Querido Charlie,
1 Querido Charlie,
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Querido Charlie,
Perdi as contas de quantas vezes repeti esse começo. Só em dizer teu nome já desmonto a chorar. Mas a doutora Mercedes insistiu para que eu continuasse com esse negócio da gravação, ela disse que me ajudaria a... A superar tudo isso. A te superar, Charlie.
Às vezes gosto de imaginar você imitando a doutora Mercedes. Imagino direitinho: seu corpo tentando reproduzir àquela postura impecável, ao o olhar aristocrático, ao o jeito que ela arruma o cabelo. Consigo até imaginar você repetindo seus dizeres “Elisa, você precisa se ajudar. Já faz muito tempo.”. Eu quase rio quando penso nisso.
(silencio).
Eu estou acabada, meu irmão. Esta é a verdade.
Eu nunca mais andei de bicicleta, porque me lembro de nossas corridas. Nunca mais assisti TV, porque seus dizeres de que TV é perda de tempo invadem a minha mente. Não vou mais a igreja, pois Deus não tem mais sentido para mim. Não escuto música. Não como quase nada. Parei de desenhar, de escrever, e de viver.
Tudo o que me rodeia está encharcado de você, Charlie. Cada pequeno ponto em que reparo me faz lembrar algum comentário seu. Existir tornou-se uma tortura para mim.
(Silêncio. Soluços.)
Eu passo os dias trancada em seu quarto. Fico deitada em sua cama, coberta por sua manta, que ainda carrega o seu cheiro. No começo eu abraçava teu travesseiro, fechava os olhos e tentava fingir que era você, Charlie, mas quando eu abria e me deparava com a realidade, eu chorava tanto que parecia que iria morrer.
(Soluços)
Quando me canso de ficar deitada, vasculho tuas coisas. Desculpe-me, meu amor, mas é verdade. Abro teu armário e visto tuas roupas. Às vezes entro em seu guarda-roupa, me tranco e fico lá por horas. Folheio seus livros, paro nas frases destacadas e me lembro de quando você as comentou para mim. A minha favorita ainda é a “A dor de ser homem: este anseio infinito e vão de possuir o que me possui”, do Manuel Bandeiras.
Eu olho teus discos e DVDs. Encontrei até revistas pornográficas entre eles, Charlie, mas eu nunca contarei a ninguém. Encontrei também uma caixa de sapatos cheio de cartinhas de amor que você recebia das garotas da sua escola.
Não deixo ninguém entrar em seu quarto porque agora é o meu santuário.
(Silencio).
Você sentiria desgosto se visse meu estado. É o que a doutora Mercedes disse.
Eu concordo com ela. Você sempre me dizia as coisas certas e me fazia levantar quando eu estava na pior. Cadê você agora, Charlie?
Da última vez que me vi no espelho, eu estava tão magra... Meu rosto tinha o formato do esqueleto. Meus olhos estavam profundos e cercando-os havia uma grande mancha roxa. Não me reconheci. Isso já faz três meses, e na época eu sentia como que eu estivesse fazendo a coisa certa. Você merecia todo esse luto.
Mas, Charlie, eu não posso mais ficar assim.
(Soluços grosseiros.)
Desculpe-me.
Por favor, me perdoe!
(Grande pausa).
Já faz um ano que você se foi, meu irmãozinho, meu melhor amigo. E desde então sinto como se eu não tivesse mais a essência da vida habitando em mim.
A mamãe parou de trabalhar e eu não sei como ela está arranjando dinheiro para nos sustentar. Eu não aguento mais ver seu olhar de tristeza sempre que me vê, ou ver o olhar de desespero da doutora Mercedes todas as quintas-feiras.
Eu não suporto mais o fato de que a minha existência seja um fardo.
Eu não aguento mais me lembrar de ti em toda a porra do tempo!
Eu preciso continuar nesse caminho.
Sem você.
(Soluço)
Meu deus, como dói te dizer isso!
Charlie, eu te amo tanto, tanto! Nunca irei amar ninguém com a mesma intensidade! E sinto tanto a sua falta. Todos os dias, a cada minuto.
Mas eu não posso continuar com isso, meu amor. Eu preciso resgatar as minhas forças e continuar nessa jornada até o fim, mesmo ela perdendo o sentido sem ter você comigo.
É hora de continuar. De sacudir a poeira e escalar até a saída do poço.
E isso não me faz te amar menos.
Então, Charlie, eu sei que você vai me entender. E que até diria “Até que enfim, garota!”.
Esquecer-te, jamais esquecerei. Pois você passou por minha vida de forma tão intensa e profunda que me fará carregar-te até a minha própria morte. Mas estou disposta a aprender caminhar sem você ao meu lado (apenas em meu coração).
Adeus, Charlie. Obrigada por tudo. Eu te amo mais do que cabe no entendimento humano.
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