Queridos Amigos

9 Capitulo 9: Apagão


Notas iniciais
Olá! Perdoem pela demora, mas cá está o novo capítulo. POR FAVOR! NÃO PULE ESTE AVISO! O seguinte capítulo aborda o tema ABUSOS SEXUAIS. Como é um tema delicado, peço que por favor, aos leitores sensíveis, leiam com cautela. Não é o capítulo todo, mas apenas uma parte. Deixei ela isolada. Quando virem uma fileira de asteríscos (**********) pódem rodar a tela até ir para a próxima fileira (**********), a partir daí podem seguir com a leitura. Dito isto, muito obrigado! Boa leitura!

Alguns dias se passaram após a noite dos filmes, os quatro jovens hospedes da casa de Norte começaram a ficar mais confortáveis com a presença uns dos outros, embora não compartilhassem nenhuma espécie de vínculo amadurecido.

Já era o último dia do mês.

Era fim de tarde, chovia e trovejava do lado de fora do casarão e todos estavam fora de seus quartos, à vista uns dos outros. Jack lavava a louça, pois havia terminado de fazer um breve lanche, Soluço lia um de seus livros no sofá, Rapunzel lia Os irmãos Grimm na mesa da cozinha, e Merida ouvia música em seu telefone, usando seus fones de ouvido, também sentada numa cadeira defronte à mesa, mas distante da loira.

De repente a luz caiu.

O russo já havia terminado seu serviço, mas a escocesa havia perdido a conexão com a internet e o escandinavo e a germânica não poderiam ler confortáveis no escuro.

Nenhum deles estava com sono, nem tinham nada melhor para fazer, e sabiam que poderiam conversar. Então Jack pegou algumas velas antigas na cozinha e as grudou na mesa de vidro da sala. Estava frio, então pegou cobertores e preparou chocolate quente, o platinado se viu obrigado a compartilhar tudo.

Se sentaram ao redor da mesa, usando roupas casuais, camisetas de mangas comuns, calças moletom, os cabelos soltos e bagunçados, cobertos até as cabeças pelos lençóis grossos com as canecas de chocolate quente nas mãos, o vapor subindo delas. Eram iluminados pelas luzes quentes e alaranjadas emanando das altas velas brancas, enquanto estavam envoltos pela escuridão da casa, e ao redor deles, as janelas de vidro mostravam os raios azuis e assustadores brilhando em meio a queda da forte chuva fria. Ouviam os sons altos dos trovões.

— Pois é – comentou Rapunzel – Está chovendo forte não é?

— É verdade – respondeu Soluço – Que nem quando o Frodo chegou no Pônei Saltitante.

Todos sorriram.

— Ler e assistir O Senhor dos Anéis foi uma das coisas mais divertidas que já fiz na vida! – comentou a loira novamente.

— Sério?! – questionou Jack – O que mais você faz pra se divertir?

— Pinto, faço artesanato, toco violão, faço tricô, cozinho, jogo, danço balé, jogo xadrez...

— Nossa! Então você deve ser bem popular! – disse o platinado com certo deboche.

— Não, na verdade faço tudo isso em casa – respondeu manifestando timidez.

— Sério?! – interrogou Soluço.

— Eu não saio muito...

— Mas você já saiu... Sei lá, na rua alguma vez na vida?! Não tem nenhum lugar que você goste de ir? – perguntou o russo.

— Na verdade, quando eu era mais nova minha mãe me levava no parquinho, eu adorava ir pra lá! Era grande, cheio de árvores, com flores e ensolarado.

— E não vai mais? – perguntou o garoto de cabelos castanhos.

— Bem...

Merida se lembrou que Rapunzel tinha medo de sair na rua por conta de seu trauma de infância, a conversa a estava direcionando para tal assunto, por isso decidiu intervir.

— Eu também adoro o campo – todos voltaram-se para a ruiva – Eu sempre fui mais a natureza, as florestas, além de ser uma arqueira, meu pai me levava para o bosque para atirar com arco e flecha. Ele tem uma fazenda na Escócia, lá eu tenho um cavalo chamado Angus, cavalgo nele todos os dias quando vou lá. É bem divertido.

