Quero Ser Um Cavaleiro

23 ... e o primeiro dia de aula dela!


Antes de sair da escola, Sara contou o dinheiro que ainda possuía. “Que mixaria...”, pensou. Escreveu na caderneta de alunos o cardápio que poderia fazer com aquela quantia e descobriu sem surpresa que não sobraria nada para ela até o sábado. “Quer dizer, sobra o suficiente para uma caixinha de fósforos. E é tudo o que preciso agora. Pobre Shion, vai ter que se contentar com capim mesmo.”, tornou a pensar. Deu de ombros e foi embora, parando apenas para comprar os ingredientes das merendas e os fósforos.

Chegou em Libra no início da tarde Alimentou e deu de beber ao burrico, cuidou de sua hortinha, foi ao bosque e voltou carregada de lenha, tirou todo o carvão velho e cinzas do fogão e lavou-o, esfregando bem suas paredes. Estava coberta de fuligem quando terminou. Tomou um banho e voltou à cozinha. Teve alguma dificuldade para acender o fogo mas assim que o fez preparou uma gostosa guloseima de milho de sua terra. Ela rendia bem e sabia que as crianças iriam adorar. Guardou tudo ao finalizar e sentou-se na sala, para decidir o que fazer.

- Talvez seja melhor... Não! Ou será que... Ah, que droga! Não sei por onde começar. Deixa ver. Tenho que subir as escadas 20 vezes e divididas, malhar um monte quando não tiver ninguém olhando, o que significa que tem que ser de noite e ainda treinar aqueles passos idiotas. Então... Eu começo com as escadas, passo para a reforma da casa e depois subo de novo. E ao anoitecer vou ao ginásio. Isso aí! — Ela decidiu, sorrindo. Mal sabia o que a aguardava.

Seguiu tranqüilamente pelos degraus sem ser barrada como em outras ocasiões. Ao chegar em Áries pensou que a barreira invisível estaria erguida mas ficou surpresa ao atravessá-la sem problemas. Sentiu o coração apertar ao lembrar que Kiki estava tão perto e desejou que ele pudesse vê-la. Suspirou e posicionou-se, iniciando uma corrida acelerada rumo ao 13º templo. Por três vezes seguidas subiu e desceu sem se cansar. Já na quinta ofegava; na sétima não corria, andava vagarosamente; e na nona estava se arrastando com a ajuda dos braços. Quase não conseguiu completar a décima subida e voltou exausta para a sua casa. Os pés estavam inchados e latejando e não conseguia levantar-se.

- E vou ter que fazer isso de novo hoje... Buááá, quero voltar pro Brasil.... — Choramingou. Deitou-se no chão da sala, encostando o quadril na parede e esticando as pernas nela. Deixou-se ficar nessa posição até que a dor parasse.

Ao sentir que havia melhorado, resolveu passar para os exercícios da casa. Resmungando, apanhou as lixas que comprara e decidiu começar lixando o piso da sala. Por cerca de uma hora ficou a fazer círculos e mais círculos; quando acabou, tudo parecia liso como se houvesse sido encerado. Satisfeita, aproveitou a empolgação e varreu todo o pó. Era hora das paredes, só que começaria pelas externas. Estava a esfregar o templo ao ar livre quando ouviu alguns barulhos atrás de si e logo estes se transformaram em sonoras gargalhadas. Irritada, virou-se e deu de cara com Adoh e Enos rindo, enquanto Adonis e Damien apenas sorriam, Rickertt olhava enojado junto com Basílio, Yuji, Shan, Alexius, Ugo e Francis seguravam o riso com dificuldade e Floriano fazia cara feia.

- O que estão fazendo aqui? — Perguntou Sara furiosa.

- Assistindo você rebolar, florzinha. — Respondeu o irlandês quando conseguiu recuperar o fôlego.

- Estou treinando!

- O QUÊ? TREINANDO? Pare de besteiras, acha mesmo que um cavaleiro seria submetido a tamanha humilhação? Isso não é treino, é um serviço de operário. — Criticou Rickertt possesso.

- Concordo com meu colega, caro Daniel. É deveras degradante, principalmente para a nossa imagem. — Acrescentou o espanhol com desprezo no olhar.

- Mas foi meu mestre que me obrigou! Tenho que obedecer seus desígnios.

- Dan... Acho que está delirando. Quando que recebeu essas ordens, visto que Libra se encontra na China neste exato momento, segundo meu mestre me informou? — Ponderou Yuji.

- Mu de Áries me levou lá.

- Ah é, ele sumiu mais cedo. — Confirmou Ugo.

- Já que esclarecemos algumas coisas, já podem ir né? — E ela continuou sua tarefa. Passados alguns minutos tornou a olhar por cima do ombro e quase enfartou: Enos imitava-a, exagerando nos movimentos, arrancando risadas gerais, até do alemão. — Que droga! Por que ainda estão aqui?

- Já treinamos. Olhar você é o que temos de melhor agora. — Disse Damien calmamente.

A morena rangeu os dentes de raiva e decidiu ignorar as piadinhas maldosas. Terminou rapidamente as paredes da sua altura e esticava-se toda tentando ir mais alto quando sentiu um braço enroscar-se em sua cintura.

- Quer ajuda, florzinha? — Sussurrou Adonis ao seu lado; ela tremeu. — Adoro quando faz isso...

- Solta ele, grego! — Um furioso Floriano exclamava do lado oposto.

