Quero. não Quero. talvez Eu Queira.
3 Talvez eu queira
Notas iniciais
A festa estava em seu auge. Logo mais, todos ouviriam um pronunciamento especial de Nunnally. O orador oficial da noite mal começou a anunciar o discurso, e Kallen estava aplaudindo e gritando “uhu”, “é isso aí”, “vai com tudo”, entre outras coisas. O vexame só não foi maior porque, de sopetão, Kallen parou de gritar, apontando freneticamente para a região da garganta e forçando a respiração. Parecia que ela estava se engasgando.
– Kallen? – Gino chamava, balançando a garota. – Me responde, tá tudo bem?
Ela tossia, abanava o rosto; estava ficando roxa, e Gino se desesperou. Ele foi arrastando o corpo de Kallen, ainda em pé, para um local mais afastado e ventilado. Sentou-a e providenciou um copo de água.
– Toma, vai te fazer bem. – Gino dizia enquanto estendia o copo na direção de Kallen. Ela parou, olhou para ele e disse, séria:
– Você vai precisar mais do que um copo d’água pra me conquistar. – ao final, deu um sorriso de canto de boca. Mas ela não estava engasgada?, ele perguntou a si mesmo. Ah, sua...
Gino se ajoelhou em frente a ela. Gostava de olhar em seus olhos – mesmo naquele estado deplorável – até o cheirinho de álcool vindo de sua boca atiçava seus desejos. Ele só não sabia se era culpa da cafeína, ou do Tê que estava ficando grande (N/A: Espero que tenham entendido a sutileza do trocadilho. Fica mais engraçado em japonês. Ou não).
Kallen, dessa vez, encostou-se no peito de Gino e pareceu adormecer. O rapaz não sabia o que fazer: era um momento especial, ele poderia afagar seus cabelos, dar tapinhas em suas costas ou levá-la nos ombros para um motel. Mas ele preferiu empurrá-la com os braços estendidos e olhar em seus olhos, planejando falar algo. Mas ela estava dormindo. Fingindo, na verdade.
– Bu! – ela gritou, causando uma cara de espanto em Gino. Kallen riu, pedindo desculpas. – Não pude evitar. Meu senso de humor está muito bom, hoje.
– Percebe-se – Gino respondeu, enquanto ela tomava seu primeiro gole de água – sua dicção também.
Ela parou por um segundo. Olhou para ele e deu mais uma gargalhada, o que repercutiu em uma cusparada generosa de água quase-engolida por todo o rosto de Gino. A sensação foi a de um cuspe de lhama. Com aquele cheirinho característico de álcool e saliva. Que romântico, Gino falou mentalmente. Quero isso na minha lua de mel.
Parecendo desistir, o Weinberg se levantou, deixando Kallen brincando de balançar os pés. Procurou o toalete masculino e pegou vários papéis-toalha para limpar o rosto. Terminou por lavá-lo na pia, para retirar o cheiro grudento da cerveja light. Ele ia começar a se erguer, quando viu, no espelho embaçado, uma silhueta feminina atrás de si, vestindo uma roupa roxa e alaranjada. Sem acreditar, limpou o espelho, e a imagem ficou mais nítida.
– Açô! – Kallen cantarolou, pulando nas costas de Gino para brincar. Havia outros homens no banheiro, e dois deles usavam os mictórios. Gino achou engraçada a correria dos homens fechando os zíperes das calças e correndo para fora do banheiro, bradando impropérios. O vocabulário dos homens era rico em nomes de partes íntimas do corpo humano e seus diversos apelidos. Ninguém mais queria ficar ao lado daquela mulher louca. Kallen sabia que aquela era sua ruína social? Se sabia, ela não se importava.
– Kallen... – Gino disse, rindo. – você é louca?
– Não, só estou grogue – Kallen respondeu, imediatamente, olhando para o reflexo do rosto de Gino no espelho. – e a culpa é sua. Toda sua.
– Minha? – fingiu estar pensativo – Ah, deixa eu adivinhar: a culpa é minha por você ter invadido o vestiário enquanto eu tomava banho, ter tomado o meu remédio e deixado você roubar dois comprimidos que estavam no meu armário...
– A porta tava aberta. – ela disse, justificando-se. – eu já falei mais de mil vezes.
Aquele já era quase o décimo minuto de silêncio entre os dois, naquela noite. Ela falou preguiçosamente, fazendo biquinho e olhando pro espelho:
– Sabia que você é bem bonitão?
– Claro. É o que todas dizem. – Gino disse, com uma expressão infantilmente alegre.
– É. No seu caso, não se pode considerar isso como uma simples demonstração de falta de modéstia.
