Questão de Tempo
1 One-Shot
Notas iniciais
Odeio todos os meus ex-namorados. Nenhum de meus términos foi tranqüilo; todos foram horríveis e traumáticos.
Já fui trocado por uma garota, usado apenas para esquecer alguém, abandonado da noite pro dia; mas o que mais dominava era traição. A grande maioria me traiu, até relacionamentos breves que tive que não chegaram a ser namoros. Traição era meu carma, meu trauma, meu pior pesadelo.
Então, quando vi Eren Jaeger beijando aquele desconhecido naquela festa nem me surpreendi tanto. De certa forma, já esperava, meu coração sempre ficava com um pé atrás com todo mundo. Mesmo quando a pessoa parecesse a certa. Porque nunca era.
Eren foi o primeiro homem que namorei mais novo que eu, por sinal, muito mais novo. Conhecemos-nos por acaso quando ele estava fazendo curso pré-vestibular e eu estava estagiando como professor monitor. Na época foi tudo muito perfeito; eu estava destruído pelo meu último relacionamento, e conhecê-lo foi como uma brisa de paz em minha vida.
Ele era jovem, empolgado, inocente, enérgico. Eu, já com quase trinta anos, nunca imaginava que fosse fazer as coisas que fizemos juntos. Era como se eu tivesse voltado aos meus vinte e aproveitado tudo melhor, ao invés de ficar chorando por algum idiota como provavelmente fiquei.
Acreditei que ele enfim fosse a pessoa certa, sentia algo diferente dentro de mim. Sua dedicação e amor eram incomparáveis com qualquer umde meus ex-namorados, nunca me deu dúvidas de quanto me amava e não cansava de me surpreender. Era lindo.
Eu não queria mais nada no mundo, somente ele.
Porém, eu estava cego, e minha vidanão havia repentinamente se tornado um mar de rosas.
Ele entrou na universidade, e, com ela, vieram as festas, as novas experiências, novas pessoas. Eu já estava em uma época em que queria desacelerar, enquanto ele estava vivendo tudo a mil por hora. Tentei acompanhar seu ritmo, por isso ia quando ele me convidava a algumas dessas festas e topei conhecer seus amigos. Mas, em uma dessas oportunidades que presenciei aquela cena.
Fui embora sem nem causar confusão, apenas me virei e sai pela porta. Pouco depois, Eren surgiu e me puxou pelo braço. Ele estava chorando feio.
“Desculpa, Levi...” Era tudo que ele dizia, fungando, enquanto segurava meu braço.
“Pare com isso, Eren.”
“Eu não queria. Fiquei bêbado. Eu não queria.”
“Eren, chega.”
Ele não me deixava ir. Continuava chorando e me segurando. As pessoas que passavam na rua nos olhavam curiosas, e eu odiava tal exposição.
“Chega Eren!”
“Vamos conversar, por favor. Eu te amo, Levi.”
“Não ouse dizer isso.” Já estava com raiva demais para controlar minha reação. “Se amasse não teria deixado acontecer.”
“Eu estava bêbado...”
“Eren, chega. Não diga mais nenhuma bobagem.”
“Eu te amo. Você é a única pessoa pra mim.”
Naquele momento quase prendi a respiração, tentando me acalmar.
“Volte pra festa, Eren.”
“Não vá embora...”
“Volte. Acabou, é isso.”
“Não...”
Custei a conseguir ir embora. Cheguei em casa sem querer pensar no assunto e dormi, até que fui acordado pela campainha algumas horas depois. Era Eren, que estava mais sóbrio, mas ainda assim em um estado deplorável. Deixei que ele entrasse em meu apartamento para que ele não criasse uma confusão no corredor, mas logo me arrependi. Ele voltou a chorar, pedir desculpas, chegou a se ajoelhar no chão pedindo perdão. Era vergonhoso. Quando o expulsei, ele tentou me beijar. Mandei-o nunca mais aparecer em minha frente.
Quando ele enfim foi embora, o vazio tomou seu lugar. Havia perdido uma parte de mim; ela foi arrancada e me deixou ali, sangrando, sozinho. Desabei em lágrimas.
Estávamos em épocas diferentes de nossas vidas. Se tivéssemos a mesma idade talvez desse certo. Eren era muito novo, ele estava ansiando por novas experiências. Ficar com alguém velho como eu estava o travando.
Terminar com Eren apenas me trouxe mais um remédio para stress. Já tinha uma coleção de remédios no armário de meu banheiro, cada qual que levo comigo de cada namorado que tive. Apesar de ser uma pessoa bastante controlada e séria, sabia que me apegava e me envolvia demais, e isso me destruía por dentro quando terminávamos.
Eren tentou contato por telefone ainda algumas vezes, mas eu não deixei. E, um dia, ele parou completamente. Provavelmente havia encontrado um novo namorado, talvez aquele cara da festa mesmo.
Eu queria morrer.
Mas era muito medroso para me matar.
Ainda assim queria fazer algo pra me destruir. Eu me odiava mais que tudo. Claro, só poderia haver algo de errado comigo. Porque todos me traiam? O que havia de errado em mim? Qual maldito defeito eu tinha que não percebia e, conseqüentemente, não conseguia corrigir?
