Queridos Amigos

11 Capítulo 11: Adultos


Notas iniciais
Olá! Perdoem a demora, mas cá está o novo capítulo! Muito obrigado à todos os que comentam e favoritam!

Estava frio e era noite quando Valka chegou em casa. Abriu e fechou a porta de madeira com um sorriso sereno no rosto. Atirou as chaves do carro em uma tigela sobre uma estante e colocou a bolso sobre a mesma.

Stoico bebia cerveja em uma garrafa de vidro com as pernas relaxadas sobre a mesa de centro da sala enquanto via televisão, iluminado pela luz da mesma.

A esposa caminhou até o marido, sorridente e suspirando, sentou-se no braço da poltrona e deitou a cabeça sobre seu ombro forte e largo de seu cônjuge, sendo acolhida pelo mesmo, começando a assistir também e servindo-se de sua bebida.

— Aonde você foi? – perguntou ele enquanto olhava o aparelho.

— Fui visitar uma amiga – respondeu ainda sorrindo.

Passados alguns instantes em silêncio, Valka perguntou.

— Amor, se eu morrer primeiro, pretende se casar de novo?

— Não sei, talvez – respondeu com certo descaso, distraído, bebendo.

— “Talvez” ?! – disse ela desfazendo o sorriso, franzindo o cenho.

— É, eu não tenho certeza... Não me imagino com outra mulher além de você.

— Mas isso ainda é uma opção – falou sugestivamente, inconformada, o marido não notou no momento.

— Acho que sim.

A mulher não falou mais nada, o homem lhe ofereceu a cerveja novamente.

— Ah, tá! – disse Valka antes de levar a garrafa à boca.

Stoico seguia distraído, quando de repente, sua esposa atirou a garrafa de vidro no chão, destruindo-a. O som foi alto na casa e o homem saltou os ombros recolhendo-se para o lado oposto ao barulho.

— Que isso?! – falou assustado.

Sua esposa saiu fazendo careta e caminhando furiosa, entrou no quarto e bateu a porta com força. Nolan que estava em suas acomodações com sua nova namorada pôs a cabeça para fora junto da mesma, assustado, sem entender o que havia acontecido. Todos os outros olharam Valka caminhar colérica até o próprio aposento.

Rubi ria diante da história. Estava sentada à mesa de um restaurante debaixo do céu cheio de nuvens, mas com a lua brilhante e algumas estrelas faiscantes à mostra, segurava um copo de vodka enquanto colocava a mão que segurava a bebida em frente os lábios e seu corpo relaxado.

— Para de rir! Isso não tem graça! – disse a norueguesa franzindo o cenho, com um copo de Linie Aquavit diante da mesma sobre a mesa.

— Desculpe! – respondeu a russa com o rosto vermelho de rir, os ombros saltando sem parar – Mas se estivesse no meu lugar também estaria rindo, porque tem graça sim. Mas e depois, o que seu marido fez?

A escandinava deu de ombros com o olhar baixo e envergonhado.

— Depois ele entrou no quarto, perguntou o que aconteceu e eu expliquei. Ele compreendeu e me disse que para ele eu era única e que sabia que perder quem ama era parte do pacote, e que nunca daria outra mãe aos meus filhos.

A eslava aos poucos desfez o sorriso e fez um olhar frio.

— Você realmente admira seu marido. Deve ser um grande homem, mas não disse que ele vive brigando com seu filho caçula?

— Sim! E isso me incomoda! – respondeu se ajeitando sobre a cadeira.

— Então como pode admira-lo tanto?

Valka suspirou.

— Soluço nasceu prematuro, na época mais fria da Noruega. Ele era magro, pequeno e fraco, foram semanas no hospital tentando fazer ele sobreviver. Repetidas vezes eu chorava, temendo que ele morresse, mas Stoico... Ele nunca duvidou... Ele sempre soube que nosso filho seria o mais forte de todos, que seria alguém especial. Nunca vi dúvidas nos olhos dele, sempre foi um homem convicto, isso sempre me confortou. Soluço puxou isso dele. No final meu marido estava certo. Ele é alguém muito especial.

