Querido Paciente
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Havia no andar térreo um pequeno jardim de inverno, com vidro de dois lados, e Caroline decidiu usá-lo como local de trabalho. Ali havia bastante claridade e o espaço era bem maior do que o do seu quarto.
Estava fazendo as anotações sobre o tratamento de Klaus, quando Bonnie apareceu para conversar, agora amável.
— Klaus disse que você está cuidando dele maravilhosamente. Espero que ele possa deixar a cama em breve.
— Receio que a recuperação dele seja lenta — Caroline observou com cautela. — Seus ferimentos foram muito graves.
— Mas ele voltará a enxergar, não é mesmo?
— Há grandes esperanças.
— Klaus é um homem muito importante e precisa ficar bom. Você sabe que, se ele não puder cuidar da fábrica, das terras e de outros empreendimentos, será o caos.
O tom de Bonnie continha uma leve acusação, como se quisesse considerar Caroline a culpada, caso Klaus não se recuperasse completamente.
— Pode ter certeza de que estou fazendo tudo ao meu alcance para que o sr. Mikaleson fique curado — Caroline tranquilizou-a.
— Bem, logo você terá a ajuda de Stefan.
— Stefan?
— O clínico geral de Klaus. É um médico brilhante. Um homem como ele não devia perder tempo dando consultas num lugarejo. Ele foi convidado para trabalhar em vários hospitais, mas Stefan é um idealista. Prefere continuar no interior cuidando das pessoas menos favorecidas. — Bonnie falou como se o médico fosse um excêntrico. — No momento Stefan está de férias, mas voltará em duas semanas.
Bonnie saiu do jardim de inverno e Caroline enterrou as unhas na palma da mão. Na sua profissão já tinha conhecido um bom número de pessoas insuportáveis, ligadas aos seus pacientes, e lady Bonnie Bennett vinha a ser uma das mais intragáveis.
Minutos depois Caroline estava no quarto de Klaus.
— Obrigado por não ter trazido o café — ele agradeceu assim que ela entrou. — Bonnie não compreende.
Caroline foi tentada a dizer que Bonnie era noiva dele, portanto, devia ser mais compreensiva.
— Eu gostaria de estar fora desta cama na próxima vez que Bonnie vier me visitar — ele acrescentou.
— Isso vai depender de quando será sua próxima visita. Se for amanhã...
— Bonnie só voltará dentro de uma ou duas semanas.
— Então haverá tempo de providenciarmos uma cadeira de rodas. — Ela viu Klaus agarrar a beirada do lençol que o cobria e disse brandamente: — Lamento, Klaus, mas você ainda não tem condições de andar.
— Sei disso. Na verdade, estou resignado. Cheguei a um ponto em que poder sair da cama e ir para uma cadeira de rodas já significa um grande progresso. Pode providenciar a cadeira de rodas.
— Está bem.
As palavras seguintes surpreenderam Caroline:
— Não sou tão mau quanto aparento, Caroline. Os meus acessos de impaciência ou de cólera devem-se ao fato de eu não estar acostumado a viver como um inútil.
— Sei que isso é muito difícil.
— Você não me acha odioso?
Por muito tempo, nas suas noites longas e tristes, ela havia odiado o outro Klaus, não este inválido que precisava dela e nela depositava sua confiança e suas esperanças.
— É claro que não — respondeu. — Posso suportar muito mais do que seus desabafos.
Ele esboçou um sorriso.
— Sinto-me inclinado a testar essa sua resistência. Pode ser um desafio interessante.
— Se isso o divertir, faça o teste.
Caroline arrependeu-se do que acabara de dizer, pois o rosto de Klaus tornou-se sombrio.
— Nada me diverte nestes dias de escuridão — ele observou. — Há alguma correspondência para ser aberta?
— Apenas uma. Tem o carimbo de Londres e a caligrafia é cheia de arabescos.
— Deve ser de Jenna, minha cunhada.
— Sua...
— Jenna casou-se com meu irmão, Kol, o caçula da família. E uma lady encantadora.
O mundo pareceu parar. O envelope que segurava não era real. As palavras dançaram diante de Caroline.
Kol estava casado!
Lembrou-se das palavras dele:
Vou levá-la a minha casa para apresentá-la a Klaus, e nos casaremos o mais depressa possível...
Mas ele se casara com outra. Klaus Mikaelson tinha feito isso com ela. Toda a velha amargura veio à tona, deixando-a com o peito e a garganta apertados. Virando-se abruptamente, ela foi até a janela.
— Caroline? — Klaus chamou-a.
— Eu... estou aqui.
— Leia a carta de Jenna. Ela e Kol estiveram aqui logo depois do acidente.
Com grande esforço, Caroline voltou para junto da cama, sentou-se na poltrona e começou a ler:
"Querido Klaus,
Espero que você esteja bem melhor ao receber esta carta. Kol e eu acabamos de chegar da viagem à América. Foi bem mais difícil do que pensávamos, mas trouxemos algumas coisas que irão lhe interessar..."
— Eu sabia que essa viagem seria perda de tempo — Klaus murmurou, a testa franzida. — Ainda não estamos bem engrenados para vender nossas máquinas aos Estados Unidos, mas meu irmão insistiu em fazer a viagem.
— Como é esse seu irmão caçula? — Caroline perguntou, esforçando-se para a voz soar natural. — Você fala sobre ele como se fosse um garoto.
— Kol está com vinte e sete anos, mas para mim é um menino. Está sempre alegre. Gosta de divertir-se.
