Chegando ao aeroporto, eu simplesmente liguei o piloto automático, não queria de forma alguma encontrar Naruto. Mas, era aquelas, a vida não colaborava muito com o meu desejo. Foi assim, com um bico enorme, enquanto Hanabi mexia no celular indiferente ao que acontecia ao redor, que eu o avistei, Naruto vinha andando com uma mala de rodinhas e uma expressão impassível. Karin logo atrás, ostentava um sorriso radiante no rosto, ela parecia brilhar, e nesse instante eu abstraí meus problemas com o irmão dela, decidindo dar total atenção a minha amiga que eu não via há tempos. Dei um cutucão em Hanabi, para ela acordar pra vida, em seguida fui em direção a eles, com o coração um bocado desesperado. Eu nunca sabia o que esperar de Naruto, uma lagartixa? Uma barata? Ele jogaria farinha em mim? Qual tipo de comportamento eu deveria esperar de um garoto que sempre me odiou? Era um mistério, no entanto, eu precisava deixar de lado nossa richa. Afinal, já não éramos mais crianças. Portanto, foquei na garota que rapidamente me alcançou.

— Hina! — gritou, se jogando nos meus braços. — Que saudades.

— Também senti saudades, Ká. — devolvi, retribuindo o abraço.

Pelo canto dos olhos, consegui observar Hanabi cumprimentando casualmente Naruto, eles não eram melhores amigos, mas se respeitavam. Diferentemente de mim, que devia ser uma ameba aos olhos dele. Não havia outro motivo para Naruto me tratar tão mal ao longo de todos esses anos.

Nos afastamos aos poucos e ousei espiá-lo de relance, para sondá-lo. Foi quando a primeira coisa impressionante aconteceu, Naruto estendeu a mão para mim. Insegura, a apertei sem esboçar reação alguma. Suas ações eram uma incógnita, eu preferia observar antes de agir para não me decepcionar ou passar raiva.

— Tudo bem, Hinata? — questionou, mantendo os olhos azuis no meu rosto.

— Tu-tudo — gaguejei. Ódio, por quê eu tinha que gaguejar nessas horas? Limpei a garganta antes de continuar —, quero dizer, tudo ótimo e você?

— Estou bem — e sua voz soou meio rouca, meio falhada. — Eu queria falar com você, Hinata. Será que a gente pode ir tomar um café antes de ir pra casa da sua mãe? — completou e eu fiquei em choque, minha língua enrolou, ao passo que Naruto continuava me encarando com um olhar questionador.

Enquanto eu permanecia no meu silêncio incômodo, Karin pegou Hanabi pelo braço, empurrando a mala com a outra mão livre.

— Eu e a Nabi levamos as malas, você tá com dinheiro? — Karin perguntou, dando-me tempo de raciocinar, eu nem tinha dado uma resposta!

— Espera, você não está cansado, Naruto? — resolvi indagar, procurando uma saída.

Eu e Naruto juntos e sozinhos? Ia dar merda, sem dúvidas.

— Vai ser rápido, sério — insistiu e eu me vi sem escapatória.

Temerosa, resolvi concordar com a cabeça, já que minha voz não saia.

— Até daqui a pouco, nos vemos em casa. — Karin jogou sarcasticamente. Ela sabia mais do que ninguém da minha, como podemos dizer de forma eufemizada? Falta de tato com Naruto, na escassez de uma expressão que descreva melhor a nossa relação.

Instintivamente assenti, observando-as afastarem-se de mim, enquanto Naruto tomava seu lugar ao meu lado. Rapidamente me afastei, ainda sem saber como proceder na presença dele e aceitei meu destino. Eu jamais me livraria de Naruto, nem nessa vida nem na próxima. Ele era meu carma.

— Você deve estar odiando me ver aqui, né? — alguns segundos depois sua voz soou próxima de mim.

Estremeci com o ruído, aquele som rouco era ao mesmo tempo insuportável e instigante. Eu não podia negar que ele estava bonito, sua voz mais encorpada, menos irritante. Ainda assim, eu não me importava. Ele continuava sendo o Naruto de sempre, o mesmo idiota de anos atrás, nada mudou.

— É, estou sim — fui curta e grossa —, não tenho motivo algum para ficar feliz com sua chegada.

O tom que usei era frio e cortante, porque Naruto merecia.

— Doeu — retrucou, colocando a mão no coração —, mas compreendo sua atitude. É sobre isso que eu quero falar.

A essa altura do campeonato já estávamos próximos à uma cafeteria agradável e cara do aeroporto. Não seria necessário ir a um lugar mais longe, o quanto antes acabássemos com aquilo melhor.

— Podemos ir direto ao ponto? Tenho coisas a fazer e minha obrigação era somente te buscar no aeroporto. Ou seja, meu período de babá já passou. — cuspi, olhando minhas unhas recém pintadas de preto, com desdém.

— Uau, você está bem mais autoconfiante, Hinata. — não entendi se foi um elogio, ou um comentário sarcástico. — Admiro isso, você cresceu e tá na cara que não vai mais aceitar minhas escrotisses. Mas não é por isso que quero pedir desculpas.

— Desculpas? — minha garganta fechou, essa era nova. Qual seria o joguinho da vez? — Está tentando me zoar de alguma forma que ainda não conheço? — e foi nesse momento que uma coisa extraordinária aconteceu.

Naruto, totalmente desprovido de arrogância e soberba, tocou meu pulso gentilmente. Quase não senti. Olhei para a região com um claro sinal de interrogação na testa, e não esperei um milésimo para ordenar incisiva:

— Não encosta em mim.

Seus olhos nos meus demonstravam uma agonia desconcertante, no entanto, me mantive firme em minha resolução de jamais deixá-lo me pisar novamente.

— Hinata, por favor, estou sendo sincero. — e sua voz soou tão firme, seus olhos tão verdadeiros, que quase titubeei. — Eu quero me redimir, mas não vou forçá-la a acreditar em mim. Vou conquistar sua confiança aos pouquinhos, começando pelo café. — completou, pedindo um macchiato do jeitinho que eu gostava.

— Talvez se me pagar um pão de queijo eu possa até aceitar o café. — devolvi, sentindo minha barriga roncar.

Qual é, comida sempre me comprava. Ele sabia disso, muitas vezes me enrolou por causa de chocolate. Era meu ponto fraco. Espera aí, ele estava querendo me enganar de novo? Eu precisava pensar além dele, um passo à frente, do contrário sempre seria feita de trouxa por aquele garoto.

— Sei o que está pensando, qual meu jogo, não é? — não esperou que eu respondesse. — Não tem nada rolando, só queria demonstrar que eu mudei, e quero conquistar sua confiança... — fez uma pausa, pagando o café. — E, quem sabe, sua amizade.

Se eu estivesse tomando algo na certa teria cuspido tudo, aquilo era totalmente novo e atípico. Eu não sabia lidar com aquele Naruto.

— Tá, me dá meu café e meu pão de queijo logo. Eu tô com fome e você está ocupando meu tempo. — bati no relógio de pulso, demonstrando meu descontentamento.

Contudo, por dentro eu estava vibrando, será que de fato Naruto queria mudar a situação entre nós?