Questão de Tempo
4 Cuidado com o galho, tio
Notas iniciais
– Como assim não sabe onde estamos?
– Espera, Victor!
Os dois estavam no meio da floresta com o grupo das torradas. Dani rodava um mapa em suas mãos enquanto Victor o encarava, complexo. As crianças, por sua vez, nem pareciam notar algo de estranho e continuavam a conversar e gritar, enquanto Daniel sabia que haviam ultrapassado os limites do acampamento há muito tempo. Já Victor só percebeu quando o viu por um momento ficar encarando o mapa e as árvores ao redor como se algo não coincidisse.
“Você sabe onde estamos?”, Victor havia perguntado e Dani apenas chacoalhou a cabeça e continuou a andar na frente do grupo. Já ele estava no fundo, garantindo que as crianças não se perdessem ou fossem deixadas para trás, contando as cabeças em intervalos de tempo, como havia sido instruído. Quando Dani foi fazer uma curva à direita e deu um giro de 360 graus no lugar, mudando de ideia, Victor aceitou que estavam perdidos.
– Não vou esperar, cara. — ele revirou os olhos, com uma pausa antes do “cara”, para impedir-se de dizer um “porra”.
Ele atravessou o mar de crianças até Daniel e cochichou para garantir que os pequenos não os ouvissem discutir aquilo e entrassem em pânico hipotético.
– Pensei que você conhecia esse lugar — disse Victor, roubando o mapa do outro — Como você pode se perder?
– Desculpa, cara. — respondeu ele, incerto — A parte de mapas e guiar era com a Luce.
– Adivinha só? — Victor forçou um sorriso efusivo, chacoalhando a cabeça — ela não tá aqui, Dandan.
– Você tá imitando a Luce?
– Talvez. — ele virou-se novamente para o mapa, sério.
– Ela não fala assim.
– Eu sei.
E a partir daquele momento Victor tomou a iniciativa de guiar o grupo e deixar Daniel com a retaguarda das torradas. Depois de alguns minutos de caminhada eles encontraram um pequeno riacho e Daniel começou a pular, gritando que conhecia aquele trecho. Eles o localizaram no mapa e o seguiram na direção contrária, que iria voltar para o acampamento.
No meio do caminho Victor esforçou-se pra lembrar de alguma canção que cantava quando era menor e pôs aquele grupo de pirralhos pra berrar a plenos pulmões, com algumas mudanças na letra.
– Um, dois, três, quatro! — Ele berrou, em uma imitação de cantiga militar e começou a trotar na frente do grupo, como se eles agora fossem um mini exército em treinamento. As crianças repetiram o verso com gritos estridentes. — Ser torrada é um barato!
– Ser torrada é um barato!
Daniel observou o menininho à sua frente berrar junto dos outros. Ele era um pouco mais gordinho do que os amigos e estava ficando para trás.
– Quatro, três, dois, um! — Victor continuou.
– Quatro, três, dois, um!
Dani ainda não havia começado a trotar, então viu quando o menininho parou de tentar acompanhar os outros e apoiou-se nos joelhos para recobrar o fôlego. Ele havia o reconhecido da temporada anterior, quando ainda monitorava os meninos.
– Vou chutar o seu bumbum.
– Vou chutar o seu bumbum — mais da metade das crianças repetiram, porém, as outras que não o fizeram estavam rindo. Victor sorriu satisfeito, voltando ao começo da canção.
Quando Dani alcançou o menino parado, apoiou uma mão em seu ombro e agachou-se ao seu lado.
– Tudo bem com você aí, campeão?
– Um, dois três, quatro! — Gritou Victor em algum lugar mais à frente, com mais intensidade.
– Aham — o garotinho respondeu, ainda um pouco cansado.
– Quer ir um pouco mais devagar?
Ele balançou a cabeça e Dani começou a trotar devagar ao seu lado, guiando-se por algumas crianças que ficavam mais atrás do grupo, com Victor já fora de vista. Sua voz, no entanto, ainda era audível daquela distância.
– Um, dois, três, quatro!
– Um, dois, três, quatro! — o garotinho repetiu e virou-se para Dani, com as sobrancelhas finas franzidas, fazendo-o parecer um biscoito trakinas confuso.
– Ser torrada é um barato!
– Ser torrada é um barato! — dessa vez ele cantou sem desgrudar o olhar de Dani — Você não vai cantar também, tio?
– Oi? — Agora Dani lembrava-se definitivamente do garoto, sorrindo. “Tio”. Era o único que o chamava de tal maneira.
– Você não vai cantar?
– Ah… Se você quiser… — Seu sorriso aumentou, surpreso.
– Quatro, três, dois, um! — O garotinho gritou.
