Rowan

Ela desceu do ônibus escolar num salto, perdendo o equilíbrio ao julgar tropeçar no meio-fio – para logo em seguida constatar ter sido na verdade empurrada por um dos garotos do terceiro ano.

– Sai da frente, sua freak! – a voz do brutamontes loiro integrante do time de futebol somou-se às risadas debochadas de seus colegas de sala e equipe. – Não me lembro de ter pagado ingresso do circo pra ver gente que nem você logo no início do dia!

Seus dentes se retraíram quase a ponto de trincar, os punhos se fecharam rígidos – porém conteve a raiva. Num suspiro, ajeitou a mochila às costas e a mecha de cabelo roxo que lhe caíra para o meio da face com o empurrão. Diminuiu o passo, deixando que o resto dos alunos deixasse o ônibus e passasse à sua frente – querendo evitar tanto novas gracinhas quanto ficar perto o bastante para ouvir suas conversas ridículas, a maioria caçoando dela.

Assim que o último par de garotas desceu, lançando olhares de menosprezo e sorrisinhos irônicos para ela, voltou a andar normalmente, abraçando o próprio tronco coberto pela modesta blusa de lã para se proteger do vento gelado, os cabelos cor de beterraba erguidos pela torrente – e seu rabo de cavalo balançando para lá e para cá feito um pêndulo.

O outono chegava ao fim, e ela nunca quisera tanto a chegada do inverno. Além do recesso das festas de fim de ano, que a permitiria ficar longe daquela odiosa escola, a mãe prometera uma viagem e tanto daquela vez. Uma convenção na pequena cidade de Ojai, Califórnia. Dissera que o lugar tinha a barreira entre o mundo físico e espiritual muito fina, permitindo atravessar fácil para o outro lado – além de estabelecer contato com as entidades que vinham dele. Era certo que teriam de atravessar o país, mas a ideia a empolgava, principalmente por ser a primeira vez que conheceria outras pessoas com a mãe, com o mesmo ofício que ela mesma estava em vias de aprender...

Outras feiticeiras.

A própria Rowan tivera muitas dificuldades para aceitar aquela realidade quando mais nova. Fora criada dentro de casa por muito tempo, num lar sem pai, e a mãe nunca se privara de usar magia diante dela – como levitar objetos de um cômodo a outro ou fazer uma bela poção de cura quando ela pegava qualquer doença. Só que quando começara a se aventurar do lado de fora, primeiro com os coleguinhas de vizinhança (que logo a rejeitaram) e depois na escola, passou a comparar – e viu que todos a achavam louca quando falava em encantamentos ou maldições. O mundo da feitiçaria era uma seção à parte do mundo em si, e logo a mãe a alertou sobre manter segredos e aparências – até mesmo quando os primeiros dons de Rowan se manifestaram, e ela teve de combater o impulso de mostrá-los aos conhecidos; tendo de esconder a única coisa em que realmente era boa.

Enquanto seguia caminhando chutando algumas pedrinhas pela rampa até a entrada do colégio, a garota imaginou se algum dia aquilo mudaria – se ela poderia tornar públicas sua verdadeira essência e habilidades. O mundo andava muito mais simpático aos feiticeiros desde que aquela escritora britânica lançara “Harry Potter” e mais um monte de gente passara a estudar a respeito; porém Rowan vivia na pele o preconceito das pessoas e o quão estranhariam saber ser aquilo tudo real. Ao invés de aceitá-la e admirá-la, aumentariam suas zombarias e a isolariam ainda mais. Daria de graça um novo motivo para que a taxassem de “aberração”, além do porte mirrado e do gosto por roupas góticas e tinta de cabelo que possuía.

Atravessou a porta de vidro da escola e rumou para um dos corredores, evitando aglomerações de alunos enquanto rumava até seu armário. Abrindo-o com a pequena chave sempre carregada em seu bolso, apanhou o livro de Estudos Sociais, já que a primeira aula seria do Sr. Baxter. Gostava muito dele e de sua matéria, principalmente da maneira como ele tratava assuntos polêmicos que geralmente despertavam preconceitos das pessoas – feito a aula em que ele destrinchara a execução das Bruxas de Salem uma semana antes, inclusive defendendo as moças mortas. Ocupando a posição que ocupava de “alvo de esculacho” da turma desde o primário, alguém com mente aberta facilmente era alvo de simpatia de Rowan...

BLAM!!!

A garota pulou de susto quando a porta de seu armário foi batida com força por um garoto que passava, rindo junto com algumas garotas conforme se afastaram. Rowan retraiu-se, abraçando o livro que acabara de pegar – a mexa rocha voltando ao centro de sua testa. Por que aquela gente não a deixava em paz, afinal? Aliás, por que tinha de continuar frequentando aquela maldita escola? A mãe, além de querer manter o aspecto de “família normal” frente os assistentes sociais que volta e meia os importunavam, desejava que a filha perseguisse uma carreira “comum” em paralelo às atividades como feiticeira, talvez até para ser melhor aceita, no futuro, caso fosse propício revelá-las. Acontece que há tempos Rowan já não estava certa se tal sacrifício valeria a pena, fosse no presente ou no futuro. Tinha cada vez mais vontade de jogar tudo para o alto e mostrar quem era, nem que fosse para botar medo naqueles imbecis ao seu redor.

