. Tanto quanto a vontade de revê-la lhe dava um frio na barriga, a curiosidade de saber o que a trouxera de volta à cidade fazia com que Désirée se inquietasse.

Não foi muito depois que o telefone tornou a tocar. A chamada foi breve, até demais para a opinião de Desy; Camille, um pouco inquieta, disse apenas estar ansiosa para o reencontro enquanto combinavam o local e o horário em que se veriam. Se a voz da amiga demonstrava certo receio ou era apenas consequência da pressa em terminar a chamada, Désirée somente podia imaginar.

A inquietação foi o que fez ela chegar com meia hora de antecedência ao Café Ultimo, mesmo que ele se encontrasse do lado oposto da cidade; sua casa na Praça Magenta, próxima ao trabalho, se tornava agora um pequeno empecilho. O local foi escolhido por ser relativamente próximo ao Centro Pokémon Norte, onde Camille comentou estar hospedada, sendo o único dos cafés próximos com o mínimo de qualidade com a qual se acostumou a ter.

Sem ter o que fazer a não ser observar as pessoas que por ali transitavam naquele final de tarde, Désirée pegou sua agenda da bolsa, começando a fazer anotações. Uma espécie de segunda natureza por conta de seu trabalho; a coluna semanal que escrevia era voltada ao comportamento dos Pokémon, um tema pouco conhecido da maioria das pessoas mais velhas. Por muito pouco eles não haviam sido extintos na geração passada em consequência das guerras travadas contra os humanos, causadas pela ganância de uns e a incompreensão de outros. As leis de proteção às espécies eram recentes, datando das duas últimas décadas, mas mesmo a geração atual tinha dificuldade em conviver com as criaturas, fosse pelas ressalvas criadas pelo período de guerras ou pelo mero desconhecimento.

Ela rascunhava alguma coisa a respeito do Litleo que descansava à sombra de uma árvore, este talvez feliz por ser ignorado pelos transeuntes, quando notou a aproximação de Camille. Mesmo todos aqueles anos sem vê-la não a impediram de reconhecê-la, não quando a amiga usava os mesmos cabelos curtos e negros na altura dos ombros que lhe combinavam tão bem com sua pele bronzeada, além de manter o mesmo sorriso que tanto a cativara quando ainda eram meras crianças inocentes.

Mas mesmo que ela tivesse mudado completamente sua fisionomia, seria impossível não pensar que seria a colega que se aproximava, visto ela estar em companhia de sua Pokémon; a espécie de grande porte raramente vista em ambientes urbanos denunciava que sua companheira era uma treinadora.

Désirée tratou de guardar a agenda rapidamente, levantando-se para abraçar a recém-chegada; seu instinto observador lhe permitiu notar que a amiga não estava tão feliz quanto demonstrava.

— Desy! Quantas saudades!

— Ah, Mille…

— Tá toda estilosa, hein?

— Mas é claro! — gargalhou Désirée. — Vai, senta aí e me conta as novidades…

— Nem te conto…

As duas poderiam perder facilmente a conta de quanto tempo ficariam ali jogando conversa fora, e o fariam sem problemas não fosse a presença da grande raposa de pelos alaranjados, a qual se acomodava ao lado da mesa. Suas múltiplas caudas balançavam ritmicamente, sua dona percebendo estar sendo ignorada. Nem ao menos fora apresentada, por mero esquecimento de sua treinadora, tão absorta em papear com a amiga.

Désirée, apesar disso, percebeu imediatamente que a Ninetales não estava satisfeita com a situação.

“Que tédio!” resmungou a raposa.

A jornalista tinha uma capacidade pouco comum, podendo entender a linguagem dos Pokémon naturalmente. Um privilégio que se confundia com uma maldição; muitos matariam por essa habilidade, alguns de forma literal. Desy, por sua inteligência, mantinha o talento em segredo, por mais que fizesse uso dele para seu trabalho. Era ele o motivo do sucesso que adquirira com a coluna na revista; conseguindo entender os Pokémon como poucos, ensinava aos humanos como as criaturas pensam e a maneira certa de lidar com elas.

Uma das poucas pessoas que conhecia o segredo da loira era a colega que se encontrava sentada a frente; Camille não demorou a revelar que tinha intenção de usufruir desse talento da amiga.

— Então… — a morena inquietava-se — eu tô voltando pra ficar. Cansei de viajar sem rumo, preciso me encontrar, sabe?

— Para de graça, Mille…

— Eu não sou mais uma criança, Desy! Não tenho mais dezesseis anos, chega uma hora na vida em que a gente tem mais é que fincar raízes em algum lugar e ter uma vida estável, como você vivia me falando…

“Louca.”

— Nunca imaginei ouvir você dizendo isso…

— Eu só quero um pouco de estabilidade… mas a Anette não entende isso, sabe?

“Eu não quero ficar trancada em uma casa, eu nasci pra ser livre!”

— Aí eu pensei que você poderia me ajudar a explicar isso pra ela, Desy. — Camille continuou.

— Na verdade ela entende, bem demais. — respondeu a outra, com certa naturalidade, enquanto fazia carinho na Ninetales. — Nós é que somos estranhos para eles… Ela está com medo de virar seu bichinho de estimação, daqueles que fica preso dentro de casa…

— Mas ela podia ir embora se quisesse, mesmo que eu não queira que vá…

— A quanto tempo vocês estão juntas?

Camille se desconcertou com a pergunta.

— Desde o início… tem uns oito anos já…

— Então, você acabou de responder sua pergunta. Ela gosta muito de você pra ir embora, mas ao mesmo tempo se acostumou com as viagens… já tentou se colocar no lugar dela?