– Vou chutar o seu bumbum! — Victor bradou.
– Vou chutar o seu bumbum! — Dani repetiu junto do garoto e os dois começaram a rir.
E, daquela vez, a caminhada com Victor pareceu durar metade do que durava com Luce.
– Ali! Ali, Daniel!
A boca de Victor se partiu em um sorriso e virou-se animadamente para trás, procurando por Daniel, quando avistou o antigo gazebo do acampamento, que indicava os limites do acampamento. Mas Dani não estava à vista. Devia ter ficado um pouco mais para trás.
– Achei, Daniel! — Ele anunciou de qualquer maneira, para que ele ouvisse, de onde quer que estivesse.
– Achou? — A voz de Daniel ecoou de trás de algumas árvores — O quê?
– O acampamento, seu idiota! — respondeu ele, ainda com um sorriso.
Dani apareceu, dando a volta em um arbusto com um menino gordinho que Victor conhecera no quarto. Seu nome era Lucas.
– Olha lá! — Victor apontou, ignorando totalmente as crianças — Conseguimos!
Franzindo o cenho, Dani demorou-se no fato de Victor ter dito “conseguimos” no plural, como se ele houvesse ajudado em algo que não levar o grupo pro meio do nada. E acabou sorrindo, pegando na mão de Lucas e o guiando para mais perto do grupo.
– QUAL É O TIME? — ele gritou.
– TORRADINHAS!
– EU NÃO OUVI, QUAL É O TIME? — Dani repetiu, encarando Victor.
– TORRADINHAS! — ele gritou junto dessa vez, revirando os olhos.
Dani parou ao seu lado e virou-se para contar quantas crianças haviam com eles. Por um momento sentiu sua alma sair do corpo ao notar que uma estava faltando, mas logo Ellen, a petulante, saiu de trás de uma árvore bocejando e acenou para ele. Então todos estavam ali. Uma tragédia a menos.
– E você não revira os olhos desse jeito ainda — Dani bateu nas costelas de Victor com o cotovelo — porque ainda temos essa porra de subida pra enfrentar.
Só então Victor pareceu perceber que o gazebo estava no topo de um morro, e suspirou ao se dar conta de que teriam que subir aquilo.
– E já que você tá tão animadinho pra guiar o grupo, pode ir na frente que eu fico lá trás.
Victor não respondeu nada e sorriu de canto, retomando a atenção das crianças quando Daniel chegou no outro extremo das Torradas.
– Vamos lá, pessoal — disse ele — quero todo mundo subindo junto. Se for cair, fica de bunda e escorrega até o final, pra ninguém se machucar.
Daniel arregalou um pouco os olhos. Victor estava se virando tão bem com as crianças que parecia inacreditável enxergar o mesmo cuzão que ele conhecia naquele garoto sorridente. E confuso.
– Vem, gente.
Quando Dani começou a andar, ele já estava na metade da subida, com a maioria das crianças atrás dele. Lucas estava ao seu lado novamente, resmungando sobre não ter comido o suficiente para aguentar aquilo. Dani reprimiu uma risada e continuou a andar quieto. Ao levantar o olhar, parou para notar a calça skinny preta de Victor. Como ele conseguia se mover com algo tão apertado?, se perguntou, afundando as mãos nos bolsos da bermuda larga.
Ao chegar no topo da subida, Victor voltou a cantarolar com as crianças, olhando diretamente para Daniel, enquanto os outros o alcançavam.
– Um, dois, três, quatro!
– Um, dois ,três, quatro!– as crianças repetiam.
– O tio Victor é um barato!
– O tio Victor é um barato!
– Quatro, três, dois um!
– Quatro, três, dois, um!
– O tio Dani é muito ruim!
As torradas gargalharam e todos já estavam ao lado do gazebo. Daniel não disse nada e encarou Victor com a típica cara de Não fale comigo, ou vou te matar, que costumavam trocar na escola em seus piores dias, e quando o outro estava começando a se convencer de que aquilo era sério, encarando o chão, Daniel começou a rir também.
– Vamos logo — ele disse.
Victor sorriu.
– Cuidado com o galho, tio — disse uma das crianças.
E quando Dani foi procurar o galho, sua mente começou a processar tudo em câmera lenta. Eles estavam em um trecho um pouco íngreme. O galho estava perto do pé de Victor. O pé de Victor então estava embaixo do galho. E ele começou a cair. E rolar.
A boca de Daniel abriu-se em uma exclamação silenciosa e as crianças gritaram por ele.
– Tio Victor! — gritou Ellen.
Dani foi o primeiro a se mexer, correndo na direção do garoto caído a alguns metros. Os pequenos vieram atrás.