— Eu também gosto muito de cavalgar na fazenda da minha família – comentou Soluço – Mas também brinco bastante com meu gato.

— Seu gato ladrão de comida?! – disse a escocesa.

— Ele só fez isso com você uma vez ruiva, já está na hora de esquecer!

— Merida Dun Broch jamais se esquece de um ladrão de seu almoço!

O norueguês revirou os olhos, mas sorria levemente.

— Eu também gosto muito de sair por aí, ainda mais quando neva, quando pequeno eu brincava com meu pai de guerra de bolas de neve, e ele sempre me deixava... – dizia Jack sorrindo com brilho no olhar, mas de repente seus lábios esmoreceram e os olhos também.

Todos olharam o platinado cujo rosto se tornava abatido e distante.

— Bem... Agora eu não tenho mais ninguém pra poder fazer isso, no máximo minha irmã caçula e a minha irmã mais velha que eu vivo provocando. Mas às vezes é como se eu fosse invisível e ninguém pudesse encostar em mim.

— E eu? – afirmou Soluço – Eu até tenho meu irmão mais velho e alguns primos e colegas de escola mas nenhum deles gosta de mim.

— Não é pior do que minha situação! – disse Merida – Meus pais são sempre ocupados, e não é muito agradável ficar com minha mãe que é quem mais passa tempo comigo. E ela ainda por cima me força a tentar fazer amizade com os filhos de alguns sócios dela.

— Gente... – chamou Rapunzel – Eu também não tenho ninguém agradável com quem passar o tempo... É impressão minha ou ninguém aqui tem amigos?

Todos olharam a loira, envoltos pela escuridão, parcialmente iluminados pela luz quente das velas e em silêncio. Baixaram tristemente as cabeças jovens. Sentiram juntos o peso do fato. Todos eram solitários, e sentiram com força a sensação amarga do momento.

Tomaram um pouco do chocolate quente.

Os olhos claros de todos agora se moviam de um lado para o outro, ninguém era capaz de ver a face dos demais, no final ficaram com os olhares baixos, tristes, alguns tomando do chocolate quente de novo.

“Num mundo que se faz deserto temos sede de encontrar um amigo” – disse a loira com inofensivo tom de escárnio tentando abafar a situação.

Jack, Soluço e Merida a olharam franzindo o cenho.

— Antoaine de Saint-Exupéry?! O Pequeno Príncipe?! – comentou Soluço formando aos poucos um pequeno sorriso.

— Conhece O Pequeno Príncipe? – disse a alemã, agora sorridente.

— Eu li esse livro tipo umas mil vezes na minha infância!

— Eu também – disse Merida – Quando criança eu li ele e queria conversar sobre ele com minha mãe, mas quem disse que ela me deu atenção?!

— Somos quatro então.

— Legal – disse a ruiva sorrindo calmamente, não era algo que a empolgava tanto.

Jack se moveu, todos o olharam.

“É preciso algo mais do que inteligência para agir com inteligência”— jogou a frase, pronto para as reações.

Rapunzel no momento jogou-se para trás sorrindo e gemendo de alegria.

— Dostoiévski! Crime e Castigo.

— Conhece a literatura russa?! – questionou o platinado, sorridente e interessado.

— Se conheço?! Sou apaixonada! A literatura russa é maravilhosa. “A beleza salvará o mundo”.

“Dar um novo passo, dizer uma nova palavra— disse Soluço, mas de repente olhou para o lado, tentando concluir a frase – é o que as pessoas mais temem”.

— Também leu Crime e Castigo! – disse o russo sorrindo com ar de aprovação.

“Se ninguém lutasse, exceto por sua própria convicção, não haveria guerras”— disse a ruiva.

— Tólstoi! Guerra e Paz! – disse a alemã sorridente.

— Muito bem! Todos concordam que a literatura do meu país é a melhor de todas? – perguntou Jack com ar de arrogância.

Todos relutaram.

