Querida, Eu Encolhi o Colegial - INTERATIVA
3 Capítulo 2 - Jenna
Notas iniciais
Jenna
A voz começou abafada, mas ganhou nitidez conforme a garota viu-se obrigada a reduzir o volume do amplificador ligado ao baixo:
– Jenna, venha tomar café, ou vai se atrasar para a escola!
Bufando, ela passou a correia do instrumento por cima da cabeça e deitou-o cuidadosamente em sua cama, aos pés das paredes todas cobertas por pôsteres de bandas de rock. Tia Wilma era um amor, porém conseguia ser chata quando o assunto era evitar atrasos – algo para que Jenna não ligava muito.
Antes de mais nada, a garota rumou até o comprido e esguio espelho do quarto – parecendo reproduzir sua própria aparência – e penteou os cabelos ruivos de modo a deixar cair várias franjas sobre o rosto. Os fios terminavam logo acima de seus penetrantes olhos verdes, seguidos mais abaixo por várias sardas pintando-lhe a pele toda do nariz às bochechas. Com a cabeleira deixada como queria, cobriu o busto até então só de sutiã – como gostava de ficar na privacidade de seu quarto – com uma camiseta regata preta contendo estampa do Black Sabbath. O tamanho da peça era maior que seu manequim, deixando-a folgada em seu corpo magro, como gostava. As pernas deslizaram para dentro de uma calça jeans rasgada propositalmente nos joelhos, e os pés logo calçavam um par de All-Stars vermelhos com vários desenhos a caneta – de emblemas de bandas a instrumentos musicais.
– Jenna, venha logo! – a voz esganiçada de Tia Wilma repetiu-se vinda da cozinha.
– Calma, já estou indo...
Apanhou a mochila, atirou algumas notas de dinheiro no bolso para o lanche e deu uma última espiada dentro do quarto – detendo o olhar mais sobre seu baixo – antes de finalmente fechar a porta. Não gostava dos tios bisbilhotando seu espaço. E, na busca de uma banda legal para tocar, precisava conservar a integridade de seu instrumento.
Ganhou a cozinha e sentou-se à mesa para tomar o café da manhã de waffles e leite dentro dos dez minutos antes que o ônibus escolar chegasse. Enquanto cobria o prato com calda de caramelo, fitou de canto de olho a tia lavando algumas peças de louça, enquanto Tio Michael, sentado do lado oposto da mesa, tinha todo o corpo da cintura para cima oculto atrás do jornal do dia aberto diante de si. A manchete, virada para Jenna, falava algo sobre a guerra na Síria. E ela de imediato lembrou-se dos pais.
Viver com os tios paternos há mais de seis anos por conta de seus pais serem diplomatas relevantes nas regiões de maior risco do planeta – ou “de vital importância estratégica para os Estados Unidos”, como alguns colegas do pai preferiam rotular – era uma rotina à qual Jenna já estava mais que habituada, embora se preocupasse com a segurança deles várias vezes ao dia. Da última vez em que falara com a mãe por telefone, há duas semanas, ela informara estar com seu pai na Turquia preparando-se para uma reunião de cúpula sobre a libertação de reféns norte-americanos pelo Estado Islâmico; esse tipo de ocupação sossegada que qualquer família leva para ganhar a vida...
A garota terminou os waffles e o copo de leite – puro e gelado, conforme gostava – no tempo de sete minutos, batendo o próprio recorde. Levantou-se da mesa sem cerimônia, acenando ao tio, que a ignorou devido ao jornal, e dando um beijo no rosto da tia. Quando deu por si, já estava na calçada em frente à casa aguardando a chegada do transporte até o colégio. Tirou o iPod cheio de adesivos do bolso, levou os fones aos ouvidos e, pressionando play com um dos despretensiosos dedos de unhas vermelhas, deixou a música fluir por seu corpo...
Cast your ideals on to me
And I'll show you what you really need
Give too much attention
And I'll reflect your imperfections
“Muse” logo de manhã costumava animá-la de uma maneira estranha, como se a impelisse, numa vontade entorpecida, a lidar com os afazeres do dia. Embalada pelo timbre dramático do vocalista, Jenna olhava ansiosa para os lados aguardando o ônibus, a mesma pergunta ribombando em seus pensamentos como em cada início de dia...
Será que Greg iria à aula ou não?
Sentia-se uma imbecil por ainda nutrir esperanças, porém não podia evitar. Greg Mitchell era o guitarrista do terceiro ano que tocava na bandinha de rock do colégio, os Acultured. Conhecia-o desde o primário; e se antes o admirava por ser extrovertido e engraçado, há tempos sonhava com ele devido ao seu talento ao tocar, e se sentiria a garota mais feliz da face da Terra caso um dia ele a chamasse para sair...
Tipo, no dia de São Nunca.
