Querido Dorian
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Estava sentado de forma relaxada na cadeira. Aos seus pés o corpo, agora sem vida, de Angelique. Nos seus olhos, ferocidade e poder. Nos seus lábios, um sorriso discreto porém carregado de malícia. Poderia dizer que dentre todas as pessoas que se relacionou em sua vida, Angelique fora a que mais mexeu com seu coração. Não que se comovesse ou se chocasse com facilidade, já que provavelmente tinha visto de quase tudo na vida, mas a forma como ela se posicionava diante dos outros, a coragem em seus olhos e gestos, mas que escondia uma pessoa frágil e necessitada de carinho. O fato dela não se encaixar no que a sociedade impunha chamou a atenção do belo homem. Talvez porque tivessem algo em comum, ou talvez porque Angelique fosse uma figura exótica demais para não ser explorada. Dorian não sabia. E talvez nunca saberia, já que seu interesse por ela morreu junto com seu corpo.
— Minha doce Angelique. Se você fosse menos curiosa...
Dorian levantou-se da cadeira e acariciou o belo rosto. Mesmo morrendo sufocada, uma estranha expressão de paz dominava as delicadas feições dela. Isso fez com que o Sr. Gray se convencesse que tinha feito um favor a ela ao libertá-la de uma vida tão sofrida. Sabia que era um pensamento ridículo, mas antes esse do que nada.
Sabia que todos os seus gestos estavam sendo acompanhados. Por mais que desejasse, não poderia ignorar o quadro. E pela primeira vez na sua vida, não estava com medo. Quando tudo aquilo começou, sentia-se angustiado com aquela imagem lhe encarando. Sabia que precisava recorrer à ela cada vez que seu corpo era maltratado e nunca se sentiu à vontade com o processo. Nenhuma vez. Quando matou Basil, sentiu-se o pior dos seres. Não entendia o porquê de não conseguir perfurar aquele quadro e acabar com sua maldita existência. O mesmo sorriso sarcástico brotou em seu rosto ao se lembrar que sabia o porquê de continuar com aquilo. Gostava da sensação de poder. Gostava de ser imortal, de se arriscar e sair ileso em todas as situações. Era um homem narcisista e mimado. Lembrara de como Henry partilhava da mesma filosofia de vida que a sua, mas acabou um velho amargurado e sozinho, enquanto Dorian nunca sairia do auge de sua beleza e vigor. Gostaria de ter partilhado mais experiências com Angelique. Com certeza ela era um achado raro, mas um buraco a mais ou a menos não faria diferença, pensou Dorian. Logo acharia alguém tão ou mais interessante. Sempre achava.
Baixos gemidos ecoavam naquele cômodo e Dorian sabia de onde vinham. O quadro estava reclamando mais uma vez. Sabia que era por causa do assassinato que acabara de cometer, mas estava tão extasiado que procurou não dar importância a isso. Pela primeira vez não tinha medo e queria aproveitar ao máximo aquela sensação. Seu momento de glória foi bruscamente interrompido devido aos movimentos do corpo à sua frente que julgava estar morto. Assustado como nunca antes na sua vida, Dorian levantou-se num pulo e encostou na parede mais próxima, fechando os olhos e torcendo para que aquilo não passasse de um pesadelo.
O corpo de Angelique se movia com a mesma graciosidade que possuía em vida. Levantou-se do chão e caminhava em direção à Dorian. O mesmo sorriso que seu algoz carregava em seus lábios agora estava nos dela. Porém, uma coisa estava diferente: No lugar dos seus olhos, duas esferas negras. Dorian sabia que ela estava olhando diretamente para ele e perguntava-se como aquilo era possível. Ele tinha certeza de que a tinha matado. Utilizara aquele veneno diversas vezes. Quando Angelique estava a menos de um palmo de distância dele, ela estendeu sua mão.
— Venha comigo, Dorian.
A voz era praticamente a mesma, com a diferença de estar um pouco mais grave. Dorian estava paralisado e não pode obedecer ao pedido. Angelique estendeu a mão novamente e com um pouco de impaciência em sua voz, repetiu:
— Venha comigo, Dorian. Não serei tão clemente na terceira vez.
Dessa vez, a mão quente dele entrou em contato com a dela e aquele ser amedrontado foi guiado novamente para a cadeira onde estava sentado. Dorian se acomodou e observava temeroso Angelique caminhar em volta dele, observando-o. Os únicos sons presentes ali eram a respiração de Dorian, os gemidos do quadro e os saltos de Angelique em contato com o chão.
— Então meu querido Dorian resolveu ficar corajoso. Espero que ele não tenha esquecido que esse quadro faz parte dele, certo? — agora as mãos dela acariciavam os cabelos macios dele. Dorian nada respondeu, o que não afetou Angelique.
— Acho que você também se esqueceu de que não foi apenas a força do seu pedido idiota de se tornar imortal que fez isso acontecer. Eu o observava, querido Dorian. E achei que seria uma aquisição muito importante para mim. Mas não seria tão injusto a ponto de tê-lo para mim sem deixá-lo usufruir do que posso lhe dar. Por isso coloquei sua alma nesse quadro. Só que não estou gostando dessa sua confiança. Falsa confiança, pois sabemos que você não é nada sem mim e posso acabar com essa palhaçada a hora que eu bem entender. Tem sorte de eu estar empregando boa parte dos meus esforços em alguém bem mais interessante agora — os pensamentos de Lúcifer foram de encontro à Vanessa Ives. Ele mal podia esperar para colocar as mãos naquele escorpião.
— O que você quer de mim? — a voz de Dorian saiu em um sussurro. Demorou um pouco, mas ele percebeu que não estava conversando com Angelique.
— Agora? Nada. — Lúcifer sentou no colo de Dorian e aproximou seus rostos. O hálito da bebida que Angelique acabara de consumir ainda estava presente. — Só vim aqui para lembrá-lo que eu controlo você, eu sou o dono da sua alma, eu decido quanto tempo você viverá nessa fantasia. Eu, Dorian. Eu. E é melhor você voltar a ter medo do que vê naquele quadro, porque é assim que você estará quando finalmente vier comigo. É daquele jeito que estará quando começar a sofrer tudo o que tenho preparado para você. Acha realmente que esse é o máximo que sua alma pode se machucar? Entenda que isso é apenas o começo.
Lúcifer agarrou os cabelos de Dorian e arrastou-o em direção ao quadro.
— Olhe Dorian!! Tenha medo da sua alma. Tenha medo da criatura vil e repugnante que você é. Não ache que essa capa de beleza intocável pode esconder tudo o que fez. Não ache que você algum dia terá poder sobre esse monstro porque ele pode estar acorrentado, mas quem está realmente preso é você. Lembre-se disso.
Lúcifer largou os cabelos de Dorian, chocando seu rosto com força contra o chão. Um som de algo quebrando ecoou. Provavelmente a vítima tenha sido o nariz de Dorian. Ambos sabiam que aquilo não era problema. Logo ele estaria bem. O Sr. Gray levantou a cabeça a tempo de ver Lúcifer saindo do corpo de Angelique, voltando à situação que estava a minutos atrás. Tonto pelo impacto que sofrera a pouco, Dorian olhou novamente para o quadro e notou aterrorizado o pequeno sorriso que ele esboçava, agradecido pelo pequeno momento de humilhação pelo qual seu dono acabara de passar. Pouco se importando com seu nariz no momento, Dorian saiu rapidamente dali para procurar as ferramentas necessárias para o que pretendia fazer.
Precisava livrar-se do corpo de Angelique.
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