– Vão devagar, gente — ele os alertou — não queremos mais ninguém rolando que nem o tio.
Victor agora estava sentado na grama com uma perna esticada e a outra recolhida, segurando o pé com uma expressão de dor e surpresa.
– Que MERDA de galho!
– As crianças, cara — Daniel ajoelhou-se ao seu lado, preocupado.
– Foda-se.
– O que aconteceu exatamente?
– Torci o pé. Não sei. Tô com gosto de sangue na boca. Acho que ralei minhas costas inteiras.
– Tem certeza que aconteceu tudo isso? — Dani levou o polegar, hesitante, até um arranhão em sua bochecha — esse aqui não foi nada profundo.
– Cacete, Daniel.
– Victor!
– Tudo bem — disse uma garotinha — eu li na internet que xingar alivia a dor.
– Obrigado, Ana — Victor tentou um projeto de risada e surpreendeu a todos com uma careta e um gemido de dor.
– Me mostra onde tá doendo — Dani aproximou a mão de seu pé, mas não encostou em nada.
Victor pegou sua mão e a levou até a base de seu tornozelo. Aquela era a primeira vez que eles trocavam algum contato desde a briga de socos que trocaram no oitavo ano, Dani não deixou de reparar. Ele encostou os dedos de leve no tornozelo de Victor.
– Ai, ai, ai, ai, ai! — Victor gritou quando ele pressionou um pouco mais. Ok, pé torcido, confere.
– TIO DANI! ELE TÁ MORRENDO!
– Ana, o tio Victor não tá-- EITA, PORRA.
O terror tomou conta do rosto de Victor enquanto tentava entender o que acontecia. Acompanhou o olhar das crianças e de um Daniel mega preocupado, e se deparou com uma mancha vermelha enorme no lado esquerdo de seu torso, perto das costelas, tingindo a camiseta branca de sangue.
Ele fechou os olhos com força e levantou a cabeça.
– Não — ele choramingou — sangue não, sangue não, sangue não…
– Então você não mudou tanto assim.
Ellen ergueu uma sobrancelha ao ouvir.
– Vai cagar — respondeu Victor.
– Tira a camiseta.
– Oi?
– Tira a camiseta, cara.
– Por que?
– Pra eu ver esse machucado, droga.
E, relutante, Victor arrancou a camiseta pelo colarinho, evitando olhar para para o machucado. Dani deparou-se com um abdomen magro, quase definido e sentiu suas orelhas esquentarem. Ele sabia um pouco de primeiros socorros. Era o “amigo médico”, enquanto Luce era a “amiga guia”.
– Nós precisamos tampar o corte — disse ele — impedir o sangue de escorrer e… sua camiseta. Me dá ela aqui.
– Que? Pra que?
– Pra amarrar em você e reter o sangue.
– Nem ferrando!
Daniel bufou.
– Por que não, porra?
– O tio Victor vai morrer?
– Não, Ana, o tio Victor não vai morrer.
– Minha camiseta é branca, Daniel — Victor esbravejou e o fitou — e sangue mancha. Já manchou o suficiente pra…
– Tá. — Daniel levantou-se e arrancou a própria camiseta, ganhando algumas risadinhas das garotas.
– O que você tá…
– Você não vai me dar a sua camiseta — ele agachou-se novamente e deu um meio abraço em Victor, amarrando a peça de roupa ao redor de sua barriga — então vou ser obrigado a usar a minha, porra.
Ele não estava realmente bravo, mas precisava parecer, então soltava alguns “porras”. O arranhão pegava basicamente todas as costelas de Victor em um risco vertical, porém o corte em si era pequeno o suficiente para ser estancado pela camiseta. Daniel enxugou o suor da testa com as costas da mão e puxou a camiseta branca de Victor, usando-a para limpar seu rosto.
– Para com isso, Daniel — ele virou a cabeça, relutante.
– Não — respondeu Dani firmemente, limpando o arranhão em sua bochecha — Você sabe que se acontecer alguma coisa contigo vão desconfiar de mim, e desse jeito, essas crianças servem como minhas testemunhas de que não tentei te matar.
– Eu nunca diria que você tentou me matar.
Daniel não respondeu por alguns segundos.
– Só não seja idiota de vir de jeans apertado para caminhar na floresta de novo.
Se depender de uma pessoa que você evitou por anos para ser carregado até a enfermaria deixou Victor com uma sensação terrível no estômago, ele não fazia ideia da sensação terrível no estômago de Daniel, tendo que carregá-lo sem camisa até a enfermaria.