— Mas…

— Você teve todo o tempo que quis pra pensar nisso, não teve? Chegou a comentar algo com ela enquanto decidia, ou só depois que teve certeza que iria parar de viajar?

— Faz oito anos que eu viajo com ela, e parece que você a entende melhor do que eu… Acho que seria uma ótima treinadora se tentasse.

— Eu não me atrevo. — Désirée corou. — Não é meu estilo.

— Mas você tem talento, não o desperdice. — Camille comentava, enquanto a colega sinalizava discretamente para que fizesse silêncio. — Eu quero que me ajude com ela… pelo menos no início, sabe?

“Por favor, não!”

— Eu não faço milagres… É você quem tem que se entender com ela… Céus, que saia justa estou me metendo…

— Não pode fazer nem esse favor por uma amiga?

— Você está no centro Pokémon, não é? Eu tenho um quarto vago em casa, se quiser passar esses dias por lá, a gente pode tentar resolver isso nós três…

— Não quero incomodar, Desy!

— Imagina, eu moro sozinha, vai ser bom ter um pouco de companhia pra variar…

— Mas tem uma coisa… Eu não tenho só a Anette comigo, os outros estão nas pokébolas.

— Eu sou muito besta mesmo… A gente conversa no caminho…

~

“Então o homem, que não é escravo dos Pokémon, tampouco é o senhor que neles impera; deveria ser seu vigilante guardião.”

É, acho que ficou bom assim.

Após um longo dia de trabalho no pequeno escritório que montou dentro de casa, Désirée se sentia confortável o bastante para retornar ao mundo real com o qual não havia se acostumado. Uma pequena algazarra que se formava dentro de seu próprio lar, a ponto de lhe trazer uma pontada de arrependimento em um primeiro momento por ter convidado Camille a se abrigar com ela por aqueles dias.

Era terça-feira; pouco mais de quarenta e oito horas se passaram desde que recebeu as visitas, mas já lhe parecia alguns meses, mesmo ao se considerar que alguns dos hóspedes recusaram a oferta. Dentre os quatro Pokémon que faziam parte do time da amiga, dois deles partiram assim que receberam a notícia a respeito do fim da jornada de Camille; o Pidgeot e o Poliwhirl partiram juntos, o segundo sendo carregado pelo primeiro, sobrevoando a cidade em busca de um novo treinador que se dispusesse a treiná-los ou talvez apenas a paz que poderiam voltar a ter na natureza. Nem eles sabiam dizer, na verdade, não no momento em que decidiram partir.

O mesmo não podia ser dito do Persian, o qual apoiava a decisão de sua treinadora, concordando em viver com ela mesmo sabendo que não mais iria viajar ou participar de batalhas, como se secretamente desejasse a aposentadoria tanto quanto ela.

Além deles, havia obviamente Anette; a Ninetales continuava inquieta, sem aceitar a decisão de Camille e ao mesmo tempo incapaz de abandonar a jovem. Sua teimosia poderia ser facilmente justificada pelo longo convívio com a treinadora, mas aos poucos não se mostrava ser o caso.

“Hey, Desy!”

— Oi, Anette. — respondeu a loira, sem muito entusiasmo após as horas digitando no computador. — Conseguiu se entender com a Mille?

“Como se ela fosse me escutar.”

— Você nem ao menos tentou, não foi? — ela se jogou no sofá, ligando a televisão.

“A Camille saiu cedo e não voltou até agora. Passei o dia entediada, quero conversar.”

— Pois não, quer falar sobre o quê?

“Quero entender vocês humanos. É a primeira vez que encontro alguém com quem posso me comunicar.”

Désirée também faria bom uso daquela oportunidade apesar de não saber exatamente como lidar com ela; eram raras as vezes em que se encontrava sozinha com um Pokémon ao seu lado, mais ainda em que o espécime fosse amigável. Mesmo incluindo as observações que fazia em seus dias de folga e as incomuns oportunidades de conversar que tinha nas ruas sem que alguém prestasse muita atenção, ela por poucas vezes teve uma chance como aquela.

— Quer começar?

“Por que vocês se escondem da natureza? Fazem esses… essas coisas gigantes de pedra e se trancam dentro delas, você gosta disso?”

— Não é por gostar, eu acho. — Désirée se impressionou com a pergunta da Ninetales, duvidando da capacidade de raciocínio desta; tanto o foi que levou um bom tempo até conseguir formular uma resposta. — Pode parecer estranho pra quem não está acostumado, mas se vive melhor por aqui do que na natureza…

A conversa se estendeu muito além do que a jornalista imaginava. Os minutos se transformaram em horas, tempo no qual ela tentava explicar como os humanos se acostumaram a viver nas cidades, de como era cômodo viver em uma grande comunidade, mas que ao mesmo tempo era triste de perceber como cada vez sentiam menos falta do contato com a natureza.

Entender os humanos era tão complicado que a conversa terminou apenas quando não aguentaram mais, continuando no dia seguinte. E no outro após ele.

A semana logo chegava ao fim. Désirée pouco conversou com Camille até então, seja pelo trabalho de uma ou pelas saídas constantes da outra. Sequer teve oportunidade de perguntar a ela com o que tanto se ocupava. Também não o fizera com Elliot, o Persian, pelo único motivo de ele não gostar de conversar, isolando-se em um pequeno canto da casa quando não fazia seus passeios ocasionais; o tipo calado não era bem a cara dele, mas ao mesmo tempo não causava incômodo à jornalista.

