Queridos Amigos
2 Capitulo 2: Eu sou um Viking!
Notas iniciais
Haddock Strondus era escandinavo, mais especificamente da Noruega, descendentes dos famosos e hostis guerreiros do Norte, os vikings, e sua nobre família sabia disso.
Tinha cabelos lisos, castanhos e vivos, tal qual o tronco de uma bela árvore jovem, seus mágicos olhos verdes eram jovens e maduros, e era pequeno e magro como um homem doente, menor do que a maioria dos jovens de sua idade, tinha quinze anos.
Sempre que os Strondus realizavam alguma conquista, fosse grande ou pequena, digna ou indigna de louvores, sempre se chamavam de vikings, embora não louvassem a conduta de seus antepassados, mas o jovem Soluço era uma exceção.
Certa vez quando pequeno, Haddock começou a chorar, e foi chamado pelo irmão mais velho, o carismático Nolan, de “soluço”, por causa da forma infindável com que soluçava. Naturalmente, o caçula não gostou do apelido, mas quando sua amável e sábia mãe, Valka, se referiu a ele por esse nome enquanto o filho chorava e ela o consolava, o mesmo passou a gostar de ser apelidado assim, então se acostumou com todos o mencionarem desta maneira.
Caminhava pela calçada num fim de tarde pálido, carregava uma mochila verde quase vazia nas costas e lia um livro enquanto ia para casa, usava óculos limpos com armação preta sobre o rosto jovem, e seus olhos claros estavam serenos.
Ao chegar em casa viu uma cena já comum em sua jovem memória, seu irmão mais velho na frente da escadaria de madeira, colado com sua nova namorada, ambos sorridentes e de juvenis olhos brilhantes.
Soluço deu a volta pelo casal para entrar em casa.
—Oi Nolan – falou com seu sotaque escandinavo enquanto subia as escadas, sem sequer virar o rosto, ainda focado no livro, mas foi de forma já esperada ignorado pelo irmão.
Entrou pela porta, ao fecha-la foi recebido primeiramente por Banguela, seu gato Norueguês da Floresta preto, de pelo volumoso e macio, de olhos verdes e místicos. Roçava em sua perna com a calda erguida enquanto ronronava.
Soluço lhe deu esse nome porque quando o gato ficava de boca fechada, seu rosto já misterioso lhe fazia parecer que não tinha boca, e consequentemente, também parecia não ter dentes.
— Oi Soluço! – disse Valka, de cabelos castanhos, compridos e presos, passando pelo filho, beijando-lhe o rosto e acariciando os cabelos lisos, carregando uma lata dourada de cerveja em direção à sala.
— Oi mãe! – respondeu enquanto sorria para a mesma.
À direita da porta de entrada ficava a viril sala amadeirada do pai de Soluço, o imenso Stoico, cujas pernas estavam relaxadas sobre a mesa de centro e cujo rosto era coberto por um jornal. Sua esposa estava indo até ele, e sentou-se ao lado do marido, sobre o braço da grande poltrona.
— Oi pai – disse rápida e friamente, sem olhar para o mesmo, em tom de despedida, caminhando em direção as escadas em frente a porta o mais rápido possível.
Mas de repente, foi impedido por uma voz alta e intimidadora.
— Soluço!
O mais novo estremeceu ao ouvir a maldita voz assustadora de seu pai, odiava aquele tom. Tirou o livro da frente de seu rosto e caminhou de ré. Já havia começado a subir as escadas, agora se via forçado a desce-las.
Assim o fez, ficando de frente para o magno e ameaçador homem que o chamava, de longe. Seu livro estava abaixado e aberto na mão direita, tendo a página marcada pelo polegar, e o caçula olhava o pai com ar de desafio.
Uma preocupada e temerosa Valka olhava do filho ao marido com relutância.
O mais velho abaixou o jornal, revelando sua aparência intimidadora, seus cabelos e barbas longos e rubros, sua carranca em sua pele rosada, e seus olhos prateados e terríveis como o luar brilhante numa noite sem estrelas.
Soluço sentiu o coração pesar, e engoliu seco ao ver a face raivosa do pai.
— Onde estava? – perguntou autoritário.
— Fui à livraria – respondeu o mais novo, tentando não se envergar.
— O que foi fazer na livraria?
— Comprar livros?! – não conseguiu conter o sarcasmo ao responder.