— E o seu filho mais velho?

A mais alta coçou a cabeça olhando para o lado e para baixo com seus olhos verdes.

— Ele é um caso complicado. Ele nasceu saudável, sempre brincou muito, sempre teve amigos, e o que eu mais odeio. Sempre foi mulherengo – Rubi fungou olhando para baixo e levando o copo de vodca aos lábios, Valka gemeu de desgosto – Ele arruma uma namorada diferente toda semana, e poucas delas prestam.

— Isso é mesmo verdade ou é só seu instinto materno e ciumento falando? – perguntou a platinada com ar de deboche.

A norueguesa sorriu forçadamente em resposta.

— No início talvez fosse, e não se engane, quando seu filho começar a namorar, vai acontecer o mesmo com você.

— Meu filho já tem quinze anos e nunca falou de ninguém pra mim. Acho que ele evita estar em um relacionamento. Mas sério, elas são tão ruins assim?

— Nenhuma delas tinha responsabilidades em casa! – disse com indignação.

— Não tenho argumentos – respondeu a russa baixando a cabeça e sorrindo – Mas e o seu marido? Como ele é com seu filho mais velho?

— Meu marido adora ele, que pai não gostaria de ter um filho alto, forte, atlético, mulherengo que ganhasse vários prêmios em competições? Mas mesmo assim, ele reconhece que apesar de não ser um ignorante, inteligência nunca foi o forte de Nolan. Ele quer que Soluço herde nossa empresa no futuro. Mas e quanto a você? Me fala da sua filha mais velha.

— A Esmeralda?! Ela lembra um pouco seu filho, namoradeira, festeira, mas apesar de tudo, consegue ser responsável e priorizar as coisas certas. Nem imagina quantas vezes ela veio até mim reclamando de quantas garotas falaram pra ela do meu filho. Jack é um rapaz bonito, isso eu reconheço, muitas já se interessaram por ele, mas ele é um típico rebelde sem causa e não quer um relacionamento, talvez tema que um relacionamento próprio termine como o meu e o do pai dele. Mas enfim... Fugi do assunto, ela se preocupa bastante com o irmão. Jack a livra de alguns cafajestes e ela o livra de garotas interesseiras. Vamos fazer um trato, você não apresenta seu filho pra ela que eu faço o mesmo.

A escandinava sorriu.

— E a sua caçula?

— Sinceramente não tenho muito o que falar dela. Ela é fofinha, educada, inocente, mas ao mesmo tempo inteligente.

— Mas e o relacionamento dela com o irmão?

— É o ideal! Ele brinca com ela quase todos os dias. Ela o ama, e vice versa.

Valka franziu o cenho.

— O que você pensa do seu filho?

Rubi a olhou de lado, pelo canto dos olhos, quase como uma afronta. Colocou o copo sobre a mesa, baixou a cabeça, e respirou fundo.

— Ele é injustiçado... Perdeu o pai muito cedo, teve que assumir responsabilidades de adulto e ainda por cima está preso a mim, alguém que não sabe como lidar com ele. Ele é carismático, mas não consegue se relacionar com as pessoas. Não sei o que fazer, já tentei algumas coisas, mas nunca deu certo.

As duas seguiram em silêncio, iluminadas pelas luzes distantes da cidade, sentiram o movimento ao redor delas.

— Mas e você? – perguntou a russa – O que pensa do seu filho?

— Eu?! – baixou a cabeça em silêncio, pensativa – Eu acho que ele é maravilhoso, só é um pouco imprudente.

— Como assim?

A norueguesa riu.

