Querida
1 Correr?
Notas iniciais
— Não vai correr querida?
Uma garota corria por um ambiente escuro, não conseguia ver um palmo a sua frente, mas o pânico e desespero que sentia não a deixavam se importar com a cegueira. A cada passo ela ouvia baques surdos doo chão, como se ele fosse completamente oco, e atrás de si gritos e gemidos de dor a faziam derramar lágrimas amedrontadas, seu estômago respirava, o abdômen doía com o cansaço.
Ele tropeçou uma. Duas. Mas só na terceira conseguiu ver o sangue pingando de seus dedos, e tentava limpar as mãos trêmulas na camisa, mas não havia efeito. E então sentiu em suas costas, um pouco abaixo do ombro, uma dor agonizante, perfurante, excruciante, sua visão perdeu o foco, sentiu algo quente percorrer e molhar sua camisa. Caindo no chão, sem forças.
Um vulto branco em meio aquela escuridão passou na sua frente, uma risada esganiçada soou. E alguma luz, em algum lugar daquela imensidão sombria, fez com que o rosto desfalecido da grota fosse refletido em seu próprio sangue.
E então ela acordou.
Seu peito doía, estava ofegante, deslizou até o chão, encostando-se a lateral da cama. Seus fios castanhos estavam presos a sua testa por conta do suor, deslizou uma das mãos até as costas, só pra ter certeza que estava tudo bem. Era a quinta ou sexta vez que Caroline acordava daquela forma, isso só naquelas duas semanas.
Suas mãos tremiam e sua boca estava seca, seus olhos deslizavam pelo quarto procurando algo de incomum, mas só encontrava a bagunça de sempre. Levantou-se devagar, dirigindo-se a cozinha como sempre fazia, enchendo um copo de água e o virando, enquanto a água deslizava por seu pescoço molhando sua camisa, controlou a respiração e acendeu todas as luzes do pequeno apartamento onde morava, sentando-se no sofá por fim.
Mas então ouviu uma batida na porta.
Se arrastou até a porta, ficando nas pontas dos pés olhando através do olho mágico, não vendo ninguém em sua porta. Ao contrário da vizinha.
Uma pessoa vestida de preto estava com metade do seu corpo para dentro do apartamento da senhora a qual Caroline era vizinha. A pessoa não se mexia, os pés da garota doeram, tirou os olhos da porta, descansando rapidamente, e quando voltou já não havia mais ninguém e a porta estava fechada.
Aquela era a segunda vez que acontecia.
— Wagner, eu juro, tinha alguém na porta da senhora Beauchamp — Falava a garota de curtos cabelos castanhos, para um garoto magrelo e distraído sentado atrás do balcão.
Wagner a olhou desinteressado.
— E você quer que eu faça o que exatamente?
Caroline o olhou como se ele fosse um idiota. O que ele de fato era. Só por ser o filho do dono do prédio ele se achava dono também, e acabava sendo um babaca.
— Nada — Caroline olhou-o frustrada, recebendo uma piscada.
Chegando ao seu andar, para ser mais específico o terceiro. Viu quando uma senhora que aparentava ter por volta de uns 90 anos estrando em seu apartamento, a senhora olhou para a garota, sorrindo doce para a mesma.
— Caroline, minha querida — A senhora acenou para a garota que havia começado a se aproximar.
— Boa tarde senhora Beauchamp — Caroline abraçou a pequena senhora, que batia aproximadamente em seu ombro —Como à senhora está?
A velhinha fez uma careta.
— Ainda com muito dor nas costas — Falou alisando seu ombro — Mas e você minha querida? Por que não está na faculdade? —A senhora olhou-a divertida.
— Hoje é sábado senhora Beauchamp — A garota sorriu.
A senhora sorriu notando seu erro, soltando uma doce risada que fez Caroline sorrir também.
— Entendo —A senhora disse — Mas então vá descansar, você sempre chega tão tarde em casa.
Caroline lembrou-se da noite anterior, quase não havia dormido e depois do pesadelo não havia conseguido voltar a dormir. Suspirando cansada.
— A senhora está certa — Falou a garota sorrindo exausta — Tenha uma boa tarde senhora Beauchamp — Despediu-se acenando e voltando ao seu apartamento.
A garota não notou o quanto estava cansada até entrar em seu apartamento. Sua cama nunca pareceu tão chamativa até aquele momento, dando-a tempo apenas de tirar os sapatos, caindo inconsciente e desajeitada no colchão.
E novamente viu seu reflexo em seu sangue.
Acordou atordoada com um sobressalto, as mãos novamente trêmulas, dessa vez não consegui nem segurar o copo. Ouviu novamente as batidas e novamente havia alguém na porta de sua vizinha, a pessoa nunca entrava nunca se mexia e sempre desaparecia. Parou de olhar, voltando a espiar em seguida torcendo para que sumisse como sempre fazia.
Mas ainda estava lá.
O coração de Carol falhou uma batida. Escondeu-se novamente atrás da porta, e começou a sentir como se estivesse no seu pesadelo.