Dani ajudou-o a se erguer do chão e passou seu braço por cima dos ombros, para dar-lhe apoio. No mesmo instante em que seus corpos se encostaram, Victor fez uma carranca para as árvores ali perto, evitando olhar Daniel, sentindo-se ridículo por não conseguir andar sozinho, enquanto Dani tentou disfarçar o fato de que sua respiração estava começando a ficar acelerada. Pelo esforço de ajudar o cara, claro, ele disse para si mesmo.
Mas lá no fundo ele sabia.
Seu rosto esquentou ao perceber que estava dando atenção demais para o contato entre seus corpos e se esforçou para não notar o quão quente a pele de Victor parecia, contra a sua. Involuntariamente seu olhar caiu no torso despido do outro e voltou seu rosto para a frente rapidamente, como se tivesse acabado de ver seus pais fazendo sexo. Olhos arregalados e respiração presa. Aquilo não era um tanquinho, nem um abdômen definido. Quer dizer, era alguma coisa. Era legal. Dani abaixou os olhos para o próprio abdômen. Ele era magro, mas não tinha nenhum sinal de músculos naquela área.
Mas, para compensar, ele tinha ombros largos e braços fortes, lembrou. Então não estava tão mal assim, se comparado com Victor.
As crianças vinham atrás deles, conversando sobre a queda do tio Victor, mas nenhuma delas se atrevia a vir perguntar se estava tudo bem. Menos, é claro, Ellen, que veio correndo para alcançar os passos dos dois. Não para fazer perguntas gentis.
Daniel fechou os olhos por um segundo e respirou fundo, percebendo com o canto dos olhos os tênis neon inconfundíveis da menina ao seu lado.
– Belo abdômen, tio Daniel. — disse ela sarcasticamente.
– Você parece ter um prazer estranho em me chamar de tio — Dani respondeu, com a voz suave.
– É porque sei que você não gosta.
Ele percebeu Victor segurando uma risadinha e deu-lhe uma cotovelada nas costelas, franzindo a testa.
– Você é muito legal, Ellen — Victor sorriu.
A boca de Daniel abriu-se em indignação.
– O que é isso? — ele perguntou — Um complô contra o tio Daniel?
– Sim. — Ellen respondeu, olhando para a frente.
– Pra ver quem consegue te irritar mais — Victor completou.
Os dois começaram a rir, deixando-o encarando o nada, irritado.
– Por isso o tio Victor é mais legal que você — ela cantarolou — E ele tem um tanquinho.
– Isso não é um tanquinho. — respondeu Dani.
– É sim. — Victor provocou.
– É sim. — Ellen repetiu, ainda cantarolando.
– Qual é? — Dani virou-se para Victor — Nem é definido o suficiente pra ser considerado um tanquinho.
– Mas a Ellen diz que é.
– Dane-se o que ela diz! — Dani chacoalhou a cabeça.
– Mas você acha bonito. — disse Ellen.
– Também dane-se que eu acho bonito, ainda assim não é um tanquinho.
Os outros dois ficaram em silêncio, deixando-o sem resposta até perceber o que havia acabado de dizer. Seu rosto esquentou demais, ao se dar conta.
– Mas que droga, vocês dois! — Ele esbravejou — Agora não estou nem conseguindo dizer cosia com coisa.
Uma amiguinha de Ellen a chamou para comentar sobre alguma coisa que Dani não se deu o trabalho de ouvir o quê, e suspirou aliviado quando ela saiu de perto dele sem se preocupar em pedir licença ou dar qualquer satisfação. Victor, no entanto, não dizia mais nada, e ficaram em um silêncio desconfortável até chegarem à enfermaria.
Eles bateram na porta e explicaram o que aconteceu para a moça de jaleco branco e sorriso simpático. A enfermeira mudava a cada temporada, por isso, Dani nunca se lembrava do nome delas.
– Vem aqui comigo, então — a enfermeira disse, segurando a mão de Victor entre as dela e o guiou até a cama com lençol branco, atendo-se às mancadas do garoto. — Você vai entrar também? — ela perguntou para Daniel.
– Ah, não… bem… eu… — Dani começou a dizer, alternando o olhar entre Victor e ela, sem saber realmente o que dizer. Quando Victor abaixou o olhar para o chão, Dani respondeu que não, com um sorriso de canto. A enfermeira então concordou e pediu para Victor retirar a camiseta amarrada em seu torso, para ver o corte.
– Entrego sua camiseta no quarto. — disse ele para Dani.
– Ok. — Dani forçou um sorriso.
Victor retribuiu o sorriso e voltou sua atenção para o machucado.