— Você tinha que ver as bagunças e os prejuízos que ele já causou lá em casa e nas lojas do meu marido, cada um pior do que o outro, mas eu não o condeno, sempre quis o orgulho do pai, Stoico o queria envolvido com os negócios da família, então tentou a todo custo ajudar, mas nunca conseguiu, até que em um certo momento desistiu de tentar, e no máximo se envolveu em algumas poucas coisas que tem a ver com a nossa empresa, mas ele não quer ser o que o pai dele deseja... – baixou a cabeça, em conflito, suspirando – Escuta, eu me vejo de mãos atadas, eu tenho um ótimo relacionamento com meu filho, mas meu marido tem o dever de manter os negócios e faze-los prosperar e reconheço que Soluço é o melhor caminho para isso, mas ele está cansado dos conflitos em decorrência dessas questões, não foi à toa que ele saiu de casa. Por um lado, Stoico está certo em exigir participação de Soluço, por outro lado Soluço está certo em querer preservar sua saúde e seu bem estar. Nolan não liga muito pra isso, então, o que eu faço?

A russo olhou para baixo, pensativa.

— Eu não sei. Isso é tragicamente cômico. Eu viajei o mundo inteiro e não consigo resolver conflitos dessa natureza.

— Na Noruega também?

— Sim.

— Por isso conhece Linie Aquavit?

— Sim. Que tal fazermos um brinde?

— Concordo – disse Valka erguendo o copo.

—Um brinde aos nossos problemas – disse a russa.

Bateram levemente os belos copos de vidro parcialmente cheios e iluminados pelas luzes da cidade.

Stoico e Nolan estavam em sua sofisticada academia particular. O pai usava um moletom e calças de mesmo tecido, o filho usava regata e bermuda.

O mais velho batia em um velho saco de pancadas com os grandes e ásperos punhos enfaixados, o mais novo o segurava, aguentando piamente os golpes de seu pai.

Ambos estavam suados e cansados. Seguiram assim até que um alarme tocou.

— Finalizamos – disse Nolan.

Stoico se afastou suado do saco, tirou as faixas dos punhos, colocou uma pequena toalha sobre o pescoço e agarrou uma garrafa de água, bebendo dela. Ele e o filho se sentaram em um banco, perto um do outro. A enorme massa de músculos sentado ao lado do filho menor que não era nada fraco.

O mais velho ofegava suado, franzindo o cenho, os olhos claros intensos e furiosos, e ainda assim, silencioso. O filho seguia distraído, não se atrevia a falar com o pai nos últimos dias, tem estado bem estressado devido a confusão com Soluço.

— Eu sabia que estaria aqui! – disse uma voz familiar.

Ambos se voltaram para o dono dela. Viram um homem gordo, loiro e bigodudo caminhando em direção a eles em frente a porta. Havia uma prótese em seu braço esquerdo, e outra em sua perna direita, mas a mesma lhe era coberta pela calça listrada e a bota que fazia questão de usar. O mesmo se aproximava dos dois homens. Era Hooligan, de apelido Bocão.

— Bocão! – disse Stoico se levantando, alegre em ver o amigo – O que está fazendo aqui?

— Eu tenho trabalhado bastante recentemente, mas ouvi algumas coisas e gostaria de falar com você.

— E sobre o que é, velho amigo?

— Soluço.

O ruivo desfez o sorriso. Seus olhos prateados voltaram-se para o lado. Suspirou.

— O que eu faço com ele Bocão?

— Ao menos sabe onde ele está?

— Claro que não, se soubesse já o teria buscado há semanas.

— Ele tem falado com você?

— Poucas vezes, às vezes fala com a mãe dele. Por que quer conversar sobre meu filho? Tem a solução para os meus problemas?

— Talvez não, mas achei que precisasse de um outra ótica sobre a situação, talvez isso lhe dê uma luz.

— Ah! – gemeu de desgosto – Você sabe como ele é! Desde pequeno ele era... Diferente! Ele não me escuta, não presta a menor atenção em nada, eu levo ele para pescar e ele fica falando... De trolls!

— Eu me lembro de ter visto um troll uma vez.

— Quando eu era criança...

— Ih, vai começar – interrompeu.

Stoico continuou, ignorando-o.

