Questões Adjacentes

1 Questões Adjacentes


–Rido, por favor! — César exclamou — Deixe-me ir estudar com você na sua casa hoje, a prova está chegando e eu não estou entendendo nada.

–Não! — Respondi pela sexta vez àquilo.

Não é que eu seja uma má pessoa ou que eu seja aquele tipo de pessoa que entende as matérias mas não ajuda os amigos. Há duas semanas atrás, eu chamei alguns colegas para estudar e César não foi e semana passada, eu chamei outra vez e, de novo, ele não foi estudar conosco, preferiu ir jogar vídeo game com o Douglas a vir estudar com o grupo.

Eu já estava cansado e sabia a matéria de cor e salteado, não era problema meu se ele preferiu a diversão aos estudos. E outra, ele senta atrás de mim e teve todos esses dias para tirar as dúvidas, mas não o fez. Exatamente isso, a culpa não é minha, nem de longe é, eu não devia nada a ele. Eu estava me justificando mentalmente quando ele fez algo impensável.

Ele levantou de sua cadeira praticamente a jogando para o lado em direção a parede, que fez um tremendo barulho. Toda a atenção da turma estava voltada para nós, até mesmo o professor interrompeu a aula para olhar em nossa direção. César, forte do jeito que é, virou minha cadeira junto comigo em sua direção e se ajoelhou em minha frente.

–Por favor, Rido! Pelo amor de Deus — Ele suplicou — Deixa?

–hm... — Perdi as palavras, completamente envergonhado.

–Deixa... Deixa... Deixa... — A turma inteira gritava em coro, mesmo sem saberem do que que se tratava.

–Tudo bem... — Murmurei por fim — Não se atrase.

Assim que a aula acabou, pouco depois que eu guardei todo material, César tomou minha mochila de minhas mãos e a carregou. No caminho até em casa, fui sondando seus conhecimentos matemáticos e, por fim, conclui que ele estar ou não na aula dava na mesma coisa, pois ele mal copiava a matéria e não fazia as observações, muito menos os exercícios.

Chegando em casa, minha mãe veio nos cumprimentar e logo começou uma animada conversa com meu amigo, ambos contando as novidades. Eles se entrosaram tanto na conversa que até cheguei a duvidar que ele era mais amigo dela que meu. Tive, então. que intervir, completamente estressado com a falta de compromisso de César, eu o teria puxado pela orelha se ele não fosse tão alto.

Enfim, chegamos ao meu quarto, tão organizado que parecia que eu já esperava visitas, foi exatamente isso que César falou, implicando comigo. Eu tinha uma cama de casal, então sentamos nela, cada um em uma ponta e nosso material no meio. Tive que começar pelo básico e o obriguei a fazer duas vezes cada exercício que eu escolhesse.

Toda hora, porém, ele se distraía, dava uma volta no quarto, ia ao banheiro e até brincar com os meus cabelos, ele brincou. E eu, rapidamente, o trazia de volta ao universo da matemática ameaçando de desistir de ensina-lo. E quando finalmente estávamos indo bem, minha mãe nos interrompeu para jantar, só então vimos a hora, 22:00, e minha mãe, muito inoportuna, convidou César para dormir aqui e o cara de pau ainda teve a audácia de aceitar.

–Só digo uma coisa, tenho certeza que minhas roupas não cabem em você — Eu disse por alto, fuzilando-o com o olhar.

Minha mãe, por costume, botou o prato do meu pai a mesa, ainda que ele não estivesse ali e sim viajando a trabalho. A comida estava deliciosa e conversávamos animados, até minha raiva em relação ao César passou, e, por fim, ele até lavou a louça por mim. Deixando-o ali, com minha mãe, fui tomar meu banho.

Demorei bastante no banho, lavei meus cabelos vagarosamente e, por fim, resolvi sair do banho e vesti meu sedoso pijama rosa claro. A fria corrente de ar do lado de fora, em contraste com a água quente, me causava tremores de frio. Assim que saí, César entrou com algumas roupas do meu pai e uma toalha minha em baixo do braço.

