Querida Hazel
1 One-shot
Notas iniciais
Eu tive um ataque terça-feira. Estava assistindo Top chef com Augustus Waters quando fiquei sem ar e acabei desmaiando. Fui ao hospital de ambulância com o Gus, enquanto ele segurava minha mão e dizia que eu ia ficar bem. Estava meio acordada-meio dormindo. Chegando lá, Dra. Maria me atendeu, e descobrimos que meus pulmões estavam nadando em 2 litros de liquido. 2 LITROS! Isso é um absurdo, pulmões idiotas. Fui internada na UTI, e meus pais chegaram logo depois. Estava consciente, mas não quis abrir meus olhos. Como paciente terminal de câncer, podia pensar que estava prestes a morrer. Eu sei, talvez eu seja pessimista e exagerada, mas já tinha me acostumado com a ideia de bater as botas. Só me deixava triste o fato de deixar meus conhecidos aqui sozinhos. Tinha medo de estragar a vida das pessoas que me amam depois da minha morte.
Meus pais entraram no quarto branco da UTI, e já sabia que meu pai começaria a chorar, minha mãe a me encorajar e blá blá blá. Ainda não tinha aberto os olhos, então acho que eles não tinham como saber se eu estava inconsciente. Me sentia observada pela enfermeira e meus pais, até que minha mãe começou a falar:
-Ela é tão linda, não é? É estranho pensar que fomos nós que fizemos essa menina, tão perfeita...-‘ Ô, PODE CRER, MÃE! SUA FILHA PERFEITA TA COM CANCER, TA INCHADA, TA FEIA!’, pensei, ciente de que nunca falaria isso em voz alta.
Meu pai começou a chorar de novo, mas dessa vez minha mãe o acompanhou. Vish.
Uma enfermeira entrou no quarto, e chamou meus pais. Depois que ouvi a porta fechando, abri os olhos. Encarei o teto branco um tempo. Respirar era difícil, e estava me sentindo muito fraca e enjoada. Ouvi a porta se abrindo de novo, e rapidamente fechei os olhos, antes que alguém visse que eu estava acordada.
-Hazel Grace, eu sei que você está acordada.- Augustus disse, me olhando de braços cruzados.
-Droga. Sinto muito por me ver neste estado deplorável...- Eu disse, me escondendo embaixo e do lençol branco que me cobria. Augustus assentiu e se sentou em uma poltrona ao meu lado.
-Sabe, você me deu um baita susto. Aliás, no top chef o George foi eliminado, você desmaiou um pouco antes do final do episódio.- Augustus me disse, com aquela cara de sabe-tudo.
-Como foi o meu desmaio? Eu lembro de ter ficado sem ar, e depois tudo escuro.- Perguntei, me colocando em uma posição mais confortável.
-Bom, estávamos assistindo TV, aí você disse que se sentia mal. Perguntei se estava tudo bem, e você disse que sim. Aí você foi para o banheiro, e demorou muito. Comecei a ficar preocupado, e fui te procurar. Abri a porta do banheiro e você estava caída no chão.- Ele disse, tentando colocar uma pitada de humor, mas não conseguiu. Seus olhos se encheram de lágrimas, e fiquei com pena dele. Não disse nada, só assenti com a cabeça. Depois de algum tempo de silêncio, comecei a me sentir um pouco constrangida.
-Então o George foi eliminado? Droga, eu gostava tanto dele...- Comentei tentando puxar assunto.
-Sim, o idiota preparou omelete de peixe. Os juízes cuspiram no prato, e mandaram ele embora. Agora eu espero que a Melissa ganhe.- Ele me explicou, com seu sorriso torto lindo.
Meus pais entraram no quarto, e pediram gentilmente ao Augustus privacidade para conversar comigo. Ele fez que sim com a cabeça, sorriu pra mim, disse que já voltava, e saiu.
Meu pai me olhou, tentou sorrir, mas caiu no choro. Era aquele choro, desesperado, como de um bebê. Isso significava que algo estava errado. Droga.