— Minha família era pobre, passávamos fome e frio quase todos os dias, você se lembra! Eu precisava ajudar meus pais a conseguir comida e pagar as contas. Tivemos que passar por muitas dificuldades na vida, e só depois que eu me dediquei a estudar e trabalhar foi que eu pude dar à eles uma vida digna até a morte deles... Você se lembra que foi por isso que eu decidi servir?

— Eu lembro – respondeu quase interrompendo, olhou as próteses com o rosto sombrio – Eu fui servir com você, lembro que você salvou a minha vida apesar de não conseguir me trazer inteiro para casa, mas eu agradeço por isso. Também me lembro que foi enquanto servíamos que você conheceu a Val.

— Enfim... Desde criança eu tinha essa noção da realidade, sabia quem era e o que devia me tornar, para ajudar a minha família e aqueles que precisavam. O Soluço não é assim, pode não ser um egoísta, mas não é aquilo que precisa ser para... – no momento parou em silêncio, olhou para o lado, recordando-se da presença de seu filho mais velho – Enfim, você sabe.

— Sabem do que o Soluço precisa? – perguntou Nolan se levantando e caminhando em direção ao pai e o amigo – De uma namorada!

— Nolan... – Stoico falou quase sussurrando, fechando os olhos e colocando os dedos grossos e suados sobre a testa, num misto de desapontamento e impaciência.

— Pai, é sério! No dia que ele tiver uma namorada ele vai se esquecer do mundo e pensar só nela, que nem eu faço...

— Nolan! – chamou alto, fazendo o filho se calar – Vá para o chuveiro! Depois disso, vá para o carro e me espera lá!

O filho o obedeceu em silêncio, mas não sem antes mostrar seu desapontamento.

Os dois adultos ficaram em silêncio enquanto o mais novo saía, voltaram a conversar apenas após o rapaz entrar no banheiro.

— E esse daí era pra ser a sua primeira opção?!

— Bocão, não começa...

— “Que nem eu faço” ?! Cada vez que eu vejo ele, o rapaz está com uma namorada diferente, e um líder não pode ser alguém que se importe apenas com uma pessoa. Se é que ele se importa com as namoradas deles. Se fosse assim Soluço já estaria apto para comandar sua empresa.

— Bocão...

— Tem certeza de que ele ainda é virgem?

— Se tivesse filhos saberia...

— Todo pai que eu conheço diz isso.

— E todos os filhos acham que não temos noção de nada – disse Stoico agora brincando – Mas sabemos das coisas.

— Não demorei para entender o porquê de preferir Soluço no comando da empresa do que ele.

— Nenhum dos meus filhos é perfeito, mas Soluço, mesmo com todas as suas inseguranças, é o melhor para liderar.

— E a Val? O que ela acha disso tudo?

— Sabe como ela é. Ela odeia que eu exija de meu filho algo que ela diz que ele não consegue ser. Pensa que é tudo culpa minha, mas apesar de tudo estamos em paz, ela respeita minhas decisões, e compreende bem os meus motivos, apesar de não concordar. Devo me considerar um homem de sorte por ter me casado com ela.

Bocão olhou para baixo por um instante, em silêncio.

— Sabe que tenho tanta estima por ele quanto você. Sou o padrinho dele, ensinei à ele tudo o que eu sei... Mas você não pode muda-lo, não pode impedi-lo, e quando ele precisar de proteção não estará lá para sempre para protege-lo só pode prepara-lo.

— Mas como?

— Eu não sei – disse o loiro baixando a cabeça.

Ambos ficaram olhando para o chão, um defronte para o outro, cercados pelos aparelhos da academia.

Já era madrugada. Elinor estava sentada no sofá de sua sala escura, apenas um abajur pequeno de luz dourada e forte a iluminava parcialmente. A escocesa apoiava seu rosto na mão, com o cotovelo sobre as pernas cruzadas. Havia olheiras em seus olhos fechados, e sua cabeça pendia repetidas vezes de sono.

De repente ouviu o barulho de alguém entrando pela porta.

A mulher imediatamente se colocou de pé voltada para a mesma.

— Merida?! – disse com certo alívio.