Não quando a loira começava a se afeiçoar cada vez mais à Anette, com quem se acostumava a trocar horas e mais horas de palavras; ensinava para a Ninetales muitas coisas sobre os humanos de modo geral.

Mas naquele sábado, após uma longa e exaustiva reunião na sede da revista da qual acabara de retornar, ela preferia ser a ouvinte e não a interlocutora.

— Como é, Anette? Vocês gostam mesmo de batalhar entre si?

“Não temos poderes à toa; batalhar faz parte da nossa natureza.”

— Mas vocês não se machucam? Vale a pena?

“Vocês humanos são engraçados. Se reúnem em grupos para ficar brigando por um pedaço de couro arredondado, derrubando uns aos outros para poder segurar ele. Ou então ficam chutando essa coisa de um lado pro outro. Mas se os Pokémon fazem algo parecido, não entendem.”

— Então, batalhar pra vocês é um esporte?

“O que é esporte?”

— É complicado de explicar. — Desy comentou, desconversando. — Deixa eu ver por onde eu começo...

— Boa noite, cheguei! — Camille entrava pela porta, o semblante de cansaço se misturando com a tristeza, visível por mais que tentasse esconder. — Sentiu minha falta, Anette?

A Ninetales respondeu mordendo a mão de sua treinadora quando esta tentou fazer carinho, sem realmente machucá-la, porém evidenciando seu descontentamento com a ausência.

— O que deu em você, hein?

“Sua chata!” rugiu Anette. “Me deixa trancada em casa a semana inteira e ainda pergunta?”

— Ela está chateada, Mille. — Desy traduzia a fala da Pokémon. — Está reclamando que você a abandonou.

— Ela não entende… aliás, ninguém entende. Eu passei a semana inteira procurando um emprego, mas ninguém quer contratar uma ex-treinadora sem experiência!

— Tem certeza de que é isso que você quer? Eu posso te ajudar, posso conversar com o pessoal da revista e…

— Você já faz muito por mim em me aturar, Desy. Não quero ser um peso ainda maior pra você. Só acho que as coisas não precisavam ser conturbadas assim com a Anette!

“Claro, nunca parou pra saber o que eu sinto. Só pensa em você mesma!”

— Tenham calma, vocês duas! — Désirée ponderou. — Não vamos brigar aqui.

— Eu não quero brigar, eu só quero que ela entenda que não tem mais volta. — Camille vociferou. — Não adianta ela se zangar comigo, eu não vou mudar de ideia por um capricho dela, deu pra entender ou tá difícil?

— Mille, não é por isso que ela tá irritada… a Anette tá reclamando que você não dá mais atenção pra ela como dava antes e…

— Mas as coisas mudaram! Não tenho mais tempo pra ficar o dia inteiro com ela como antes…

“Mas não precisa me ignorar! Muito menos ser tão grossa comigo!”

— Já deu, né? — Désirée tomou a palavra novamente. — Desse jeito é que não vão conseguir se entender. Tentem descansar um pouco, a gente resolve isso numa boa amanhã, pode ser?

— Melhor mesmo, não quero levar mordida de raposa de novo. — bufou Camille. — Boa noite pra quem fica.

“Boa noite, sua chata!”

— Se acalme você também, Anette. — a loira acariciou os pelos da cabeça da Ninetales antes de continuar. — As coisas nem sempre são como queremos, mas só nós podemos decidir se queremos nos irritar por isso.

“Mas ela não me entende. Eu nasci pra ser livre, eu aceitei sair em jornada porque ela também era. E de repente as coisas mudam e eu fico de lado.”

— As pessoas mudam com o tempo… sabe, eu me pergunto se isso acontece com os Pokémon quando eles envelhecem, será que mudam sua personalidade?

“Escuta, Désirée. Você disse que os humanos mudam. Algum dia você já foi livre como ela era antes?”

— Como disse? — intrigou-se ela com a pergunta.

“Viajar, sair pelo mundo. Conhecer outros lugares.”

— Eu não nasci pra isso, não sou…

“Então você nunca quis ser livre? Sair desse mundo cinza que vocês criaram e viver na natureza?”

— Eu tenho uma vida construída aqui, sempre quis isso desde quando era mais nova. Olhe em volta, por que eu trocaria esse conforto?

“Vocês humanos são todos iguais… um caso perdido.”

Anette levantou-se, caminhando em direção ao colchão que havia sido colocado na parte oposta da sala. Désirée não quis arriscar colocá-la em uma cama, temendo que o peso da Pokémon a pudesse quebrar durante a noite, porém ao mesmo tempo recusou-se a permitir que ela dormisse no chão duro e frio.

“Vou seguir seu conselho. Conversamos amanhã.”

A saída da Pokémon, que Désirée entendeu como uma estratégia de Anette para fazê-la pensar no assunto, não deixou de dar o resultado esperado. A jornalista não soube dizer por qual motivo recusou-se a falar a verdade para a Ninetales, que já se pegou imaginando por mais de uma vez jogando tudo para o alto, desistindo da rotina cansativa para viajar por aí e conhecer o mundo.

Eu não sou mais criança pra pensar nessas coisas. Tenho responsabilidades demais.

Foi com certa tristeza que ela se recolheu ao seu quarto, ainda pensativa a respeito, temendo mais uma de suas eternas crises de ansiedade; um problema que lhe incomodava desde a adolescência. Talvez fosse por não saber lidar com elas que decidiu por buscar estabilidade desde cedo em vez de se arriscar em uma jornada. Era muito mais fácil se pudesse dar esse orgulho a seus pais e enterrar qualquer pensamento bobo a esse respeito. Dera certo.

