Querida Kyara

I

Já faz um tempo que penso em escrever uma carta para você. O problema, desde o começo, foi saber por onde começar. Engraçado, porque essa não é a primeira carta que escrevo, embora seja uma das mais difíceis que já precisei colocar no papel.

Talvez seja a segunda carta mais difícil que já escrevi, perdendo apenas para aquela que escrevi para a minha melhor amiga da adolescência. Não consigo pensar em outra carta difícil de escrever…

E não que o meu relacionamento com ela venha ao caso, exatamente. Na real, faço essa comparação, pois diz muito sobre o peso que algumas pessoas têm na nossa vida e vocês duas foram extremamente importantes para mim.

Outro detalhe. Também não tenho nenhuma necessidade real de me justificar. Eu odeio me justificar, para ser sincera. Haja vista algumas coisas que aconteceram entre a gente e, se justifiquei, foi por sua cobrança. Odeio ter que explicar minhas escolhas. Faço isso tão pouco que até a minha própria família estranha (e, por vezes, se divertem, já que é assim que minha avó descobre quem anda fofocando: é só ver quem colocou meu nome no meio de uma conversa).

Com vocês duas, é diferente. Não porque vocês tenham me cobrado alguma explicação. Talvez nunca tenham esperado que eu explicasse nada. Talvez nem exista uma explicação que realmente dê conta de tudo. Ainda assim, sinto que estou devendo uma.

Não necessariamente uma justificativa pelos acontecimentos, pelas escolhas ou pelas coisas que ficaram sem ser ditas. Talvez seja mais uma tentativa de explicar um simples fato: vocês duas são pessoas de suma importância para mim. Mais do que eu provavelmente gostaria de admitir.

É muito mais fácil escrever sobre pessoas que passaram pela nossa vida sem deixar grandes marcas. É fácil falar sobre sentimentos que já estão organizados, sobre relações que já têm nome, começo, meio e fim. O difícil é o espaço em branco que sinto que vocês deixaram. Só que esse espaço nunca deixa de existir.

Não sei se essa carta vai conseguir explicar tudo. Provavelmente não. Mesmo assim, desejo que você saiba que é muito amada pelas pessoas ao seu redor.




II



Era verdade algumas coisas que falei, incluindo sobre a probabilidade de eu realmente ser meio bipolar. Transtornos mentais é uma herança que atravessa gerações na minha família. O maior problema nunca foi apenas o diagnóstico em si, mas o fato de que eles nunca buscaram tratamento adequado. A pior parte? Eles pareciam usar isso como desculpa para serem todos imbecis e tóxicos juntos. Eu cresci sem qualquer exemplo de saúde mental em casa, com exemplos mínimos de afeto, a ponto de normalizar o sofrimento e achar que aguentar bullying na escola era só mais uma parte normal da vida.

Minhas visões de mundo só começaram a mudar de verdade por causa de alguns poucos professores. Eles estavam atentos o bastante para perceber o que eu estava vivendo e tentavam fazer alguma coisa a respeito, mesmo com as mãos parcialmente atadas pelo sistema. Eles davam um jeitinho de me incentivar, principalmente através das notas. Sim, muitas vezes fazendo com que o meu desempenho escolar fosse superior ao daquelas pessoas que me excluíam. Foi a primeira prova de que eu valia alguma coisa além do que me faziam acreditar.

Apesar de tudo isso, o passado ficou um pouco mais longe. Nos últimos cinco anos, finalmente consegui virar essa página e viver uma vida de pessoa comum: construí amizades e virei mãe de gatos.

III

Você sabia, minha querida Kyara? Não me afastei de você só por querer, muito menos porque deixei de me importar ou porque a nossa relação não significasse nada para mim. Muitas vezes, eu simplesmente não soube como proceder, como encontrar um jeito de manter um relacionamento contigo sem que isso acabasse se tornando algo complicado demais. Havia tantas coisas envolvidas, tantos sentimentos, tantas circunstâncias que eu nem sempre conseguia compreender ou administrar direito.

