Os dias passaram devagar, a cada treino ela sentia ficar mais resistente e ao mesmo tempo mais enfraquecida. Dava duro e ainda assim seus músculos não respondiam como deviam. O dinheiro que ganhou no refeitório usou para comprar mais lanche para seus alunos e o que fora deixado sobre a mesa para comprar material para a reforma do templo. Andava tão ocupada que nem o café da manhã tomava. Seus colegas não haviam desistido das apostas e volta a meia iam vê-la correr. E após alguns dias alguém passou a deixar algumas drakmas sobre a mesa; não procurou saber quem era seu benfeitor nem utilizou-as em benefício próprio. Imaginava que a balança de ouro penderia assim que o fizesse.

Começou então a ter uma dor de cabeça fina, que nunca passava. Um mês transcorrera e a morena reparou que suas roupas estavam folgadas e as calças ameaçavam cair. O treinamento já não rendia como antes e sentia-se fraca logo na primeira subida das escadas. Dar aulas estava virando um suplício, o barulho que as crianças faziam era por demais irritante. As únicas coisas que ainda lhe davam prazer era cuidar da horta e do burrico e visitar Kiki. Mu andava tão atento ao garoto que ela não conseguira mais entrar na casa. Mas sempre deixava-lhe uma flor e logo um jardim estava brotando embaixo da janela o ariano.

Só que certas situações não podem ser perpetuadas e um dia a falta de alimento cobrou do corpo de Sara o seu preço. Voltava para o templo de Libra após uma manhã estafante e ia iniciar seus exercícios quando uma súbita vertigem tomou conta de seu ser e ela perdeu a consciência, desmaiando no chão frio.

Acordou sentindo leves pancadas no rosto e mirou quatro pares de íris de diferentes colorações a olhando.

- O que estão fazendo aqui? — Perguntou com a voz débil.

- O que você está fazendo no chão, quer dizer, não é? — Retorquiu Damien, preocupado. — O que aconteceu?

- Eu caí... Fiquei tonto...

- Vamos colocá-lo numa cama. — Ordenou Adonis, enquanto Rickertt pegava-a no colo.

- Ele está mais leve do que antes! — Exclamou surpreso.

- Está desnutrido. — Ela ouviu Francis falar. Encaminharam-se para seu quarto e foi deitada sem protestos.

- Vou buscar algo para comer. — Disse o francês.

- Não mexe na minha cozinha...

- Por quê?

- Porque não...

- Ora, vamos nós dois. Inglês, cuida dela e Rick, fica de olho pra ver se alguém aparece. — Era o geminiano comandando todos, que o obedeceram imediatamente. Assim que ficaram a sós, Francis cobriu-a até o pescoço e alisou seu rosto com a ponta dos dedos, constatando a magreza do outro.

- Por que está fazendo isso consigo, Daniel?

- Não fiz nada...

- Você não come, olhe só seu estado! Nunca vi ninguém emagrecer tão rápido e sem motivo.

- Só quero... Dormir... — E ela caiu num sono profundo e reparador. Despertou horas depois e viu todos sentados no chão ao redor da cama.

- Já acordou florzinha? Eu estava gostando de velar você... — Sorriu Adonis, alisando seu braço. A morena o puxou com raiva.

- Não me toque.

- Ah, pelo visto está melhor, soldado. — Rickertt parecia aliviado.

- O que aconteceu?

- Você desmaiou de fome, Daniel. Como pôde deixar isso acontecer, com tanta comida na geladeira? — Censurou Damien.

- O quê? Tem comida aqui? — Surpreendeu-se Francis.

- Um pouco lá na cozinha. — Disse ela.

- E se não comia, o que fazia com o dinheiro?

- Hã? Como sabem do dinheiro?

- Porque era nosso! — Vociferou o francês.

- Não acredito que estavam me ajudando. — Duvidou.

- Pois pense como quiser. O fato é que nós doze estávamos contribuindo, cada dia um, com um pouco e deixando aqui. E em vez de engordar, você emagrece! — Exclamou o inglês.

- Estavam preocupados comigo?

- Claro, florzinha. A cada dia que passa só sobra pele e osso nesse seu corpo que eu tanto quero para mim... — Disse Adonis, conseguindo ter malícia até num momento tão delicado. Tomou um tapa do alemão na nuca pela gracinha.

