Questão de Tempo
6 Em qualquer realidade
Em qualquer realidade
Harry Potter estava de calças de pijama, olhando pela janela e observando o sol nascer. Um hábito antigo de acordar cedo, herdado dos tempos da infância em outra dimensão, com os Dursley.
Hermione dormia profundamente. O quarto estava mergulhado na meia-luz. O som de passos no corredor fez o instinto de Harry se acender e a varinha surgir em sua mão. Até perceber o pequeno invasor de cabelos cacheados revoltos, olhos verdes profundos e carinha de medo.
— Papai… – chamou em voz baixa.
— Seth. – respondeu, correndo para abraçar o menino de pijamas azul royal. – O que foi, filho? – perguntou, acolhendo-o. Seu coração disparava. Sua vida nesta realidade era abundante em amor, enquanto na sua original havia apenas escassez.
— Tive um pesadelo, posso dormir aqui? – perguntou manhoso.
— Claro, filho. – disse Harry, levando-o para a cama que dividia com Hermione.
Seth se aconchegou entre os pais, encostando-se em uma Hermione sonolenta. Harry permaneceu desperto, observando os dois.
A vida naquela realidade era boa, mas a versão Potter dali era estranha. Havia muitas pessoas tentando destruir sua família. Achava Rony, nessa linha temporal, arredio e agressivo. E ainda havia Neville, que parecia estar à margem, esperando o momento certo para tomar sua esposa e filhos.
Questionava-se se o ódio contra ele nascia do “amor-não-tão-platônico” de Neville por Hermione. E ainda havia o fato de precisar descobrir o que acontecera com o Outro Harry, o verdadeiro desta linha do tempo. Não acreditava que este Harry Potter sobreviveria por muito tempo.
Era hora de parar de pensar e começar a agir.
Naquela manhã, por volta das 11 horas, Harry encarava o vazio da mesa. Compartilhara o café com Hermione e os meninos, os levara à pré-escola para pequenos bruxos e depois chegara ao trabalho. Havia um relatório simples, no qual gastou pouco mais de uma hora para finalizar.
Até que uma ideia brilhou diante dele, com o cartaz fixado à porta: “Recrutamento Interno”. Harry levantou-se e caminhou em direção ao QG dos aurores. Pelos corredores, via uniformes negros, semblantes cansados de plantão, o cheiro de café no ar e o som dos estalos vindos da sala de treinamentos. Aquilo lhe trouxe conforto de rotina. Finalmente, algo familiar.
Draco Malfoy vestia o uniforme com insígnias de liderança. Era o chefe dos plantonistas, responsável pelas escalas e missões.
— Bom dia, Malfoy! – cumprimentou, estendendo a mão.
Os olhos cinzentos de Draco brilharam rapidamente, enquanto as sobrancelhas se uniam em estranhamento. Ele apertou a mão de Harry com firmeza.
— Em que posso te ajudar? – apesar da polidez, Harry notou o tom de desdém.
— Vim para o recrutamento interno. – disse. Os olhos de Draco se arregalaram, a expressão revelando surpresa.
— Potter, é um teste de aptidão. Parentes ou pessoas com conflito de interesse não podem aplicar. O que resta aos demais não costuma ser simples. Depois há treinos na academia até chegar ao nível júnior. – explicou.
Harry entendeu o subtexto. E, sabendo que seu emprego dependia de Hermione e James, compreendia a relutância.
— Estou bem com isso. Quando posso ser testado? – conhecia sua habilidade. A varinha que usava ali era a mesma que comprara no pós-guerra: boa para feitiços.
— Agora mesmo! – respondeu Draco com um sorriso malicioso. – Cater! Temos um candidato!
Ao ouvir o nome de Luke Cater, Harry sorriu por dentro. Luke era habilidoso e criativo. Em feitiços simples que uma criança lançaria, ele criava armas letais. Mestre em duelos, frequentava um clube famoso.
— Tem certeza, Potter? – questionou Draco em tom divertido.
— Sem problemas. – respondeu.
Logo surgiu Luke, baixinho, loiro, de olhos azuis. Tinha feição delicada e olhar de bichinho de pelúcia: a armadilha perfeita para os arrogantes. Harry contava que, nesta vida, fosse tão perigoso quanto sempre fora.
Caminhavam até a sala de treinamento, onde encontraram Neville e James conversando animados. Harry sentiu a fúria crescer em si. Estava com ciúmes, era fato. Neville parecia sempre pronto a tocar no que lhe era valioso.
Era bom ter raiva naquele momento, ajudaria no combate.
— Filho, o que faz aqui? – perguntou James, preocupado.
— Harry está aqui para o teste de auror júnior. – respondeu Draco, olhando diretamente para James, quase pedindo permissão.
— Filho… – apressou-se James, aproximando-se. – Tem certeza? Você sabe que não é bom o suficiente. Podemos treinar em casa primeiro.
Harry encarou o pai. Amava aquele homem, mas entendeu por que o Harry daquela dimensão era tão fraco: James sempre suprimia qualquer desafio.
— Estou bem, pai. – respondeu, dando três batidas no ombro dele. O gesto não passou despercebido por Draco e Neville, que se entreolharam surpresos.
— Estou pronto, Luke! – disse Harry, posicionando-se onde os candidatos aguardavam.
A sala respirava com eles. O piso de madeira, gasto e marcado por cicatrizes de duelos, lembrava a todos: nada seria fácil. O silêncio foi quebrado pela voz firme de Draco.
— Regras simples. Apenas feitiços de duelo. Nada de maldições imperdoáveis, nada de covardia.
Luke se posicionou, ajeitando-se como um bailarino antes do espetáculo. Seus olhos faiscavam, mas o sorriso doce permanecia.