O medo de seu marido sentir ciúme foi um fator importante, com toda a certeza. Eu não queria causar a impressão de que estava tentando roubar o espaço dele, ultrapassar algum limite ou ocupar um lugar que não me cabia. Nunca foi essa a minha intenção. Eu também tinha o homem que eu amava, alguém que fazia parte da minha vida e dos meus próprios sentimentos, e precisava levar isso em consideração. A verdade é que não foram apenas essas questões que me fizeram recuar. Havia outros fatores envolvidos, coisas que me entristeceram absurdamente, que me deixaram confusa, desconfortável, sem saber muito bem o que pensar ou como reagir. E, sinceramente, até hoje não sei exatamente como definir essa porra toda.

Lembro de quando você tentou fazer com que eu conhecesse a sua família e me entendesse com eles. Fiquei MUITO feliz com isso durante um bom tempo. De verdade. Era como se você estivesse abrindo uma porta para que eu pudesse fazer parte de um pedacinho maior da sua vida, para que eu não fosse alguém tão distante ou tão separada das pessoas que eram importantes para você. Eu gostava da ideia de me aproximar, de construir algum tipo de vínculo e de sentir que havia espaço para mim.

Porém...

Porém, eu lembro de quando começaram com as fofocas. Ok. Talvez eu até merecesse uma parte delas. Eu também aprontei e me expressei mal em alguns momentos, mas não tanto assim.

Porém, eu também lembro de quando quiseram que eu me casasse com sua irmã. Por que caralhos? Até hoje não sei direito o que pensar sobre isso. De onde surgiu essa ideia? O que esperavam de mim?

Porém, eu lembro, principalmente, de quando seu irmão disse que a única coisa que queria comigo era me comer.

E essa parte me pegou de um jeito que talvez eu não tenha conseguido demonstrar na época. Ainda não sei definir. Porque eu já vinha de uma sequência de desânimos, de experiências que foram me desgastando aos poucos, de situações em que parecia que as pessoas simplesmente não conseguiam olhar para mim e enxergar muito além de ter alguma coisa sexual comigo. Eu já estava cansada de me sentir reduzida a isso, de perceber que, para algumas pessoas, todo o resto que eu era parecia não importar tanto quanto aquilo que elas poderiam conseguir de mim.

Eu já tinha passado por situações em que me senti vista apenas como um objeto sexual. Já tinha passado pela frustração de não conseguir o emprego que eu queria porque o responsável pela contratação era um pervertido, alguém que, em vez de avaliar minha capacidade e minhas qualificações, parecia enxergar outras possibilidades naquela situação. E são coisas que vão se acumulando dentro da gente, sabe? Uma decepção talvez não pareça tão grande quando vista isoladamente, mas, quando você já vem carregando outras tantas, chega uma hora em que tudo pesa muito mais.

E então acontecem essas coisas, uma atrás da outra, e você começa a não saber mais como se sentir. É raiva? É tristeza? É decepção? É vergonha por ter se colocado em determinadas situações? É cansaço? Talvez seja um pouco de tudo isso. E eu acho que foi justamente essa mistura de sentimentos que tornou tudo tão difícil para mim. Não era necessariamente uma única coisa, uma única pessoa ou um único acontecimento que me fazia querer me afastar.

Talvez eu não tenha sabido explicar isso na época. Para falar a verdade, ainda não sei explicar. Sei que no meio de tudo isso, havia você, minha querida Kyara. Uma das poucas coisas boas ao meu redor.

IV

4 pontos, porque escrevi em 4 momentos distintos. Nesse último ponto só para dizer: Espero que não seja um adeus, embora haja uma pequena parte de mim que acredita que você poderá levemente chateada por essa carta. Ainda assim, fiquei leve de finalmente colocar isso para fora. Eu sempre amei você, mas “haja o que hajar” agora.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!