Talvez fosse muito mais fácil se ela realmente pudesse sair, viver um pouco a vida de um modo que sempre teve essa vontade latente. Mas era tarde para se arrepender de qualquer decisão que tomou quando mais nova. Tinha um bom emprego e uma vida confortável, duas coisas das quais não se sujeitaria a abrir mão.

E para falar a verdade, talvez fosse bem melhor assim.

~

A manhã seguinte, em que tudo se resolveria, foi aquela em que nada se resolveu. Primeiro de tudo, por Désirée ter se dado ao direito de dormir até mais tarde, como de costume em seus dias de folga. Ela estranhou encontrar a casa vazia ao se levantar, algo que considerava impensável uma semana antes. Camille havia saído; talvez levando Elliot consigo, visto que ele não costumava se ausentar no período da manhã.

Mais inusitado do que isso, contudo, era a ausência de Anette. A Pokémon não tinha o hábito de sair de casa sem que alguém estivesse acordado para que pudessem não se preocupar. Désirée cogitou que pudesse ter algo a ver com a pequena discussão que tiveram na véspera.

Será que a Camille ficou chateada comigo e foi embora?

Antes que pudesse confirmar os pensamentos negativos, porém, eles foram derrubados por um forte estampido que vinha da cozinha, o único local onde não tinha olhado até então.

Um pouco receosa do que poderia encontrar, surpreendeu-se positivamente em ver Anette tentando consertar a bagunça que acabara de fazer; em sua tentativa de abrir um armário em busca de comida, acabou levando acidentalmente algumas panelas ao chão, o que explicava o estardalhaço que acabara de ouvir.

“Desculpe, eu estava com fome e não quis incomodar.”

— Tudo bem. Bom dia pra você também. Você viu a Mille?

“Ela saiu cedo com o Elliot, não voltou ainda.”

— Quer que eu te ajude aí?

“Não precisa. Eu sei me virar sozinha.”

— Claro que sabe. — riu a loira. — Como é que você vai abrir o armário com essas patas?

“Abrindo, ué.”

— Sua boba! Pode deixar que eu pego pra você…”

A Pokémon corou, permitindo que Désirée a ajudasse ao mesmo tempo em que preparava seu próprio café da manhã.

“Seu prato é parecido com o meu.”

— Ah…

Anette tinha certa razão, a porção de cereais com leite que a loira pegou para si não tinha uma aparência tão diferente da ração da Ninetales. Não passavam de grãos de milho e soja processados, então de certa forma eram praticamente a mesma coisa, não fosse o aroma artificial acentuado de carne que exalava da porção de ração Pokémon.

Enquanto elas comiam, a mulher pensava em quanta coisa acontecera naquela semana. Apenas sete dias, e sua vida havia mudado tanto por causa de uma amizade de longa data. E talvez por outra que começava a se construir?

Désirée olhava para a Pokémon que se alimentava ao seu lado. Não sabia por quanto tempo a relação iria se dar, o convívio com ela poderia acabar a qualquer momento; no dia em que Camille se estabilizasse, Anette provavelmente seguiria com sua treinadora. Era bem verdade que as duas estavam tendo momentos conturbados, mas logo se entenderiam. E teria de ser Désirée a ajudar que as duas voltassem ao seu contato habitual.

Pensar nisso olhando para a Ninetales lhe dava certo aperto no peito. Pois pela primeira vez na vida estava tendo um contato real com um Pokémon, uma troca de experiências mais do que simplesmente uma relação de trabalho.

“O que você tanto me olha?”

A jornalista, pega em situação desconcertante, não soube exatamente como responder. A sinceridade, naquele momento, não seria a mais sensata das opções.

— Nada, estava só pensando umas coisas aqui…

“Você tava olhando pra minha bunda!”

— Eu… eu não… Quer dizer, agora que você falou eu fiquei curiosa, essas suas caudas não pesam?

“Elas me ajudam a manter o equilíbrio. Eu gosto delas…”

— Elas são tão longas e compridas…

“Quer pegar uma pra ver o que acontece?”

As duas riram; Anette pela malícia em sua brincadeira e Désirée por tê-la percebido.

— O que acontece se eu puxar?

“Você vai ser amaldiçoada pelo resto da vida…”

A Ninetales não necessariamente tentava ser engraçada com o comentário, em especial por ela estar falando a verdade, o que não significa que as duas não tenham caído na gargalhada.

Apesar do bom humor, no entanto, o clima pesado pela discussão na véspera continuava presente, se revelando assim que as risadas murcharam.

— Não sei você, mas eu ando muito preocupada com a Camille…

“Por que?”

— Ela tem andado muito chateada esses dias, as coisas não devem estar sendo fáceis. E eu sinto que em vez de ajudar, estou atrapalhando.

“Eu não te entendo.”

— A Mille me pediu pra conversar com você, ela disse que quer resolver as diferenças entre vocês duas… mas depois daquela discussão de ontem eu sinto que não está dando resultado…

“Sem problemas por mim. Eu meio que já desisti.”

— Como assim?

“Eu conheço ela, se não mudou de ideia até agora não muda mais.”

— Então…

“Não é mais por ela, é por você.”

— Você até me deixa sem graça desse jeito. — Désirée corou.

“Vem comigo! Vamos viajar juntas!”