Stoico suspirou alto, mantendo o olhar preso ao filho. Se levantou, deixando o jornal de lado e caminhando na direção do mais novo.
Haddock deu alguns passos para trás, fugindo da presença perigosa do pai.
Ficaram a poucos metros um longe do outro, o ruivo olhando o filho de cima.
De um lado a figura imponente do homem alto e forte, com mais de dois metros de altura e ombros largos com braços grossos, do outro, o garoto pequeno, magro, com braços finos e fazendo força para não baixar a cabeça nem curvar a coluna.
— Esses livros não vão te dar futuro Soluço!
— Ah, pai, dá um tempo! – o mais novo exaltou a voz – Já conversamos sobre isso!
— Sim! Mas eu quero conversar de novo! – gritou o mais velho com a voz grossa – Você realmente acha que ler essas coisas vai fazer você ser alguém na vida?!
— Se vai ou não é problema meu!
— Como pode dizer isso?!
— Por que não poderia?!
— Temos uma empresa! Por que não se dedica a ler algo que realmente vá agregar à empresa e acrescentar à sua vida?! Por que não faz que nem seu irmão?! – falou gesticulando com os dedos grossos em direção à porta.
— Não é o que eu quero! – Soluço também começou a gesticular.
— E daí?!
— Eu não vou desperdiçar a minha vida tentando agradá-lo!
— Como pode dizer que tentar me agradar é um desperdício?!
— Porque eu já tentei! – gritou Soluço, com lágrimas intrusas em seus olhos verdes.
Ao ver o filho começar a chorar, uma impaciente e meio raivosa Valka interveio.
— Certo, vamos nos acalmar! – disse a mulher alta, se colocando entre o filho pequeno e o marido grande, estendendo seus braços magros para os lados, o olhar maduro e passivo alternando entre ambos.
— Isso é tudo culpa sua Valka! – disse Stoico, decepcionado.
— Culpa minha?! Como pode dizer isso?! – respondeu ela raivosa pondo as mãos femininas na cintura fina.
— Foi você quem colocou na cabeça dele essa ideia de que ele não precisa ajudar na empresa, você até que dá pra aceitar, mas agora duas pessoas da minha família estando de fora dos nossos negócios?! Isso é um pesadelo!
— Pois devia ter pensado nisso antes de deixar ele sozinho comigo!
Quando ouviu os pais estressados começarem a discutir, Soluço subiu correndo as escadas de madeira, seu gato o seguiu.
Jogou o livro e a bolsa sobre a cama, sentou-se nela já choroso, puxando os cabelos e se encolhendo, e ouviu as vozes altas e estridentes de seus pais.
Seus pensamentos inteligentes estavam desordenados, olhava para o chão sujo, iluminado pela luz branca doentia e saturada de seu quarto que agora parecia pequeno, olhou as paredes escuras ao seu redor, e sentiu elas se aproximarem à medida que ouvia os gritos de seus pais extremistas.
Sentiu um suor incômodo descer por sua testa branca, embora estivesse frio em seu quarto, agora claustrofóbico.
De repente, não foi mais capaz de respirar, e não demorou a notar que o problema era sua casa, sua casa grande, luxuosa e imponente, mas cheia de problemas.
Seu corpo alterado e sofrido se moveu antes de sua mente afiada pensar. Foi até o guarda roupa e pegou algumas vestes de tamanho médio, cheias de ilustrações e de várias cores, foi até a estante antiga com alguns belos e grossos livros e colocou todos dentro de sua bolsa.
Agarrou o gato de pelo macio em seus braços magros e caminhou instável para fora do quarto carregando uma bolsa ridiculamente volumosa nas costas e abrindo a porta com violência.
Desceu as escadas de madeira enquanto os pais seguiam a gritar um com o outro, agora Nolan estava dentro da casa, olhando-os discutir, com um olhar assustado e amedrontado no rosto maduro.
— Soluço?! – questionou ao ver o irmão descer pela escada – Onde você vai?
O mais novo não respondeu, apenas passou pelo mesmo, em silêncio, segurando o gato. Abriu a porta e saiu pela mesma.
O casal parou de discutir quando ouviram o filho primogênito e o bater alto da porta de madeira.
Saíram apressados para fora, e viram Soluço caminhando depressa e de costas para eles pela calçada cinzenta.
— Soluço! Volte aqui! – gritou Stoico.