— Ah, espera aí, também não é assim! – disse Soluço.

— Reconhecemos que a literatura russa é extremamente acima da média – continuou Merida.

— Mas tem muitos países que tem muito a oferecer nessa área – concluiu Rapunzel.

O platinado revirou os olhos.

— Adiante – exigiu o mesmo.

Todos se silenciaram, pensando.

A escocesa arregalou os olhos e disse: “’O verdadeiro soldado luta não porque odeia o que está a sua frente, mas porque ama o que está atrás dele’.”

— Chesterton, A Nova Jerusalém – disse Soluço.

Merida sorriu para o mesmo.

— Soldados, guerra, Idade Média. Você gosta bastante desse tipo de coisa não acha? Não é muito comum garotas da sua idade gostarem disso, normalmente gostam mais de festas, garotos e bobagens – continuou o escandinavo.

“Uma coisa morta pode ir com a corrente, mas apenas uma coisa viva pode ir contra ela”— respondeu a ruiva.

— Essa também é uma frase de Chesterton – continuou o garoto de cabelos castanhos, quase rindo – De O Homem Eterno se não me engano.

— Não quer dizer que não seja verdade! – retrucou a cacheada.

— O Senhor dos Anéis, Chesterton, Tolkien, você deve gostar bastante da Inglaterra! – continuou Soluço.

— Não! – disse a celta com ar de ofensa – E Tolkien não nasceu na Inglaterra só pra você saber! A Inglaterra ofereceu algumas coisas legais, mas num geral, não sou muito fã. Eles assassinaram Joana d’Ark na Guerra dos Cem Anos.

— E você estava lá quando aconteceu... – disse Jack na sombra de um deboche.

— Ela é minha santa de devoção – respondeu a escocesa.

O platinado de repente esmoreceu o rosto, abandonando a piada.

— Eu sei que era uma guerra, mas ainda assim, sequestraram ela, acusaram ela injustamente, e mesmo sem achar um crime executaram ela, que morreu jovem, até para os padrões da época.

Todos ficaram em silêncio, compartilhando da revolta de Merida.

— Mas em 1920 ela foi canonizada – comentou Rapunzel como uma tentativa de consolo.

A ruiva a olhou de relance com o rosto mais ameno.

— João 11: 26 – disse Jack, chamando a atenção de todos – “Todo aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá”.

Aos poucos o eslavo sorriu para a celta, e a mesma retribuiu o sorriso, consolada.

Por um breve instante, trocaram olhares e sorrisos amistosos.

— Mas e você Haddock? – perguntou Merida entrelaçando os dedos – Você só citou uma frase até agora.

— E precisa citar outra?! Eu reconheci todas as frases!

Todos permaneceram em silêncio, o encarando, exigindo silenciosamente.

O norueguês baixou a cabeça, um tanto envergonhado, pensativo, mas ainda assim, estava mais confortável, bem mais do que tem estado nas últimas semanas, beirava a felicidade, mas não diria isso explicitamente.

Fungou por um tempo e depois falou: “O rei está pelado!”.

Todos riram ao mesmo tempo.

— Hans Christian Andersen! – disse Rapunzel enquanto ria.

— Foi o único autor do norte da Europa que eu me lembrei – respondeu o mais novo enquanto ria.

— Mas ele era Dinamarquês, não Norueguês! – disse Merida sorrindo.

— Mas ainda assim conta!

Os quatro seguiam rindo, quando terminaram aos poucos de beber seu chocolate quente.

— Até que vocês estão bem legais hoje – disse Jack.

— Ah, então quer dizer que agora está gostando de ter a gente aqui?! – disse Rapunzel sugestivamente.

— Gostando?! Eu nunca disse isso! Ainda estou torcendo pra vocês irem embora – respondeu rapidamente o platinado, mas seguia sorrindo e o clima agradável não fora quebrado pela resposta do mesmo – Aliás, por que vocês vieram pra cá mesmo?

De repente todos se silenciaram. Trocaram olhares, os sorrisos de segundos atrás haviam desaparecido totalmente. Agora todos baixavam as cabeças e os olhos momentaneamente, revezando enquanto tentavam se olhar.