— Eu já te falei que eu não posso. — Désirée virou-se para encarar a Ninetales, franzindo os lábios. — Já te falei que minha vida é muito atribulada, não posso largar tudo assim…

“Você fala como se não quisesse.”

— Não é uma questão de vontade, é só que…

“E se você morresse amanhã? Acha que sua vida valeria a pena?”

— O que você está insinuando com isso? — a jornalista virou-se na cadeira, carregando seu olhar ao ouvir a pergunta. — Acha que eu não sou feliz?

“Alguma vez você falou do seu trabalho pra mim? Alguma vez você saiu com um sorriso daquele seu escritório?”

Désirée calou-se. Não apenas pela insinuação de Anette, mas por perceber que ela tinha um fundo de verdade. Escrever para a revista se tornava cada vez menos prazeroso e mais uma obrigação, momentos de irritação como os da reunião com os outros editores se tornavam mais frequentes… Mas se as coisas não estavam tão bem assim, como ela poderia acreditar que iriam melhorar com a saída dela?

— Foi a responsabilidade que eu assumi pra mim. Eu passei uma vida construindo isso, não vou largar tudo por um capricho.

“Responsabilidade? Isso me parece receio.”

— Não posso simplesmente sair assim da empresa, deixar meu emprego sem me explicar.

“Ninguém é insubstituível.”

— Mas…

“Eu te conheço o suficiente pra saber que no fundo, bem lá no fundo mesmo, você quer sair. O mundo lá fora tá te chamando, você mesma reclamou que fica longe demais da natureza, mas a única coisa que você faz é ficar em casa se preocupando.”

— É claro que eu me preocupo. Eu sou ansiosa desde que eu era uma criança.

“Não use isso como desculpa.”

— Você não me conhece pra falar desse jeito comigo. Não é uma desculpa.

“Óbvio que é. Você acha que tem o controle de tudo, mas não tem. Você joga todas as preocupações da sua vida nesse seu trabalho, aí você pode colocar todas as frustrações nele. Você tem essa ansiedade de querer ter tudo ao seu alcance, tem medo de que alguma coisa não aconteça exatamente como planejou.”

— É claro que você vai dizer isso. Todos esses dias você só está tentando me convencer a sair dessa casa e largar tudo o que eu tenho pra ir com você. Não é muito egoísmo da sua parte?

“Se alguém aqui está sendo egoísta é você. Tente pensar um pouco fora desse mundo que você construiu a sua volta.”

— Já chega. — ela se levantou, para a surpresa da Ninetales. — Eu não vou com você e ponto. Se for só isso que você quer comigo, pode ir embora.

“Não, Desy. Eu quero te ajudar…”

A porta da cozinha se fechou de súbito; a irritação da jornalista com a conversa estava clara. Uma lágrima correu pela face da raposa, incapaz de evitar aquela situação constrangedora, enquanto Désirée se trancava em seu escritório.

~

O restante da manhã passou, a tarde também. O céu já havia escurecido completamente quando Désirée saiu do cubículo que era seu escritório, o rosto ainda inchado pela crise de choro que teve enquanto trabalhava. Incapaz de controlar o pior lado de suas emoções, decidiu abandonar a folga que poderia ter naquele domingo, descontando sua frustração no editor de textos.

E se ela saiu vitoriosa na briga que teve com a página em branco, não podia dizer o mesmo de sua consciência, que continuava em um péssimo estado após a grosseria para com Anette, estando consciente de que havia exagerado no tom.

Sabendo que não iria se acalmar completamente enquanto não pedisse desculpas, ela desceu as escadas em busca da Ninetales. Camille não havia retornado, mas Elliot se acomodava confortavelmente sobre o sofá, encarando Désirée como se a culpasse por todos os pecados.

— Oi, Elliot, você viu a Camille?

“Não é da sua conta.”

— Não precisa ser tão grosso comigo…

“Igual você foi com a Anette? Já falei que eu nunca fui com a sua cara?”

Désirée tremeu; incapaz de formular uma resposta adequada, imaginava se ele havia presenciado a discussão às escondidas ou se a Ninetales havia desabafado com ele. Independentemente da resposta, sabia que o clima não seria nada agradável quando a encontrasse. Isso é, supondo que ela ainda fosse estar por lá, visto que a cama que havia improvisado para a Pokémon estava desocupada.

Ela não foi embora… ou será que foi?

Abriu então a porta da cozinha, encontrando esta vazia. Por um breve momento pensou que Anette poderia estar escondida em algum canto, mas logo percebeu a realidade. A Ninetales era um Pokémon grande demais para ter onde se ocultar naquela cozinha. O que significava que ela levara a sério a ordem dada pela loira quando de sua discussão e partira.

É minha culpa…

O estrago estava feito, os sentimentos daquela tarde voltaram com força. Havia posto tudo a perder em seu momento de exaltação, e se via incapaz de controlar seus próprios pensamentos, culpando-se pela briga de mais cedo.

Pesando os prós e contras da convivência que tiveram durante a semana, Désirée podia dizer sem dificuldade que não havia tido dias bons como aquela semana em muito tempo. Era uma diversão inusitada trocar ideias com uma Pokémon, conversar com ela despreocupadamente, tentando explicar para ela como os humanos se comportam e, ao mesmo tempo, entendendo um pouco a maneira com que eles pensavam e agiam.

— Não… — soluçava ela, sentando-se ao chão quando a primeira lágrima escorreu por seu rosto. — Não… eu não fiz isso…

Estava claro que a jornalista sentiria falta do convívio com a Ninetales. Não só por ele se dar da maneira que era, mas por ser uma amizade que nunca tivera. Désirée não se lembrava da última vez em que se sentiu tão feliz por estar acompanhada; ela, que tanto se acostumou à solidão como um meio de esconder seu segredo, agora sentia falta de uma amizade; mais até do que poderia um dia sentir de Camille.

