Notas iniciais
Voltei rapidinho dessa vez!

Quando o despertador tocou, eu já me encontrava acordada fazia bem uma meia-hora. A preguiça, é claro, me impediu de me levantar antes; reuni coragem o suficiente para isso apenas quando “Oh My God” começou a tocar, dando-me a energia necessária para algo que, em teoria, é muito fácil. Porém quando colocada em prática, sinto como se encarasse o próprio Monte Everest.

Há um motivo para isso tudo, como é de se imaginar, e não se resume somente ao nervosismo de encarar uma situação bastante inesperada: brincar de detetive com alguém que não tenho a menor ideia de quem seja. Nome, aparência, idade, não sei absolutamente nada, exceto que estudamos juntos. E esse fato não me ajuda em muita coisa, já que estou em meu último ano e nem mesmo sei o nome de metade dos meus colegas também formandos. Em termos de socialização, digamos que eu seja um zero à esquerda.

Não, não. A razão é muito mais simples e óbvia, que envolve Biologia, ao contrário de assuntos psicológicos. O meu período chegou ontem, me pegando quase desprevenida. Havia me esquecido completamente que estava para menstruar. Sendo assim, é bem fácil de compreender toda essa hesitação que estou sentindo.

Bem, mas o que há de fazer, certo? Já estou acostumada.

*

Não creio que tenha sido uma boa ideia aceitar justo nessa semana o “joguinho”. Com certeza não foi.

Sou uma pessoa bastante tranquila com a maioria das coisas. Não me estresso fácil, menos ainda saio gritando e esbravejando pelos cantos. Reclamo bastante, com toda a certeza, no entanto é exatamente aí em que acaba meu mau humor. Em condições normais.

Mas quando envolve minhas habilidades de dedução... eu não posso ser contrariada. Até que eu consiga me convencer de que há uma boa probabilidade de minha teoria a respeito de algo estiver correta, eu não descanso. Não pisco os olhos. Pistas se tornam meu alimento. É possível que eu precise procurar alguma ajuda para aprender a lidar com isso (ok, estou exagerando, a situação não chegou nesse nível ainda), porém, enquanto isso, desenvolvi um método para me ajudar a respeito do problema: por mais que eu ame romances policiais, me limito a uma pequena quantidade por ano, nunca um seguido atrás do outro. E nunca. Jamais. Quando eu estiver sobre o efeito do meu ciclo.

Infelizmente, eu nem pensei nisso ontem. E agora aqui estou, com um pedaço de papel inútil em minhas mãos, impaciência e irritação correndo em minhas veias.

Tenho olhos escuros

Que merda ele planeja que eu faça com isso? A maioria da população de todo o mundo possui olhos escuros. A não ser que eu saía por aí perguntando a todas as pessoas com tal coloração, eu nunca conseguirei descobrir droga nenhuma. Humpf, “tenho olhos escuros”.

Certo. Tudo bem. Respiro fundo algumas poucas vezes, até que finalmente consigo me acalmar. É o primeiro dia. Quem é que consegue decifrar um caso de primeira? Nem mesmo Sherlock Holmes ou Hercules Poirot são capazes disso.

— Eu já entendi, Lena – Miranda revira os olhos, um pouco de raiva sendo notável em sua voz. – Você odiou a dica. Agora, será que pode me deixar comer em paz?

Metade do dia havia passado, e mesmo que tenhamos tido várias aulas e neste momento estejamos almoçando no refeitório, eu ainda não consegui superar o pequeno post-it amarelo que encontrei dentro do meu armário. E como é possível perceber facilmente, não paro de reclamar para uma das únicas pessoas do mundo que me escuta. Bom, por enquanto.

— Certo, certo. Não vou falar mais nada – cedo e dou uma bela mordida em meu sanduíche. Ah, como eu estava com fome! – É que eu acho engraçado que...

— Minha nossa! – a garota exclama repentinamente. Como resultado, eu engasgo, claro.

— ‘Tá louca? Não precisava tentar me matar engasgada só para me fazer parar de falar – digo em meio à tosse.

— Não, olha – ela aponta para algo atrás de mim, os olhos castanho claros um tanto arregalados.

Me viro em direção às portas que levam aos corredores. Bem em frente a elas, do outro lado do refeitório, formou-se uma pequena comoção de alunos, a maioria cochichando, alguns poucos rindo.

— O que aconteceu?

— Um garoto, acho, tropeçou e caiu. Derrubou toda a bandeja em si mesmo.

E agora se tornou o alvo da atenção de todo mundo. Obviamente, ninguém que se encontra na roda faz um único movimento para ajuda-lo; apenas se mantêm observando e fazendo comentários, como dizer, espirituosos.

Lembro que em meu primeiro dia aqui, algo semelhante me aconteceu. Mas eu tive a sorte de apenas derrubar a bandeja no chão, sequer cheguei a me sujar. Inclusive, alguém teve a gentileza de me ajudar a limpar o que caiu. No entanto, a pessoa sumiu entre os outros alunos e nem tive a oportunidade de agradecer.

Pensando nisso, me levanto e caminho em direção ao bolo humano. Naquele dia, me senti realmente muito agradecida e, mesmo que não fosse quem ajudou, senti que deveria, de alguma forma, devolver o favor.

Assim, passo por todos aqueles estudantes utilizando-me de empurrões e cotoveladas, até finalmente chegar ao coitado. Sua camiseta está encharcada de algo que, muito provavelmente, é suco de uva, e a comida se encontra completamente esparramada no chão. O garoto, ao meu ver, possui descendência asiática, porém seu cabelo cobre seus olhos escuros, e não consigo ter certeza. Seu rosto está completamente vermelho e virado para baixo, enquanto tenta reunir tudo de volta na bandeja.

Ajoelho-me ao seu lado e começo a fazer o mesmo, em silêncio. Ele nem mesmo parece notar, um tanto perdido em meio a vergonha que deve sentir.

Ter tropeçado e derrubado tudo não seria assim tão ruim. O problema concentra-se na pequena multidão que ainda não dá sinais de que irá dispersar-se. Isso me enraivece tanto! Contudo, não faço nada a respeito. Não sou o tipo de pessoa que causa estardalhaços.

Enfim terminamos de arrumar tudo; foram necessários muitos guardanapos. Os alunos perderam o interesse gradativamente, à medida que percebiam que a “graça” já havia passado. Eu e o garoto nos levantamos rigidamente – esses poucos minutos abaixada só ajudaram a piorar minha cólica – e nos dirijamos para as lixeiras. Percebo que ele quase não me olha, na verdade, está tentando evitar isso. Como também não sei exatamente como agir, continuo em silêncio. O sinal bate no exato instante em que terminamos de jogar tudo fora e isso me lembra que o – provável – asiático não teve a chance de comer nada.

— Pode esperar aqui por um minuto? – pergunto, mas nem espero por sua resposta e corro direto para a mesa em que me encontrava. Miranda está me esperando, segurando metade de um sanduíche e uma maçã; o meu almoço. – Não precisa me esperar, Mira. Já vou para a aula.

E volto para o lugar em que deixei o menino. Ele ainda está ali, estático. Tenho a impressão de que levou meu pedido a sério demais.

— Aqui. Não é muita coisa, mas deve ajudar a aguentar o resto do dia – lhe estendo a maçã. O garoto pega, meio lentamente, porém ainda me oferece um sorriso. É fofo, porque lembra um coelho.

Não espero por um agradecimento e saio do refeitório, torcendo para não levar nenhuma bronca por ter me atrasado.

Notas finais
É isso! Espero que gostem e me perdoem caso tenha erros ;3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.