— Por que você está aqui? – perguntou Merida em resposta com certa hostilidade – Não quer que acreditemos que você começou agora a morar sozinho.

Jack arregalou os olhos repentinamente, mas logo se adequou à pergunta.

— Minha mãe disse que essa casa precisava de manutenção, o que é mentira, ela já passou anos sozinha... A verdade é que eu não tenho andado bem ultimamente e ela teme que eu... – fez um sinal de revolver atirando com os dedos brancos na própria cabeça ao mesmo tempo que seu rosto desdenhado fazia um som de tiro com a boca – então ela me mandou pra cá pra ver se talvez eu melhore um pouco, já que quando minha avó morreu minha mãe estava mal, fez isso e melhorou.

Os outros três olharam o russo em silêncio, um tanto chocados, as faces jovens esmorecidas e agora desconfortáveis.

O eslavo notou o desconforto nos hóspedes, seu rosto também ficou abatido, baixando levemente a cabeça.

Rapunzel se sobressaiu aos demais e se atreveu lentamente a perguntar: “E esse risco existe?”.

Jack ergueu a face e na tentativa de um sorriso respondeu: “Não tenho tanta coragem.”.

— Mas e vocês? – prosseguiu Jack – Ainda não me responderam o porquê de estarem aqui.

— Quem vai primeiro? – perguntou Merida olhando para Haddock, sorrindo para o mesmo, empurrando-o em sua frente.

— Pode deixar, eu vou – disse Soluço.

Todos voltaram-se para o escandinavo enquanto o mesmo se ajeitava sobre o chão.

— Vamos ver, por onde eu começo... Ah! Já sei! Eu havia acabado de chegar em casa com meu livros novos, e meu pai de repente veio até mim e me disse “Soluço...” – falou imitando a voz grossa do pai.

Jack riu na hora, interrompendo.

— Espera! “Soluço”?! Como assim “Soluço”?!

— É o meu apelido em casa, é como os mais próximos me chamam.

— Sério?! – questionou Rapunzel sorrindo enquanto abraçava as pernas e deitava o rosto sobre os joelhos.

— É! Mas e aí, vocês querem ouvir a história ou não? Vão me deixar contar? – todos se silenciaram, o norueguês voltou a engrossar a voz – “Soluço! Seus livros não vão te dar nada na vida! Devia parar de lê-los e começar a estudar algo que preste e que venha a ajudar a empresa da família!”. Aí nós discutimos, minha mãe foi falar com meu pai, aí foram eles que começaram a discutir, quando eu finalmente não aguentei mais, eu saí de casa e fui até a casa do Sr. Norte, agora aqui estou!

Todos o olharam em silêncio.

— Que livros são esses que seu pai tanto detesta que você leia? – perguntou Merida também abraçando as pernas e franzindo o cenho.

— Livros sobre mitologia, sobre história, HQs...

— Que tipo de livros de história você lê? – perguntou Rapunzel.

— Idade Média.

— Ah! Você é dos meus! – gritou a escocesa alegre esmurrando o ombro de Soluço.

— Ai! – disse passando a mão sobre a região agredida – Gosto muito da era viking, até porque sabemos que nossos antepassados eram vikings, apesar de toda a violência, mas também gosto de outras coisas como filosofia e veterinária, tanto é que eu sei cuidar bem do meu gato, aprendi bastante com minha mãe, mas nenhuma dessas coisas que eu gosto pode ajudar a empresa da minha família... O problema é que meu pai é amigo de todos os nossos funcionários, e ele não quer deixar eles sem emprego... Às vezes acho que meu pai tem razão. Sabe... Apesar de tudo... Admiro ele... Nunca conheci alguém que se importasse tanto com os próprios funcionários, sem ser aqueles patrões que querem forçar um relacionamento falso.

Terminou de dar os relatos com o rosto triste, agora também abraçava as pernas, se encolhendo de frio.

