Querido Papai
5 Capítulo 5 - Famílias
Notas iniciais
- Rin? Rin? Senhorita Taishou? Rin! – Levantei apressadamente da carteira, com um pulo. O professor havia praticamente gritado. Ele me encarou por trás dos óculos, com um olhar de repreensão. – Questão sete.
- Er... – Abaixei os olhos para meu caderno, em branco. Meu olhar dirigiu-se desesperadamente para Miroku, que sentava-se ao meu lado. Ele sorriu e murmurou-me um ‘27’.
- Vinte e sete! – Disse, ávida. Todos me olharam incrédulos, inclusive o professor.
- Então você classificaria o tempo verbal desta oração como ‘vinte e sete’? Muito interessante, senhorita Taishou. Sua lógica me surpreende! – O riso da classe foi generalizado. Sentei-me, sentindo meu rosto corar de vergonha. Irei acabar com a raça do meu melhor amigo.
E quando a aula terminou e o sinal do recreio foi dado, coloquei meu plano em ação. Peguei meu lanche rapidamente e saí em passos ligeiros, até chegar ao pátio. Eu e Miroku sempre lanchávamos juntos, era lógico que ele me seguiria. Esperei pacientemente que ele sentasse ao meu lado, distraído o suficiente para que não esperasse meu ataque.
- Rin, hoje a aula foi épica e – Não dei-lhe chance de continuar. Pulei sobre ele, com as mãos em volta daquele pescoço idiota. Ele começou se debater embaixo de mim, enquanto eu o comprimia.
- Vinte e sete? Vinte e sete?! Aposto que na próxima aula, o professor só vai prestar atenção em mim! – Ele não sabia se ria ou tossia.
- Eu... consigo... ver... sua... calcinha. – Disse. Corei imediatamente. Estava tão focada em acabar com ele, que não percebi que minha saia subira um pouco. Saí de cima dele, ajeitando-me. A sorte era que ainda havia poucas pessoas no pátio, e elas estavam distantes de nós.
- Você me paga, sério. Nunca mais te empresto meu dever de casa! – Ele parou de rir e arregalou os olhos.
- Não, não! Isso não, por favor! Eu troco de lanche com você por uma semana! – Nos encaramos. De fato, o lanche que Miroku trazia era sempre delicioso, pois a mãe dele era uma cozinheira de talento. Fiquei com água na boca e tentada a perdoá-lo.
- Um mês. – Mas tinha que provocá-lo um pouco. Ele fez uma cara descontente, mas concordou, me entregando seu embrulho. – Ótimo. – Entreguei-lhe o meu.
- Sabe, Rin... – Ele iniciou, quando começamos a comer. – Calcinhas verdes com estampas de frutas não combinam com você. – Quase engasguei, sentindo meu rosto corar.
- E quem é você para dar palpites nas cores das minhas calcinhas? – Ele riu, inflando o peito.
- Sou simplesmente o melhor conhecedor de calcinhas desta escola, talvez desta cidade! – Senti vontade de espancá-lo mais uma vez. – Deveria tentar usar algo mais sexy, como uma preta de renda, ia destacar a cor da sua pele branquinha e-
- Se você gosta tanto de calcinhas, use você mesmo! – Ele riu.
- A graça não está apenas nas calcinhas, está nas mulheres que as usam. – Dei-lhe um soco no braço.
- Pervertido, se meu pai escuta você falando essas coisas, ele parte seu crânio ao meio. – Ele comprimiu os olhos por alguns segundos. Deve ter se lembrado do olhar de gelo do meu pai.
- P-Pode até partir, mas todo homem gosta disso! Seu pai é um solteirão, mas não deve ser exceção. – Me distraí momentaneamente, pensando no que Miroku havia dito. Será que papai também tinha preferências de calcinhas?
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Por mais imbecil que possa parecer, aquela questão das calcinhas assolou minha mente o resto do dia. Agora, neste belo e ensolarado fim de tarde, cá estou eu, com todas as minhas calcinhas estendidas sobre minha cama. E notei que, de fato, todas elas tinham um quê de infantilidade. Eu achava-as lindas, mas Miroku, apesar de ser o Rei dos Idiotas, realmente tinha um certo conhecimento naquela área. Será que uma preta com rendas...?
- Não, não! – Corei, imaginando-me em tal peça. – Constrangedor demais! – Sentei-me na cama, pondo-me a refletir. Será que o papai também...? Mas se sim, qual era o gosto dele?
Papai gosta de se vestir com tons neutros. Era raro vê-lo escolher algo que não fosse cinza, branco ou preto. Eu sempre achei um desperdício, já que ele, do jeito que é bonito, combina com qualquer cor. Em contrapartida, ao comprar roupas para mim, ele sempre opta por tons vivos e coloridos. Adoro-os, de fato, mas acho que ele não teria esse tremendo faro para comprar roupas para mim se não gostasse delas também. Então isso significa que ele gosta de me ver vestindo coisas coloridas. Com roupas íntimas seria o mesmo?