- Não é hora disso, soldado.

- Isso mesmo, cara. A florzinha tem que se alimentar. — E Damien a fez se recostar e sentou-se a seu lado com um prato cheio de comida. — Diga “Ah”. — Com uma colher cheia perto dela.

- Não vai me dar comida na boca. Eu não quero ajuda de vocês.

- Tem duas opções, Dan. Ou me deixa fazer meu aviãozinho ou eu mastigo o rango e passo boca a boca pra você. O que me diz? — Questionou o francês com simplicidade. A morena ficou chocada e nem se atreveu a questionar a veracidade do que ele dizia.

- Tá, você venceu... Ah! — E era tamanha a fome que rapidamente terminou sua refeição. O canceriano sorriu e limpou-lhe os lábios com um guardanapo, fazendo-a corar. O garoto não resistiu e acariciou-os com a ponta os dedos.

- Hei, você também, mantenha a linha! — E Rickertt aplicou-lhe um belo cascudo, acabando com as segundas intenções do rapaz.

- Agora vamos voltar ao que interessa. — Conciliou Francis. — O que fazia com o dinheiro?

- Gastei...

- Em que?

- Não posso dizer.

- Ai, minha Deusa... — Suspirou Adonis.

- Daniel, vou te dizer uma coisa. Meu pai é médico e trabalha na Cruz Vermelha. Quando era criança eu o acompanhei em algumas viagens a África e vi pessoas tão desnutridas que não sei até hoje como se agüentavam em pé. Todas passavam fome e a maioria não tinha dinheiro para comprar um pedaço sequer de pão. Só que esse não é seu caso. Há comida aqui e tem como comprá-la. Se não quer dizer com o que gasta o que ganha, não tem problema é um direito seu. Mas não pode deixar-se consumir assim! Vai acabar morrendo a despeito do que temos feito para te ajudar! — Finalizou Francis.

Sara olhou-o, mirando fundo em seus orbes azuis e viu que não havia falsidade ou interesse ali, apenas uma preocupação sincera a profunda.

- Desculpe...

- Desculpas nesse momento não adiantam. — Censurou Rickertt. — Dan, todos aqui corremos risco para te auxiliar mas foi em vão. E agora você está doente. Sabemos da proibição que tem de não nos pedir ajuda só que não há regras sobre NÓS o ajudarmos.

- Isso mesmo, podemos não morrer de amores uns pelos outros mas só temos a nós para nos apoiarmos. Gostando ou não, os aprendizes estão todos presos ao mesmo destino. O que importa é que você melhore. — Disse Damien, dando força às palavras do colega.

- Obrigado... — Sorriu a garota, anuviando a sombra que pairava no coração dos seus colegas.

- Vai aceitar nossa ajuda então, não é? — Perguntou Adonis.

- Não posso... Rick, pegue a balança que está na sala, por favor? — Pediu com doçura, o que fez com que o alemão obedecesse imediatamente. Assim que teve o objeto nas mãos, indagou: — Poderei aceitar o auxílio que os aprendizes estão me dando em proveito próprio?

Como esperava o prato moveu-se para baixo e depois retornou à posição inicial.

- Estão vendo? Não me é permitido ter qualquer caridade... — Murmurou triste.

- Então pergunte se pode aceitar comida enquanto está doente e sem forças. — Sugeriu Francis. A morena fez a pergunta e surpreendeu-se quando o prato manteve-se estático. O inglês sorriu. — Está decidido. Vamos ficar aqui por alguns dias. Até melhorar vai ter que agüentar a gente aqui cuidando de você, libriano teimoso.

- E eu faço questão de me mudar pra cá e passar as noites todinhas contigo... — Disse Adonis, todo feliz.

- Só se for comigo junto! — Completou Damien.

- Claro, amigo. Nós três aqui juntinhos...

- Vocês vão é dar o fora daqui antes que eu os ponha para dormir! — Vociferou Rickertt.

- Ok, ok, estamos indo. — Despediu-se o geminiano. Antes que saíssem porém, Sara perguntou:

- Quem foi que me deixou aquele dinheiro na primeira vez que fizeram as apostas?

- Não fui eu.

- Nem eu. Só percebemos seu estado depois.

Francis e Rickertt também negaram. A dúvida permanecia: quem a ajudara?