— Conhecer história e mitologia é cultura, e cultura nunca é demais, e sempre pode ajudar a gente em outras áreas – disse Rapunzel – Sabe! Muitos imperadores foram pessoas extremamente cultas, como Alexandre, o Grande, ele foi instruído pelo próprio filósofo Aristóteles, conquistou quase o mundo inteiro conhecido naquela época e ainda por cima morreu sem perder uma batalha sequer. Esse conhecimento não é inútil Haddock.

O escandinavo sorriu para a loira, contente, olhou para os demais que também sorriam para ele.

— Pode me chamar de Soluço, todos vocês, podem me chamar de Soluço.

Inevitavelmente Jack riu de novo.

— Desculpa, eu sei que isso é ridículo, me desculpa, eu juro que eu não estou fazendo por mal, até porque quem sou eu para rir do apelido dos outros?! As pessoas chamam minha família e eu de “Frost”.

Rapunzel riu.

— Sério?!

— É! Aliás, podem me chamar assim também.

— Tá bem! – disse a ruiva – Soluço! Frost! – falou em tom de saudação para ambos, gesticulando com a cabeça.

— Agora é sua vez Merida!

A escocesa gemeu revirando os olhos.

— Precisa mesmo?!

— Nós contamos nossas histórias, agora é sua vez.

Gemeu de novo e disse: “Tá bem!”.

— Eu estava treinando judô onde eu tenho aula, aliás, eu nunca falei com meu professor sobre minhas faltas nas últimas semanas... Enfim, minha mãe preparou uma reunião com um sócio dela lá em casa e por alguma razão queria que eu estivesse lá pra participar, mas eu esqueci disso, deixei meu celular no silencioso e só depois de horas eu fui perceber o que havia acontecido. Eu fui correndo pra casa pra tentar chegar a tempo, mas só encontrei ela. Nós duas brigamos e ela jogou meu uniforme no fogo... – suspirou com tristeza, os outros apenas reagiram à sua história lamentando em silêncio – Depois disso eu fugi...

— Aí você foi e reencontrou ela naquele dia agradável no shopping – comentou Jack com sarcasmo.

— Pois é...

— Espera, você também se deparou com ela?! Isso foi antes daquele dia que saímos juntas?! Era por isso que você queria ir embora logo? – perguntou Rapunzel.

Merida confirmou balançando a cabeça com certa vergonha no rosto belo.

— Sabe... Nossa relação é difícil, ela quer me transformar num clone dela. Eu sinto que ela não se importa comigo. Afinal ela nunca me perguntou o que queria, só se preocupava com o que ela queria.

Todos ficaram calados, a ruiva com a coluna curvada para frente, triste.

Depois de um tempo em silêncio, Jack voltou-se para a loira com um sorriso fraco formado no rosto.

— Agora é sua vez Rapunzel.

A alemã sentiu um vazio preencher sua alma rápida e abruptamente, arregalou os olhos verdes, desconfortável. Olhou a escocesa, que estava distraída, em busca de ajuda, mas Merida estava bem abatida, ela não iria salva-la dessa vez.

— Eu?! – perguntou disfarçando – Eu não tenho nenhuma história pra contar!

“Mas como você poderia viver e não ter uma história para contar?”— respondeu o russo.

Rapunzel sorriu com tristeza nos olhos.

— Noites Brancas, Dostoiévski.

De repente todos a olharam, até mesmo a escocesa dedicou sua atenção à ela. Estava sendo pressionada, mas o ambiente era tão confortável, mesmo com o frio e os trovões, aquela noite estava sendo agradável. Certamente não gostava de contar aquela história, mas desta vez decidiu ceder.

O sorriso fraco que jazia em seu rosto se desfez e uma aparência sombria surgiu em sua face jovem. Baixou a cabeça e suspirou alto. Então começou:

**********

— Sofri abusos sexuais na infância.

Na mesma hora o sorriso de todos se desfez e ficaram todos eretos. Um frio desconfortável preencheu todos por dentro.

— Eu tinha menos de dez anos na época – disse coçando a cabeça, com dor na voz e seus olhos verdes voltados para o chão – Ela havia me forçado à ficar em silêncio caso meus pais perguntassem...