Ao deixar a enfermaria para trás, Dani viu Lana aproximando-se à distância. Vanessa não estava com ela, o que ele achou estranho. As Torradas estavam por perto, correndo umas atrás das outras ou assistindo insetos na grama, e ele as advertiu para não se afastarem muito. Este seria o horário livre onde eles escolheriam uma brincadeira para realizar, mas Dani deu um grande foda-se para aquilo e deixou elas se divertirem daquele jeito mesmo, até Victor retornar.
Quando se aproximara, a primeira coisa que Lana perguntou foi:
– Por que você está sem camiseta?
– Longa história.
– Resuma, então. — os dois sentaram na grama, lado a lado.
Dani bufou antes de começar.
– Victor levou um puta tropeço, torceu o pé, fez um corte no lado da barriga, sangrou muito, manchou a camiseta, deu uma de fresco, tirei minha camiseta e dei pra ele estancar o corte.
– Olha, que orgulho — Lana riu e tirou os sapatos.
– O que? Que eu dei minha camiseta para ele?
– Não… Você está ficando melhor em resumir coisas.
Ele sorriu.
– Agora, vai, Dani. Diz aí.
– O que, inferno? Não gosto quando você chega com esse tom de voz.
– Ele não é tão horrível assim, né?
Dani demorou para responder àquela pergunta. Ele sabia que Victor não era horrível, nem mau, nem nada daquilo, mas queria acreditar. Poucas pessoas sabiam da real relação entre eles, pois a maioria de seus amigos vieram depois, quando já não se falavam e se odiavam pelos corredores da escola. Eles se odiavam, certo? A amizade deles havia se esvairado junto de seus oito anos de idade.
– Ein, Dani.
– O quê? — Ele chacoalhou a cabeça, distraído.
– Victor.
– Ah, sim… É. Ele tá suportável. E você e Vanessa?
Lana demorou a responder, cabisbaixa por Dani ter desviado o assunto, porém respondeu mesmo assim.
– Ela é legal. Gostamos das mesmas bandas. Ela me contou umas histórias de como e por que foi parar na detenção, e eu ri muito, cara. — Ela começou a rir, como se não estivessem sérios dois segundos atrás — Eu nem fazia ideia de que ela era tão engraçada assim. Eu achava que ela ia me matar com uma paulada quando estivesse dormindo, ou, sei lá, vender meus órgãos no mercado negro, porque, né? Aquela maquiagem pesada dá uma sensação de que ela veio do inferno ou algo parecido e… — Lana parou de falar, rindo forte — Desculpa, assim parece que eu não gosto dela. Mas ela é muito legal.
Dani sorriu.
– E onde está ela agora? Você não deveria estar com as crianças?
– Ah… É que nossas crianças são mais novas.
Dani concordou com a cabeça. Os monitores não precisavam ficar com as crianças o tempo todo, por exemplo, na hora de dormir e das refeições, pois os professores ficavam com elas nesses momentos. Mas, com as crianças mais novas, a presença dos professores era mais frequente.
– Então pedi licença para ir ao banheiro, e… Bem. Aqui estamos. Não teria problema em deixar Vanessa sozinha com as crianças se tivesse um professor junto, certo?
– Certo. — Dani encarou o sol baixando no horizonte. Graças a Deus eles haviam conseguido sair da floresta antes de escurecer. — E o banheiro?
– Dé um tempo, Dandan — ela riu. — Você sabe que eu só vim passear um pouco. E, por uma coincidência linda e perfeita do destino, aqui está você, pra conversar comigo.
– Fico feliz que você esteja aqui — ele encostou a cabeça no ombro da amiga.
– Eu também, seu emo — Ela segurou sua cabeça — Agora me conta por que você e Victor brigaram.
– Oi? Nós não brigamos ainda. Por que acha que já discut…
– Não é disso que estou falando, idiota — ela o cortou, mexendo os dedos do pé.
– Do que você está falando então?
– Falando de quando vocês ainda eram amigos.
– Como você sabe disso? — Dani levantou, para poder encará-la.
Lana revirou os olhos.
– Por favor, Dani. Eu sou menina.
– E…?
– Eu percebo coisas.
– Tá.
– E sua mãe me mostrou umas fotos da última vez que fui na sua casa.
– Eu sabia que não devia ter deixado você sozinha com ela por tanto tempo.
– Poxa, Daniel. Vocês pareciam tão felizes e unidos. Sua mãe chegou a comentar que ele foi o amigo mais fiel que você já teve. Pelo menos pra uma criança de oito anos… — foi a vez de Dani revirar os olhos — Só me explica o que aconteceu, por favor?
– Ok, ok. Tá. Eu explico. Éramos amigos, e aconteceu uma coisa.
– Que coisa?
– Uma… uma coisa. E eu fiz uma cagada. Então…é. Você sabe que as vezes eu falo mais do que devo.
