Notas iniciais
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Sara acordou novamente antes de o Sol nascer. Arrumou-se rapidamente, prendendo os longos cabelos com a fita vermelha que trouxera do Brasil e seguiu com pressa até o refeitório, um pouco apreensiva em relação ao que esse novo emprego lhe aguardava. Lá chegando foi imediatamente recebida pelos sujeitos mal encarados que conhecera anteriormente.

- Bom dia, meu nome é Daniel, aprendiz da casa de Libra, apresentando-me para o serviço. — Disse e curvou-se em cumprimento. Os três homens se entreolharam e caíram na gargalhada.

- Hahahahaha! Quem imaginou que veríamos uma cena dessas? Um futuro Cavaleiro de Ouro curvando-se para nós? — Disse um deles.

- Não vejo qual o problema. São meus superiores aqui e devo-lhes o mesmo respeito que ao meu mestre. — Retorquiu a menina calmamente.

- Hum, bom... Eu sou o Benir. — Cumprimentou-a o maior deles, surpreso com o seu caráter. — Estes são os manos Amir e Onir. — Os dois acenaram para ela, igualmente espantados.

- E qual serão minhas atribuições, senhores?

- Primeiro vamos ver o que sabe fazer. Sabe cozinhar? Limpar o chão? Lavar pratos? Enxugá-los? Servir a bóia? — Perguntou Onir, recebendo respostas afirmativas a todas as questões. — Ótimo! Como estamos atrasados hoje irá lavar os pratos ao final do café e servir a comida. Amanhã chegue mais cedo que terá que limpar todo o piso antes de abrirmos os portões. E quero ver suas habilidades culinárias. — Disse-lhe entrando com os irmãos.

Sara assentiu e adentrou a cozinha. Deram-lhe um avental e ela postou-se ao lado do grande caldeirão de mingau. “Será que nunca mudam o cardápio daqui?”, pensou. Não pôde raciocinar muito nesse sentido pois logo começaram a chegar os soldados do Santuário. Servia a todos mecanicamente, sem olhá-los até que uma voz o chamou.

- Ei Daniel, resolveu largar de ser cavaleiro para virar cozinheiro?

A brasileira levantou a vista e encontrou-se com os olhos castanho-escuros de Enos. Este lhe sorria sarcástico e arrancava risos de Damien e Adonis. Basílio assistia à cena com certo nojo.

- Que vergonha! — Ela sorriu, pensando que ele iria defender-lhe, mas... — Como puderam nos rebaixar tanto assim? Imagine o que estes fracotes vão pensar da gente quando virem que um de nós tornou-se um reles serviçal?

- Escuta aqui, seu narcisista! Não faço esse serviço porque quero. Mas trate de demonstrar um mínimo de consideração que eu e meus superiores merecemos. — Todos tornaram rir quando ela disse “superiores”. A garota ferveu de ódio e continuou: — E se não está satisfeito trate de pegar esse seu rabo empoado e dar o fora daqui antes que eu vire esse mingau todo na sua cabeça e não nos seus pés! — Finalizou com um sorriso malévolo no rosto de anjo.

O espanhol sentiu ímpetos de matar o rapaz a sua frente e só não o fez porque seus colegas o seguraram e o arrastaram dali; outra briga em menos de três dias ia piorar e muito a situação de todos. Sara respirava com força, tentando se controlar, até que uma mão pousou em seu ombro.

- Obrigado, jovem aprendiz. — Agradeceu Amir, sorrindo. — Suas atitudes de respeito farão grande diferença em seu futuro.

A morena sorriu de volta e continuou o serviço, sem perturbações desta vez. Depois lavou toda a louça do refeitório — uma pilha interminável — sem nunca reclamar. Ao terminar sentia-se faminta. Olhou com avidez os restos da refeição sem, contudo, tocar em uma migalha.

- Tens fome? — Perguntou Benir. Ela fez que sim. — Então sirva-se, não é justo não poder degustar nada depois de tanto esforço.

Sem esperar um segundo convite Sara atacou todos os pães e frutas que havia e ainda tomou uma grande tigela de mingau. Os irmãos observavam-na divertidos.

- Até que para alguém tão pequeno você come como um leão. — Disse Amir. — Satisfeito?

- Sim, muito obrigado.

- Então já está dispensado. Ou tem algo que ainda queira? — Questionou Onir ao vê-la parada.