Mas ficou desapontada ao notar que era apenas seu marido voltando de viagem, cheio de malas nas costas e nas mão fortes.

— Oi querida! – disse Fergus alegre em vê-la.

— Oi amor – disse triste e logo depois voltou a se sentar.

O homem franziu o cenho ao notar a reação da esposa ao vê-lo. Normalmente ela o recebia de maneira mais afável.

Colocou as malas no chão, perto da porta. Em situações normais, Elinor o repreenderia por isso, mas também não o fez.

Caminhou até ela e ficou de frente para a mesma sobre o sofá.

Assim ficaram marido e mulher. Ele, alto e forte de pé, ela, magra e deitada, exausta.

— O que aconteceu? – perguntou ao ver seu estado, estava bem menos cuidada do que o normal – Você está...

A mulher ainda estava consciente o bastante para notar uma ofensa.

— Fantástica como sempre! – falou forçando um sorriso – Mas algo me diz que não tem dormido bem, e tem negligenciado sua aparência. Aconteceu alguma coisa?

— Merida fugiu – disse demonstrando seu cansaço, deitando a cabeça sobre o sofá, não o olhando o diretamente.

— O quê?! Quando? – perguntou franzindo o cenho novamente.

— Algumas semanas.

— E por que não me disse nada?

— Você estava ocupado tendo uma reunião com alguns sócios, não queria distrair você, você não precisava dessa distração.

— Meu amor, nossa filha é mais importante do que qualquer reunião! Devia ter me dito!

Elinor o olhou triste, agora tinha noção disso, uma lágrima intrusa escorreu de seus olhos sonolentos.

— Me desculpe.

— Chamou a polícia?

— Não. Não quero que vire assunto público como sou uma péssima mãe. Além disso, suspeito que ela não esteja correndo perigo.

— Por que não?

— Encontrei ela algumas vezes na rua, estava sempre acompanhada de alguém. Suspeito que essas pessoas com quem ela estava me impediram de trazer ela pra casa. Deve estar morando com eles, ou passando a noite na casa de cada um deles. Devem ser amigos dela, o que é estranho, ela nunca me falou deles, e se ela os conhecesse há muito tempo eu já saberia.

— Por que não rastreou o telefone dela?

— Acha que ela não sabia do rastreador que tinha nele? Ela já se livrou dele há muito tempo. Eu encontrei ele na lata de lixo.

— O que aconteceu? Por que ela fugiu?

— Nós duas brigamos. Arrumei uma reunião aqui em casa com Macintosh, mas ela não apareceu, aí no calor da discussão eu joguei o uniforme de judô dela no fogo.

O marido arqueou as sobrancelhas.

Elinor puxou uma sacola, mostrando o que restou do tecido que estava parcialmente enegrecido e incompleto.

— Tinha deixado aqui para tentar me lembrar de comprar outro, mas quando ela não voltou mais pra casa eu me esqueci. Me desculpe Fergus. A culpa é toda minha.

— Meu amor... Vá dormir, você está exausta.

— Não! – levantou a voz – Fergus, minha filha está por aí, com pessoas que provavelmente não conhece, até onde eu sei pode estar morando debaixo da ponte com marginais, e vendo que ela estava usando roupas que não dei à ela pode estar roubando pra sobreviver! Eu não vou descansar até encontra-la, não posso me perdoar.

— Amor – disse ele com tranquilidade e um sorriso no rosto – Não se preocupe! Ela está bem!

— Como pode saber disso?! Como estar tão tranquilo?!

— Eu conheço nossa filha. Eu mesmo a ensinei a lutar junto do professor da nossa escola. Sei que ela sabe lidar com qualquer um que aparecer e tentar fazer algo com ela. Sei também que ela nunca se atreveria a estender a mão para pegar algo que não lhe pertence, sempre se lembra que o céu a está olhando, inclusive Santa Joana d’Ark. Sei também que ela é muito confortável em nossa casa, e por isso, não suportaria passar fome ou frio. Então pode ficar tranquila. Ela sabe se virar...

— Você não vai atrás dela?