Ela levava as mãos à cabeça, encolhendo-se em sua própria tristeza antes que ela se transformasse em raiva de si mesma. Anette podia ter sido um pouco rude em seus argumentos, mas não falou nenhuma mentira; e mesmo que o fosse, não era justificativa para que se alterasse daquele modo com a Pokémon.

Tão claro que a Ninetales fora embora chateada, era o fato de que Désirée estava enganada, sendo trazida de volta a realidade por um roçar de pelos em seu braço, logo seguido pelo aroma característico assemelhado a um buquê de violetas murchas.

“O que houve, Desy?”

A loira não conseguiu esconder o sorriso que se abria em seu rosto. Anette estava ali, ao seu lado, preocupada com ela. Claramente não havia se ofendido ao ponto de ir embora.

— Anette… eu pensei que…

“Olhe só pra você… estava chorando por minha causa, não é?”

— Lógico que não. — ela abaixou o rosto novamente, antes de sentir o toque da pata da Ninetales em seu braço que a fez continuar. — Quem eu quero enganar? Eu pensei que você tinha ido embora!

“Eu só estava espantando um Rattata, mas obrigada pela consideração.”

— Eu sou muito boba mesmo…

“Claro que é… Anda, levanta desse chão frio.”

— Você ainda se preocupa comigo… mesmo depois…

“Eu sabia que isso podia acontecer. Acha que eu não te conheço?”

Désirée pegou a Pokémon pelo pescoço, fazendo cócegas nela, demonstrando um misto de raiva e afeto. Não conseguia mais se irritar com Anette, tanto quanto ela mesma não se irritou com os gritos da jornalista.

“Posso pedir uma coisa pra você?”

— Depende. O que é?

“Vamos sair. Agora.” Anette aproximou-se, apoiando sua cabeça no colo da colega.

— Eu já te falei que não é assim que funciona…

“Você não entendeu. Vem comigo, vou te levar pra um lugar.”

— Mas está tarde e escuro.

“Tanto melhor. Olha, eu te trago de volta depois. Não vou te roubar.”

— Mas... eu nem comi nada, eu não…

“Espere aqui.”

Anette levantou-se, procurando por algo do outro lado do balcão na cozinha. Désirée não conseguiu evitar de dar uma gargalhada ao ver a Ninetales lhe trazendo o pote com sua ração.

“Quer um pouco? Não é igual àquele que você come, mas é gostoso.”

— Você quer que eu coma sua ração?

“Vai, pode pegar!”

— Não, obrigada… não estou preparada pra isso…

A mulher decidiu por se levantar e pegar alguma coisa para comer, ainda que fossem apenas alguns biscoitos que encontrou. Aquele momento descontraído fez com que mudasse de ideia quanto a sair durante a noite, seria sua maneira de pedir desculpas para a Pokémon. Esperava apenas não se arrepender de sua decisão.

— Tá bom, eu vou com você. Mas não posso demorar, tudo bem?

“Não se preocupe com isso.”

Anette sorria, por assim dizer, saindo pela porta dos fundos que ficava aberta para ventilar a casa.

“Vem logo!”

— Eu não sou tão rápida quanto você, vai com calma aí.

“Por que você não monta em mim.”

— Tem certeza? Não sou muito pesada pra você?

“Eu já estou acostumada a levar a Camille, relaxa.”

Ainda receosa, a loira subiu sobre as costas da Pokémon; o tamanho dela, em muito superior ao normal para a espécie, mostrava-se agora como uma vantagem, permitindo que esta pudesse seguir com velocidade mesmo com a humana agarrada a seu pescoço.

“Me abraça forte, eu vou correr agora.”

Não era uma posição confortável para Désirée, supunha que também não o fosse para Anette. Apesar disso, a disparada dela para além dos limites da cidade revelava um verde ignorado pela loira; um grupo de árvores com suas folhas adquirindo um leve tom avermelhado pelo outono que se aproximava a deixava maravilhada, completamente sem palavras.

“Pode descer agora. Podemos aproveitar esse momento com calma.”

A Ninetales sacudia a cabeça, tentando ignorar o incômodo em seu pescoço pela força com que a colega lhe segurava no percurso. Sabia que ela ainda estava receosa, para não dizer com medo, mas não iria dizer nada para não quebrar o clima.

— Que lindo…

“Você ainda não viu nada. Vamos subir ali.”

Anette indicou uma grande rocha, além da trilha pela qual vieram.

“Vamos ficar em um lugar mais isolado, vai que aparece algum treinador por aqui.”

As duas começaram a contornar as árvores que por ali cresciam, passando pelo solo íngreme; Désirée, com um pouco de dificuldade, apenas seguia o caminho trilhado pela Pokémon, a qual encontrava um caminho por entre os troncos finos das bétulas que por ali cresciam.

Caminharam daquele modo por talvez uns quinze ou vinte minutos, apesar das reclamações da mulher, sem o hábito de andar naquelas condições. Assim que chegaram, no entanto, ela se arrependeu das queixas, ignorando-as pela linda paisagem que se abria à frente.

O local em que se encontravam dava a elas uma visão privilegiada do entorno. Lumiose estava reduzida a nada mais que uma pequena mancha de luz que em nada estragava a visão da natureza, incluindo tanto ua, mesmo que essa brilhasse timidamente em sua fase minguante, dando certo espaço para as estrelas que lutavam contra o ar espesso pela relativa proximidade ao centro urbano.