-Hazel, minha querida. Minha filhinha, minha menina.- Minha mãe soluçou, vindo me abraçar. Antes de poder aproveitar o abraço, Alguém bateu na porta. A Dra. Maria entrou, e se pôs ao lado da cama. Ela estava com uma expressão triste. Ela tirou o cabelo dos meu olhos e começou a falar:
-Hazel, você é minha paciente há muitos anos. Eu acompanhei o seu diagnóstico, junto com o seu crescimento. Vi você se transformar em uma mulher batalhadora, corajosa. Querida, nós fizemos de tudo esses anos para te curar, você sabe disso.- Ela fez uma pausa. Já sabia que ela iria falar que eu ia morrer, obviamente com palavras mais delicadas. Minha mãe segurou minha mão, e meu pai segurou o choro. –O fato é que seus pulmões estão muito cansados. Eles sofrem há muito tempo, o liquido está se acumulando muito rápido. Você já passou por momentos assim, Hazel, mas dessa vez não creio que vai ser possível... Bem, não acho que seus pulmões vão ter força para continuar a lutar. Sinto muitíssimo.-
Meu pai caiu no choro, junto com minha mãe. A Dra. Maria abaixou a cabeça e saiu do quarto, sem dizer nada. Meus pais me abraçaram e ficamos assim, aproveitando nossas últimas horas, ou minutos, ou segundos. Deixava as lágrimas caírem no ombro de minha mãe. Não chorava pelo fato de estar morrendo, mas sim porque meus pais estavam muito tristes. Como Gus ficaria também.
Depois do nosso momento triste familiar, meus pais saíram, Gus entrou de novo no quarto, dessa vez carregando uma caixinha de suco.
-Peguei suco pra você!- Disse Augustus, sorrindo e erguendo a caixinha como se fosse um troféu.
Sorri enquanto ele enfiava o canudinho no buraco da caixa.
-Hazel Graze, acho que você é a única pessoa no universo inteiro que gosta de suco de kiwi com banana.- Disse Gus me dando a caixinha.
-Universo inteiro é exagero. Talvez em outra dimensão, num universo paralelo, em outra galáxia exista uma inteira nação movida á suco de kiwi com banana. Mas sim, em Indiana, eu provavelmente sou a única pessoa que gosta desse suco.- Eu respondi, enquanto bebia alegremente meu suquinho.
-Acho que só criaram esse suco pra sensação de ser único. A estúpida necessidade humana de se sentir original e diferente.- Augustus disse, e eu assenti. Ele se sentou na ponta da minha cama e ficou me observando.
-Eu te amo.- Gus me disse sorrindo.
-Eu também.- Respondi, deixando meu suco na mesinha do lado da cama.
-Ok.- Ele retrucou com os olhos mostrando carinho.
-Ok.- Eu respondi, sorrindo.
-Sabe, quando você sair da UTI, nós podemos visitar meus avós. Eles moram na costa. Seria super hiper mega legal.- Sugeriu Gus.-Imagina, Augustus e Hazel, navegando pelo mar, lalala!- Ele começou a cantar, mas eu o interrompi.
-Gus... eu não sei se eu vou sair do hospital.- Eu disse.
-Como assim? Você vai morar aqui? Eu vou ter que comprar suco de banana e kiwi para você todo dia?- Ele brincou, com os olhos triste. Entendi que ele realmente não tinha entendido que não ficaria mais muito tempo viva.
-Não, eu não vou sair do hospital viva.- Expliquei, triste. Os olhos dele se arregalaram, os ombros se abaixaram, e ele olhou pro chão.
-A Dra. Maria te disse?- Ele perguntou em voz baixa.
-Sim... Ela disse que meus pulmões estão muito fracos e o liquido está se acumulando rapidamente. Também estou com muita dificuldade para respirar, ou fazer qualquer coisa.- Expliquei, com o coração doendo por ter que explicar isso ao amor da minha vida. Ele não disse nada. Quando eu comecei a namorar o Gus, nós já sabíamos que eu iria morrer, e não demoraria muito. Fiz ele prometer que não ficaria deprimido e suicida depois de minha morte, mas ele ainda não tinha respondido.
