Querido diário...

1 Com desespero, Belvina Black


Hogwarts, 30 de Maio, 1904.

Querido diário,

Eu sei, eu sei… fazem anos desde a última vez que escrevi. Mas, sendo sincera, não imaginei que um dia iria necessitar tanto dessas páginas em branco como agora. Passei horas deambulando pelos corredores do castelo, em busca de algo que me ajudasse a aliviar essa frustração que tenho acumulado nos últimos dias. Foi então que me lembrei de você, o meu querido diário, que me acompanha desde pequena, o meu estimado confidente silencioso.

Penso que nunca mencionei com tanto fervor o quanto a vida de uma estudante de Hogwarts é difícil. Especialmente quando se está quase terminando o sétimo ano. Só que a maior dificuldade não está na quantidade exorbitante de trabalhos extra que os professores passam, nem nas horas que ficamos presos numa biblioteca mofada, tentando ler páginas e páginas de letras miúdas. Chega um certo ponto em que já não conseguimos ler nada coerente, uma vez que os olhos ardem pelo esforço e, sobretudo, de pura exaustão. Creio que quatro horas foi o máximo que consegui dormir por noite nos últimos meses.

Mesmo assim, ao longo dos sete anos que habitei esse castelo, nenhum dos pontos acima mencionados foram a causa dessa exaustão e angústia na qual me encontro mergulhada nesse preciso momento. Portanto, irei agora revelar qual foi a parte mais difícil de todas:

Ser filha do diretor de Hogwarts.

Não quero parecer ingrata ou cruel. Sabe, eu sempre amei muito o senhor meu pai. Phineas Nigellus Black, como patriarca de umas das famílias sangue-puro mais antigas da Grã-Bretanha, sempre comandou a nossa casa com firmeza e rigor. E, desde muito cedo, ele nos ensinou que cada um de nós tem o dever de honrar os nossos antepassados e o bom nome da família. Os seus padrões são exigentes, mas é por um bem maior.

Os meus irmãos, como homens, são naturalmente alvos de maior escrutínio por parte do papai e restante sociedade bruxa. Afinal, cai sobre eles representar e passar adiante o nome da família. Cabe a eles serem alunos exemplares e se destacarem entre os membros das outras casas nobres. Serão eles que terão de ser grandes inventores e políticos. Já nós, as mulheres, somos as ligações diplomáticas que unem os sagrados vinte e oito entre si. Seremos nós as responsáveis por criar a geração seguinte. E eu sempre estive bem conformada com o meu dever.

Como única filha, fui a mais acarinhada da família. Tanto o papai quanto a mamãe sempre me trataram como uma princesa de porcelana. E eu nunca desgostei da atenção. Os meus vestidos eram os mais bonitos; os brinquedos eram encomendados aos melhores fabricantes; tinha quantidades exageradas de laços e enfeites para o cabelo; e tantas joias que não cabiam nas gavetas da cômoda do meu quarto. Tudo o que eu desejava acabava por receber, seja livros ou ingredientes raros para poções. A mamãe sempre adorou me enfeitar como uma boneca e o papai sempre elogiava o quão bonita eu era.

Mesmo sendo um homem deveras ocupado, o papai conseguia arranjar um tempinho para mim entre os seus afazeres. Com paciência, ele me ensinava os movimentos de feitiços complicados demais para a minha idade e até me deixava auxiliar no preparo de poções complexas. Ainda assim, as minhas memórias preferidas de infância são aquelas em que o papai, sentado na sua poltrona em frente da lareira, me ouvia tocar piano com um raro sorriso de aprovação no rosto severo.

Um dos meus maiores desgostos foi quando ele se tornou professor em Hogwarts. Phineas Black passou a ser um fantasma, uma aparição que regressava a casa após meses de afastamento. Depois seguiram os meus irmãos mais velhos, desaparecendo um a um. Pelo menos, os meses de verão ainda possuíam alguma normalidade, com a família toda reunida na casa ancestral em Grimmauld.

Obviamente que isso mudou também, quando o papai foi eleito diretor de Hogwarts e a sua atenção passou a ser nula. Foram extintas as lições de magia. O laboratório particular foi abandonado e só a mamãe sorria ao escutar o meu progresso nas lições de piano. A cada dia que passava eu sentia mais saudades da antiga normalidade.

Ainda me recordo de um momento em específico. Eu devia ter cerca de nove anos e, todos os dias no café da manhã, eu questionava a mamãe sobre quando é que o papai regressaria a casa. Ela respondia sempre que ele estava deveras ocupado em “garantir a qualidade da sua futura educação”. Claro que eu nunca aceitava essa resposta. Afinal, o quão ocupado um diretor de escola poderia ser?

Entretanto, sete anos sob o escrutínio de Phineas Black logo mudaram toda a minha perspectiva.

Começou logo no primeiro ano, na cerimônia de seleção. Quase saltitei de felicidade até à mesa da sonserina, onde fui recebida pelos meus irmãos mais velhos e outros conhecidos. Olhei brevemente para o fundo do salão e suspirei em alívio quando vi o papai assentir em aprovação. Achei estranho quando, no final do jantar, um dos professores veio ao meu encontro e falou que eu deveria me dirigir ao gabinete do diretor, me entregando um pedaço de pergaminho com a palavra que deveria me dar acesso ao gabinete. Embora tenha desconfiado, caminhei de encontro à sala do diretor, seguindo as indicações do monitor-chefe da minha casa.