– Sim, eu sei. Mas… porra. Até com aquela idade?
– Me erra, Lana.
Ela sorriu de canto, e eles ficaram em silêncio. Metade do sol agora já estava escondido atrás de um morro. Eles ficaram assistindo aquilo em um silêncio quase religioso, e quando o sol finalmente se pôs, aproveitando a claridade restante que não duraria por muito tempo, Lana aproveitou a chance para tirar sua última dúvida.
– Mas você ficou chateado, não ficou?
– Por que quer saber isso? — Dani perguntou rispidamente.
– Não sei, Dani… Só gostaria de saber.
Ele virou-se para ela, com a expressão suavizada.
– Fiquei. Mas ele ficou mais do que eu. Pronto?
– Obrigada. Era isso que eu gostaria de ouvir.
A porta da enfermaria se abriu, projetando um retângulo dourado de luz na grama. Victor estava apoiado na enfermeira e sorria.
– Acha que consegue?
– Sim. Acho que consigo ficar de pé até o chalé. — Victor respondeu, coçando a nuca. Um hábito que ele tinha desde criança, quando estava envergonhado ou recebia atenção demais.
Dani sorriu sem perceber.
– Então vamos lá. — a enfermeira riu — não esqueça de passar aqui para trocar os curativos amanhã de manhã.
– Ok.
– Até mais, Victor.
– Até, Marta.
Os olhos de Dani se arregalaram um pouco quando Lana levantou-se de um salto ao seu lado. Ela esticou a mão para ele.
– Então é isso, Dandan. Lá vem ele.
Dani segurou em sua mão para se levantar e Victor aproximou-se mancando com um curativo de gaze e esparadrapos onde havia se cortado.
– Que tanquinho legal — Lana ergueu as sobrancelhas para Victor, franzindo a boca como se dissesse “nada mal”.
– Viu?
– Cale a boca. — Daniel o cortou. Mas estava sorrindo.
– Até mais, meninos. — Lana começou a se distanciar, dando um aceno com a mão.
– Até, Lana.
– Nos vemos nos jantar… — mas logo Dani deu um salto no lugar e gritou — EI, LANA, ESPERE.
A garota virou-se para eles.
– Pode levar as crianças pra mim? — ele pediu, sem jeito.
– Você é um cara de pau, mesmo, viu?
– Ah… É que você já está indo para lá, mesmo, e nós estamos perto do nosso chalé, então facilita a vida de todos.
– Ok, seu bajulador. Mas você fica me devendo uma.
– Com certeza.
– Ei, Torradas — Victor berrou, assustando Dani e Lana — Sigam a tia Lana para se prepararem para o jantar!
As torradas explodiram em berros de comemoração e se aglomeraram em volta de Lana. Logo eles desapareceram.
– Mas olha, Victor… — Daniel disse, atraindo o olhar curioso do outro. — Só não pense que também vou te carregar até o chalé porque ouvi muito bem você dizendo pra Marta que conseguia ir sozinho até lá.
*
Eles tinham uma hora e meia antes do jantar começar. Tempo o suficiente para a equipe do acampamento organizar o refeitório e todas as crianças tomarem banho e se arrumarem. Porém, ao chegarem ao quarto, nem Dani, nem Victor pareciam estar no clima para se arrumar. Ou fazer qualquer outra coisa, em fato.
Dani jogou-se na cama, enterrando a cara no travesseiro, e Victor fez o mesmo, encarando o teto.
– Dia cansativo, hein? — perguntou Daniel.
– Não reclama de nada.
– Ok. Justo. Mas ainda assim não estou com coragem de levantar e me arrumar.
– Nem eu… — Victor suspirou.
Eles ficaram em silêncio por um tempo. Dani se ajeitou na cama, de modo que ele ficasse virado para a cama de Victor.
– Não tem problema se eu tirar um cochilo, né? — ele perguntou.
– Quem sou eu pra te impedir?
– Realmente…
*
Quando Dani abriu os olhos novamente, Victor estava encostado na cabeceira da cama com um livro rosa-choque nas mãos, usando um par de óculos. Ele esfregou os olhos, confuso, mas percebeu que não estava sonhando.
– Desde quando você usa óculos? — foi a pergunta genial que escapou de Daniel.
Victor ergueu os olhos do livro, surpreso, sem perceber que o outro havia acordado.
– Que livro é esse? — Dani perguntou, sem esperar a resposta para a primeira pergunta e sentou-se na cama, curioso. Era muito rosa. Ainda mais tratando-se de Victor.
– Pretty Little Liars, conhece?
Dani ergueu as sobrancelhas, surpreso, e um tanto sonolento.