- Fica na tua, jardineira. — Retorquiu maldoso. — Olhe só para ele, é tão tampinha que não consegue alcançar um ponto além da minha cabeça.

- Pois fique você sabendo que consigo sim. — Ela soltou-se do abraço, entrou na casa e saiu com uma cadeira. Postou-a em frente à parede e subiu, continuando a fazer círculos. Ouviu os aprendizes gargalharem da cara que o geminiano fez.

- Sem graça. — Grunhiu ele, voltando para junto dos demais.

Percebendo que não a deixariam sozinha, suspirou resignada e resolveu ignorar. Depois de algumas horas finalmente terminara de lixar a metade da parte posterior da casa; precisaria de uma escada bem alta para chegar ao teto. E ainda havia as colunas... Espreguiçou-se e olhou o horizonte. “JÁ VAI ANOITECER?”, pensou em desespero vendo o Sol se esconder. Tinha que repetir o trajeto das escadas ainda 10 vezes. Desceu de cabeça baixa até Áries e tornou a subir os degraus sagrados. Ao passar pela casa de Libra, os colegas a olharam estranhando.

- O que ele pensa que está fazendo agora? — Indagou Alexius.

- Subindo escadas? — Falou Shan sarcástico.

- Isso eu sei, cara. Mas pra que essa agora?

- O mestre dele obrigou-o a fazer isso 20 vezes, divididos em 2 cada. — Respondeu Francis calmamente.

- Uau, como é bem informado o almofadinha.... — Chacoteou Adoh.

- Quieto, irlandês! Meu mestre é um pouco bem informado demais, se me entendem...

- Ou seja, ele é um fofoqueiro de primeira linha! — Traduziu Basílio, rindo.

- Olhem, vai passar de novo. — Apontou Rick ao ver a colega subir uma segunda vez, veloz.

- Aposto que ele não consegue completar o percurso. — Arriscou Ugo.

- Nossa, italiano, está duvidando de um aprendiz de ouro? — Quis saber o rapaz ruivo.

- Ele já está cansado, fez a mesma coisa mais cedo, eu vi.

- Pois dou 10 drakmas que ele faz só sete vezes. — Apostou o capricorniano.

- Eu dou 10 como na quinta ele pára. — Acrescentou Yuji. — Está exausto, olha só. — E apontou a menina, subindo pela terceira vez.

- Quero entrar nesse negócio aí também, caras. — Exclamou o irlandês.

- Passem pra cá que serei a banca. — Afirmou Enos. Logo todos haviam dado seus lances e os únicos que achavam que ela iria completar as dez voltas eram Adonis, Damien e Floriano.

Sara sentia o corpo forçado, movimentando-se a pulso, dores horríveis tomando conta de seus pés. Na sexta subida praticamente arrastava as pernas pelos degraus e na oitava subiu de quatro, esfolando os joelhos.

- Vamos, florzinha, não desiste! A gente apostou em você! — Gritou Damien, estimulando a garota.

- Acaba logo com isso, Dan, já deu, pode parar! — Era Adoh, que apostara até nove vezes.

- Vão... Pro... Inferno... — Ofegou ela como resposta.

A décima vez foi um sacrifício. Nunca antes ela sentira-se tão cansada, parecia que seus pulmões iam estourar, seus músculos contraíam-se em espasmos ao menor movimento. Subia como uma cobra, rastejando no chão, seus dedos sangravam por fincarem-se nas pedras, ajudando-a a prosseguir. Conseguiu afinal chegar no templo de Athena quando uma sombra tapou-lhe o Sol.

- Que pensa que faz aí embaixo, aprendiz? — Era a voz de Shion.

- Estou... Treinando... — Respondeu quase desfalecendo.

- Levante-se! Que coisa mais degradante...

Ela tentou pôr-se de pé mas caiu de joelhos logo na primeira tentativa.

- Na-não... Consigo...

- Então volte para sua casa como veio, verme inútil. — E o Grande Mestre aplicou-se um forte chute na barriga. Sara dobrou de dor e desequilibrou-se, escorregando e acabando por rolar escada abaixo. Parou apenas ao bater as costas numa das colunas do templo de Peixes.

- AI!

- E agora aprenda a agir como um cavaleiro! — Disse Áries sarcástico, enquanto se retirava.

“Eu mereço...”, pensou a garota. Conseguiu retornar a Libra depois de algum tempo e encontrou seus colegas dividindo o dinheiro.

- Florzinha, sempre acreditei em você! — Exclamava Damien rindo.

- Da próxima, eu aposto dez voltas! — Basílio ajuntou.

Ela não deu ouvidos e se escondeu no quarto. Acabou adormecendo de tão cansada e acordando somente com o raiar do dia.

- Ah não! E eu nem fui terminar o treino... Se Dohko descobrir estou frita... — Resmungou, reunindo forças para ir trabalhar. Depois de muito esforço, tomou um banho e se trocou. Enfaixou os pés que já tinham bolhas com as gazes que sobraram dos cuidados com o burrico e estava de saída quando percebeu sobre a mesinha da sala uma pedra. Foi verificar e havia dinheiro embaixo. Não muito mas mesmo assim mais do que ela tinha consigo. Procurou algum vestígio do dono e nada havia. Olhou então a balança à sua frente e viu que ela não pendera. Toda a quantia seria sua sem que a Justiça se zangasse. Restava apenas descobrir a alma generosa que havia lhe ajudado.