O papai já estava sentado atrás da grande mesa esculpida, rodeado de papeis, livros e outros objetos. Os antigos diretores e diretoras de Hogwarts olhavam com interesse, se mantendo em silêncio. O papai terminou de escrever algo antes de pousar a pena e me olhar fixamente.

Fico satisfeito com a escolha do chapéu, embora não seja surpreendente. Afinal, nenhum Black jamais foi selecionado para outra casa senão a sonserina. Agora, é o meu dever garantir que esses anos a tornem uma jovem instruída e polida. Portanto, não espero nada menos do que resultados excelentes em todas as matérias, bem como um comportamento exemplar. E não se esqueça de que as conexões que são construídas dentro dessa escola serão importantes no futuro. A família Black deverá ser sempre sinônimo de excelência. Entendeu tudo o que eu disse, Belvina?”

Confesso que aquele discurso me intimidou na época. Apesar disso, não houve motivo para voltar a ser chamada ao gabinete do diretor. O meu primeiro ano correu maravilhosamente. Graças às lições do papai, quase metade dos assuntos lecionados eu já sabia, o que resultou nas melhores notas em todas as matérias. O segundo ano decorreu do mesmo modo, e até um “Bom trabalho” ganhei do meu pai. O terceiro ano foi um pouco mais desafiante mas, ainda assim, não obtive nada abaixo de “Excede Expectativas”.

No verão seguinte, a mamãe me chamou para uma conversa particular e me apresentou cinco retratos de candidatos ao título de meu noivo. Todos eles aprovados pelo papai, claro. Não foi um acontecimento surpreendente. O casamento era um futuro tão certo quanto a morte. Depois de infinitas horas de deliberação, o escolhido foi Herbert Burke, o mais bem parecido entre os pretendentes. Antes de regressar a Hogwarts para o quarto ano, num jantar entre as duas famílias, foi oficializado o noivado.

Os anos seguintes provaram ser os mais desafiantes. Durante as primeiras semanas do quarto ano, não demorei a notar que estava sendo observada. Fiquei deveras confusa quando comecei a reparar num pequeno par de olhos ao virar de cada esquina. E foi então que soube que a minha nova sombra era uma elfa chamada Nini. Após um firme questionamento, a criatura deixou escapar entre lágrimas que havia sido o Sr. Black quem havia lhe passado instruções específicas, e que deveria manter sempre os olhos na Srta. Black. Eu mal consegui acreditar no que estava escutando: o meu pai tinha colocado um elfo doméstico a me espiar.

Nini passou a me acompanhar para todos os lugares. Assim que eu saía da sala de aula ela me seguia nos corredores; se eu me aproximasse demasiado de alguma figura masculina ela estalava os seus dedinhos e eu deslizava alguns metros de distância. Se eu comesse demasiado à refeição, ela me olhava em reprovação e soltava um “O Sr. Black não quer que a menina ganhe muito peso. Não deve espantar o Sr. Burke”. Eu fiquei simplesmente sem palavras. Phineas Nigellus Black sabia de tudo o que acontecia dentro do castelo. Especialmente quando o assunto era a vida dos filhos. Privacidade? Esse passou a ser um conceito inexistente.

O culminar da minha frustração ocorreu no quinto ano, o que resultou num terrível “Aceitável” em Herbologia. Nem tenho coragem de escrever o que o senhor meu pai me disse naquele dia. Até tremo só de pensar. A única conclusão a que cheguei foi de que a vigilância de Nini iria continuar até eu chegar ao altar. Tenho um pouco de vergonha em admitir que, desde então, desejei que o tempo passasse o mais depressa possível.

E agora o momento chegou. Eu sei que terei excelentes resultados nos NIEMs, estudei muito para isso. Embora saiba que não terei onde aplicar todo esse conhecimento, me sinto satisfeita de ter dado o meu melhor. Não estou ansiosa para saber os resultados, não tenho nenhuma futura profissão que dependa deles.

O motivo da minha ansiedade é outro. Nunca cogitei que fosse pensar desse modo, mas nesses últimos anos tenho sentido um constante sufoco, uma corda envolta do pescoço com o nome do meu pai. Se algum resquício de receio existia perante o matrimônio, ele já se esvaiu. Sei que muitas moças da minha idade receiam que o casamento seja uma prisão, mas eu vejo o meu como um tipo de salvação.

Afinal, Herbert é de uma boa família puro-sangue. Temos quase a mesma idade e confesso que o acho bastante atraente. Portanto, que tenho eu de recear? Assim que me casar passarei a ser uma senhora, a governante da minha própria família, a regente das regras e, espero que logo, terei os meus próprios filhos para comandar. Tal é a minha impaciência que, antes de ter pegado em você, meu querido diário, enviei uma carta à mamãe. Nela expus a minha ansiedade em casar, e pedi que ela considerasse mudar a data do casamento, que ocorreria no começo do ano que vem. Em vez disso, praticamente implorei para que o evento aconteça antes do verão terminar. Espero que a resposta seja positiva, pois preciso fugir do olhar pungente de Phineas Black.

Só de pensar que existiu uma época em que eu reclamei das suas ausências prolongadas, eu agora me arrependo profundamente. Pois ser filha do diretor de Hogwarts é horrível, um mal que eu não desejo nem ao meu pior inimigo.

Merlin, eu espero que a mamãe consiga mudar a data do casamento…

Com desespero,

Belvina Black.

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