Gino achou interessante aquela frase. Não pelo seu conteúdo, que, para ele, era chover no molhado. Ele se interessou mesmo pela capacidade repentina de desenvolver um raciocínio lógico extenso, naquela situação em que ela se encontrava. Acima de tudo, Kallen parecia adquirir uma certa sabedoria com todo aquele álcool. Era, puramente, o amor que ele sentia por ela. Aquele amor que faz ficar tudo bonito. Ele riu consigo mesmo.
– Acho que amar é olhar tudo através de uma lente cor-de-rosa.
– Não. Isso é uma pessoa super-estilosa usando os óculos da moda.
Gino e Kallen riam despretensiosamente. Ela ainda estava pendurada nos ombros de Gino, e nem haviam percebido que três desavisados entraram e saíram rapidamente do banheiro quando viram a cena.
– Nos filmes, é agora que o casal se beija. – Kallen disse.
– Não estamos em um filme. E nós não somos um casal – Gino provocou.
– Eu não disse isso, só que estamos em uma situação inadequada – Kallen retrucou. Parecia que todas as respostas estavam na ponta da língua.
– É, é melhor nós voltarmos pra festa – Gino concordou.
– Eu também não disse isso.
Gino sorriu.
– Quer parar de olhar pro meu reflexo, por favor? –disse para Kallen.
– Mas se eu olhar diretamente pra você, nossos rostos vão ficar muito próximos... – Gino fez menção de “continue” com a cabeça. – e eu não quero que você sinta meu bafo de pinguça.
– Sei – falou, desacreditando – quer dizer que não tem nada a ver com o fato de eu ser irresistível?
– Claro que não – Kallen dizia fingindo deboche. – aliás, eu vi tudo o que era pra ser visto e mais um pouco. E não achei lá grande coisa.
– Ah, não achou grande coisa, né? Pois fique sabendo que a coisa é grande, sim.
– Eu estava falando do seu armário.
– Eu sei, mas não podia deixar de explorar o duplo sentido da coisa. – Gino, sempre com um sorriso, devolvia os olhares de Kallen através do espelho.
– Gino... – a voz de Kallen parecia propositalmente rouca.
– Oi?
– Eu acho que vou... – parecia que havia algo na boca de Kallen, pronta pra sair.
– O quê? – Gino se apavorava com a possibilidade de sair dali todo lambuzado de vômito. De repente, Kallen suspirou aliviada. Gino também. Foi só um alarme falso, pensou. Mas foi só ouvir um blergh que ele voltou à realidade: a pequena bonança antes da tempestade.
– Heheh, desculpa – Kallen dizia enquanto limpava a boca com a manga da camisa do Gino – estou bem mais aliviada, agora.
– Fico feliz em saber disso. – Gino ainda sorria, mesmo com o ombro esquerdo todo lambuzado de sidra, Inoble Light e o resto do comprimido para dor de cabeça. Além de um pouquinho de suco estomacal.
Os dois riram. Kallen não entendia o porquê de Gino ainda estar se divertindo com a situação, e Gino não entendia porque ainda não havia pulado no pescoço daquela que havia acabado de arruinar sua túnica festiva novinha. Na mente simplória de Gino, agora não lhe restava outra opção, além de jogá-la fora. Kallen mordiscou os lábios: se soubesse disso, teria vomitado na roupa toda.
– Eu posso te emprestar a parte de cima do tailleur, se você quiser. – Kallen provocou.
– Mas é lógico que eu quero – respondeu Gino, novamente com aquela cara de “é óbvio”. – Ou você acha que eu vou aparecer na festa só de calças?
– Por mim, você não precisaria voltar para aquela festa chata – Kallen aproximou o rosto do tórax de Gino, e massageou seus ombros suavemente. Ele revirava os olhos, tentando não se entregar. O Gino tarado, em sua mente, dizia “Ela quer dar pra mim, ela quer”, mas o Gino recém-formulado, um homem sensato e ético, exortava sobre as capacidades de discernimento da jovem.
– Eu não acho que seja certo.
– O que você não acha certo? – perguntou Kallen. Gino pensou rápido, não daria o braço a torcer:
– Você ficar aqui, comigo, nesse banheiro. A noite apenas começou e eu estou te privando de momentos divertidos com seus amigos. Agora me dá esse tailleur.
Kallen, confusa e surpresa, logo entregou a peça de roupa nos braços dele. Ela se divertiu bastante vendo seu acompanhante socado dentro de uma jaquetinha roxa super gay. Ela não conteve o riso.
– Pronto. Agora que eu me pareço mesmo com a garçonete traveco. – Gino brincou. – Não que eu tenha preconceito.