— “Ela” ?! – exclamou Merida franzindo o cenho.

A loira a olhou defronte.

— Sim! – respondeu – Ela!

— Seu agressor... – disse Soluço com desconforto – Foi uma mulher?

— Foi.

Os três haviam se silenciado, desconfortáveis. Rapunzel sabia que eles tinham perguntas a fazer.

— Se quiserem perguntar alguma coisa, perguntem logo, eu não quero falar sobre isso com vocês outra vez.

Aos poucos Jack se manifestou.

— Como... Isso funcionava?

— Ela fazia comigo o que podia... Também tirava fotos minhas e levava brinquedos e roupas minhas para a casa dela... O nome dela era Gothel, e era amiga da minha mãe. Minha mãe confiava nela e por isso me deixava aos cuidados dela quando viajavam.

— Seus pais nunca suspeitaram de nada? – perguntou o garoto de cabelos castanhos.

— Era uma mulher. A última coisa que se espera é que uma mulher faça esse tipo de coisa. E também, quando acontecia, passávamos a maior parte do tempo sozinhas... Ela queria que eu a chamasse de “mamãe” na frente da minha mãe...

Ninguém tinha o que dizer, Rapunzel prosseguiu.

— Sabem... A sensação é horrível, eu me lembro disso todos os dias... Até hoje vou em um psicólogo, mas essa memória sempre está lá. Eu me lavo todos os dias, tentando apagar o que passou – disse começando a chorar e abraçando forte as pernas femininas, pondo a face bela e sofrida sobre os joelhos, Soluço considerou consola-la, mas não sabia se podia toca-la de forma não solicitada, todos pensaram a mesma coisa – Mas não apaga nunca! – disse levantando o rosto choroso contorcido e vermelho – Depois do ocorrido também conheci outras crianças que passaram por uma experiência semelhante. Conheci outras meninas que também sofreram abusos de mulheres, e devo dizer que elas sofreram bem mais do que eu. O órgão genital de uma mulher não pode ferir tanto quanto o órgão genital de um homem, por isso algumas usam objetos para... Usar nas meninas, fazem isso pelo próprio prazer, e algumas são bem cruéis. Comigo a Gothel não usou nada, talvez pensasse que se não houvesse provas de que houve um rompimento himenal em mim não teria como provar nada. Lá na ala psiquiátrica eles disseram que isso é como se fosse um vício. Sabe, um agressor desses não ama sua vítima. Ela só me usou como um drogado usando uma droga, pra saciar algo horrível nela! Disseram também que normalmente pessoas assim também sofreram abusos na infância e eu tenho medo de crescer e ser igual a ela no futuro...

O silêncio na sala era mortal, ninguém sabia mais o que dizer. Olhavam a loira chorar. Mas de repente, Merida voltou a perguntar.

— O que aconteceu com ela?

Rapunzel a olhou de relance, baixou os olhos verdes e um certo sorriso surgiu em seus lábios rosados, mas logo depois desapareceu.

— Uma noite meus pais decidiram me fazer uma surpresa, disseram pra gente que iam chegar em tal dia, mas chegaram quase uma semana mais cedo. Era noite, o som da casa estava ligado alto para que caso eu gritasse por ajuda ninguém ouvisse, por isso não foi possível ouvir o barulho do carro do meu pai chegando. Eles seguiram o som alto até o quarto onde ela havia me prendido. Como ela não esperava que ninguém chegasse a porta estava destrancada, foi quando meus pais chegaram e viram o que estava acontecendo – a loira inevitavelmente começou a sorrir – Meus pais ficaram estáticos quando viram aquilo, e a Gothel olhou eles assustada, eu corri pro colo da minha mãe chorando e um segundo depois, meus pais espancaram ela, quase até a morte. Eles pararam porque se matassem ela poderiam ir parar na cadeia no lugar dela, ligaram para a polícia, que conseguiram as provas que precisavam por causa das fotos minhas que ela tinha no celular e as minhas coisas que ela levava para a casa dela. Ela foi posta na cadeia, e eu fui para um psicólogo. Meses depois soubemos que ela desapareceu da penitenciária, fiquei apavorada com medo que ela voltasse, mas pouco tempo depois se soube o que aconteceu, e para me tranquilizar, meus pais me disseram à verdade. As outras mulheres da prisão souberam o que ela fez comigo e a puniram por isso, fizeram uma fila para abusar dela, inclusive usando objetos, esquartejaram ela viva e consciente e depois queimaram seu corpo. Acharam seus ossos uma semana depois. É isso o que acontece com estupradores na cadeia. Ela literalmente virou pó.

