Querido Universo
1 Terminar ou não terminar eis a questão.
Notas iniciais
O atraso era, sem dúvida, um órgão do meu corpo. Por mais que eu tentasse, porque eu juro que tento, eu nunca, em nenhuma ocasião, consigo chegar na hora marcada.
Eu tento, tento ser pontual, tento não dar mancada, tento até convencer aos meus amigos que foi “sem querer” e realmente foi sem querer! Mas, dessa vez, não preciso de uma desculpa por me atrasar.
Por que não preciso me preocupar com isso? Porque estou tão nervosa tentando me concentrar em não partir o coração do meu querido futuro ex-namorado.
Não existe nenhum motivo para não querer mais um “nós”. Ele é perfeito, tão perfeito que qualquer garota daria tudo para ficar com ele. Mas então, eu, como uma louca retardada, decidi que não estamos dando certo.
É como se o encanto estivesse acabado e puff... O príncipe não é mais tããão encantado.
Okay, não tem nada de ruim nele, ele continua sendo uma das pessoas mais importantes da minha vidase... Mas acabou, nós não estamos mais na mesma sintonia…
— Você vai o quê? — grita Lili eufórica. – Você quis dizer terminar no sentido “Estou indecisa e não sei o que quero com a minha vida, então, vamos dar um tempo e ver no que vai dar”?
— Não, Lili, é no sentido de “Eu não quero mais você, se toca!” E, sinceramente, a Luna está certa. Por que você simplesmente não dá um fora nele? – perguntou Paty.
Lá estávamos nós no DocMing comendo nosso lanche e pensando em uma maneira de não magoar meu namorado. Até agora? Sem sucesso.
O DocMing era a única lanchonete que valia a pena comprar. Não que a comida fosse boa, porque não era. Os lanches da DocMing eram horríveis, as batatas fritas eram murchas e as vezes, duras, O hambúrguer era até que razoável, mas ninguém era corajoso o suficiente pra comer mais de uma vez. E por fim, a única coisa comestível que existia ali naquela lanchonete era apenas o Milk-shake, os melhores de toda região.
A Paty é minha amiga desde... Bem, desde sempre. Quando éramos menores, ela me salvou de um monstro que tava quase prestes a me atacar com aquelas suas asas nojentas, e então, como uma super-heroína, ela tirou a barata de perto de mim e perguntou meu nome. Desde então, até hoje continua me me salvando.
Eu nunca entendi por que a Paty não se dá bem com Arthur, o que é muito estranho, porque ela se dá bem com todo mundo, menos com ele. E ela nunca perde uma oportunidade de dizer que ele não é “bom o suficiente”.
— Paty, escuta – digo – Eu não posso fazer isso, tá legal? Ele é muito bom pra mim, não posso machucá-lo. Para de ser chata, não entendo por que você é assim com ele.
— Não sou obrigada a gostar dele.– disse ela com nariz empinado.
— O que eu digo? Que não gosto mais dele? Como vou fazer isso olhando pra ele? Vocês já viram como ele me olha? Não consigo fazer isso, Lili, me ajuda!
— Eu não sei, Luna, não sei nem por que quer terminar, ele é tão bom pra você.
— Eu sei e é justamente por isso que não quero magoar ele! Eu só... Não sei, não sinto mais nada. Acabou.
E, então, como um passe de mágicas ou um show de horrores, como preferir chamar, ele entrou na maldita lanchonete com seus amigos. Arthur era lindo. Na verdade, ele era muito mais que lindo, sem nenhum exagero, ele era perfeito. Seu cabelo tinha um tom de castanho escuro e seus olhos? Eram como mel bem clarinho. Ele tinha sardas na base entre a bochecha e o nariz, bem poucas, mas tinha, e também tinha covinhas, quando sorria apareciam. Eu achava tão lindo esse conjunto, que, as vezes, me pegava pensando em quanta sorte eu tenho por ter esse garoto na minha vida.
Eu fiquei o observando conversando destemidamente com seus amigos. Seu cabelo estava arrepiado, mas não porque ele andou de moto ou porque andou em algum meio de transporte radical, nada disso, Arthur, tinha pavor de velocidade. O cabelo era assim, porque, na verdade, era ele mesmo que bagunçava e nem percebia.
Arthur era tão lindo, que, às vezes, me dava vontade de lamber a cara dele. Então qual era o meu problema? Porque eu não o queria mais?
