Questão de Tempo
1 A Queda
A Queda
O silêncio em Grimmauld Place era quase sepulcral. A antiga mansão dos Black, há quase dez anos, havia se tornado o lar de Harry Potter. Sentado no velho sofá da sala de estar, com os cotovelos apoiados nos joelhos, ele segurava uma carta amassada entre os dedos. O brasão do Ministério ainda brilhava no lacre partido, mas o conteúdo o assombrava mais do que qualquer emblema mágico.
Gina estava casada.
Não fora convidado para as festividades e só soube por um comunicado oficial aos funcionários sobre ausências temporárias.
Não era exatamente uma surpresa. O relacionamento deles havia terminado de forma civilizada quase quatro anos antes, consumido por silêncios longos demais e por planos que se afastavam como trilhas em direções opostas. Ainda assim, havia um peso em ver as palavras no papel — como se o tempo tivesse, enfim, selado algo que o coração ainda insistia em manter aberto.
Harry suspirou e olhou para outra pilha de cartas ao seu lado. Eram de Hermione. Sentia falta da amiga de longa data. Há seis meses, ela havia partido para a Austrália para cuidar dos pais.
As cartas dela eram diferentes de todas as outras que recebia diariamente. Escritas à mão, com a letra precisa e firme que ele conhecia desde a adolescência, mas agora com uma vulnerabilidade que jamais imaginara ler. Hermione falava da busca pelos pais, dos anos de terapia bruxa que seriam necessários para restaurar memórias apagadas, da solidão de estar longe de tudo e de todos.
E ele respondia. Sempre. Não importava onde estivesse ou que compromisso precisasse adiar — Hermione era o único laço constante que lhe restava, e talvez ele fosse o dela também.
Foi durante uma dessas correspondências que ela mencionou que ficaria mais tempo do que imaginara. Dois anos. Talvez mais. A notícia deixou Harry inquieto.
O que havia na Inglaterra para ele sem Hermione? Os Weasley haviam se afastado após o término com Gina. Seria possível ficar dois anos longe dela?
Mas não houve tempo para refletir. A missão chegou como sempre chegavam as ordens do Departamento de Execução das Leis da Magia: abruptamente.
— Magias temporais, Potter — dissera Robards, com a expressão fechada. — Alguém anda brincando com feitiços proibidos no norte da Escócia. Não precisamos de outro desastre como o de Turnspit.
Então Harry foi.
Com sua pequena — e "grande" — bolsa enfeitiçada, um kit básico de poções e a velha varinha em mãos.
A floresta era densa e fria, o tempo instável. Havia sinais de magia no ar — distorcida, antiga, como se as próprias raízes da terra tremessem sob o peso de algo que não deveria estar ali.
Ele estava prestes a conjurar um Feitiço de Revelação quando sentiu o ar se rasgar.
Um brilho dourado cortou a clareira, seguido de um rugido baixo e vibrante, e então... dor.
Seu corpo foi lançado para trás, atravessando camadas de luz e sombra, como se estivesse sendo puxado para dentro de um vórtice invisível. As cores se dissolveram. O som desapareceu.
Tudo ficou negro
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