Um garoto risonho e feliz! Até aquele último dia, quando se virou para ela cheio de amargura porque Klaus o enganara, fazendo-o pensar que ela o havia traído. Caroline continuou a ler:
"Devo admitir que, realmente, gostei de Nova York. A viagem acabou tornando-se uma segunda lua-de-mel. Kol e eu estamos muito felizes. Eu não poderia ter um marido mais adorável."
Ela parou porque Klaus resmungou e torceu a boca num gesto de ceticismo. Essa interrupção a alegrou, pois saber notícias de Kol daquele modo estava sendo mais difícil do que tinha receado.
— O que houve? — indagou, querendo saber a razão daquele resmungo. — Você parece não acreditar nas palavras de sua cunhada.
— Eu sei que ela é louca por Kol e insiste em acreditar que ele é o melhor homem do mundo.
— Talvez uma esposa deva acreditar que o marido é mesmo maravilhoso — Caroline opinou serenamente.
Klaus suspirou.
— Quem sabe o casamento deles seja mesmo feliz. Como eu disse, Jenna é uma lady encantadora e Kol fez os maiores elogios a ela. Ficou repetindo que ela é o amor de sua vida, que ele nunca amou verdadeiramente antes de conhecê-la. Todas essas tolices.
Querida Carol, você é a primeira garota que amo de verdade. Eu nunca imaginei que pudesse sentir-me assim. Sei que não poderei amar outra mulher.
"Todas essas tolices..."
Caroline ouviu Klaus falar consigo mesmo:
— Deus sabe que fiz o possível para convencê-lo a desistir do casamento. Talvez eu estivesse errado.
— Você não queria que ele se casasse com Jenna? — Dulce perguntou, com veemência.
— Não, eu não queria.
— Ela não estava à altura de seu irmão?
— Eu achava que o casamento deles não daria certo, por várias razões... Para começar, Jenna é um pouco mais velha do que ele... Mas por que estou comentando isso com você? Por favor, termine de ler a carta.
Nos outros dois parágrafos Jenna só elogiava Kol. Acrescentou algumas palavras de conforto e assinou.
Terminando a leitura, Caroline ficou sentada, pensativa, o peito oprimido. Por fim, recompôs-se.
— Vou ver se Isobel já preparou o almoço.
— Você está bem? Sua voz soou estranha.
— Estou muito bem — ela afirmou.
Mas quando se viu no corredor, parou, respirou fundo algumas vezes e censurou-se por causa de sua reação absurda. Perdera Kol havia anos e não tinha motivos para sentir-se tão perturbada. Agora ele nada significava para ela. Nada que dissesse respeito a ele lhe interessava.
Convencendo-se disso, começou a descer a escada.
Demorou bem pouco para Caroline descobrir que Klaus era um paciente muito rebelde. Sua obstinação em não querer ajustar-se à sua nova condição só criava mais problemas para ele próprio.
O fisioterapeuta, um homem de meia-idade chamado Matt, vinha três vezes por semana para forçar Klaus a exercitar-se, mas ele cancelava a visita do homem, ou abreviava as sessões para fazer telefonemas. Cansada daquele comportamento de seu paciente, Caroline deixou a diplomacia de lado e perguntou rispidamente:
— Você quer voltar a andar ou não?
— Como se esses apertões e cutucões adiantassem alguma coisa — ele apontou, cético.
— É claro que adiantam. Eu sei o que é melhor para você. A massagem vai ajudar sua musculatura a tornar-se mais forte. E há os outros exercícios que você insiste em não fazer. O sr. Matt estará aqui, amanhã, às duas horas.
— O gerente da fábrica vai chegar...
— Ele terá de esperar que o sr. Matt termine a massagem e os exercícios.
— Você é uma mulher muito teimosa — Klaus acusou-a, impaciente.
— Sou! Estou feliz porque você já percebeu isso.
Matt era um homenzinho nervoso, maçante e irritadiço. Mas tecnicamente era perfeito. Caroline entendia um pouco de fisioterapia e acompanhava as sessões atentamente. Então sugeriu a Klaus:
— Reconheço que o sr. Matt é eficientíssimo, mas é também um homem difícil. Diante disso, quero fazer-lhe uma sugestão. Cuidarei das sessões de fisioterapia e chamaremos o sr. Matt apenas duas vezes por mês. O que acha da ideia?
Klaus concordou com certa relutância, mas logo nas primeiras sessões notou alguma melhora. Em pouco tempo sentiu-se revitalizado, mas insistiu em continuar dirigindo seu império, mesmo a distância. O esforço roubava-lhe as forças, tão logo as recuperava.
— Você não pode continuar assim — Caroline suplicou-lhe. — Ainda não está em condições de envolver-se tanto com o seu trabalho.
— Enfermeira Forbes, tenho uma fábrica em expansão e vinte mil acres de terra para administrar. Emprego ao todo mais de mil e quinhentas pessoas que têm contas a pagar — Klaus argumentou. — Se meus negócios fracassarem, como ficará toda essa gente?
— Você tem seus gerentes.
— Gerentes! Uns inúteis. Meus negócios funcionam e progridem porque mantenho tudo sob controle. Tenho pulso firme.
Esse era o velho Klaus, arrogante, dominador, estabelecendo as leis, Caroline pensou. Disse em voz alta:
— Você controla tudo, mas se vier a faltar, se tiver um colapso, toda essa gente que depende de você ficará perdida.
— Não vou morrer, como você acabou de insinuar, tampouco vou sofrer um colapso.
— É o que você pensa. Mas se não se cuidar, é o que irá acontecer. Saiba que esse seu jeito de querer controlar tudo, de querer que todos dependam de você, é puro egoísmo. E se não gostou de ouvir essas verdades, não precisa me mandar embora, porque já estou indo.
Sem esperar que ele respondesse, Caroline saiu do quarto intempestivamente.
Fale com o autor