Querida, Eu Encolhi o Colegial - INTERATIVA
2 Capítulo 1 - Cassandra
Cassandra
Remexeu as panquecas em seu prato com o garfo, não se sentindo muito disposta a comer. Quando aqueles dias do mês chegavam, tudo que queria era que a tempestade passasse rápido e seus raios não fulminassem ninguém – ao menos não mais que o normal.
Era sabido em todo colégio que Cassandra McFarlane podia ser chamada de “menina má”. Família rica, julgada nariz empinado (por mais que, ao espelho, achasse-o mirradinho), sempre andando com as mais ostentosas patricinhas do pedaço. Mas o fato era que, de TPM, às vezes nem mesmo as colegas de berço dourado conseguiam aguentá-la – e ela muitas vezes tinha de se conter.
Passinhos apressados ecoaram pelo mármore dos corredores da casa, os amplos cômodos sempre intensificando os sonhos e anunciando a chegada de alguém a metros de distância. Levando em conta a leveza dos pés, era a irmã caçula de Cassandra, Eliza, correndo até a cozinha ao ser informada pela empregada de que ela já se levantara. Nunca deixavam de conversar antes de cada uma partir para sua escola, a irmã de Cassandra ainda na terceira série. Por mais que a mais velha não raro demonstrasse irritação, por dentro amava aqueles encontros. Diante da negligência do pai e as constantes ausências da mãe, a pequena era sua única companhia naquela opressora casa toda erguida em vidro.
Tendo seus cabelos loiros, como os de Cassandra, repartidos em duas maria-chiquinhas; e vestindo macacão azul sobre uma camiseta xadrez, Eliza adentrou a cozinha e acomodou-se na cadeira ao lado da irmã, trazendo uma Barbie despenteada numa mão e usando a outra para puxar uma travessa já pronta de cereal ao leite até si. Ela provou duas ou três colheradas da mistura, antes de voltar os olhinhos brilhantes a Cassandra e perguntar:
– Você quer brincar de boneca comigo hoje depois da escola?
A irmã mais velha riu, fazendo uma careta à caçula.
– Não sei se você percebeu, mas já estou meio velha para brincar disso, né?
Eliza também riu em resposta, porém foi uma risada gostosa, inocente; diferente do tom irônico usado por Cassandra.
– Não sei por que se importa, suas amigas não vão saber! – a pequena emendou. – Tem que ver a casa de bonecas nova que papai me deu! Aposto que quando ver, vai querer ficar pequena e fazer uma festa com suas amigas do colégio nela. Tem até piscina!
A careta de Cassandra se desfez, ao mesmo tempo em que uma repentina tristeza tomava seu íntimo. Gostaria de voltar àquela época, tornar a ser ingênua, pura e meiga como a irmã. “Desver” todas as brigas entre o pai e a mãe que presenciara quando mais nova, antes mesmo de Eliza nascer ou quando ela era ainda bebê – considerando verdadeira benção ela não se lembrar. E, acima de tudo, retornar a uma época em que eram ao menos mais próximos de se passar por uma família normal.
– Não sei se percebeu, mas nós já moramos numa casa de bonecas de tamanho grande... – acabou suspirando. – E não somos lá muito felizes.
Eliza ignorou o comentário, mostrando a língua à irmã enquanto brincava com a Barbie à mesa. No segundo seguinte, a porta da cozinha dando para o quintal abriu-se repentinamente. A silhueta do pai, metido em seu casaco marrom e com a maleta de negócios sempre à mão como se fosse extensão natural de seu corpo, surgiu dentro da casa quase feito um espectro, murmurando com a habitual voz distante, sem sequer lhes dirigir o olhar:
– Acelere com o café, Cassandra. Vou levá-la ao colégio hoje.
Soltando o garfo, a garota mais velha desistiu tanto de brincar com a comida quanto prová-la. Perdera de vez o apetite.
*
A Mercedes percorria os subúrbios nem muito lenta e nem muito rápida, refletindo a personalidade sem cores do homem que a dirigia. Cassandra, emburrada no assento do passageiro, tinha o cotovelo apoiado na porta e o queixo escorado na mão. Não dirigia olhar algum ao pai, tentando se distrair com a paisagem do trajeto – falhando em afastar os pensamentos ruins. Tampouco se esforçava em puxar qualquer assunto com ele – e sabia que a recíproca seria verdadeira. Sempre era.
O pai começara a se distanciar dela ainda na infância, e desde então os anos haviam aberto verdadeiro precipício entre eles. Não agia do mesmo modo com Eliza, o que impedia Cassandra de atribuir o “gelo” a só mais uma consequência do jeito passivo que ele tinha. Não que fosse o melhor pai do mundo à caçula, mas era visível que em relação a ela ao menos se importava, não fazendo as coisas por mera obrigação – como levar Cassandra de carro à escola sempre que ela não conseguia carona com as amigas para evitar que pegasse o ônibus com a “ralé”, algo de que ele a proibira ainda no primário.
