Sara chegou em casa maldizendo o calor grego. Era certo que entravam no outono mas mesmo assim o Sol continuava implacável, ferindo suas costas maltratadas pela luta anterior. Deixou o burro preso e tomou um banho, estremecendo ao contato da água gelada com os ferimentos. Deixou-se escorregar pelos azulejos e sentou-se no chão frio, sentindo-se limpar de todo o sangue e poeira. Tentou organizar os pensamentos sobre o que acontecera naquela manhã tempestuosa. Não sabia ainda como tinha sobrevivido ao ataque de Mu e uma breve lembrança perpassou sua memória. Sacudiu a cabeça, era bobagem, com certeza o cavaleiro havia maneirado na força. Sorriu intimamente a sua sorte pelo fato de nenhum dos homens ter percebido seu busto, visto que as faixas que usava haviam se desintegrado com o golpe.

Terminou de se banhar e enxugou o corpo com cuidado, suas costas ardiam terrivelmente. Amarrou novas faixas no peito e trocou de roupa, rangendo os dentes ao sentir o pano em contato com a pele machucada. Depois preparou um almoço simples com o que havia na geladeira, prometera se cuidar para Francis e não podia decepcioná-lo agora. Descansou um pouco e decidiu iniciar o treino nas escadas.

Subiu e desceu os degraus por 10 vezes e se surpreendeu quando terminou de pé e quase sem ofegar o exercício. Ao voltar à casa para continuar, levou um susto. Mu a esperava apoiado a uma das pilastras, os braços cruzados.

- Mestre? O que faz aqui? — Perguntou, limpando o suor da testa.

- Vim pedir desculpas... — Respondeu sem olhá-la.

- Não é a mim que deve desculpas. — Retorquiu com calma.

- Eu vou à casa da menina depois. Mas agora é com você. — Virando-se para mirá-la com os olhos marejados.

- Por que chora? — Estranhou a menina.

- Porque... Porque és só um garoto e tens mais dignidade que eu! — Disse chorando e caindo de joelhos no chão, à frente da morena. — Ataquei uma escola. Quase matei uma criança. E tentei tirar a vida de um futuro colega! Só por causa de um orgulho sem sentido... Por simples palavras que nem a mim eram dirigidas. E-eu não sou mais digno da minha armadura! Não mereço ser um Cavaleiro! — Finalizou com as lágrimas escorrendo pelo rosto e o corpo tremendo.

- Sabe, Kiki adora o senhor. — Comentou displicente e se ajoelhando, ficando com o olhar na mesma altura do homem de cabelos lilases.

- Hã? O que tem a ver? — Indagou encarando-a.

- Crianças não gostam de pessoas ruins. Eles têm um sentido apurado quanto a isso. Sabem ver através das máscaras que os adultos usam. E se um garoto tão doce quanto o Kiki sente carinho por você, quer dizer que seu valor não é pouco.

- Mas eu...

- O senhor fez uma besteira sem tamanho, reconheço. Porém ninguém morreu e Hebe está bem. Se quiser alívio para seu coração, pondere sobre o que aconteceu e jure que não haverá uma próxima vez. E cuide bem daquele ruivo, mostre o homem valoroso que ele admira e sempre me falava. — E sorriu tranqüila, mirando fundo em seus olhos.

O ariano ainda abriu a boca mas foi calado pelo olhar da jovem. Sentiu perder-se naquelas íris negras e um lampejo de memória veio-lhe à mente.

Flash back- Mestre, por favor! Deixa eu morar com o Daniel. — Implorava o garoto de cabelos vermelhos.- Não Kiki! Que coisa, já não disse que ele te colocou em risco? Queria saber o que tem demais um pivete daqueles para você querer voltar tanto pra lá. — Resmungou zangado.- Seus olhos.- O quê? Olhos?Que têm eles? — Questionou surpreso.- Toda a bondade do mundo. — Concluiu o menino, voltando ao quarto.Fim do Flash back

E lá estava. Um olhar quente, amável, doce, terno, que faria o coração mais duro derreter e voltar a bater com alegria. Virou os orbes acinzentados para o lado, tentando fugir daquele encantamento.

- Perdão... Não só pelo que fiz hoje mas por como o tratei até agora. Sinto muito, muito mesmo. — Disse se levantando e evitando o rosto da jovem.

- Aceito seu pedido. Amigos? — Estendendo-lhe a mão. O cavaleiro hesitou um breve instante e apertou-a com força, sorrindo.

- Ainda não. Mas companheiros. Tenho que ir. Obrigado Daniel. — Despedindo-se.

- Espere. E-eu posso visitar o Kiki? — Ele parou e virou-se para olhá-la.

- Não. — E sorriu. Porém a garota notou que não mais havia sarcasmo ou escárnio naquele gesto. Acenou em concordância e entrou na casa.

Lixou o piso de pedra. Ficou contente ao perceber que faltava muito pouco para finalizar aquela parte do treinamento. Depois partiu para as paredes. Logo já tinha lixado toda a extensão do templo que alcançava sem apoio. “Preciso de uma escada...”, pensou. Decidiu deixar aquela pendência para a próxima oportunidade e encaminhou-se a Virgem, curiosa com o que Shaka queria falar-lhe.

