Querida moça da livraria que sorria para mim,

1 Querida moça da livraria que sorria para mim,


Notas iniciais
Uma carta que escrevi para uma pessoa que não vejo há muito, muito tempo.

Querida moça da livraria que sorria pra mim,

Você não sabe meu nome, nem eu o seu. Mas por mais de 2 anos você trabalhou na livraria que eu sempre frequentava quando morava em Belém do Pará. E sempre que eu estava lá você sorria amigavelmente, sempre disposta a responder minhas dúvidas ou pegar os livros do depósito e da prateleira mais alta (embora fosse mais baixa que eu). Lembro perfeitamente de cada detalhe do seu rosto, do timbre da sua voz e dos bottoms engraçados que usava no avental.

Desde que me mudei obviamente não nos vimos mais. Imagino se notou a ausência de uma freqüentadora assídua de seu espaço de trabalho.

Aqui em São Paulo tudo é tão, tão grande. É assustador. É um mundo tão cheio de possibilidades e detalhes. Em cada esquina há mais e mais coisas novas. Novos caminhos. Quando eu acho que finalmente compreendi o universo, vem mais 43 novas ideias totalmente contrárias entre si, fazendo sentido cada uma a sua maneira. Quando eu era novinha eu sempre enchia o peito para me considerar complexa. Aqui, no entanto, me descobri pequena e simples.

Não consigo criar rotina aqui. Eu sempre odiei mudanças, metamorfoses, mudanças de plano, sair da minha zona de conforto. Eu tenho medo de mudanças e este ano estou tendo que mudar o tempo todo, imagine só! Na verdade, a mudança virou a minha nova rotina (?).
Eu sinto que eu mudei muito. Não me reconheço mais.

Aqui eu não frequento apenas uma livraria, simplesmente porque existem milhares. Às vezes sinto falta da rotina. Sinto falta de Belém. Sinto falta de ir aos mesmos lugares e olhar os mesmos familiares rostos. De ir comer no mesmo lugar e saber exatamente o que pedir. De andar distraída, sem se preocupar com o caminho por ter a cidade inteira mapeada na minha cabeça. De não estar tão longe das pessoas que eu amo e me amam de volta.

Embora eu afirme que não voltaria atrás por nada nesse mundo, eu também afirmo que faria de tudo para apenas um dia ter o privilégio de ir àquela livraria novamente, ver você, seus olhos encontrarem os meus. Você sorrir como sempre faz. Eu sorriria de volta. E, por um momento, os únicos detalhes e possibilidades que eu teria de me preocupar seria a cor dos seus olhos. Acredita que é o único fato que não consigo lembrar sobre você?

Tenho que parar de ter medo de me abrir para o novo. Eu sempre me sinto vulnerável e exposta quando tenho que improvisar. Mas a vida não vem com roteiro pronto, né? E eu adoro escrever.
Não posso viver em função do medo.

Obrigada por me ouvir,

A Moça Que Sempre Desorganizava As Prateleiras.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!