Atrapalhada, fechou de novo o armário e puxou com os dedos a chave para fora da tranca, ainda meio abraçada ao tomo de Estudos Sociais. Em seguida retraiu a mão e fez menção de guardar novamente a chave no bolso... quando a deteve brevemente diante de si, examinando sua diminuta estrutura de metal prateado.

Aqueles idiotas arrogantes... Achavam-se tão cheios de si, tão superiores a ela. Além do ego inflado, talvez a perseguissem, inclusive as meninas, por ser muito baixinha, incapaz de se defender fisicamente se quisesse. Consideravam-na fraca, impotente. Caso pudesse usar seus dons e deixar todos aqueles malditos do tamanho daquela chavezinha, com poucos centímetros de altura, capazes de caber em sua mão e serem guardados em seu bolso... Ah, o mundo se inverteria de uma maneira que não poderia agradá-la mais!

Entre os encantamentos que sua mãe vinha lhe ensinando, Sic parvis magna era o que tratava de encolhimento. Curiosamente, aprendera em Estudos Sociais que o nome da magia também havia sido o lema de Sir Francis Drake, antigo corsário inglês. Ela já o testara com pedras e plantas, conseguindo sucesso e achando até ser um truque bem simples de ser feito – presenteando sua prima Amy, no último verão, com um bonsai que na verdade fora uma árvore diminuída por ela a pedido da mãe que atrapalhava a construção da nova garagem no quintal. Em latim, o encantamento significava “Grandeza das pequenas coisas”. Achava irônico. Aqueles alunos do colégio eram diminutos de pensamento mesmo com seu tamanho grande. Talvez encolhê-los fosse deixá-los apenas no patamar ideal, também reduzidos de corpo...

Por que não posso usar minhas habilidades para me defender? Não seria nada permanente, apenas dar-lhes um susto, ninguém descobriria. Poderia usar um feitiço de anulação de memória depois... Me divertir às custas desses brucutus.

A campainha do sinal reverberou por todo o colégio, e Rowan, depois de atirar desajeitadamente a chave de volta ao bolso, apressou-se com o livro em mãos rumo à primeira aula do dia. Conforme caminhou, ouviu novas risadas, uma patricinha do primeiro ano implicar com seus coturnos, e uma outra do terceiro fazer um gesto jocoso no próprio cabelo, de certo desmerecendo o dela.

O dia seria longo.

Ao atravessar a porta da sala do Sr. Baxter, a garota de cabelos beterraba rumou até a última carteira da fileira junto à janela, lugar de costume em todas as outras aulas. Isolar-se significava proteger-se; e se ficasse envolvida pela aula de Estudos Sociais, de certo faria o tempo passar mais rápido e ignoraria as contínuas zombarias contra si.

A não ser que, daquela vez, decidisse deliberadamente perder a paciência e pôr em prática sua “brincadeira”...

Sic parvis magna.

Endireitou-se no assento com a chegada do professor. A aula ia começar.

*

Sobre as inscrições para a história:

– Há vaga para 6 personagens, que serão os alunos do colégio encolhidos pela Rowan por caçoarem dela (ou ela julgar terem caçoado) e que viverão as aventuras do enredo.

– Enviem as fichas pelos comentários da história ou para mim por mensagem privada.

– POR FAVOR, leiam o prólogo todo acima antes de se inscreverem. É importante que conheçam a personagem da Rowan e entendam suas motivações para criarem seus personagens. Seria interessante, inclusive, se criassem personagens que estivessem relacionados a ela de alguma maneira: alguém que a persegue há tempos; um garoto ou garota (sim, pode ter Yuri!) a fim dela há tempos que ela não sabe; uma única amiga ou amigo que ela tenha, alguém de quem ela é a fim, etc.

– A história será escrita em POVs, assim como este prólogo foi feito pelo POV da Rowan – então cada parte será narrada pelo ponto de vista de um dos 6 personagens (embora os outros também apareçam nesses POVs).

SEGUE O MODELO DE FICHA PARA INSCRIÇÃO:

Nome:

Gênero:

Idade: (entre 15 e 17 anos)

Aparência:

Breve histórico: (onde vive, com quem mora, como é a família, acontecimentos principais da vida, etc.)

Personalidade:

Hobbies:

Comentários adicionais (algo específico do personagem que queira que seja inserido na história)

Os 6 primeiros inscritos serão os 6 personagens principais com POV na história. Se houver comentários adicionais após o fechamento das inscrições, posso estudar inseri-los como personagens coadjuvantes com participação menor na trama.

Divirtam-se!