Estava no meu quarto arrumando a bagunça que fizemos enquanto desligava o computador quando ele chegou. A camisa do meu pai não coube nele, ele estava usando apenas os shorts, seus cabelos ainda estavam muito molhados, pingando em seu peito desnudo e molhando o short. Ele ainda teve a audácia de chacoalhar os cabelos feito um cachorro ao meu lado

–Ah! Para com isso — Reclamei.

–Me desculpa — Ainda sim, ele riu — Coloca um filme para vermos

–Não! Vamos revisar o que estudamos e ver o último assunto da prova — Eu disse reabrindo o livro e sentando na cama.

–Rido... revisar não... Ver o último assunto eu até aceito, mas revisar não... — Ele reclamou — E depois vamos ver um filme...

Passamos mais quarenta minutos estudando e, quando acabamos, ele insistiu de novo sobre vermos um filme. Eu neguei, é claro, amanhã tínhamos uma prova logo cedo e devíamos descansar. Ficamos um tempo discutindo sobre isso, mas, por fim, eu venci. Porém, tive que fazer um acordo que sexta-feira, amanhã, ele iria vir para passar a noite vendo filmes.

Então fomos dormir, na hora de deitar, porém, fiquei um tanto nervoso, pois só tinha uma cama. Até pensei em mandar ele dormir no sofá ou, até mesmo eu ir dormir no sofá, mas minha mãe brigaria. Por fim, deitamos, fiquei bem na ponta da cama e me neguei a dividir o edredom. A noite estava fria e comecei a tremer de frio, olhei para o relógio e não era nem meia noite ainda, uma longa noite de frio me aguardava.

–Ei, você não vai morrer por ficar perto de mim — Ele disse, mas o ignorei.

Decidido, me levantei e peguei o outro edredom que eu tinha, um mais antigo guardado no fundo do armário. Ainda em pé, joguei-o na cama e desci até a cozinha pegar algo para beber. Como estava uma noite bem gelada, fiz um pouco de chá de camomila e o tomei bem quente. Assim que voltei ao quarto, César já havia adormecido, me enrolei no edredom e dormi.

Acordei mais cedo, tomei um banho quente e me arrumei, só depois acordei César, que terminou de se arrumar bem mais rápido e fomos tomar café. Ainda tínhamos tempo, então eu fiz café para ele parar de me perturbar. Para a sorte dele, tínhamos uma escova de dentes fechada, e, após escovarmos nossos dentes, fomos para o colégio.

Pelo caminho, fui fazendo algumas perguntas para ele até que obteve um bom resultado. O professor entrou na sala um minuto depois que nos sentamos e, depois de mudar todos de lugar, aplicou a prova. Estava muito mais fácil do que eu pensei, qualquer um que tenha feito a lista de exercício e estudado um pouco conseguiria passar.

As outras aulas demoraram a passar, toda hora César me perturbava a respeito do nosso acordo. César, apesar de tudo, era meu único amigo no colégio, além dele, eu tinha apenas mais duas amigas que estavam sentadas do outro lado da sala e soltavam risinhos em nossa direção. Quando a sirene da última aula tocou, igualmente a ontem, César pegou minha mochila.

Mais uma vez, César e minha mãe ficaram um bom tempo conversando. Abandonando-os no primeiro andar, segui direto para meu quarto, larguei minha gravata no chão e fui me despindo até o armário. Fiquei um bom tempo ali, olhando para várias peças de roupa e, enquanto eu escolhia minhas roupas, César entrou.

Minha primeira reação foi de gritar para que ele saísse e antes dele ter saído, eu já tinha puxado um casaco qualquer, sorte a minha eu não ter tirado minha cueca. Ainda envergonhado, vesti meu uniforme de volta, peguei algumas roupas e fui para o banheiro ignorando completamente César que estava parado, sem jeito, do lado de fora.

Um banho quente me animou, no banheiro, notei que tinha sido inútil ter separado roupas quando eu iria usar os pijamas. Quando voltei ao meu quarto, César estava em meu computador, selecionando filmes para assistirmos. Enquanto ele escolhia, eu fui plugando os cabos do computador na televisão e depois, fui pegar o edredom e, para meu choque, só tinha um no armário, corri até minha mãe e fiquei sabendo que ela tinha colocado o outro para lavar.

