Querido Paciente
18 Capítulo 18
Notas iniciais
— Telefonei para Bonnie. O noivado dela com Alaric será anunciado em breve.
— Lamento — disse Caroline, angustiada.
— Não lamente. Isso iria mesmo acontecer. Eu não amava Bonnie e não estou triste com o rompimento do noivado,
— Por favor, Klaus, não precisa fingir. Eu sei que você ficou aborrecido.
— Fiquei, mas não por causa de Bonnie. Eu sempre soube que ela também não me amava. Só uma mulher loucamente apaixonada seria capaz de se casar com um cego e inválido.
— Não fale assim.
— Por que não? É verdade. Eu já devia ter terminado o nosso compromisso antes de ouvir Bonnie dizer que eu nunca voltarei a ser um homem.
— Ela disse isso? — Caroline perguntou, zangada.
— Não com essas palavras, mas me disse algumas verdades. Ela não quer perder mais tempo comigo e lhe dou razão.
Caroline não conseguiu dizer nada, tal sua raiva.
— Tenho esperanças de voltar a andar — ele continuou. — Mas o que são as minhas pernas sem os meus olhos? A oftalmologista que cuidou de mim é brilhante e disse que há apenas cinquenta por cento de chances de eu recuperar a visão. E estranho como agora vejo muita coisa claramente atrás desta máscara que me cobre os olhos. Posso ver-me como todos me vêem. Um homem de quem qualquer mulher sensata quer ficar a milhas de distância.
Caroline lutou para controlar as emoções que a sufocavam. Queria abraçar Klaus e protegê-lo. Mas fazer isso seria pior. Simplesmente deixaria mais evidente sua condição de inválido.
— Você tem tentado infundir-me confiança e esperança. Talvez agora seja o momento de ensinar-me a suportar o que é inevitável. — O rosto de Klaus alterou-se ao perguntar: — Você pode fazer isso?
— Talvez eu possa — ela murmurou. — Eu o compreendo porque também conheci o desespero.
— Conte-me o que se passou com você. Preciso da sua ajuda mais do que nunca.
— Algo me aconteceu há alguns anos.....e destruiu a minha vida. Pelo menos foi assim que me senti. — Ela parou.
Estava sendo difícil falar sobre o passado que ela lutara para esquecer. Mas precisava confortar Klaus e prosseguiu:
— Perdi quem eu mais amava. A pessoa que para mim era a mais importante do mundo. E a perdi de um modo que até hoje não suporto nem me lembrar. Desapareci e fui para um lugar onde ninguém me conhecia. Chorei, chorei muito. Quando parei de chorar, descobri que o resto do mundo continuava do mesmo jeito. Que nada havia mudado e eu só tinha perdido o meu tempo chorando. Aprendi que de nada adianta chorar, protestar...
— Ou entregar-se à amargura — Klaus completou com certa ironia.
— Isso. Também compreendi que eu tinha de continuar vivendo. Só que eu havia mudado. Tornara-me uma pessoa mais forte que via tudo de maneira diferente. E acreditava que a vida era possível.
— Você era muito nova e é raro uma garota não sofrer uma desilusão amorosa. Mas logo encontra outro alguém e se convence de que o rapaz por quem tinha sofrido tanto não servia mesmo para ela. Não foi assim com você?
— Não. Decidi não namorar mais ninguém. Tornei-me uma mulher incapaz de amar. Sinto-me como se faltasse uma parte de mim.
— Mas você acha que vale a pena viver?
— Sim. Sempre há compensações. Tenho muitas. Sinto-me realizada no trabalho e tenho um lugar no mundo. Pode não ser o lugar ideal, mas é um bom lugar.
— O que eu peço da vida é muito mais do que isso que você mencionou. Mas a sua história deu-me pontos para reflexão — observou Klaus calmamente.
Estendendo o braço, ele apertou a mão dela e sentiu que ela apertava a dele, num entendimento tácito.
Nessa noite, andando no jardim, Caroline olhou para a janela iluminada do quarto de Klaus.
Não dissera a verdade ao afirmar que se tornara uma mulher incapaz de amar. Tivera de fazer isso para mostrar que compreendia o que era ter uma vida mutilada.
Mas havia outro motivo que ela mal tinha coragem de admitir.
Ela renunciara ao amor, mas ele a surpreendera e saltara sobre ela na escuridão, pegando-a despreparada; forçando-a a reconhecer esse amor antes que ela pudesse reunir suas defesas. Depois de seis anos seu coração caprichoso tinha escolhido aquele momento para renascer.
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