Mas o filho desobedeceu, seguiu caminhando, sem hesitar, nem olhar para trás.
— Soluço, por favor, volte aqui filho! – gritou Valka, com menos fúria.
— Se não voltar, não vai dormir aqui hoje à noite! – gritou o pai novamente.
A vizinhança inteira ouviu a ameaça do homem ruivo, mas o caçula apenas seguiu caminhando em silêncio, sequer virando a face.
Ninguém da família Strondus foi atrás de Soluço, para o gosto do mesmo.
Haddock caminhava instável enquanto os pais o olhavam se afastar, abraçava o gato em seu peito magro, com o rosto preto e os olhos verdes do felino voltados para frente. Seu rosto jovem estava raivoso, seus olhos úmidos e vermelhos por baixo das lentes de seus óculos, e seus dentes rangiam de fúria.
Ele se afastou da família até que não pudesse mais ser visto, não queria mais ficar perto das pessoas que o atormentavam.
Caminhou sem parar durante muito tempo, demorou para que o ritmo de suas pernas cansadas diminuísse. A noite escura e insossa da cidade grande já havia caído. Não ia dormir em casa, mas sabia onde ir.
Havia um homem velho, amigo antigo de seu pai e de sua família, também empresário, um homem muito gentil e divertido, Stoico lhe houvera dado de presente o casaco rubro de pelos escuros que sempre usa, e todo Natal, dava presentes para Soluço. Não morava em Filótes, mas em Moscou, contudo estava em Filótes a negócios, e Haddock sabia disso.
Soluço pegou vários ônibus, o que não tinha costume de fazer, precisou esconder Banguela em sua bolsa já cheia para entrar nos mesmos.
A noite foi se tornando mais densa, e as alaranjadas e saturadas luzes mortiças da cidade a iluminavam adentrando as janelas manchadas do ônibus de metal, passando repetidas vezes pelo rosto agora mais calmo de Soluço, que estava sentado no solitário banco do fundo escuro do ônibus, embora houvesse espaço para sentar em outros lugares, balançava aos solavancos do veículo.
Refletia sobre sua decisão, e mais ainda sobre as feridas abertas deixadas por sua conflituosa família. Estava exausto de tantos gritos, tanta pressão desnecessária e acumulada, queria chorar, mas estava entorpecido demais para isso. Decidiu então pegar seus fones de ouvido e começar a ouvir músicas.
Oh, pai, diga-me, nós recebemos o que merecemos?
Oh, Father tell me, do we get what we deserve?
Oh, nós temos o que merecemos
Whoa, we get what we deserve
E caminho abaixo nós vamos
And way down we go
Caminho abaixo nós vamos
Way down we go
Diga onde vamos
Say way down we go
Caminho abaixo nós vamos
Way down we go
Deixe seus pés correrem soltos
You let your feet run wild
Chegou a hora de todos irmos para baixo
Time has come as we all, oh, go down
Sim, em direção à queda, ooh, my
Yeah but for the fall, ooh, my
Você se atreve a olhá-lo bem nos olhos?
Do you dare to look him right in the eyes?
Sim
Yeah
Oh, porque eles vão te atropelar, até a escuridão
Oh, 'cause they will run you down, down 'til the dark
Sim e eles vão te levar para baixo, até você cair
Yes and they will run you down, down 'til you fall
E eles vão te derrubar, até você ir
And they will run you down, down 'til you go
Sim, até que você não possa mais rastejar
Yeah, so you can't crawl no more
E caminho abaixo nós vamos
And way down we go
Caminho abaixo nós vamos
Way down we go
Diga onde vamos
Say way down we go
Oh, porque eles vão te levar para baixo, até você cair
Oh, 'cause they will run you down, down 'til you fall
Caminho abaixo nós vamos
Way down we go
Oh baby, sim
Oh baby, yeah
Oh baby
Oh, baby
Baby
Baby
Caminho abaixo nós vamos
Way down we go
Sim
Yeah
E caminho abaixo nós vamos
And way down we go
Caminho abaixo nós vamos
Way down we go
Diga caminho abaixo nós vamos, ooh
Say way down we go, ooh
Caminho abaixo nós vamos
Way down we go
Depois de um bom tempo Soluço desceu no ponto de ônibus, e caminhou bastante até chegar em uma casa humilde e branca, sendo iluminado pelas luzes alaranjadas e saturadas dos postes de luz a frente dela. Estava cansado e com sono, já havia chegado a hora em que estaria dormindo.