-Augustus, você promete que não vai ficar muito deprimido depois da minha morte, né?-
-Hazel, eu não posso prometer isso. Você é o amor da minha vida, eu te amo mais do que tudo. Você é a única pessoa com quem eu consigo conversar. A única pessoa com quem eu ficaria para sempre. Se não fosse por essa merda de câncer, nós provavelmente não nos conheceríamos, mas nós dois seríamos felizes e saudáveis. Quando você se for, meu mundo vai cair, nada vai fazer mais sentido. Nós temos MUITO azar, Hazel. Como você espera eu não ficar deprimido se você se for, me deixando sozinho com as lembranças?-
Droga. Eu odiava quando o Augustus falava essas coisas tristes e românticas. Eu não disse nada, porque aquilo tinha me deixado meio tonta. Eu não queria ser uma granada! Eu não queria explodir e ferir as pessoas próximas. Explodir não tinha problema, mas eu não queria causar sofrimento com a explosão.
Gus me olhava com lágrimas nos olhos. Ele se aproximou e me beijou.
-Você já parou pra pensar como nós seríamos se não tivéssemos câncer? Provavelmente eu seria uma menina de cabelo comprido, magra, linda, e fútil. E provavelmente seria a garota mais bonita da escola, e namoraria o garoto mais bonito.- Eu imaginei, abraçando Augustus.
-Eu provavelmente seria o garoto mais bonito da escola e namoraria a garota mais linda. Ah, e também seria o rei do basquete.- Ele me abraçou mais forte, e ficamos assim até alguém bater na porta. Nossa, hoje o dia está movimentado, normalmente ninguém vem me visitar.
Kaitlyn entrou no quarto chorando. Chorando muito.
-Minha amada, seus pais me contaram! Eu vim correndo pra cá! Que vida de merda, Deus!- Ela chorava, e veio correndo me sufocar. Quer dizer, abraçar. Acho que ela não tinha percebido a presença do Gus, porque quando viu ele soltou um pequeno gritinho.
-Opa, desculpa minha indelicadeza. Nós ainda não nos conhecíamos, eu sou Kaitlyn, melhor amiga da Hazel. E você é o namorado superhipermega gostoso dela, né?- Começou Kaitlyn, enxugando as lágrimas e ainda soluçando. Ela deu dois beijinhos na bochecha do Gus, e voltou a conversar comigo. Antes dela se acalmar, bateram de novo na porta. Acho que minha mãe já tinha espalhado a notícia que eu iria morrer logo, e as pessoas queriam me visitar antes do inevitável acontecer.
Isaac entrou, tateando com a bengala o chão. Ele já conseguia fazer as coisas sem a ajuda da mãe.
-HAZEL? CADÊ VOCÊ? SE VOCÊ NÃO FOR A HAZEL DESCULPA, TALVEZ EU TENHA ENTRADO NO QUARTO ERRADO! É QUE NENHUMA ENFERMEIRA ME AJUDOU A ACHAR O QUARTO, E...- Começou Isaac, um pouco afobado, mas eu o interrompi.
-Sou eu, Isaac.-
Kaitlyn o pegou pelo braço e o guiou até a poltrona mais próxima.
-Monica? Quem foi essa pessoa que me pegou pelo braço? Hmm, tem cheiro de Monica.- Perguntou Isaac, com sua antiga fixação á Monica.
-Hmmm.... Não, eu me chamo Kaitlyn, sou amiga da Hazel.- Explicou Kaitlyn sorrindo.
-Ah ta. Desculpa. Você tem um cheiro muito bom.- Disse Isaac ficando vermelho. Kaitlyn também corou e murmurou alguma coisa parecida com ‘você também.’
Seguiu o silêncio constrangedor.
-Sinto muito, Hazel. Sua mãe me ligou do seu celular e me contou...- Isaac disse com a voz triste. Kaitlyn começou a chorar de novo. Pelo menos quando eu morresse a ela ainda teria amigos.
Seguiu o silêncio constrangedor de novo. Todos estavam tristes. Augustus não falava uma palavra, o que era estranho. Ele só olhava fixamente para o chão.
-Eu sinto cheiro de Augustus Waters. Ele está aqui?- Perguntou Isaac.
-Tô aqui, do seu lado.- Gus respondeu, ainda com voz deprimida.
-Eu vou dar uma volta.- Eu disse, já me levantando.
-Você não pode, vai ficar muito cansada.- Disse Augustus.