— Não... Ela voltar quando tiver vontade.

A mulher ficou em silêncio, conseguiu ficar amena ao ouvir o marido. De repente suspirou, para o desgosto do homem.

— Qual é o problema com ela Fergus?! Eu só quero estimular ela a ser tudo aquilo que ela pode ser! Será que ela não percebe o potencial que tem?

— Ela é jovem querida. Nós também éramos assim na idade dela, lembra?

— Você ainda hoje é assim. Eu culpo você! Essa teimosia vem toda do seu lado da família!

Ele riu.

— Mas nós dois já éramos bem estudados quando tínhamos a idade dela. Sei que quer o melhor para ela, mas deve respeita-la e deixa-la ter sua liberdade.

A esposa fraquejou sobre o sofá. O marido continuou.

— Agora descanse, conhecendo você sei que trabalha amanhã, e precisa estar bem descansada. Eu também estou exausto da viagem.

Fergus pegou a esposa no colo. Elinor não o impediu. O escocês carregou a esposa cansada escada a cima até coloca-la sobre a cama na casa escura.

— Obrigada Fergus – disse ela.

Estava quase amanhecendo. Frederich e Arianna dormiam tranquilamente em sua cama de casal. Cercados pela mobília da cama, expressando nitidamente a cultura alemã.

Estava frio no quarto, mas nas cortinas grandes, finas e cinzentas o brilho aprazível, quente e dourado do sol se manifestava, iluminando o quarto de forma amena.

A esposa se deleitava com os tecidos macios e gelados, e usava uma camisola. Estava descansada, mas sua mente já estava quase ativa. De repente, seu braço involuntariamente buscou pelo marido, mas acabou acertando o colchão de maneira desagradável.

Abriu os olhos na hora, procurando pelo cônjuge, abriu os olhos, confusa, olhou ao redor do quarto e viu uma silhueta incomum sentada na cama, aos seus pés.

Reconheceu a camisola cinzenta e listrada do amado, mas se incomodou ao notar a coluna curvada do mesmo.

Arianna saiu debaixo dos lençóis e engatinhou até o marido.

— Amor... Já está acordado?

Frederich a olhou. A esposa viu seu rosto triste, a barba grisalha e os olhos cansados. Tocou-lhe a face com delicadeza.

— Qual é o problema?

— Estava pensando em Rapunzel.

— Está preocupado? Mas você mesmo não me disse que ela escolheu ficar lá com aqueles jovens por mais um tempo? Disse que ela estava com algo diferente na voz, talvez esteja feliz.

— Não era nisso que eu estava pensando.

— Então no que era?

O homem a olhou com vergonha nos olhos, vergonha que a esposa compartilhava.

— Eu já sei o que é – falou com tristeza – Eu já disse isso antes e vou dizer de novo, você não deve se culpar pelo que aconteceu... A culpa foi minha, eu trouxe aquela mulher para nossa casa... E para nossas vidas...

— Mas eu sou o pai, o meu dever é proteger a nossa família, a nossa filhinha indefesa, e nisso eu falhei. É minha culpa que agora tenhamos que resolver isso. É por minha culpa que ela está longe de nós agora.

— Não. É nossa culpa! – corrigiu.

Frederich suspirou.

— Ah, Deus me perdoe, mas que bom que nossos pais não estão vivos para olhar o nosso fracasso!

— Eles nos deram uma vida perfeita, uma infância saudável e nos fizeram florescer naturalmente. E nós, o que fizemos?

— Falhamos.

— Talvez se não tivéssemos ficado cegos diante do que estava acontecendo debaixo do nosso nariz poderíamos ter feito o mesmo pela nossa filha.

— Pare de pensar no que poderia ter sido. O tempo não volta, e nem para, concentre-se no que pode ser a partir de agora.

— Mas ainda assim, teremos que lidar com o peso do passado.

— Mas Rapunzel não iria querer isso da gente.

— Mas isso é inevitável.

— Eu sei.

Notas finais
Cá está! Espero que tenham gostado!