- Eu gostaria de saber se posso ficar com dois garfos, duas colheres e uma faca. E dois copos... — Respondeu sem jeito.

- Pedido estranho. Poder mesmo não pode mas faremos uma concessão hoje pelo modo que nos defendeu. Guarde segredo, tá? — Falou Benir piscando para ela e entregando-lhe o que pedira. Agradecendo, a menina se retirou.

Andava calmamente para casa, tão feliz com sua sorte que nem percebeu estar sendo seguida. Só notou muito tardiamente quando quatro mãos a agarraram, cada uma segurando em um braço e fazendo-a derrubar os talheres e os copos.

- O que é isso agora? — Bufou, se debatendo e olhando quem a prendia.

- Ah, parece que pegamos um ladrãozinho. — Sussurrou Damien em seu ouvido. Definitivamente aquele garoto a irritava mas o jeito como cadenciava as palavras provocou em Sara um leve estremecimento de prazer.

- Com medo, Daniel? — Foi a vez de Basílio murmurar do outro lado. Ela voltou a estremecer.

- Gosta de palavras baixas, hein? — Disse Adonis a sua frente, fazendo a menina virar o rosto e olhá-lo com raiva. — Quer dizer que além de mentiroso e ladrão, é gay...

- Não sou ladrão e nem gay! — Sacudiu-se a garota.

- Mas é mentiroso.

- Não vem ao caso. — Retorquiu ela corando.

- Se não é um gatuno, como explica esse garfo que deixou cair? — Disse o rapaz pegando o objeto do chão e analisando-o. — Parece com o que temos no refeitório.

- É meu! Devolve! — Ela avançou mas foi contida pelos dois colegas.

- Não, eu vou é entregar isso ao Grande Mestre, ele vai adorar saber das suas habilidades ladinas.

Sara gemeu, sentindo o sangue esvair-se do rosto. Se aquilo acontecesse estaria perdida. Não haveria balança que convencesse Shion da sua integridade. Estava tão apavorada com esse pensamento que não percebeu que lhe retiravam a fita dos cabelos.

- Hum, enfeite bonito... — Dizia Adonis, balançando-o em frente a seu rosto, despertando a morena do transe.

- EI! ME DEVOLVE ISSO! AGORA! — Gritou ela se debatendo com fúria.

- Puxa, você realmente deve gostar dessa porcariazinha. — Exclamava um surpreso espanhol que agora sentia dificuldades para deter a cativa.

O grego esticou a mão para os fios negros e alisou-os, puxando alguns e aspirando seu perfume.

- São muito belos e cheirosos, Libra... Demais até para um homem... — Sorrindo malevolamente. — Será que beija como uma mulher também? — Perguntou aproximando sua boca da dela.

Dois segundos depois estava de joelhos no chão, segurando suas partes íntimas entre as pernas e gemendo de dor. Sara aplicara-lhe uma joelhada certeira.

- Não banque o engraçado!

- Soltem ele. — Falou o grego, para a surpresa dos colegas. — Soltem! — Ela caiu de bruços no chão o olhou-o com raiva.

- A fita é minha! Não tem o direito de pegar!

- Assim como não tinhas o direito de levar essas coisas do refeitório nem de me agredir, pivete! Mas tudo pode ser remediado. Ouvi dizer que está procurando emprego. Então apareça na casa de Gêmeos todas as terças feiras que eu tenho um servicinho sujo para alguém como você. Não comente nada sobre isso se quiser ver esse pedaço de pano outra vez ou se não quiser que “certos assuntos” cheguem aos ouvidos do Grande Mestre. — Finalizou Adonis, se levantando com um sorriso triunfante.

- Você me paga... — Disse a morena rangendo os dentes.

- Eu adoraria... Caros colegas, querem algum serviço desta pobre alma?

- Não, no momento não. — Respondeu o francês.

- Idem. — Disse o espanhol. — Quer algo, Enos? — Perguntou vendo o amigo surgir o meio de um arbusto.

- Depois penso nisso. Vamos agora que vi um movimento nessa direção.

- Já sabe, terça feira, templo de Gêmeos. — Falou o moreno saindo com os colegas e soprando-lhe um beijo discretamente.

Sara socou o chão, maldizendo sua sorte mais uma vez naquela semana. Como podia ser tão azarada? Assim pensando, levantou-se, recolheu o que deixara cair e correu para casa.