-Fodasse, eu vou morrer. O máximo que pode acontecer é antecipar um pouco a morte!- Eu respondi. Ninguém riu. Aliás, todos fizeram cara de irritados.
-Bom, eu vou. Preciso de um pouco de ar fresco.- Me levantei, e estranhamente ninguém me impediu. É claro, todos estavam com pena de mim e queriam fazer minhas vontades. Peguei meu carrinho de oxigenio e abri a porta.
-Então eu vou com você.- Disse Augustus se levantando. Isaac e Kaitlyn não quiseram ir, disseram que queriam nos deixar sozinhos.
Sai do quarto com o Gus, e encontrei meus pais no corredor. Eles ficaram bravos ao ver que eu estava fora da cama e me mandaram de volta ao quartinho. Porém, ao abrir a porta, eu levei o maior susto da minha vida. Quase morri com o choque. Meu coração deu 3 saltos triplos mortais com o que eu vi: Isaac e Kaitlyn se beijando. Se beijando não, se agarrando.
-QUE? COMO ASSIM?- Gritei, espantada, me deixando sem ar e me obrigando a me apoiar na parede.
-Ehm... Acho que a química foi muito forte.- Respondeu Kaitlyn, dando a mão ao Isaac. Augustus ria, e eu estava horrorizada. Ok, até que eles faziam um casal fofo, mas tinham se conhecido há 10 minutos!
Depois que Isaac e Kaitlyn foram embora, fiquei sozinha com Augustus de novo. Ele estava muito mais triste do que eu. Aliás, eu estava até normal. Não estava nem preocupada, nem com raiva, nem nada. Gus ficava encarando o chão, sem dizer nada, e ás vezes deixava escapar alguma lágrima. Estávamos juntos há 8 meses, e não tínhamos brigado nenhuma vez. Nós éramos o casal perfeito, e ninguém poderia negar.
Um dia se passou, e meus pais e Gus não saíram do hospital nenhuma vez. As visitas vinham e saiam, todos choravam e me encorajavam. Vieram pessoas da minha antiga classe da escola, meus avós, minhas tias, os pais do Gus, e até algumas pessoas do grupo de apoio, incluindo Patrick. Dois dias se passaram, e eu comecei a me sentir mal. Me sentia enjoada, fraca e tonta. Pensava que dali a provavelmente 2 semanas provavelmente estaria enterrada com meu vestido mortuário, em paz, sem dor, tranquila.
No terceiro dia de hospital, Gus começou a falar mais, ele voltou ao normal.
-Hazel, eu estava observando o papel de parede do corredor... São cachorros dirigindo carros, é isso? Bom, esses cachorros são extremamente assustadores.- Ele falava coisas do tipo.
Ás vezes Gus lia em voz alta uma aflição imperial, e alguns livros que ele pegava na biblioteca da escola, como o mundo de Sofia. Meus pais raramente nos deixavam sozinhos.
No 4 dia de hospital, não conseguia respirar. Sentia que aquele era o momento. Aquele seria o dia de deixar de ser uma pessoa, de bater as botas. Meus pais pediram ás enfermeiras para só não me fazer sentir dor. Fiquei 2 horas com falta de ar, até que chegou um momento que eu não aguentei mais. Deitei minha cabeça no travesseiro e fiquei esperando ela chegar. A morte. Gus segurava minha mão, e dizia que me amava. Me amava mais do que qualquer coisa. Tinha vontade de responder ‘eu também te amo muito, Augustus Waters’, mas não tinha ar suficiente para falar uma frase. Eu tinha prometido á mim mesma que escreveria um bilhete pra todas as pessoas que eu amava naquela tarde, mas eu não aguentei até lá. Agora eu teria de partir com as despedidas presas no coração, deixadas na memória. Meus pais estavam abraçados, me olhando, chorando. Eu fechei os olhos, tentando eliminar a dor. Comecei a ver coisas, como o dia que fui diagnosticada com câncer, e o lago que tinha perto da nossa casa. Lembrava de coisas engraçadas e não conseguia mais pensar com clareza. Era como estar com muito sono, tentando se manter acordada. Nada mais existia: Só eu e a dor. Só sentia os meus pulmões fazendo força, e minha cabeça querendo explodir. Ouvia vozes gritando o meu nome, dizendo que me amavam. Nada mais importava.
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