Harry girou a varinha entre os dedos, sentindo-a aquecer a palma. Respirou fundo. Não era apenas um teste para auror júnior — era seu ponto de virada. A chance de provar que podia conquistar espaço sem depender de sobrenomes ou memórias.
— Prontos? – Draco ergueu a mão. – Três... dois... um... comecem!
Luke atacou primeiro. Um raio vermelho de atordoamento voou em direção ao peito de Harry. Ele rolou para o lado, respondendo rápido.
— Expelliarmus!
O feitiço ricocheteou no escudo erguido por Luke, que sorriu de canto.
— Vai precisar de mais do que isso, Potter.
Harry riu por dentro. Era como esticar as pernas depois de muito tempo sentado. Se queria vencer Luke, precisava pensar diferente. Lembrou-se de Lupin, que sempre o aconselhava a variar o ritmo, e de Tonks, que ria ao ensinar truques pouco ortodoxos. Ainda não os tinha encontrado nesta realidade.
Feitiços cruzaram o ar, explosões controladas sacudindo as paredes. Luke se movia como artista: ágil, preciso, devastador. Mas Harry tinha experiência.
Com um giro do pulso, lançou uma cortina de faíscas douradas, cegando Luke. Avançou sem esperar.
— Petrificus Totalus!
O feitiço pegou de raspão, derrubando Luke de joelhos. Mas o loiro reagiu, lançando um Flipendo amplificado, que atirou Harry contra a parede. O impacto arrancou-lhe um gemido, mas também trouxe a fúria que precisava.
— Chega de brincar. – murmurou, levantando-se com olhos faiscando.
James avançou, preocupado, mas Neville o segurou.
— Espere. – disse, quase em reverência. – Olhe para ele, James.
No centro da sala, Harry Potter avançou com a confiança de quem já enfrentara dragões, dementadores e Voldemort. Sua varinha brilhou intensa e, antes que Luke reagisse, executou rápido:
— Expulso! Incarcerous!
O primeiro feitiço jogou Luke para trás, o segundo o envolveu em cordas firmes. O duelo terminou em segundos.
Draco ergueu a sobrancelha, surpreso, mas não conteve o leve sorriso.
— Impressionante, Potter. – disse baixo, carregado de significado.
Harry abaixou a varinha, ofegante. O silêncio da sala era pesado e solene. James parecia dividido entre orgulho e medo — orgulho pela capacidade do filho, medo por não reconhecê-lo. Neville, por sua vez, não disfarçava a irritação.
Harry encarou Draco.
— E então? Passei no teste?
Draco se aproximou, avaliando-o de perto.
— Passou. – respondeu seco, mas sincero. – Bem-vindo ao recrutamento, Potter.
Naquele instante, Harry percebeu que estava começando a construir sua própria vida ali.
O fim do expediente trouxe sabor agridoce de vitória. Harry deixou o QG com o coração acelerado, ainda sentindo o duelo na pele. O ar fresco de Londres não acalmou sua inquietação. Sabia que teria de encarar Hermione.
E ela não era o tipo de mulher que aceitava decisões sem discussão.
Em casa, o som das risadas infantis o recebeu. Pela janela, viu os meninos encantando blocos de construção que flutuavam antes de cair. Hermione, no sofá, com um livro no colo, observava com sorriso sereno.
Harry respirou fundo e entrou.
— Você demorou. – disse ela, sem levantar os olhos, mas com curiosidade. – Achei que hoje seria só um dia comum.
Ele tirou os óculos, esfregou o nariz e se jogou na poltrona.
— Não foi tão comum assim. – murmurou.
Hermione ergueu os olhos. O cabelo dele estava mais desgrenhado, a camisa amassada e um arranhão na bochecha.
— Harry... o que você fez? – perguntou séria, fechando o livro.
Ele engoliu seco.
— Me inscrevi no recrutamento interno dos aurores.
O silêncio foi pesado. Os meninos riam, alheios. Hermione, congelada.
— Você o quê? – sua voz saiu baixa, mas os olhos ardiam.
— Fiz o teste. Passei. Draco me colocou no processo.
Ela se levantou, o livro escorregando para o sofá.
— Harry! – exclamou, aproximando-se. – Você nem conversou comigo!
— Eu preciso disso, Hermione. Não quero viver à sombra de James, nem parecer que só existo porque... porque você está aqui. Preciso provar que sou capaz. – disse, tentando controlar o tom.
Hermione fechou os olhos, respirando fundo, buscando paciência.
— E se você se machucar? – sua voz tremia de medo, mais do que raiva.
Harry segurou suas mãos.
— Obrigado por me amar tanto, ao ponto de me permitir ser fraco e perdido. Mas eu me conheço. Não sei viver atrás de uma mesa. Preciso lutar, não só por mim, mas por nós.
Harry não queria mais ser coadjuvante da própria vida. Essa era a essência dele em qualquer linha do tempo: o homem que não virava as costas para a luta.
Hermione suspirou, derrotada, e o encarou longamente.
— Eu sabia que esse dia chegaria... Estou orgulhosa da sua decisão. Você não viveria à sombra para sempre. – disse, mas o olhar mostrava muito mais.
Harry sorriu, puxando-a para um abraço.
— Confia em mim.
Ela encostou a cabeça em seu ombro, contrariada.
— Vou confiar. Mas, Harry... – seus olhos faiscaram. – Não esqueça o quanto te amo e que temos os meninos. Tenha cuidado!
— Justo. – respondeu ele, rindo baixo, antes de beijá-la suavemente.
Naquele instante, com os filhos rindo ao fundo e Hermione dividida entre medo e amor, Harry soube que estava dando o primeiro passo para mudar não apenas sua história, mas também como seria lembrado naquela realidade.
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