— Mas isso é maravilhoso. — Désirée estava embasbacada. — Quer dizer, essa paisagem linda estava aqui esse tempo todo?

“Claro. Ela é toda sua!”

Ela não respondeu. Não estava disposta a estragar aquele momento com seus questionamentos. Decidiu-se por apreciar a visão, deitando-se sobre a grande pedra em que se encontravam. Anette deitou-se ao seu lado, porém em vez de vislumbrar a paisagem, preferia encarar o sorriso da mulher enquanto esta se deliciava com o que via.

Désirée, como nunca antes, se sentia completamente inspirada. A última coisa que queria pensar era em suas obrigações. A vida na cidade lhe parecia ínfima, menor até do que as luzes quando comparadas à paisagem tão bela que se abria à frente.

E tudo isso porque se permitia aceitar o conselho de Anette, seguindo com ela para esse passeio natural. Talvez fosse esse seu destino, afinal. Era como um sonho de infância se realizando.

Faltava, no entanto, a aceitação. Seria realmente uma loucura tão grande largar tudo o que conquistara em troca de um sonho?

Ela olhou para a Ninetales; estava tão perdida em seus pensamentos que sequer notou que ela a estava encarando por todo esse tempo.

“Désirée, você gosta de mim?”

— Gosto… mas por que a pergunta agora?

“É que eu gosto de você. Muito. E eu queria que você soubesse.”

— Você me deixa sem graça… — ela corou.

“Eu gosto de verdade, desde que te vi sentada lá na cidade. Esse seu sorriso…”

— Calma aí, Anette. Eu não sei se estou te entendendo…

“Eu quero você, Désirée. Eu quero poder te abraçar quando se sentir sozinha, dormir ao seu lado quando estiver com frio…

— Eu pensei… Eu não estava falando desse tipo de gostar…

“Então você não gosta de mim?” Anette ficou cabisbaixa, murchando a voz.

— É que você é uma Pokémon, eu sou humana… Não é certo pensar nessas coisas…

“Qual o problema?”

— Os humanos não gostam de pensar nisso. Não é uma relação bem vista…

“Eu não gosto dessa coisa de vocês humanos… sempre se achando os donos da verdade, como se só existisse uma verdade…”

— Anette… Você sabe que eu não concordo com o que dizem…

“Pois então. Vou perguntar de novo, você gosta de mim?”

— Eu…

Désirée não conseguiu responder, envergonhada demais para pensar na possibilidade. Anette era uma excelente companhia, muito carinhosa, sempre feliz e que adorava um carinho. Ao mesmo tempo, era tão estranho pensar que poderia sentir esse tipo de coisa por um Pokémon…

“Não pense pelos outros, eles não tem nada a ver com isso. Eles não entendem… eles não nos entendem… pensam que somos inferiores e não iguais…

— Mas…

“Ainda com receios, Désirée?”

Ela tem razão. Eu deixei meus receios me guiarem pela minha vida inteira…

Não mais se aguentando, não só pelo carinho como também pela curiosidade, ela sabia que se decidisse por se entregar não haveria mais volta. Ao mesmo tempo, considerava tudo o que deixou de fazer pelos últimos anos, que sempre justificava pelo excesso de trabalho e pela falta de tempo. Não podia mais dar as mesmas desculpas de sempre. A chave havia virado após aquele passeio, não iria deixar que qualquer receio a podasse; sem perguntas, sem inseguranças, sem arrependimentos.

Quanto ao bom-senso… Bem, quem poderia definir qual senso era bom ou não senão ela mesma?

Estava na hora, ou melhor, havia passado da hora de segurar as rédeas de sua própria vida nas mãos, tomando suas próprias decisões…

~

Camille acordou cedo naquela sexta-feira, ainda sentindo-se incomodada com a grande casa vazia. Era sua terceira semana em Lumiose, a segunda que passava sozinha com Elliot e a primeira desde que conseguira seu modesto emprego como atendente em uma lanchonete não muito distante dali.

Ela sentia como se aquele lugar não lhe pertencesse, e de fato não o fazia. Apenas permanecia ali pelo favor que prometera fazer a sua amiga. Désirée e Anette talvez demorassem a retornar, de modo que alguém deveria cuidar da casa para que ela não ficasse abandonada. Sem contar a conveniência de evitar uma despesa com o aluguel, o que lhe fazia muito bem em momentos instáveis como aqueles.

Seu turno de trabalho se iniciava apenas no período da tarde, de modo que podia manter a arrumação da casa, tirando o excesso de poeira ao menos dos cômodos que utilizava, sendo eles a sala, a cozinha e o quarto de hóspedes. Foi enquanto limpava este último que a campainha tocou brevemente, sinalizando não uma visita, mas a chegada das correspondências. Deixando o espanador de lado, Camille apressou-se para buscar o conteúdo da caixa do correio, na vã esperança de encontrar um cartão que pudesse explicar a ela o que acontecia.

O momento da partida havia sido tão breve quanto a despedida em si. Désirée e Camille trocaram poucas palavras entre si, a maioria delas a respeito dos cuidados com a casa e a respeito das despesas que poderia vir a ter, pelo qual a loira deixou uma quantidade considerável em dinheiro. Sem dizer a respeito dos motivos ou de quando iria retornar, a morena foi abandonada em um estado de semi-confusão com o fato de que as duas tinham efetivamente trocado de lugar.