Angustiado, voltei até o quarto e chamei César para jantar. A comida estava ótima outra vez e, para minha surpresa, tinha sobremesa e nos despedimos da minha mãe e voltamos para meu quarto. Deixando César lá, fui até o banheiro pentear meus cabelos e, assim que sai, César entrou para tomar banho. No quarto, olhei nervoso para a cama que dividiria com ele e, em seguida, olhei para os filmes que ele havia selecionado.

Esta noite estava bem mais fria que a de ontem e, até me assustei quando César entrou no quarto novamente vestindo apenas um short até os joelhos. Maliciosamente, ele chacoalhou novamente os cabelos molhados do meu lado, olhei irritado para ele, que rapidamente parou de graça e deitou. Coloquei os filmes para começar e me deitei novamente na ponta.

O primeiro filme era o único da lista que eu já havia visto, um extremamente fora do meu estilo, com muita ação e pancadaria. O segundo filmes era de suspense e falava a respeito de um caso criminal que custou a ser resolvido. Eu estava morrendo de frio e, botando meu orgulho de lado, aceitei quando ele me ofereceu o edredom. O segundo filme terminou as 23:40 e demos uma pausa.

Fui ao banheiro e depois coloquei para fazer dois pacotes de pipoca para microondas, minha mãe havia comprado refrigerantes de latinha, eu peguei um de laranja e César pegou um de uva. Voltamos para o quarto e, assim que me deitei, César foi ao banheiro. Tive de esperá-lo voltar para começar o terceiro filme.

Para meu pavor, o último filme era sobre um apocalipse zumbi, um dos tipos de filme que mais me assustava. Vez ou outra, eu acabava soltando um grito abafado de medo e César, o desgraçado, ria de mim. O filme foi ficando mais assustador, um a um, os protagonistas foram morrendo, um deles, que era muito parecido comigo, foi encurralado. Eu me vi no lugar no personagem e, assustado, me virei, dando de cara com o peito de César.

–Você está bem? — Ele me abraçou — Quer que eu pare o filme?

–N-N-Não, pode deixar — Gaguejei, assustado.

Voltei a minha posição e continuei vendo o filme, me assustando na maioria das cenas. Sem eu notar, César foi se aproximando e quando notei, ele já estava me abraçando. Olhei em seu rosto, ambos envergonhados e sem graça, completamente alheios ao filme que passava, César apertou o abraço, forçando-me a me aproximar dele.

Então ele o fez, aproximou ainda mais nossos corpos e me tomou os lábios em um beijo envergonhado cheio de curiosidade. Meu coração estava disparado, martelando em meu peito cada batida arrítmica. Quando nos separamos, olhamos um para o outro, um grito vindo do filme me assustou e apertei meu rosto contra o peito de César, dava para sentir seu coração bater, tão descompassado quanto o meu. Ele esticou o braço até o computador e pausou o filme, depois desligou a televisão, nos mergulhando no escuro.

Nos beijamos novamente, muito mais demorado que antes, nossas línguas explorando a boca um do outro em uma mistura de sentimentos, conhecendo um ao outro pela primeira vez dessa forma tão íntima. Foi a primeira vez que beijei alguém, completamente inexperiente, César quem conduziu o beijo e ali ficamos, abraçados.

César nos virou na cama, ficando por cima de mim, descolando momentaneamente seus músculos de mim para segundos depois me prensar na cama com seu corpo quente. Mais uma vez, nos beijamos, com a minhas mãos em suas costas, abraçando-o, apertando-o levemente e o arranhando um pouco. Ele, com gestos habilidosos, foi tirando um por um, os botões da minha camisa.

Nessa noite fria, mesmo sem minha camisa, em um único edredom, eu estava completamente aquecido. Ele me abraçou, me puxando para ele e nos trocou de lugar. Eu tomei a iniciativa dessa vez e o beijei, um beijo tranquilo e calmo, de boa noite. Depois me aconcheguei na cama, apoiando minha cabeça em seu peito nu. Ele me puxou para mais próximo dele e assim dormimos.

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