A verdade era que, para evitar aquele clima péssimo, a garota preferia até ir a pé. Não sabia por que o pai insistia tanto em bancar o responsável por ela quando odiava a tarefa. Na verdade, ela sempre quis descobrir ao menos a razão de tanto descaso.
Percorreram mais alguns quarteirões no mais completo silêncio, Cassandra disfarçando ora ao olhar para as unhas recém-pintadas na noite anterior, ora ajeitando os cabelos loiros fustigados pelo vento do outono. Não se sentia confortável sequer a ligar o rádio do carro, e foi dando graças às fadas-madrinhas-repelentes-de-pais que viu o prédio da escola surgir logo à frente, após um conjunto de árvores.
O pai estacionou logo atrás da fileira de ônibus escolares que chegavam, à vista dos alunos descendo; deixando claro a todos que sua filha não merecia se aglutinar ao resto do “populacho” – o que a Cassandra ao menos era conveniente para ser respeitada dentro da escola, acolhida no grupo das garotas populares e impressionar os rapazes. Era claro que a família já a matriculara em escolas particulares no passado, algo que achavam ser “mais digno” de sua estirpe; no entanto jamais se enturmara nelas, acabando isolada e desenvolvendo um princípio de depressão – a mãe por isso optando que ela cursasse o colegial numa escola pública. Não pudera tomar decisão mais acertada, já que o colégio, atualmente, era o único lugar em que Cassandra conseguia esquecer o terrível ambiente do lar.
– Tenha um bom dia – a voz mecânica do pai foi ouvida por ela às suas costas, já engatando primeira para partir na Mercedes. Não era um desejo legítimo, e sim uma conveniência diante de todas as outras garotas que a olhavam, desejando ter ao menos um décimo da vida que ela e a família aparentavam ter.
Cassandra, de sua vez, sequer olhou para trás.
Percorrendo com o olhar a multidão recém-saída do ônibus, Cassandra logo encontrou suas amigas do segundo ano: Deborah, Alisson e Maggie. Vinham trazendo as mochilas penduradas num dos ombros fofocando e trocando altas risadas, Cassandra juntando-se a elas entre sorrisinhos de cumplicidade. Juntas, formavam o quarteto mais temido pelas demais alunas da escola, tanto pela aparência – visto serem consideradas as mais lindas e disputadas pelos garotos – quanto pelo veneno que desferiam apenas com o olhar.
Deborah tinha dezessete anos, sendo mais velha que as outras três garotas, de dezesseis – não por ter repetido de ano, mas por ter entrado na escola um pouco mais tarde no primário. Por isso acabava ocupando a posição de líder do grupo, seus cabelos negros e pele bronzeada causando bilhões de pensamentos invejosos por quilometro quadrado. Alisson, de madeixas castanhas e olhos verdes tão intensos quanto “caleidoscópios de esmeralda” – comparação divertida surgida de um poema sobre o qual tinham feito trabalho nas aulas de Literatura do primeiro ano – era a mais “bem-informada” entre as quatro, tendo um ouvido para fofocas tão bom quanto poderiam desejar. Maggie, loira como Cassandra, mas de cabelos cortados bem curtos, era a mais “diplomática” entre elas, conseguindo interagir com as demais tribos e panelinhas do colégio e sendo a única enxergada com maior simpatia por aquelas nutrindo antipatia pelo grupo – embora não raro usasse isso como máscara a favor das amigas.
As três garotas eram líderes de torcida do time de futebol do colégio, irresistíveis e contagiantes com seus tops decotados e pompons, sempre insistindo para que Cassandra também se tornasse uma. Ela morria de vontade, mas não o fazia por resistência dos pais, que condenavam a filha se expor daquela maneira – embora recentemente estivesse criando coragem para fazer os próximos testes mesmo sem eles saberem. Já que o pai tinha tanto descaso por ela, poderia muito bem aguentar a “vergonha” por algo que na verdade era inofensivo.
Como era costume, Cassandra de imediato comparou sua vestimenta com a das colegas. Enquanto estas vestiam blusinhas e saias coloridas, moderadamente adornadas com enfeites como pulseiras e brincos, Cassandra usava uma blusa azul de botões com as mangas puxadas até os ombros e calças jeans encimadas por um cinto de fivela com contorno de coração – traje condizente tanto com o dia ligeiramente frio quanto com seu jeito delicado. Os pés calçavam botas marrons de zíper bastante confortáveis, enquanto as amigas desfilavam com caros tênis esportivos – já preparadas para o treino das líderes de torcida aquela tarde, quando vestiriam os uniformes que traziam em suas mochilas.
Num suspiro, Cassandra achou-se um pouco desmazelada e pobre em relação às companheiras, porém procurou ocultar o incômodo. Ainda não sabia, mas após os acontecimentos daquela manhã, na verdade, ela passaria um bom tempo sem poder trocar de roupa...