O que atrapalhava tudo era a timidez de Jenna. Ela não falava com praticamente ninguém – os poucos amigos que fizera na escola só tendo sido possíveis por conveniência, já que ela era boa em Física e Matemática. Raramente sua voz era ouvida na sala de aula ou até mesmo nos corredores – gerando as típicas brincadeirinhas de “Nossa, como a Jenna não para de falar!”; e se não conseguia nem começar uma conversa com as meninas de sua sala, imagine só com o garoto de quem era a fim. Estava se saindo perfeita para a filha de dois diplomatas. Será que era adotada?
A maior esperança que tinha de se aproximar de Greg era conseguir tocar na Acultured – se eles já não tivessem o Ted Simmons como baixista, por sinal bem mais competente que ela. O garoto do segundo ano era estável no grupo e de certo continuaria com eles mesmo depois que terminassem o colegial – visto serem todos da mesma cidade. Desse modo, tanto o sonho de Jenna tocar numa boa banda quanto sua paixão platônica por Greg iam pelo ralo...
Sua autopiedade só não a consumindo mais porque o forte guincho do freio do ônibus tirou-a de suas lamúrias, a porta se abrindo para que entrasse.
Subiu pelos degraus, lançou um rápido olhar ao motorista e ganhou o corredor em busca tanto de Greg quanto de um assento. Sua casa era um dos últimos pontos antes da escola, por isso o veículo já estando, como de costume, praticamente lotado – ela tendo de dar a cara a tapa e pedir para se sentar com alguém, que por azar nunca era Greg. Jenna avistou o garoto ao fundo do ônibus, conversando animado com seus colegas de bandanas e jaquetas de bandas... mas o único lugar vago era ao lado de uma garota de trajes góticos e cabelo bem roxo. Rowan, a menina estranha de sua classe.
Purposeless survival
Now there's nothing left to die for
So don't struggle to recognize
Now the cruelly heart-felt suicide
– Com licença? – Jenna indagou com o rosto queimando, imaginando suas sardas ainda mais vermelhas. – Posso sentar aqui com você?
A colega pareceu pega de surpresa com o pedido, arregalando os olhos para ela. Talvez falara alto demais por conta dos fones aos ouvidos, porém a verdade era que ninguém nunca queria se sentar com Rowan. Mas Jenna não via problema nisso.
– Tá, OK... – ela respondeu meio evasiva, baixando o olhar. – Pode sentar.
A ruiva tirou a mochila das costas e acomodou-se ao lado da “freak”, embora não visse nela nada disso. Achava-a na verdade bastante descolada, estilosa ao se vestir e admirava muito como as tinturas pegavam bem em seu cabelo, daquele roxo-beterraba ao verde-musgo que ela usara até meses antes. Daria uma ótima integrante de banda pela aparência, talvez até uma boa vocal – não sabia a razão, mas imaginava que ela poderia cantar bem. Ao menos seria legal a beça estar numa banda com alguém do estilo dela.
Só que não falou nada disso. Não teve coragem, como sempre. Pior: sentiu-se mal por não conseguir mostrar a Rowan que ela poderia ter uma amiga, por pura e simples retração, algum tipo de timidez patológica. Lançando apenas olhares esguios à colega de quando em quando, permaneceu em silêncio o trajeto todo – tentando concentrar-se na música do iPod para não ouvir a voz e as risadas de Greg assentos atrás.
Can't you see it's over
Because you're the god of a shrinking universe
Can't you see it's over
Because you're the god of a shrinking universe
O ônibus chegou. Jenna sempre preferia que ele se esvaziasse um pouco antes de sair, mais para evitar o próprio contato com as pessoas do que tumulto. Ficou de pé no corredor para dar espaço a Rowan descer – a garota sempre com pressa de certo para evitar chacotas – e viu, através de uma janela, quando um dos jogadores de futebol do terceiro ano a empurrou ao subir na calçada.
Malditos babacas...
Sentiu pena dela. Por que nunca reagia? Será que não se achava capaz? Ela não deveria se mirar, ainda que inconscientemente, no exemplo de Jenna; e sim tomar as rédeas da própria vida e impor respeito para que aquela gente a deixasse em paz. Ser a deusa de seu próprio universo... A reflexão passou por sua cabeça enquanto, mordendo um lábio, o refrão do Muse era cantado pela última vez na música:
Because you're the god of a shrinking universe…
Foi uma das últimas a deixar o ônibus, subindo pela rampa até a entrada do colégio e grata por ter perdido Greg de vista. Tentou se animar com algo: a primeira aula do dia era de Estudos Sociais, uma das melhores coisas que a escola podia oferecer. Mais uma coisa que possuía em comum com Rowan, sabendo que a colega também apreciava a matéria por todas as perguntas que fazia durante as explicações do Sr. Baxter...
Mas que tampouco lhe falaria.
Fale com o autor