Querida Kaya...
1 Querida Kaya...
Costa de Punk Hazard, Novo Mundo
“Querida Kaya...
Como você está? Sei o que você deve estar pensando agora: ‘Uma carta do Usopp? Depois de dois anos sem dar notícias?!’, e sinceramente, eu não a culpo por isso. Ficar dois anos sem dar um sinal de vida é no mínimo sacanagem, né? Espero que você não esteja zangada comigo. E nem que o Ninjin, o Piment e o Tamanegi estejam chorando as pitangas pela minha suposta morte, hehe.
Mas aqui estou eu, decidido á compensar essa tremenda bola fora. Já são quase três da matina, meus companheiros já devem estar no sétimo sono, mas eu ainda to firme no batente, escrevendo esta carta para você. Meus olhos estão coçando, a chama do candeeiro tá quase pra apagar, mas eu não vou me render facilmente. Afinal, que espécie de bravo guerreiro eu seria se deixasse meus grandes amigos e conterrâneos roendo as unhas por notícias minhas? Se segura na cadeira, que eu tenho uma pá de coisas pra contar!
Enquanto eu escrevo, fico me lembrando do dia de minha partida, quando me despedi dos meninos, do Merry e de você. Parece até que foi em outra vida! Porque quando eu deixei minha terra natal para seguir com o bando do Chapéu de Palha, eu não fazia ideia das aventuras que me esperavam! E se fizesse e saísse contando por aí, minha fama de mentiroso só ia piorar, haha!
Ah, Kaya, você não faz ideia do que estes olhos aguçados já viram em tão pouco tempo. Nem nas minhas invencionices mais fantasiosas eu poderia imaginar que viveria aventuras tão grandiosas, dignas de livros de ficção. Às vezes, eu penso até que estou sonhando. Que á qualquer momento eu vou acordar na minha cama, na minha pequena casinha, me preparando para sair correndo pela vila enquanto aviso da chegada de piratas imaginários. E foi o Luffy que me proporcionou tudo isso.
Sabe, Kaya, quando eu ainda pensava em ser pirata, sempre me imaginava como o capitão de uma grande e poderosa tripulação; imaginava meu nome estampado em jornais, cartazes de procurado, uma recompensa bem gorda pela minha cabeça. Imaginava as pessoas tremendo só de ouvirem meu nome. E olha só onde eu estou agora! Atirador do bando mais maluco de que se tem notícia, comandado pelo capitão mais pirado á navegar por estes mares! Quem diria, né? E olha que nem é uma coisa ruim, muito pelo contrário. É só que é bem difícil lidar com pessoas que tem pensamentos, opiniões e sonhos tão diferentes dos seus. Em especial o Luffy. Lidar com ele é complicadíssimo, já que ele não escuta ninguém e sempre faz o que lhe dá na telha. Isso já meteu a gente numa penca de confusões, muitas das quais me fizeram pensar que não escaparia com vida. Luffy pode ser bastante egoístas, ás vezes. Mas sabe... Ultimamente eu passei a compreendê-lo um pouco melhor. Não é fácil não se empolgar com tantas aventuras á nossa espera. E também não é fácil enfrentar tantas adversidades com um sorriso estampado no rosto. O Luffy é assim. Uma pessoa que vive cada dia como se fosse o último. Porque sendo um pirata, cada dia pode mesmo ser o último!
A gente se dá super bem, mas sabe como é... Duas cabeças pensam diferente uma da outra. Nós dois já tivemos os nossos desentendimentos. Uns meio bobos, outros sérios... É uma coisa da qual não gosto de lembrar. E é complicado colocar em palavras. Só te digo que não há nada pior do que se desentender seriamente com um amigo querido. Mas eu aprendi que opiniões diferentes devem ser respeitadas, e que bancar o teimoso e não querer enxergar uma coisa que está praticamente colada na sua cara não é a atitude certa á se tomar. Conviver com pessoas diferentes é bem difícil. Mas vale muito á pena, porque aprendemos muito uns com os outros. Dependemos do conjunto pra sobreviver nestes mares, e como é de praxe em todo grupo, há sempre aquele que nos mantém unidos. Luffy é a nossa cabeça e o nosso coração. E procurei entender isso, e hoje eu o admiro imensamente, como amigo e como capitão.
Não só ele, mas também todos os meus companheiros são gente finíssima. Você conheceu o Zoro e a Nami, mas conseguimos vários outros amigos ao longo da nossa jornada. Temos o Sanji (um tarado imprestável, mas cozinha que é uma beleza!), o Chopper (nosso médico, que pasme, é uma rena que fala!), a Robin (ela é meio quieta, misteriosa, mas é mais cabeça que a esquentadinha da Nami), o Franky (nosso carpinteiro louco de pedra, que aliais, tem me ensinado umas técnicas de marcenaria super úteis), e o Brook (nosso músico, um esqueleto que anda e fala... sério, não pergunte). Como você pode ver, a cambada só não é mais bizarra por que não dá. Cabeças diferentes, jeitos diferentes, pensamentos e opiniões diferentes... Nem preciso dizer que a gente vive se bicando, né? Mas é como eu disse, conviver com pessoas diferentes é um ótimo aprendizado. A gente se considera pra caramba. E acho que se não fosse por essa gente toda esquisita, eu não estaria aqui, escrevendo esta carta para você.