Como se sentisse meu olhar o observando, ele olhou pra mim, e foi um olhar tão quente, tinha ternura, paixão. Arthur tinha esse dom, ele mostrava pra você tudo o que sentia com apenas um olhar, e talvez esse fosse um dos motivos por não conseguir terminar com tudo isso. Tenho medo do que vou ver nos olhos dele, porque, querendo ou não, eu o amo.
E então, ele veio em minha direção e, sem dúvida, eu estava tremendo dos pés à cabeça, e qualquer um veria isso.
Droga!
Ele sentou ao meu lado com seu incrível sorriso e me beijou. E era incrível ser beijada por ele. Ele era tão… Doce, me fazia me sentir tão... Especial.
— Oi anjo, jurei que você ia sair mais cedo hoje… Cê ta bem? – ele perguntou e minha voz automaticamente sumiu, não consegui responder. Então, só balanço a cabeça e fico perdida naqueles olhos cor de mel. E, então, como se só agora percebesse que não estamos sozinhos, se voltou para as meninas e sorriu. – Oi, Lili, Paty.
Lili acenou com a mão sorridente. Lili não conseguia lidar com o efeito que o Arthur causava nela. Sempre que eles se falavam ela corava. Ao contrário de Paty, que o odiava com todo o coração.
— Vai fazer o que hoje? Porque eu estava pensando da gente, sei lá, sair? Não sei, talvez um cinema? não, não, quem sabe… – Olhei desesperadamente para Lili com uma cara de “Help me”, enquanto Arthur fazia planos pra hoje a noite, mas ela era tããão devagar que duvido muito que tenha entendido.
Olhei para ele, meu amor, meu namorado perfeito tentando achar uma coisa legal pra me deixar feliz, e eu aqui, procurando um jeito de dizer gentilmente que não damos mais certo.
Talvez se eu falasse agora, seria mais fácil, pra mim e pra ele… Não é? Porque, certeza que ele nao me ama tanto assim. Quer dizer, olha pra ele! Ele era a perfeição em pessoa, certeza que ele nem ligaria!
É o certo a se fazer, pelo menos é o que eu tô tentando me convencer… Não! É claro que é o certo! Errado mesmo seria eu continuar com ele, mesmo não sentindo mais o mesmo do início. E eu ia falar isso agora, porque não é justo prendê-lo a mim desse jeito!
— Meu deus, eu tô me atrapalhando todo! – disse ele bagunçando ainda mais seu cabelo e sorrindo, o que fazia suas covinhas aparecerem. – O que eu queria dizer é que, talvez, se você não for fazer nada, sou todo seu hoje…
— Eu não… É que eu… Eu... – gaguejei enquanto olhava para aquele rostinho lindo me encarando com os olhos cheio de ansiedade. Como diabos eu diria não para ele? Como eu ia dizer que não tem mais “nós”? Cadê a bendita coragem que eu tinha a vinte segundos atrás de terminar tudo?
— O que ela quis dizer é que… Não vai dar...– disse Paty, que diferente da Lili, entendeu meu olhar de desespero, me socorrendo.
Gloriaaaa!
— E por que não? – perguntou Arthur confuso olhando para mim e ignorando completamente Paty.
— Érr… porque eu não posso...?– digo mais como uma pergunta do que como uma arfimação .
— Achei que você não ia fazer nada hoje. – fala ele ainda me olhando. Aaah droga! Eu simplesmente não sabia reagir quando ele me olhava daquele jeito tãão… Drogaaa! Eu não conseguia nem falar!
O quê? Não me julgue! Se estivesse no meu lugar, certeza que reagiria do mesmo jeito que eu!
— É, eu realmente não ia sair, mas se você quer, então… Bom, seria bom…
O que eu tava dizendo? Ia ser totalmente trágico!
— Booom, já que ta tudo na paz, por aqui… Eu e Paty já estamos indo.– disse Lili evitando uma briga entre Arthur e Paty e aproveitando pra fugir e me abandonar ali, complementamente ferrada, tendo que enfrentar meu namorado. É, obrigada, amiga. Muito obrigada meeesmo!
— Mas vocês já vão? Fica mais um pouquinho… – digo olhando para Paty
e Lili sorrindo desesperadamente.