– E aí, Cass, como está? – Maggie a cumprimentou, chamando-a pelo apelido, as quatro sempre brincando que o duplo som do “s” era denotado por ele e lembrava um chocalho de cobra, condizendo muito com a dona.
– Querendo saber se o treino de hoje das líderes de torcida será acompanhado pelo treino do time de futebol – a recém-chegada afirmou, já que treino de futebol era sinônimo de “garotos mais bonitos da escola” em campo. – Sabem de algo?
– Infelizmente aquele mala do treinador Trevor adiou o treino dos meninos para sexta... – murmurou Deborah, cruzando os braços. – Mas na falta dos meninos, há outras coisas para nos divertimos. Tipo a “Elvira, Rainha das Trevas” ali, ó.
A líder do grupo apontou discretamente para o último ônibus escolar a chegar. Dele acabara de descer uma menina esguia e baixinha de cabelos tão roxos quanto beterraba, carregando a mochila meio desajeitada enquanto sofria um empurrão do Peter, do terceiro ano, ao subir na calçada. As três amigas de Cassandra não contiveram as risadas, que tentaram tornar mais sutis com as mãos sobre as bocas e os olhares desviados, porém Cass não conseguiu acompanhá-las. Não naquele caso.
Rowan...
Mais confusa que sua família era determinar o que sentia por aquela garota. Conhecera-a no primeiro ano, quando veio transferida sabe-se lá de onde. Sempre quieta e retraída, isolada em seu canto, e sendo alvo das mais pesadas brincadeiras por parte de todos. Não, era incrível: Rowan conseguia ser “saco de pancada” de todas as tribos da escola: patricinhas, valentões, metaleiros, emos, até os nerds. Implicavam com seu jeito de andar, seus cabelos sempre pintados de cores bizarras, as roupas de gótica compradas em brechó de quinta categoria com que parecia forrar todo seu guarda-roupa...
Mas, ainda assim, Rowan conseguira mexer num botão dentro de Cass que ela até então não conhecia.
Era certo que gostava de garotos. Adorava, na verdade. Já tivera seus rolinhos com vários jogadores do time de futebol, além de dois rapazes “mais certinhos” do colégio com que tentara algo na esperança de namoro, porém acabara não se animando muito com a ideia. Ficava excitada com homens, tinha-os frequentemente em seus pensamentos, mas, quando pensava em Rowan... dava conta, sinceramente, de querer muito ter algo com a garota.
Não sabia explicar a razão. Seria todo o mistério por trás dela, aquela aura inconfundível de alguém que guarda um segredo dos grandes? Seria dó, por vê-la sempre sozinha e querer que Rowan se desse bem com alguém? Ou algum instinto maternal bizarro, querendo guiá-la a melhorar e se tornar popular, trazê-la ao “quarteto”, parando de usar sempre aqueles malditos coturnos e vestidos ridículos, tornar-se mais sociável e, no processo, conseguindo arrancar dela alguns beijos naqueles lábios tão finos que pareciam cortar feito facas?
Pegava-se frequentemente imaginando-se na cama com a garota, seus corpos combinando por ambas serem baixinhas – e nesse ponto Cass se identificava com Rowan quanto a ser alvo de chacota – a gótica livrando-se de seus trajes apertados e finalmente expondo os seios bonitos que Cass frequentemente deslumbrara através de seus decotes, os ventres se colando e os dois corpos se descobrindo pelo tato em meio ao suor. Ela poder dar-lhe algumas broncas por sempre ter se fechado tanto a ponto de não deixar ninguém entrar, atrasando aquilo que agora teriam; uma podendo compartilhar quaisquer segredos com a outra...
Pena ser impossível. Para começar, Rowan jamais a aceitaria, já que ela fazia parte do grupo que mais a escorraçava no colégio inteiro. Embora Cassandra nunca a houvesse importunado diretamente, as três amigas eram mestres nisso – e a menina de cabelos roxos com certeza tomaria a aproximação de Cass como alguma artimanha para humilhá-la ainda mais elaborada pelo grupo. Além disso, Cass nunca poderia se assumir como bissexual. As únicas amigas que possuía se afastariam, a família tomaria tudo como um escândalo, e até mesmo a pequena Eliza acabaria retirada de seu convívio – perdendo assim o pouco de afeto que recebia no mundo. Quanto àquele assunto, infelizmente, era obrigada a conter seus impulsos. Só não achava que conseguiria fazer isso eternamente.
– Oi? Planeta Terra chamando Cassandra!
A voz de Allison, toda maldosa, trouxe Cass de volta ao gramado do colégio – Rowan já tendo acelerado o passo e entrado no prédio enquanto divagava. Deborah, adiantando-se junto à porta, fez sinal para que a seguissem. Pelo olhar e gestos zombeteiros, estava tramando uma das suas.
Cass só esperava que não fosse com Rowan...
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