Quero Ser Alison DiLaurentis
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ela se olhava no espelho com uma espécie de devoção, admirando a imagem que via. Sem perceber, eu estava encarando seu reflexo também. Não havia como negar, ela era de uma beleza estonteante. Do tipo que chama atenção por onde passa. E ainda deixa um rastro no ar. Todos sabem quem ela é, embora poucos tenham o privilégio de conhecê-la de verdade. Ela é como o troféu mais importante no pódio inalcançável. Usando sempre a ultima tendência da moda. O brilho labial perfeitamente retocado. O equilíbrio perfeito nos saltos. O cabelo brilhoso e esvoaçante. De repente ela lança um olhar de desdém. Demorei um pouco para perceber que era pra mim. Alguma coisa vinda dela pra mim. Os lábios se moveram e pude ler “honey”, uma piscada quase imperceptível, e a garota que todos balançavam a cabeça confirmando o status de fabulosa, saiu do banheiro, onde permaneci momentaneamente estupefada. O único reflexo que sobrou no espelho era de outra garota. Não tinha os cabelos loiro-claríssimos, nem os olhos azul-céu. O sorriso era levemente torto, os dentes desalinhados em comparação a arcada impecável que acabara de sair. Não usava o último modelito do shopping. Talvez nem tivesse algum senso de moda, com seu jeans básico, seu tênis esportivo e sua camiseta polo de liquidação. Os óculos faziam suspense para os olhos castanhos e grandes. O queixo era fino. O cabelo, um castanho sem graça e sem vida, cheio de frizz. Quem era ela? Nem metade da escola deveria saber seu nome. Provavelmente nem metade da sua classe. Ela não desfilava igual a outra, andava aos tropeços, meio curvada. Enquanto a loira encarava todos em sua pose perfeita, ela tentava passar a mais despercebida possível.
Finalmente saiu do banheiro. Os boatos eram que ela já estava com namorado novo. Ela, a boba, nerd, invisível? Não. Ela, a garota que não precisava de esforço para ter metade da ala masculina do colégio aos seus pés, enquanto a outra metade tentava se livrar das namoradas. Um sorriso dela deixava qualquer um babando que nem bebê. Ela desfilava pelos corredores do colégio, fazendo brincadeiras com as suas amigas, rindo dos nerds desengonçados, inventando um apelido novo para o primeiro loser que via, dando fora nos garotos esquisitos que a paqueravam. A outra percebia os rostos decepcionados e olhares esperançosos. Algumas garotas se arrumavam tentando parecer com ela de algum jeito, vestiam roupas parecidas, ou apenas lançavam olhares invejosos a ela, até mesmo de ódio. Era como se ela devastasse as vidas por onde passava, como um furacão.
Ninguém ali naquela cidade de lindos e ricos era tão linda e tão rica, tão conceito de perfeição quanto ela. Era uma figura intocada. A imagem que tinham dela era muito além do que ela realmente era. Eu podia ver, em meio aos traços de uma popular inabalável, a enorme esnobe, metida e ridícula que ela era.
E mesmo assim, eu me imaginava, por alguns segundos, sendo exatamente assim.
A mentirosa perfeita que engana as melhores amigas a qualquer oportunidade. A vadia que fica com os caras mais lindos do colégio, da cidade. A rica mimada que tinha o mundo nas mãos. A manipuladora fria que fazia as pessoas a seu gosto e humor. A menina com rosto de anjo e personalidade de demônio. Aquela que faz os outros sofrerem para beneficio próprio.
Ela está longe de ser uma santa. Todos sabem. Inclusive as melhores amigas.
Mas ela é fabulosa.
Tem a máscara perfeita que esconde todos, todos esses pequenos detalhes.
E mais, tem a vida perfeita. Mas eu sei, recheada de segredos.
Ainda sim, por algum momento fui igualzinha, em meus devaneios.
Linda, forte, inacreditável.
Eu fui Alison DiLaurentis.
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