Era minha frieza? Mas eles sabiam que eu não era frio por dentro; demonstrei isso inúmeras vezes. Eram minhas manias bobas? Todos têm manias, não poderia acreditar que fosse esse o motivo. Era o sexo? Eu não era bom o suficiente?
Tentei começar a fazer sexo com qualquer um que aparecesse na minha frente. Conheci um cara em um bar e o levei pro meu apartamento, mas apenas tive uma experiência ruim. Desisti da idéia, não poderia me forçar a ter vontade quando nitidamente não estava a fim. Eu não queria ninguém.
Então, comecei a beber. Beber era fácil, e sabia que não podia devido aos remédios que tomava. Ficava acabado aos finais de semana.
Apesar de tudo, segui acordando diariamente para o trabalho; agora era professor de literatura na escola de ensino primário perto de meu apartamento. Até que acabei por me acostumar com as crianças depois de um tempo, e elas gostavam de mim. Era surreal isso, nunca achei que fosse gostar de lidar com elas.
Chorei temendo nunca me casar e nunca adotar um dia. Sonhos bobos que deixei crescer dentro de mim durante esses anos. Uma felicidade construída como em um filme de romance, coisa que não existe na vida real.
Chorei temendo morrer sozinho.
Mas eu sempre levantava da cama na manhã seguinte, tomava um banho quente e continuava. Era quase como se eu soubesse curtir minha depressão sem afundar nela completamente. Curtir tal estado combinava comigo, sempre combinou.
Assim passaram-se cinco anos. Já estava com trinta e quatro então, e sem ânimo para mais nada. Apenas dava as aulas e passava o resto de meu tempo sozinho. Minha única amiga, Hanji, havia se mudado para outro estado, então mal nos falávamos. Era solitário, mas eu sempre estive acostumado com a solidão. Uma hora ou outra ela vinha a minha vida. Era a única coisa que eu tinha certeza que levaria comigo.
Em um dia como qualquer outro, visto as roupas sociais que gostava de usar para a escola – fazia com que eu parecesse mais responsável – pego minha mochila e saio de meu apartamento. Ao sair, olho para o céu, reparando como estava bonito. Finalmente o dia estava aberto, o completo oposto dos últimos dias, chuvosos e frios.
Sinto que alguém me observa e olho para o lado. A poucos passos de mim estava Eren.
Ele parecia muito mais maduro do que a última vez que o vi, quando não era mais que um jovem universitário. Via agora em minha frente um homem adulto.
“O que está fazendo aqui?” O pergunto.
Ele não responde e caminha até mim. Repentinamente ele se ajoelha a minha frente, ali mesmo na calçada, e busca algo em seu bolso.
“O que—“ As palavras somem de minha boca quando vejo que ele segura uma pequena caixa.
“Levi...” Ele a abre. Era um anel. “Você quer casar comigo?”
Ele estava louco.
“Você não pode aparecer dessa forma e me pedir em casamento, Eren.” Queria soar irritado, mas acabo rindo de tão ridículo que isso era.
“Você disse que estávamos vivendo épocas diferentes quando terminamos. Então decidi esperar até que estivéssemos na mesma.” Ele diz.
“Você é idiota?”
“Não. Você sempre foi a única pessoa pra mim, Levi, e continua sendo.” Seu tom era firme e sério, quase diferente da época que o conheci. “Eu nunca deixei de te amar.”
Fico sem palavras. Não sabia como reagir. Eren havia sido o maior amor de minha vida, mas isso era demais.
“Você me traiu e nós terminamos, Eren. Isso já faz muitos anos.”
“Será que foi por isso mesmo que terminamos? Ou não foi por insegurança sua?”
Não controlo e começo a chorar. Patético.
“Fiquei todos esses anos esperando por você. Farei de tudo para te reconquistar, o que for necessário. Só me dê outra chance.”
Continuo chorando enquanto o deixo colocar o anel em meu dedo. Não tinha forças para rejeitar tal pedido.
Eu nunca havia deixado de amar Eren, por isso não consegui amar ninguém depois. É impossível cortar um laço que foi feito para ser eterno.
Desabo ainda mais quando ele se levanta e me beija. Agora eu era quem estava chorando feio no meio da calçada.
“Diga alguma coisa.” Ele pede, em certo momento, tentando me acalmar.
“Achei que isso nunca aconteceria.” Gaguejo entre as lágrimas. “Tive certeza que não. Já estava pronto pra passar o resto de minha vida sozinho.”
“Eu te amo, Levi. Amo como ninguém nesse mundo.”
Eren era muito mais novo que eu. Quando me fazia juras de amor, tentava me controlar antes de me derreter por inteiro. Ele era novo, podia estar falando sem saber.
Mas não estava e nunca esteve.
Dizem que voltar com algum ex é o maior erro a se cometer na vida. Mas creio que Eren realmente nunca foi meu ex. Apenas demos uma pausa longa demais.
Voltamos como se o tempo separados não houvesse existido. E nos casamos no ano seguinte.
Tive certeza que nunca mais ficaria sozinho.
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