- Mas o que adianta? Ele não me vê em roupas íntimas! – Exclamei, deitando-me na cama. Comecei a rir pela graça que a situação tinha. Acho que normalmente as garotas da minha idade ficariam totalmente furiosas ou envergonhadas se os pais delas as vissem de roupas íntimas, e parecia que eu queria exatamente o contrário.
Suspirei, com uma ideia passando-me pela cabeça. Estaria fora de questão eu perguntar diretamente sobre calcinhas, mas eu poderia, ao menos, saber a cor. Talvez fosse uma ideia meio fraca, mas tudo que eu pudesse obter do meu papai indiretamente, era lucro.
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Apesar do que acontecera com Miroku, eu poderia dizer que eu e meu pai havíamos voltado ao normal. No dia seguinte após o incidente, recebi meu beijo de boa noite – confesso que tive a iniciativa, mas ele correspondeu –, e desde então tem sido como se nada tivesse acontecido. Apenas às vezes eu o observava olhar para mim como se quisesse questionar algo, mas nunca o fez, e eu não tinha coragem para perguntar. Pensando que talvez fosse algo relacionado ao meu amigo, eu falava dele de forma habitual, indicando que não havia nada para nos preocuparmos.
Agora, ele havia acabado de servir o jantar. Eu ainda não perguntara nada, mas estava na ponta da língua. Como de costume, ele tomou um gole do saquê e encarou-me, enquanto eu olhava frustrada para a pouca quantidade de carne que ele colocou no meu prato.
- Ei, papai... – Iniciei, em tom manhoso.
- Você comeu muita carne ontem, Rin. – Ele respondeu, antes de eu terminar minha reclamação. Suspirei, dando-me por vencida. De qualquer forma, amanhã eu comeria o delicioso almoço da mãe do Miroku. – Como foi a escola?
- Quase enforquei o Miroku. – Disse, e ele me olhou um tanto intrigado. Contei-lhe o acontecido na sala de aula, e ele riu levemente, comentando que talvez, assim, eu deixasse de ser tão avoada.
Conversamos como sempre, rindo vez ou outra de alguma coisa. Ele pouco falou sobre como passara o dia, mas disse-me que almoçou em um novo restaurante, e que jantaríamos lá no fim de semana. Sorri, animada. Seria como um encontro!
- Ah, poderei usar o vestido novo que comprei! – Exclamei. Ele meneou o rosto, em concordância. Achei aquele um bom instante para fazer a pergunta, e não demorei. – Aliás, papai, que cor você acha que fica mais bonita em mim? – Seus olhos dourados ficaram fixos em mim, enquanto sua boca mastigava calmamente. Aquilo lhe deu tempo o suficiente para pensar. Eu só torcia para ele não dizer algo típico como “você é jovem, combina com qualquer cor”, embora eu pensasse algo semelhante a respeito dele.
- Laranja. – Disse, finalmente. Levou o copo mais uma vez à boca. Fiquei meio perplexa com uma resposta tão direta. Ele lambeu os lábios e abriu um sorriso. – Por que?
- Hm? A-Ah, nada. Só curiosidade. – Respondi, dando mais atenção ao que ainda estava no meu prato. Laranja. Que importa o que Miroku tivesse dito? Laranja será a cor que mais terá destaque no meu guarda-roupa, a partir de hoje!
Meu celular começou a tocar. Levantei uma sobrancelha, e tirei-o do bolso da minha calça. Era Miroku. O que ele poderia querer àquela hora? Olhei para meu pai por um momento, que parecia não se importar se eu fosse atender ou não. Acabei o fazendo.
- Não, Miroku, ainda não terminei meu dever de casa de história. – Disse, revirando meus olhos. Mas logo fiquei séria. Ele fez uma longa pausa antes de finalmente falar, o que era muito estranho.
- Rin, pode vir até a pracinha? – Murmurou, em tom cansado. – É importante. – Completou, encerrando a chamada. Encarei o aparelho, perplexa.
- O que aconteceu? – A voz do meu pai me despertou. Fitei-o, meio confusa e preocupada.
- Não sei, ele estava estranho. Pode ter sido aquilo... – Disse baixo, e ele compreendeu. Sabia da relação delicada entre os pais de Miroku, que perdurava até hoje. – Volto logo, papai. – Levantei-me, dando-lhe um beijo na bochecha antes de sair.
Coloquei apenas um casaco leve e saí, correndo o mais rápido que pude até o local indicado. Avistei-o em um dos balanços, de cabeça baixa. Ele notou minha aproximação e ergueu o rosto, e notei que estava um pouco inchado – acho que estivera chorando. Ele suspirou fundo e abriu um sorriso triste.
- Mais uma briga? – Perguntei, no tom mais suave que pude fazer. Ele se levantou, acenando positivamente com o rosto.
