Sara correu para o banheiro ao chegar em Libra. Tomou um banho revigorante e esfregou-se com força para tirar todo o salitre. Ao terminar olhou-se no espelho e gemeu: estava com olheiras profundas e não poderia dormir. Colocou novamente seu vestido azul, escondeu o rosto com o lenço, arrumou sua mercadoria no lombo do burrico e partiu para a feira. Seria um longo dia.

Agradeceu aos céus por nenhum de seus colegas ou tutores ter aparecido por lá naquele domingo. Não saberia como se defender nem como agir caso Afrodite tentasse tirar-lhe o lenço. Conseguiu vender tudo mais uma vez e retornou contente ao Santuário.

- É Shion, hoje teremos uma refeição decente! — O animal zurrou em resposta, parecendo entender o que se passava. Ao chegar, ela trocou de roupa e estirou-se na cama, cansada. Estava quase adormecendo quando ouviu uma voz chamando.

- Daniel! Daniel, aprendiz da Casa de Libra, por gentileza compareça ao 13º templo imediatamente.

A garota praguejou, o que fizera dessa vez? Sem alternativa, pôs-se a subir as escadas.

- Jovem aprendiz, como foi sua noite no Cabo Sunion? Bastante instrutiva, eu suponho. — Ironizou o Grande mestre ao recebê-la. A garota teve que se controlar para não devolver com uma resposta malcriada. — Pois bem, pedi para que viesse aqui porque Dohko deseja uma palavrinha com o senhor.

- Mesmo? — Ela animou-se. — E cadê ele? — Procurando pelos lados.

- Está na China.

- CHINA?

- Sim, vai se encontrar com ele lá. — A menina olhou-o incrédula, como faria isso? — Não me olhe com essa cara de bobo, alguém o levará. Depois que conversar com seu tutor, voltará para cá e continuará seu treinamento.

- E quem vai ser meu guia?

- Eu, criança irresponsável. — E reconheceu a voz irritada de Mu às suas costas. Ela suspirou, perguntando aos céus porque eles a castigavam tanto. — Já está pronto? Não tenho o dia todo.

- Só um minuto. Mestre Shion, ele vai me largar pelo caminho! — Se ajoelhando pedindo misericórdia.

- Não fará isso, apesar de ser o que merece. — Retorquiu. — Agora vá!

Sem alternativas, a brasileira se aproximou de Áries. Este, a contra gosto, segurou sua mão e tocou a própria testa. Em segundos estavam aos pés de uma enorme cachoeira, cuja água parecia se desintegrar ao seu fim, formando uma densa cortina de vapor.

- Que linda...

- É a cachoeira de Rozan. — Disse um rapaz de longos cabelos negros se aproximando. — Boa tarde, sou Shiryu, Cavaleiro do Dragão.

- Boa, sou Daniel, aprendiz de Libra. — Cumprimentou educadamente.

- Prazer, Daniel. Como vai Mu? E Kiki? — O ariano não disse nada mas estreitos os olhos e franziu os lábios. — Algum problema?

- Esse pivete vai te responder. Agora com licença! — E sumiu no ar.

- O que aconteceu com ele?

- Hã... Depois eu explico. Onde está meu mestre?

- Nosso. — O dragão sorriu. — Fui aluno de Dohko como você.

- Mesmo? E como ele era?

- Muito rigoroso mas também muito bondoso. — Sara torceu o nariz, ou o rapaz era louco ou seu mestre tinha duas caras e reservara a pior para sua pessoa. — Venha comigo, vou levá-lo a ele.

Seguiram andando e conversando, a menina estava encantada com a beleza e tranqüilidade do homem. Nem notou quando pararam em frente a uma velha cabana.

- Chegamos. Pode entrar. Eu espero aqui.

- Oh, já? Tudo bem. — E obedeceu, adentrando o local. Dohko estava sentado à mesa da sala.

- Até que enfim, jovem Daniel. Não pensei que demoraria tanto.

- Sinto muito...

- Não faz diferença. Antes de mais nada, pegue aqui. — Falou estendendo-lhe a pequena balança de ouro que ela pegou entre as mãos. — Agora responda com sinceridade: fez algo de errado nestes últimos dias?

- Não. — O prato não se moveu.

- E ainda tem algo a esconder?