– Sim, mas… Por quê?
– É um ótimo mistério, ok? — Victor respondeu com um ar superior — Esse já é o terceiro livro. Mas, sei lá, né… tem mais de doze. Quem sou eu pra me gabar? — Ele deu de ombros.
– Perfeitas… — Dani estreitou os olhos para conseguir ler o título do livro. — Quem sou eu pra dizer alguma coisa, certo? Pelo menos você ainda gosta de Linkin Park.
Victor sorriu.
– Mas agora repito, desde quando você usa óculos? Nunca te vi usando eles.
– Bem, comecei a usar uns três meses depois de… hum… Você sabe…
Depois do acidente.
Daniel sentiu-se assustado por um momento. Ele pensava que havia uma espécie de acordo silencioso entre eles de nunca mais tocar nos assuntos do passado, mas pelo visto estava um pouco errado. E depois de pensar muito, ainda não sabia o que dizer. “Que legal! Os óculos ficaram muito lindos em você!” parecia insensível demais, uma vez que Victor havia trazido aquele assunto a tona. “Saudades daquela época” com certeza não era algo a ser dito. E “Falta muito para o jantar?” provavelmente sairia com um ar culpado, como se ele quisesse fugir do que ouviu.
– Oh… desculpe.
– Não tem por que se desculpar. — Victor deu de ombros — Passou, não passou?
Dani não respondeu. Parecia que não. Seu tom de voz dizia que não. Mas de qualquer modo…
– Falta muito para o jantar? — ele perguntou.
– Você só cochilou por vinte minutos. — respondeu Victor, ajustando os óculos com o polegar e o indicador.
Deitando em cima dos braços, Daniel permitiu-se notar que os óculos ficavam legais em Victor. Pareciam realçar aquela aura de fofura que ele não deixava transparecer normalmente, mas que aparecia de vez em quando, como na fogueira. Pare de encarar, Daniel, ele se advertiu, mas pela primeira vez resolveu se ignorar. E assim, ficou por pelo menos uns cinco minutos observando os olhos de Victor indo e vindo pelas páginas do livro, absorto demais com o enredo para notá-lo encarando. E então, com o canto do olho ele percebeu uma movimentação em sua cama e resolveu ignorar, voltando a atenção para o garoto. Mas, quando essa movimentação transformou-se em um borrão preto perigosamente parecido com um aracnídeo, Daniel ergueu a cabeça por instinto e deparou-se com uma aranha em seu travesseiro.
Um grito escapou de sua garganta antes que ele pudesse pensar e quando viu já estava caído no chão. Victor o encarava, cético. Seu olhar, então, moveu-se para a cama de Daniel e ele viu a aranha, com uma onda de entendimento aliviando sua carranca.
– Ainda tem fobia de aracnídeos? — perguntou, debochado.
– Não tem graça, ok? — o peito de Dani subia e descia freneticamente. — Não vou conseguir dormir com esse demônio no nosso quarto. Não, não, não, não, droga.
Victor bufou alto e jogou o livro na cama, enquanto se levantava. Ele andou até a cama de Dani e chacoalhou o travesseiro.
– Viu? A aranha sumiu!
– Não importa. Ela ainda tá aqui, na minha cama, em algum lugar. Não vou conseguir dormir aí de novo.
– Se você vir ela na sua cama mais uma vez até a hora de irmos dormir, eu deixo a gente trocar de cama, ok?
– Como se eu fosse precisar da sua autorização. — Dani riu, sem humor.
– Mas, enquanto isso, que tal irmos jantar e deixar a aranha encontrar outro lugar?
– Ok…
*
Mas a aranha não encontrou outro lugar...
*
A cada refeição Daniel e Lana conversavam mais com o pessoal do terceiro ano, e os do primeiro se abriam cada vez mais para a interação.
Os professores as vezes olhavam para todos eles sentados juntos e sorriam, sem entender porque aquilo nunca havia acontecido antes. Victor tirou um momento especial do seu jantar para agradecer o fato de os professores terem que sentar com as crianças, em vez deles. Pois era nesses jantares e almoços onde eles podiam criar laços entre si, e, pelo menos no caso dos adolescentes ali presentes, laços eram criados na base de histórias sobre merdas que já fizeram. Merdas essas que não poderiam ser comentadas na frente das crianças.
Quando terminaram de jantar e voltaram para o chalé, Daniel havia até se esquecido da aranha, mas ao deitar-se em sua cama e ver que ela havia construído um mini projeto de teia entre a cabeceira e a parede, ele pulou novamente e ficou de pé em um piscar de olhos.
– Ok. Essa vadia não quer sair daí?