- Se eu não estivesse em casa, acho que ele teria batido na minha mãe. Foi embora logo, não se para onde, enquanto minha mãe tomou um calmante e foi dormir, como se nada tivesse acontecido. – Senti vontade de chorar também. Miroku sempre tinha que aguentar cenas como essa. Aproximei-me dele e o abracei, logo fui correspondida. Dava para perceber o quanto ele estava precisando de alguém naquele instante, e tinha medo de imaginar o que ele faria se eu não estivesse por perto.
- Hey, que tal dormir lá em casa hoje? Podemos jogar alguma coisa, ver um filme, sei lá. Só não deixo você ver pornô no meu computador. – Finalmente consegui arrancar um riso dele.
- Seu pai não vai se importar? – Afastei-me um pouco, sorridente.
- Oras, você já dormiu lá diversas vezes. Vamos, vamos. Vou fazer aquela pipoca amanteigada que você adora.
Eu não diria que meu pai totalmente não se importava com aquilo, mas ao menos, aparentava não se importar. Quando cheguei em casa com Miroku ao meu lado, ele nos olhou atentamente, e acho que percebeu os olhos vermelhos e úmidos do meu amigo, de forma que deve ter concluído o que se passara. Disse-lhe que Miroku passaria aquela noite conosco, e ele não demonstrou nenhuma reação contra.
Apesar de estar com sono, fiz o possível para distrair Miroku. Meu pai retirou-se mais cedo para o seu quarto, apenas dizendo para não ficarmos acordados até tarde, já que teríamos aula no dia seguinte. Mas é meio difícil dizer para dois amigos irem dormir cedo quando temos a televisão e o videogame à nossa disposição. Ficamos um bom tempo jogando futebol – um dos gêneros favoritos do Miroku –, e quando ficamos cansados (ok, confesso, eu que cansei de perder), decidimos ver um filme. Àquela altura, o humor de Miroku já estava bem melhor.
Mesmo que fosse uma comédia, um gênero que eu adorava, não me lembro da maior parte do filme, pois dormi como uma pedra. Acordei com meu pai tocando-me um dos ombros. Eu estava ainda na sala, deitada sobre o sofá. Olhei rapidamente em volta, e encontrei meu amigo dormindo no chão, com um filete de baba escorrendo-lhe do canto da boca e roncando baixo.
- Seis horas da manhã. – Ele respondeu, antes mesmo que eu perguntasse as horas. Bocejei, ainda morrendo de sono, mas forcei-me a ficar sentada no sofá. Ele foi em direção a cozinha, não dizendo mais nada. Tive a ligeira impressão que a voz dele estava meio ríspida, mas não dei muita atenção àquilo.
- Miroku. – Chamei-o, bocejando mais uma vez. Ele se mexeu um pouco, mas não acordou. – Se você não acordar, vou dar um chute na casa atual dos seus futuros filhos. – Finalmente ele levantou, exasperado e protegendo seu ponto vital com as mãos.
- Ah, Rin, isso lá é forma de acordar alguém? – Interrogou, enquanto eu começava a rir. – Bom dia pra você também. – Disse, aparentemente irritado.
- São seis horas, Miroku. Você tem que voltar pra sua casa, senão vamos chegar atrasados na escola. – Ele pensou um pouco, atenuando suas feições irritadiças.
- Verdade. Acho que minha mãe já deve ter acordado... – Seu tom de voz começou a ficar mais distante. – Bem, obrigado por esta noite, Rin. Ah, e seu pai também, por ter me deixado ficar. – Sorri, ajudando-o a se levantar.
- Sempre que precisar, Miroku. Amigos são para todas as horas. – Ele me encarou de um jeito estranho por alguns segundos, mas logo sorriu como sempre. Apertou minha bochecha de leve antes de sair, despedindo-se brevemente de mim e do meu pai em um tom alto.
Esfregando os olhos para espantar o sono, fui até a cozinha, e peguei o copo de suco que meu pai havia colocado para mim sobre a mesa. Ele lia o jornal com atenção. Sentei-me ao lado dele, pegando uma torrada.
- Eles não mereciam passar por tudo isso. – Desabafei minha preocupação. – Nunca gostei do tio Naraku, mas ele está cada vez pior. Miroku disse-me que ele quase bateu na tia Kikyou ontem. – Ele virou uma página, sem desprender os olhos do jornal.
- A Kikyou é a única pessoa capaz de mudar a situação da própria família. Se ela não quer uma mudança, em nada podemos ajudá-la. – Disse, levando sua xícara de café até a boca. Notei que o tom ríspido que eu achara que ele tinha não era apenas impressão. – O amor nem sempre é algo saudável.
Senti um arrepio com aquela frase. Ele terminou seu café logo depois, e levantou-se. A conversa terminou ali mesmo, sem mais nem menos. Sabia que ele estava falando da relação entre a tia Kikyou e o tio Naraku, mas não pude deixar de pensar que ele poderia estar se referindo a nós, também. Acho que isso foi reforçado pelo fato de ele mal ter olhado para mim desde que me acordou. Por que o papai tinha que ser tão estranho?
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