Quando se deu conta, estava sorrindo de satisfação.

— Bom... – disse Merida ainda chocada com história – Pelo menos você foi vingada... Fizeram justiça por você...

Rapunzel desfez o sorriso rápido. Balançando o rosto e piscando os olhos para reaver a face séria.

— Sim, mas... Eu aprendi que se nós nos alegramos com o sofrimento e a morte dos nossos inimigos, não somos melhores do que eles. Esse pensamento de que fui vingada me conforta, mas não quero que seja assim.

— Você não é igual a ela – disse Jack com o rosto sério, todos o olharam – Se você tenta evitar de se alegrar com a morte dela então você é melhor do que ela, existem vítimas que são mortas logo após serem usadas.

A loira o olhou com os olhos claros reluzindo a luz da vela, suas lágrimas tornando-os mais cintilantes, tendo uma minúscula catarse devido ao elogio, era a primeira vez que alguém lhe dizia isso.

— Então quando eu chamei minha mãe de estupradora... Foi por isso que você ficou tão assustada... – disse Merida com lágrimas lhe umedecendo os olhos.

Rapunzel balançou a cabeça.

— Desculpa – sussurrou com voz de choro.

A alemã sorriu para ela com os olhos cheios de lágrimas.

— Era disso que você falava quando me falou de sua sensação de fraqueza – disse Soluço, logo depois tirou os óculos e limpou a visão.

— Era disso que estava falando quando disse que não tem sido feliz nos últimos dias.

Ficaram em silêncio, sendo iluminados pela luz da vela, as cabeças baixas, e aos poucos a sensação estava passando, mas não sem deixar marcas.

— Tem alguma coisa que possamos fazer por você? – perguntou o russo.

Rapunzel, ainda olhando para o chão balançou a cabeça, mas lentamente seus dedos mindinhos correram até os dedos mínimos das duas pessoas que estavam ao seu lado, Jack e Soluço

— Meu psicólogo falou que eu deveria sair um pouco de casa pra tentar lidar com isso, e quando o Sr. Norte ligou pro meu pai falando daqui, decidiu me mandar pra cá. Por isso eu estou aqui. E obrigada! Apesar de tudo este momento está sendo um dos mais agradáveis que já tive na vida!

Todos sorriram com dificuldade para a loira.

— Jack! Tem vezes que eu fico deitada no chão chorando, fiz isso algumas vezes lá no quarto, peço desculpas se eu fizer isso aqui fora!

— Tá tudo bem – respondeu sorrindo, logo depois franziu o cenho olhando para baixo – Escuta, tem vezes que eu ouço você falando alguma coisa do seu quarto, uma espécie de...

— Música? – perguntou lentamente sorrindo.

O platinado fez que sim com a cabeça. Rapunzel cantou.

Brilha linda flor

Teu poder venceu

Traz de volta já

O que uma vez foi meu

Cura o que se feriu

Salva o que se perdeu

Traz de volta já

O que uma vez foi meu

Uma vez foi meu

Todos ficaram em silêncio, surpresos com a bela canção na bela voz da alemã, a loira respirou fundo aliviada.

— Minha mãe compôs essa música, ela me acalma quando estou perturbada – disse enxugando suas lágrimas.

— É uma bela canção – disse Jack – Ela deve ter feito pensando em você.

— Ela canta essa música pra mim desde que eu era bem pequena, ela me conforta.

**********

De repente a luz voltou e a chuva estava mais fraca.