- Mestre, aqui estou, o aprendiz de Libra! — Anunciou na entrada.

- Daniel? Que está fazendo aqui? — Perguntou Enos, surgindo de dentro da morada.

- Vim ver seu tutor.

- E o que ele poderia querer com um frangote como você? — Disse sarcástico.

- É assunto nosso, jovem Enos. Pode se retirar. — Falou Shaka, surgindo atrás do aprendiz.

Sara riu e teve que se controlar para não dar língua ao colega. Este ficou possesso por ter sido excluído. Virgem levou a garota até as dependências da casa e de repente ela se viu num campo verde e florido, com duas árvores iguais dominando seu centro.

- Ma-mas... Como pode haver um campo assim aqui? — Questionou a menina.

- Esse é o Campo de Twin Sals. Aqui Budah realizou sua passagem em busca da Iluminação. — Respondeu sorrindo. A brasileira sorriu de volta apesar de não ter a menor idéia do que ele falava.

- Por que queria me ver?

- Algumas coisas me intrigam... Uma é como sobreviveu ao ataque mais poderoso do meu amigo. Pode me dizer? — Indagou sentando-se entre as árvores e convidando-a a fazer o mesmo. Ela notou que havia uma gaiola perto de onde estavam mas nada comentou.

- Não sei... — Disse hesitante.

- Sabe sim. Não tenha medo e conte. — Incentivou o cavaleiro.

- Eu lembro do golpe vindo na minha direção e da Hebe na minha frente. Só pude pensar em salvá-la e peguei-a no colo, virando de costas e protegendo-a com meu corpo. Aí senti uma dor indescritível rompendo minha carne, parecia que ia arrancar meus músculos fora e fiquei com medo de não agüentar e ela ser atingida. Acabamos no chão. Então o ataque parou. Olhei para minha aluna e sua cabeça sangrava. As únicas coisas que pensei foram: Não posso morrer! Ela não pode morrer! E me senti quente, a dor nas costas diminuiu e o sangramento da Hebe parou. Depois lembro apenas de estar com ela nos braços olhando o senhor e mestre Mu. Foi isso. — Finalizou a morena.

- Hum, interessante...

- Por quê?

- Antes, olhe isso. — Disse pegando a gaiola e mostrando seu conteúdo, um pardal deitado no chão. — Ele está quase morto, com o peito ferido, achei-o caído hoje na porta do templo. — Abriu a portinhola e tirou o pequeno animal de lá, entregando-o nas mãos da garota. — O que você pode fazer?

- Eu? Nada! — Respondeu atônita.

- Tem certeza? Pense, o que poderia fazer?

- Não sei... — Ela alisava o pequeno pássaro, um sentimento de tristeza tomando conta de seu coração, uma vontade crescente de salvá-lo corroendo-a. — Viva... Não morra!

De súbito uma energia rósea iluminou o pequeno ser que acordou batendo as asas. A garota sentiu a fraqueza de antes surgir, nublando rapidamente suas vistas e pensamentos.

- Pode soltá-lo. — Falou Shaka sorrindo. A brasileira piscou, acordando do transe; obedeceu e o passarinho voou para longe. — Como pensei... Você tem o Toque da Vida.

- Tenho o quê? — Ofegando.

- O Toque da Vida. É um poder muito especial. A única vez que tive a oportunidade de vê-lo sendo usado foi há alguns anos, pela própria Athena, em uma batalha acontecida no Santuário. — A garota não disse nada, ainda estava intrigada com essa revelação. — Você curou ferimentos de pessoas e do pássaro com a força de seu cosmo. A Deusa trouxe cavaleiros de volta à vida. Mas ambas tinham na alma um desejo de salvar aqueles que ajudavam. É um dom raro, Daniel.

- Ah... Hã... — Ela gaguejou, sem saber o que pensar.

- Não se preocupe. Posso ajudá-lo ensinando como manipular essa força conscientemente e sem ficar tão cansado. Gostaria? — Perguntou o homem de modo tão gentil que fez com que a libriana corasse.

- Si-sim... Mas meu mestre tem que permitir... — Distraindo-se com uma flor.

- Entendo. Depois então pedirei a Dohko que me dê essa honra. Mas cuidado para não usá-lo muitas vezes, não sei se iria agüentar. Olhe como está respirando. Sorte não ter desmaiado hoje de manhã.

- Também acho... — Disse envergonhada.

- Não vou tomar mais seu tempo, pode ir treinar. — E guiou a garota até a saída do templo, se despedindo com um aperto de mão. Enos os observava escondido. Assim que ela foi embora, perguntou:

- Mestre, por que o chamou aqui?

- Seu colega tem um dom especial. E mais raro ainda por vir dele.

- Ué, por quê?

- Porque até onde eu conhecia o Toque da Vida era um poder exclusivo das mulheres. Não pensei que um homem pudesse manifestá-lo. O jovem Daniel é realmente um rapaz extraordinário. — Concluiu, voltando para dentro.

- Hum, só mulheres? Acho que alguém pagaria bem por essa informação... — Murmurou o aprendiz com os olhos brilhando de cobiça.