– Deixa de besteira. Você está até sexy. Sendo assim, vamos – Kallen queria se vingar, já que ele não parecia compartilhar os mesmos desejos que ela. Grande engano, Kallen.
Antes que os dois saíssem do corredor dos lavatórios, Kallen, por um segundo, considerou que talvez eles estivessem indo na direção errada. Gino andava cada vez mais depressa.
– O salão não é pro outro lado? – Kallen estava ficando assustada. Gino apenas lançou um olhar sacana, e disse:
– Não. Acho que você bebeu demais.
E os dois foram descendo. Um, dois, três, quatro lances de escada. Kallen já estava apavorada... E ela que pensava ser a enigmática.
Ela não fazia mais ideia de onde estava. Nada era familiar, era como se estivesse em outro mundo. Ela ficou mais espantada ainda quando, ao parar, deu de cara com um local bastante incomum:
– Uma sauna masculina?
– Shh, silêncio – Gino repreendeu, cochichando. Kallen assentiu com a cabeça. Silenciosamente, ela acompanhou todos os passos daquele que a levava pela mão. Ao adentrarem o recinto abafado, cheio de homens só de toalhinha, Gino subiu em uma das mesas e iniciou uma dança esquisita, que mais parecia strip-tease. E era. Ele rebolava pra lá e pra cá, tirando cada peça de roupa de modo sensual. Os freqüentadores da sauna, na grande maioria velhos barrigudos e carecas, saíam com tudo balançando (barriga, bunda, pelancas e afins), e só uma toalha em volta da cintura. Kallen estava boquiaberta. Veria seu amado nu pela segunda vez naquela noite. E ela não estava achando nem um pouco desagradável. Só aqueles velhos passando ao seu lado. Era meio esquisito ver tanta banha pulando pra cima e pra baixo.
Gino ainda fez um charme: ficou dançando só de tailleur, esperando que o restante dos homens saísse. Foi o momento em que Kallen notou duas coisas – a primeira era simples: Gino queria a sauna só para eles dois. A segunda era que, aparentemente, aquele restante que ainda ficou lá não sairia tão cedo. Eles pareciam gostar, e ela resolveu entrar na brincadeira.
– Deixa esses boiolas comigo – Kallen disse, subindo na mesma mesa que Gino e preparando-se para tirar os tamancos de camurça. Os que persistiam até agora, vendo que a coisa iria dali pra pior, resolveram sair também, antes que vissem uma mulher peladinha dançando em cima da mesa. Logo, a sauna estava vazia. Somente eles dois, pelados, em cima de uma mesa (N/A: Adoro.). E Gino continuava sorrindo.
– Ainda bem que não tinha nenhum bissexual – Gino brincou. Kallen corrigiu:
– Eu não diria isso... – Ele pareceu espantado.
– Por acaso você conhecia algum deles?
– Eu não estou falando deles – Kallen fez uma expressão divertida – Estou falando de um de nós...
– Não vai me dizer que você também gosta de garotas!
– Não, eu não sou a Nina – Gino ficou sem entender essa última parte. – E estou falando de você.
O rapaz, quase no auge de sua excitação, levou um balde de água fria (N/A: vulgo “brochou”) ao ouvir tal declaração. Mas manteve a expressão firme:
– Pode ter certeza que não. Só garotas.
– Sei... – Kallen fingia desconfiança – Eu reparei no jeito que você olha pro Suz... – Gino fez uma careta de “cala a boca agora, pode ter alguém escondido” e Kallen entendeu o recado – Takeshi.
– Ah, ele é só um passatempo! – Gino disse, entrando na brincadeira. – Mas, falando sério agora: você está me provocando?
– Não, estou só constatando. – Kallen inclinou a cabeça, chegando ainda mais perto do rosto de Gino. Ele, aos poucos, perdia o fôlego.
– E o que eu tenho que fazer para te convencer de que eu não sou... Bi?
Ele chegara ao ponto que ela queria, certamente. Vitoriosa, ela incitou:
– Me prove. – Gino sorriu. (N/A: Ui.)
– Mas como assim? Quer que eu prove pra você ou que eu prove você – Gino sabia a resposta, mas queria ouvi-la naquela voz feminina.
– Sabia que eu não parei pra pensar nisso? – Kallen fingiu estar confusa – Ah, você que sabe... Pode tentar os dois, se quiser. – Naquele momento, ela não queria pensar em nada, apenas deixar o resto da noite ser especial. E, afinal, ela realmente queria dar pra ele. E, pelo visto, Gino também estava afim de matar o ganso afogado.
– Com prazer.
Notas finais
- Quando o Sapo é grande, é um Sapão;
- Quando o Tê é grande...
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