Tocou a campainha repetidas vezes.
De dentro da casa, um homem idoso, vestindo um pijama branco foi acordado de seu digno sono devido ao som inconveniente.
— Tá bom! Tá bom! Já chega! Estou indo! – disse com seu sotaque russo.
Soluço só parou de tocar a campainha quando a porta branca foi bruscamente aberta pelo idoso alto, forte e barbudo.
O mais velho mexeu nos óculos sobre os olhos apertados de sono, tentando se adaptar às luzes desagradáveis da rua.
— Soluço?! O que está fazendo aqui? Já está tarde! – disse preocupado e franzindo o cenho.
O mais novo o olhou com o jovem rosto fechado e o olhar um tanto envergonhado enquanto segurava o gato debaixo da luz incômoda de fora.
— Posso entrar por favor?
Norte o acolheu. Foram para a cozinha, iluminados pela luz branca e agradável da mesma. O russo colocou um pouco de peixe numa tigela para o gato preto, e fez café para Soluço, que estava sentado num banco alto de metal diante do balcão, do outro lado do mesmo estava o mais velho, apagando a chama do fogão e se servindo da bebida cujo vapor quente subia.
Haddock contou tudo para ele, que ouviu atentamente.
— Caramba! – exclamou em seu sotaque russo – E agora? O que pretende fazer?
Soluço sabia que Norte era diferente de qualquer idoso ou adulto que conhecia, que não o recomendaria a voltar para casa enquanto seu lar lhe fizesse mal.
— Então, foi por isso que eu vim aqui! Eu queria saber se não teria como o senhor me deixar passar um tempo aqui...
— Eu adoraria abrigar você aqui Soluço, mas não posso.
— Por que não?
— Primeiro, porque essa casa não foi feita para acolher muitas pessoas, eu sequer tenho quarto de hóspedes, segundo porque eu não vou passar muito tempo aqui, dentro de alguns dias eu vou embora para Moscou, e terceiro, esse não é o tipo de casa que eu possa deixar você morando sozinho o tempo que quiser, é possível até que você seja denunciado por invasão a domicílio se alguém o vir aqui sem mais ninguém por perto, e você teria que enfrentar mais um problema desnecessário, além de ser forçado a voltar para sua casa.
— E agora? O que eu faço? – perguntou o mais novo raivoso e aflito.
O mais velho ficou em silêncio, suas mãos apoiadas sobre o balcão, a coluna velha e vasta curvada, seus brilhantes olhos azuis estavam voltados para o lado enquanto fungava longamente, pensando em uma solução.
Soluço jazia sentado e preocupado sobre o banco, olhando o idoso enquanto segurava a caneca branca de café quente com as duas mãos.
De repente, Norte arregalou os olhos claros e voltando-se para o mais novo falou: “Existe um lugar onde você pode ficar! Já tem alguém que vai ficar ali por um tempo, mas têm muitos quartos e essa pessoa não vai te incomodar, não tanto quanto seus pais pelo menos!”.
— Sério?! Onde é? Onde fica? Eu vou pra lá agora! – disse alegre enquanto veias pequenas, vermelhas e agonizantes consumiam o branco de seus olhos verdes.
— Não! É melhor deixar para amanhã, já está tarde, você está cansado, e já que só quer ficar longe de seus pais, não precisa ter pressa. Durma no sofá da minha sala, vou pegar uma coberta para você, se amanhã de manhã ainda estiver interessado nisso, eu pago alguém para leva-lo.
— Tá bem! Ótimo! Obrigado! – respondeu o escandinavo sorrindo e balançando a cabeça.
— Este café não tem cafeína, quando terminar, apague a luz e vá dormir, vou pegar a coberta.
A sala ficava bem ao lado da cozinha, haviam dois sofás verdes, uma poltrona vermelha, uma mesinha de vidro no centro e uma televisão antiga diante das belas e escuras cortinas fechadas.
Norte saiu, buscou um cobertor grosso e o jogou sobre o sofá à direita da sala, depois se retirou dando boa noite a Soluço enquanto bocejava e esticava os braços, cansado.
— Boa noite Sr. Norte!
Haddock terminou aos poucos de tomar o café, e terminou com um sorriso no rosto.
Do lado de fora, nuvens sombrias se formavam, e raios tenebrosos começavam a brilhar e gritar no céu.
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