Decidiram assistir televisão.

Jack permitiu que Rapunzel escolhesse algo que quisesse assistir. A loira escolheu um desenho, todos o assistiram juntos. Aos poucos, se sentaram aos pés do sofá, assistindo, ficaram ao lado dela, que assistia em silêncio abraçando as pernas, mais calma. Lentamente sua cabeça exausta e sonolenta se deitou sobre o ombro de Merida. Foi quando decidiram dormir.

Dormiram na sala.

Durante a noite ouviram sons estranhos, o russo, o norueguês e a escocesa acabaram acordando. Voltaram-se em direção ao barulho e notaram a alemã.

Ela estava deitada sem coberta, voltada para cima, distante no chão frio e duro, seu corpo estava estático, exceto pelo peito que subia e descia aos saltos, iluminada pela luz cinzenta da lua. Chorava como disse ter o hábito de fazer.

Rapunzel não notou os outros acordarem, mas os três se olharam com sono e pesar nos olhos, mas empáticos, se importando com a pobre loira.

Em silêncio, Jack, Soluço e Merida deitaram-se no chão frio ao lado de Rapunzel, a escocesa a direita e o norueguês a esquerda. A loira se assustou quando sentiu os dedos finos se enroscarem. Não tinha espaço para o russo encostar seus dedos nos dela, então deitou-se quase encostando a cabeça com a alemã, e lentamente começou a acariciar discretamente o cabelo.

A germânica arregalou os olhos verdes e úmidos diante de tal ato, em nenhum momento moveu a cabeça para olhar seus colegas, mas não tinha como não saber que eram eles, sorriu momentaneamente alegre enquanto seguiu a chorar, mas agora por um pouquinho de alegria. Sentiu pela primeira vez que não estava sozinha e indefesa na escuridão.

Ficaram assim pelo resto da noite, deitados no chão duro e frio de madeira, parcialmente iluminados pela luz cinzenta da lua, envoltos pela escuridão da noite, juntos.

A noite passou, Rapunzel dormiu rápido e com um pouco mais de satisfação do que estava acostumada, já os demais passaram a noite desconfortável, estava frio e o lugar onde dormiam não era macio, caíram no sono ainda distribuindo afeto à loira.

O dia amanheceu, a luz forte, agradável e dourada do sol adentrou a sala fria onde estavam dormindo. A alemã foi a primeira a acordar, estava com o celular no bolso, e o sentiu vibrando.

Lentamente se sentou com os sonolentos olhos apertados e os cabelos bagunçados, sentiu o ambiente gelado, pegou o telefone e viu que quem ligava era seu pai.

Atendeu.

— Pai? Bênção.

Sr Frederic dirigia seu carro enquanto falava no vivo a voz.

— Bom dia filha, Deus a abençoe.

— Aconteceu alguma coisa?

— Ontem foi o último dia do mês, esqueceu? Então, quer que eu a busque?

Rapunzel parou em silêncio, de repente se lembrou dos outros hóspedes, os viu em silêncio por alguns instantes. Era possível ver que eles não haviam dormido muito bem na noite passada, e na hora lhe bateu a lembrança de que fizeram aquilo por ela. Sua alma já não estava doendo tanto quanto antes. Sorriu de alegria e consideração.

— Rapunzel? – chamou o pai.

— Quer saber pai? Acho que vou ficar por mais um tempo.

O pai da loira sorriu.

— Está bem filha, Deus a abençoe.

— O senhor também – respondeu sorrindo.

Desligou o telefone, voltou a se deitar. Um tempo depois acordou os outros para os guiar até seus respectivos quartos.

Notas finais
Aos que leram a parte em questão, gostaria de me desculpar aos que se sentiram desconfortáveis. Eu queria mesclar o máximo possível este universo com o original e esse foi o único método que eu pensei, já que no original a Gothel também apenas usou a Rapunzel, e também achei legítimo abordar o tema. De qualquer maneira, agradeço a todos que leram o capítulo, espero que apesar deste detalhe, tenham gostado. Muito obrigado!