Ao lado dessa gente pirada, eu vivi as aventuras mais loucas e fantásticas que se pode imaginar! Se eu fosse te contar tudo tintim por tintim, essa carta ia ter umas cem páginas! Só posso te dizer que as histórias que eu te contava não se comparam ás coisas que eu vi e vivi por estes mares. Às vezes, é tudo super divertido. Mas também pode ser bastante assustador. O mar não cede espaço para corações fracos, Kaya. E com isso, eu to aprendendo e apanhando um bocado.
Imagino que você queria explicações para o meu chá de sumiço nesses dois anos. Bem, é difícil explicar. Se eu for te dar todos os detalhes, é capaz de você não acreditar numa única palavra. Tudo o que eu posso te dizer é que meus companheiros e eu aprendemos da maneira mais difícil possível a dureza que é esse mar, e que nem sempre é possível contornar todas as adversidades. Foram dois anos difíceis. Ainda mais para mim, que no fundo, sempre me vi como um fracote, um peso morto. E imagine o que é ver amigos que você sempre considerou os maiorais apanhando e sendo humilhados. Pois é.
Sabe, Kaya... Eu aprendi á duras penas que a vida no mar não é só uma grande festa. Tem os dias bons, ensolarados. Mas também tem os dias ruins, negros e tempestuosos, em que parece que tudo vai dar errado. E não podemos prever quando vai ser um ou outro. E com isso eu aprendi que precisamos ser, sobretudo, fortes. Não fortes no sentido de sermos capazes de levantar toneladas com um braço, ou de quebrar a cara de um inimigo em questão de minutos. Digo fortes no sentido de sermos capazes de suportar as maiores dificuldades com a cabeça erguida. Fortes no sentido de termos coragem para seguir nosso caminho, com a cara e a coragem, de preferência com um grande sorriso, porque sabemos que, se acreditarmos e perseverarmos, tudo neste mundo é possível. Acho que é assim que um bravo guerreiro dos mares deve pensar, não é?
Eu também aprendi sobre honra. Sobre manter nossas promessas, lutar pelo que acreditamos, sem nunca nos esquecer dos valores que seguimos. As coisas neste mundo não vêm com facilidade, Kaya. E seguir o caminho correto (e isso vai da cabeça de cada um) pode ser muito difícil. Mas é muito gratificante, por isso, vale a pena. Isso é meio estranho vindo de um pirata, né? Mas na minha jornada, eu conheci dois grandes homens (em todos os sentidos!), que lutavam bravamente sem se esquecer de seus princípios. A honra para eles era o seu maior tesouro. E eles eram piratas! Acho que o que você escolhe ser não precisa influenciar a forma como você vive. Esses dois caras eram assim. Homens valentes, honrados, lutando com unhas e dentes pelo que queriam, mas sem nunca se esquecer de seus princípios. Dois bravos guerreiros dos mares, e é exatamente assim que eu quero ser.
Sabe, Kaya... Antigamente, eu acreditava que ser um bravo guerreiro se resumia a encarar as maiores enrascadas com o peito estufado, uma pistola em uma mão e uma espada na outra, comandando uma frota de subordinados e sendo temidos por todos. Ah, mas eu amadureci! Discorri sobre isso em mais da metade desta carta, não é? Ser um bravo guerreiro é superar seus medos, valorizar as próprias palavras, saber respeitar as pessoas próximas e admitir a derrota quando necessário. Afinal, é preciso muita coragem pra se admitir um erro, uma gafe, um escorregão. Não existe amadurecimento sem falhas. Eu pelejei, apanhei, sofri, chorei, mas enfim aprendi uma valiosa lição. Dessas que a gente leva pra vida toda, sabe?
E é isso, Kaya. Somos nós e esse marzão, que á cada dia parece mais decidido á nos subjulgar. Mas ser um pirata é assim mesmo. E eu não tenho mais medo, não! Nós somos os senhores dos mares. Este é o nosso lar, e é á ele que pertencemos. É apenas um lar que nos testa, nos põe no limite todos os dias. É uma eterna prova de fogo. E até agora conseguimos nos sair muito bem!
Não sei quando está viajem vai acabar (se é que um dia ela vai acabar, hehe), mas quando isso acontecer, eu pretendo voltar para nossa vila. Com glórias, honras, cicatrizes de batalhas ferrenhas e milhares de histórias pra contar! Pode ser em alguns meses, um ano ou até bem mais. Mas só digo isso: fiquem atentos! Um belo dia, quando vocês menos estiverem esperando, olharão para o horizonte, para o mar que se estende infindável e verão um pequeno navio com a carranca de um leão entalhada se aproximando, e dele saltará um bravo guerreiro dos mares, pronto para os abraços, apertos de mão e recepções lotadas de risos e lágrimas! (argh, to me contagiando com a pieguice do Franky!)
Enfim, espero que esteja tudo bem contigo. Mande lembranças aos meninos, ao Merry e á todos da vila, e diga á eles que não se preocupem. O Grande Capitão Usopp está vivo, saudável como um cavalo e pronto para mais um milhão de aventuras! Estas que pretendo colocar em mais uma carta, algum dia desses.
Sinto saudades, Kaya. Mas não fique chateada. Um dia, nos sentaremos debaixo do carvalho no jardim da sua mansão, e eu te contarei mais um monte de histórias fantásticas. E dessas, você poderá ter certeza de que não são mentiras!”
Do seu sempre amigo,
Usopp
Notas finais
Espero mesmo que tenham gostado. Beijão e até uma próxima!
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