Victor estava tirando os sapatos e levantou os olhos para Daniel, curioso com sua eminente discussão com o ar.
– Então vamos… ér… vamos… — ele o assistiu caçar um chinelo pelo chão e levantá-lo dramaticamente na direção da aranha — Vamos…
Victor ergueu as sobrancelhas.
– Vamos…? — perguntou ele.
– … Vamos deixar ela aí mesmo né? — Daniel encolheu os ombros e largou o chinelo no chão.
– Medroso, você, hein?
– Mata ela pra mim, então.
Os dois se encararam por um longo momento. Uma faísca quase visível conectando os olhos semicerrados em cantos opostos do quarto.
– To bem aqui. — Victor foi o primeiro a virar o rosto, com uma mudança súbita de “Morre, Daniel” para o “Foda-se, Daniel” habitual.
Eles estavam indo tão bem, Daniel suspirou. Por que voltar para o zero novamente? E mesmo com Victor fingindo que estava tentando dormir, ele não desviou seu olhar. Fazendo questão de encará-lo com aquele sentimento de desprezo e chateação até o outro abrir os olhos e perceber que estava sendo morto por seus raios lazer imaginários.
Quando Victor finalmente abriu um dos olhos para espiar se ele ainda estava parado no mesmo lugar, teve o infortúnio de descobrir que sim.
– O que é? — perguntou ele, rispidamente.
– Você ainda também tem medo. — respondeu Daniel.
– O quê?
– Você também ainda tem medo de aranhas. — aquilo, de fato, não foi uma pergunta.
– Quem sabe? Eu posso ainda ter… — ele ajeitou-se na cama para apoiar-se no cotovelo. — Ou posso estar só com preguiça de levantar e ir até ai matar.
– Então venha matar.
– Já disse que estou bem aqui.
Daniel franziu o cenho.
– Não se faz de idiota. Eu lembro que você disse que trocaria de camas caso ela ainda estivesse aqui quando voltássemos do jantar.
– Poxa. Pensei que você não ia lembrar.
E, assim, de repente, a voz de Victor suavizou novamente, sem aviso. Credo, parece até uma pessoa bipolar.
– Então deita aqui — ele sorriu e se levantou, após dar tapinhas no colchão.
Daniel o seguiu com o olhar, desconfiado, até ele se sentar na outra cama.
– Ande! — ele indicou a cama vazia com as mãos — deite lá.
E Daniel deitou.
***
Se foram minutos ou horas que se passaram depois que eles apagaram a luz, Daniel não sabia dizer. Mas ele soube que depois de algum tempo que havia finalmente pego no sono, Victor o acordou com uma chacoalhada nos ombros.
– Ei, Daniel — ele sussurrava — ei, Dani.
Dani grunhiu, sem querer acordar totalmente.
– Daniel!
– Só mais cinco minutos… — respondeu ele, com a boca colada no travesseiro e a voz carregada.
– DANI!
– O QUE FOI? — ele virou a cabeça na direção de Victor e o encontrou agachado ao lado da cama, com o rosto muito perto do seu e os olhos esbugalhados.
– Cara. Eu não consigo dormir. Não com aquela aranha a centímetros da minha cabeça. E, não, eu não vou mexer nela, nem na teia dela. Vai que ela resolve pular em mim, me picar e me matar? — Daniel sentiu vontade de rir, mas estava com sono demais para isso. Ele queria dormir, droga.– Não vou tentar matar ela. Melhor deixá-la ali, quietinha, sem ativar seus instintos assassinos.
– Fala logo.
– Posso voltar pra minha cama?
– E eu? — Dani esfregou os olhos com o punho — vou dormir aonde?
– Tem a poltrona… — Victor encolheu os ombros.
– Não vou dormir na poltrona.
– Nem eu, porra.
Eles ficaram alguns segundos em silêncio.
– Sobe aí, droga. — Dani estalou a língua e deu espaço para Victor deitar com ele — mas pega seu travesseiro e não encosta em mim.
Victor não agradeceu, mas pegou seu travesseiro mais rápido do que o necessário e deitou-se de costas para Daniel, que estava virado para a parede.
Era meio impossível que suas costas não se encostassem, senão um deles jé estaria caído no chão. Dani percebeu a respiração de Victor ficando mais pesada e perguntou-se se ele já havia pegado no sono. Ele se ajeitou para poder mexer o braço, e Victor se mexeu também. Seus ombros se tocaram e ficaram grudados por um momento, onde os dois não sabiam o que deveriam fazer, com o corpo enrijecido.
– Tá acordado? — perguntou Dani.
– Tô…
– Boa noite, Victor.
E ele respondeu, relaxando o corpo.
– Boa noite, Daniel.
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