- Sim. Mas não posso falar. — E novamente o prato manteve-se estático. O libriano expirou com força o ar dos pulmões.

- Segredos, segredos... Quando vai aprender que parar ser dono dessa armadura não pode faltar com a verdade?

- Um dia eu vou contar...

- Para seu bem, tomara que seja breve. Vamos ao que interessa então. Treinou? Acendeu seu cosmo? Minha casa está arrumada?

Sara balançou a cabeça negando; o homem ficou possesso e ela cogitou a hipótese de sair dali correndo.

- INÚTIL! É isso que você é! Um inútil! Tentei dar um tratamento de choque porém parece que não aproveitou bem a oportunidade. — Ela abriu a boca para reagir e foi calada com uma mão. — Não quero ouvir desculpas. Já que não vai por bem, vai por mal. Vou definir um treinamento para esse corpo franzino e daqui a três meses farei uma verificação. Se não houver resultado, duplicarei suas tarefas. E continuará isolado, nada de comida ou dinheiro.

- E o que terei que fazer? — Perguntou a morena.

- Primeiro condicionamento físico. Subirá as escadas sagradas 10 vezes, duas vezes por dia, diariamente. Além disso, mais 50 flexões e 100 abdominais, além de 50 elevações numa barra. Vai usar pesos quando notar que faz esses exercícios sem suar. Nesse momento pode usar o ginásio e a arena de treinamento mas nunca nos horários dos outros aprendizes.

- SÓ isso? — Questionou com sarcasmo.

- Não, reservei o melhor para o fim. — Devolveu com um sorriso maligno. — Agora vou ensinar como se arruma uma casa. Venha cá. — Chamou se levantando.

Ela se aproximou receosa e postou-se a seu lado. Dohko flexionou um pouco as pernas e fez sinal para que o imitasse. Começou então a descrever círculos no ar, de fora para dentro, com as mãos abertas e os dedos juntos.

- O que é isso? — Quis saber, repetindo os gestos.

- É assim que vai lixar as paredes do templo. — A morena arregalou os olhos e ele continuou. — Agora esse. — E esticou os braços, subindo e descendo, os punhos acompanhando a direção dos membros. — E com esse vai pintar tudo. Agora, com esse, vai tirar todas as irregularidades do chão. — Ajoelhou-se e fez um movimento parecido com o do lixamento mas os círculos eram de dentro para fora.

Sara não acreditava, havia sido reduzida a uma mera operária. Sabia que o treinamento dos cavaleiros seria difícil porém aquilo era o cúmulo do ridículo. Só que não havia outra saída a não ser obedecer.

- Já está bom. Lembre-se, três meses. Pode ir embora agora. E dê um jeito nesse cabelo, parece uma garota. — Comentou alisando-o e puxando alguns fios. A garota corou e retirou-lhe a mão, saindo sem se despedir. Encontrou Shiryu sentado numa pedra, esperando.

- Acabou, quero voltar pro Santuário.

- O que houve?

- Não sei quem era seu mestre mas com certeza não era nada parecido com o meu! Ele só quer saber de me maltratar. — Respondeu quase em lágrimas. — Estou dando um duro danado, sou recriminada diariamente e ainda me chama de inútil? Não fico aqui mais nem um minuto!

- Ótimo, pivete, vamos embora então. — Falou Mu, aparecendo na sua frente, tomando-lhe uma das mãos e sumindo no ar com a garota.

O dragão ficou intrigado com o comportamento da jovem e entrou na cabana, encontrando seu mestre sentado novamente, as mãos no rosto. Ele chorava.

- Dohko! Que é que está acontecendo aqui?

- Não é nada Shiryu...

- Nunca o vi chorar antes e também nunca vi alguém sentir tanta raiva do senhor como aquele garoto.

- Eu queria muito ajudá-lo. Mas não é sincero. Toda a vez que aprofundo o olhar vejo medo em seus olhos. E uma chama fraca, incipiente. Ele pode ser grande, um dos melhores cavaleiros. Mas esse fogo tem que acender, tornar-se forte até suplantar seus piores temores. E o único meio que consegui pensar para despertar seu cosmo foi deixando-o cuidar de si mesmo. Eu realmente queria acompanhar sua evolução...

O rapaz ficou com o coração cortado ao ver o pranto de seu mestre. Sem saber o que fazer, abraçou-o e consolou sua tristeza.