— Acontece que eu não aguento mais dividir o mesmo ar que certas pessoas. Boa sorte com esse ai, Luna.– disse Paty usando o tom de “Arthur,você é um idiota, eu te odeio”, pegando o copo de Milk-Shake e se levantando. – Você vem, Lili?
Lili completamente perdida com todos seus pensamentos sem entender nadinha do que tava acontecendo ali, seguiu Paty até a porta barulhenta de vidro do DocMing.
Okay, agora era só eu e o Arthur. Eu consigo falar pra ele que não damos mais certo e que podemos ser melhores amigos como antes do namoro namoro e que foi um erro confundir o que rolava entre a gente, mas que eu ainda o amo e gostaria muito que continuássemos amigos. Claro que consigo! Eu consigo! Eu consi...
Eu não consigo! O que eu estava pensando?? Eu não consigo olhar pra ele e dizer “Desculpe, Arthur, mas não dá mais, não se preocupa, o problema não é com você, é comigo!”
— Lu, olha essa batata, parece uma daquelas borrachas duras. Sem brincadeira.– Ele diz jogando a batata dura em mim. Ri desesperadamente, parte pela piada e parte pela minha coragem que acho que nem existia mais.
Peguei a batata dura e joguei nele. A batata bateu bem no meio da sua testa, ele fez uma careta dramática alisando o local como se estivesse caído um tijolo.
— Por que comprou essa batata? Não é como se fosse comer essa coisa! – Ele perguntou analisando a batata.
— Mas ela tá boa!
— Essa coisa? É como comer uma pedra, só que oleosa!
— Arthur, para de zoar minha batata! Ela tá boa!
Ele largou a batata e me olhou preocupado, o que fez com que ele ficasse ainda mais lindo. Ai deus do céu estrelado! Por que ele tinha que ser tão lindo?
— Lu, você tá mesmo comendo isso? Não tá brincando?
— Claro que não.
— Claro tá brincando ou claro tá comendo?
— Arthur, deixa minha batata em paz! Deixa eu comer vai, devolve!
— Você tá maluca? Você vai ficar doente.
— O que cê tá fazendo? Ei, a batata é minha! – digo tentando pegar a batata novamente, mas ele me ignorou. Levando a batata ao garçom. O pobre garçom, confuso, sem saber se devolvia a batata ou pegava e saía.
— O que faço com isso? – Perguntou o garçom confuso.
— Não importa, joga no lixo, no mar, queima. Tanto faz, só mantém isso longe dela, ok? – Diz Arthur.
— Arthur! Mas é a minha batata, me dá! Você não pode jogar minhas batatas fora.
— Não pode comer isso Luna. Essa coisa tem que estar longe de você, você come qualquer coisa, controla esse buraco negro, isso aqui vai te fazer mal!
— Mas era meu, Arthur, e era gostoso!
— E fatal. – ele comentou, fazendo uma dramática careta.
Okay, ele estava certo, qualquer coisa feita nessa lanchonete pode causar um dano muito grande. mas não mudava a minha fome e minha raiva.
– E se mais tarde eu passar na sua casa pra gente fazer brigadeiro? O que você acha? – ele sugere percebendo minha irritação.
Caso não saiba, caro leitor, eu sou loucamente, apaixonadamente, completamente, desesperada por comida. Eu amo comida, comida é vida! Ninguém nunca entendeu minha relação com comida. Eu nunca divido comida. Tipo, nunca! E Arthur nunca entendeu isso, eu não divido minha comida nem mesmo com ele, por uma única e verdadeira razão: É MINHA comida!
A Lili e a Paty dizem que uma garota delicada, gentil e educada não nega comida para outras pessoas, mas elas não me entendem, elas não passaram a vida toda sendo assaltada pelo tio mais novo, eu sempre tive pena de comer meus chocolates por completo e acabava guardando pro caso de uma emergência, quando eu procurava eles nunca estavam lá. Hoje, quando tentam pegar minha comida, eu sou capaz de rosnar feito cachorro e até morder. Qualquer coisa que envolvia comida eu tava dentro...
Aceitar a proposta de Arthur poderia ser uma boa ideia, eu poderia me preparar pra falar com ele e podia comer chocolate se as coisas dessem errado.
Sorri para ele e o abracei. Ele aceitaria isso, voltaríamos a ser como era antes do namoro. Tudo seria normal.
E eu não poderia estar mais errada.
Nada voltaria ao normal.
Mas eu tinha esperança.
Ai, ai, como eu me iludo.
Fale com o autor