Apenas um pacote foi entregue, sendo ele a edição mais recente da Lumiose Weekly, uma revista de grande circulação no continente de Kalos. Especificamente, a revista para a qual a loira costumava trabalhar.

Foi esse elemento de curiosidade que fez com que Camille rasgasse a embalagem transparente, ignorando a imagem do político em sua capa e os escândalos de corrupção dos quais era acusado. O que a morena procurava provavelmente estaria na última página da revista.

E estava certa. A seção continuava ali: o “Divã Pokémon”, a famosa coluna de Desy Cabarne, ilustrada com sua foto, vinha com o título “Au revoir!”

A mensagem era, como já denunciado, de despedida. O anúncio do fim de uma coluna que perdurava pelos últimos três anos na revista.

Cento e Quarenta e Três semanas. Nem parece que tanto tempo passou.

Dá uma nostalgia de lembrar do primeiro texto que escrevi aqui. Uma visão diferente a respeito dos Gogoat usados como transporte em Lumiose desde que me entendo por gente. Em meio a tantas reclamações, ativistas e governantes preocupados se faziam o certo, ninguém se pensou perguntando a eles, os Pokémon no centro da discussão, o que achavam.

Muita coisa mudou, talvez menos do que eu imaginava. Ainda falta consciência do quanto somos pequenos comparados a esse universo de espécies, do quanto somos apenas mais uma dentre as centenas de comunidades dividindo os recursos e, infelizmente para alguns, não a mais inteligente.

Corri o risco de divulgar meu ponto de vista em público, dizendo algumas verdades sobre o quanto não somos tão importantes quanto pensamos. Recebi inúmeras críticas, algumas bem fundamentadas, outras tantas não. Por outro lado, obtive reconhecimento e diálogo com leitores interessados e interessantes, que me ensinaram muita coisa. Fiz e desfiz amizades por essa minha coluna.

O que não me impediu de dar de cara com minha ignorância.

Pela vida conturbada com a redação da revista, nunca me distanciei o suficiente de Lumiose. Meus contatos eram limitados aos arredores da cidade, aos seres que sempre aparecem com pressa. Rattatas fugindo dos Glameow, Fennekin recém-chocados entregues a adolescentes. Pidoves receosos em levar pedradas na cabeça, atiradas por humanos sem coração.

Por meus passeios recentes, encontrei um treinador aposentado. Esses seres, os quais continuam sendo ostracizados, muitas das vezes tem tanto a nos ensinar quanto a aprender. Mais importante que isso, no entanto, é entender o que os levam à aposentadoria. Visto que eles convivem com Pokémon diariamente, afastados dos grandes centros e do viés de preconceito, era de se supor que pudessem entendê-los melhor do que uma simples curiosa como eu.

E céus, como fui enganada por todo esse tempo.

Um caso isolado, eu quero poder dizer. Mas não creio que uma pessoa com uma década de experiências em viagens, porém desconhecendo as capacidades de seu acompanhante, seja exceção. Ignorando a inteligência de seres que tem tanto a nos ensinar, tratando-os como seres inferiores, meros animais de estimação. Por vezes pior, como os monstros que nos foram pintados durante a guerra.

Atrevo-me a dizer que eles têm mais coração que a gente.

Imagino o que eles teriam a nos dizer se lhes fossem dados o poder da fala humana.

A evolução lhes deu o que era necessário para a sobrevivência de cada espécie. Combustão espontânea, resfriamento nitrogenado, fotossíntese; a eles, mais vale do que se comunicar com seres como nós, cuja maior habilidade talvez seja a hipocrisia.

Julgamos tantas espécies Pokémon perigosas por viverem em grandes bandos, às vezes compostos por centenas de seres em sua hierarquia. Não nos consideramos perigosos ao nos agruparmos aos milhares em uma cidade.

Achamos por tantas vezes absurdo que eles lutem entre si, sob estímulo humano ou não, sem que haja um objetivo como briga por território. Uma competição menos violenta que as partidas de Rugby pelas quais torcemos pelos nossos times favoritos semanalmente.

Sei que muitos terão raiva de mim pelo que vos digo. Talvez nojo. Estou consciente de que ter a verdade atirada sobre a face é algo doloroso, como foi para mim perceber isso.

E, se não sou adepta de despedidas, percebo que elas são necessárias. Pois percebo que pouco sei sobre eles para continuar lhes escrevendo a respeito. Sempre vi Pokémon e humanos como iguais em inteligência. Mas em um momento conturbado como este, são eles que têm a nos ensinar mais do que nós a eles.

Espero que quando eu retorne, se eu um dia retornar, seja para ser mais útil do que fui durante esses quase três anos. E que o conceito de igualdade tenha sido absorvido pela sociedade como regra e não exceção.

Quem sabe um dia possamos ver como algo normal coisas como um relacionamento amoroso entre espécies diferentes, tanto quanto eles o fazem. Seria sonhar demais?

Notas finais
Deixo aqui meus agradecimentos e créditos: Para Lawliette, pela base da história que pude aproveitar, pelos incentivos e pela amizade em geral que pautou essa fic. Para Kbludoh (twitter.com/Kbludoh) e Prince of Red Roses (princeofredroses.deviantart.com) pelas ilustrações que usei na criação da capa. Para Indila, Louane e Fréro Delavega, pelas trilhas sonoras que inspiraram cada trecho dessa fanfiction. Para Satoshi Tajiri e Junichi Masuda, por criarem e manterem viva a chama que é a franquia Pokémon. E para você, leitor que chegou até aqui, pois é por você que eu escrevo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!