Alguém bateu na sua porta, se afastou com um pulo, a batida ficou mais violenta e compassada, o coração da garota acelerou. A fechadura começou a ser forçada, a morena correu para a entrada da cozinha com o copo na frente do seu corpo, assumindo aquilo como sua irmão. Então a fechadura se quebrou.
E Carol acordou. Mas dessa vez o dia não havia amanhecido.
— Você tem câmera de segurança no prédio?
O garoto magrelo e moreno olhou-a confuso enquanto equilibrava uma caneta em seu dedo.
— O quê?
— Só responde — A garota estava nervosa, inquieta e com olheiras enormes.
O garoto arqueou uma sobrancelha, confuso, mas pelo estado da morena a sua frente ele preferiu não soltar gracinhas. Ajeitou-se em sua cadeira digitando algo em seu computador dentro da minúscula sala atrás do balcão.
— Que dia você quer ver?
— As últimas três noites, no meu andar — Falou ansiosa.
O garoto digitou mais algumas coisas e virou a tela para a garota, três janelas de imagem estavam abertas na mesma hora, com as datas que ela pediu.
— Adianta um pouco — Pediu Caroline nervosa.
— O que você... — Wagner começou, mas foi interrompido por um olhar da garota.
O garoto obedeceu, adiantando a gravação. Carol alisava as mãos próprias mãos, angustiada. Seus olhos estavam frenéticos como se houvesse tomado pelo menos uma jarra inteira de café, ela olhava inquieta para as três imagens, procurando, esperando. Mas ele não aparecia, o sol nasceu nas três e não havia sinais do homem ou mulher encapuzados.
Wagner a olhou, parecendo preocupado pela primeira vez.
— Você...
Ela o interrompeu novamente.
— Sim, estou — Olhou fingindo sorrir e correu pelas escadas.
E chegando ao seu andar a viu novamente. A senhora Beauchamp, sorrindo de sua porta e acenando para a garota, Carol sorriu nervosa, observando a idoso entrar silenciosamente em seu apartamento, enquanto corria adentrando o seu.
E novamente por algum motivo, pegou no sono, desta vez na sala.
Carol acordou com uma incessante batida na porta, deslizou até o chão da sala, desesperada, estava suada, tremendo e sentindo sua garganta seca, além de claro estar apavorada. A garota correu para a porta da cozinha, enquanto choramingava baixo, enquanto o ruído das batidas reverberava por todo seu apartamento. Carol escondeu a cabeça entre as pernas, enquanto repetia para si mesmo que só estava sonhando e que nada era real.
Mas as batidas não paravam, seu coração estava acelerado e batendo tão forte que doía, as lágrimas haviam começado a descer, cravava cada vez mais suas unhas em seus braços, sentindo queimar e arder.
E então tudo parou.
O ranger da porta se abrindo e o choro descontrolado da garota eram os únicos barulhos presente no local. Caroline se encolheu cada vez mais em seu lugar, abraçando ainda mais seu corpo.
Mas então tomou coragem e olhou devagar para a porta aberta. Não havia ninguém lá.
— Querida... — A voz soou como uma brisa de inverno. Tão fria que a garota podia sentir seus pelos se ouriçarem.
Uma sombra surgiu na porta da senhora Beauchamp e todas as luzes se apagaram, apenas uma leve luminosidade vinda do corredor guiava os sentidos da garota.
A sombra se aproximou devagar, quase deslizando, Caroline prendia a respiração enquanto se esgueirava escondendo-se atrás do balcão da cozinha, ouvindo a respiração agonizante e os passos pesados da criatura, torcendo para que acordasse logo.
Mas então sentiu algo vibrando em seu bolso, quase a fazendo gritar de susto, mas tapou a boca, cravando as unhas nos lábios. Pegou o celular devagar, escondendo a sua luminosidade, olhando que era uma mensagem de Wagner, seus dedos tremiam tanto que ela quase não conseguiu desbloquear o celular e não conseguia ler por conta das lágrimas de medo que deixava cair.
Caroline enxugou o rosto desesperadamente, havia esquecido-se do aparelho, poderia pedir ajuda. Mas quando leu finalmente a mensagem do garoto, esqueceu-se como se respirava e podia escutar o próprio sangue fluir em suas veias.
[03:30] Wagner: Carol, a senhora Beauchamp morreu há 6 meses.
E então Caroline se lembrou, as lembranças vinham como agulhas em seu cérebro, fazendo-a agonizar e fechar os olhos desesperada.
E ao abri-los novamente ela viu...
Uma senhora de vestes brancas no chão, com o rosto sendo engolido por seu próprio sangue que emanava de uma ferida aberta em suas costas, bem abaixo do seu ombro, a faca estava jogada ao lado de seu corpo inerte e cheio de hematomas no rosto. Logo a frente, Carol pôde ver o reflexo da senhora morta e alguém de pé em cima dela, quando subiu o olhar, ela viu que estava vendo a si mesma no espelho.
Suas mãos pingavam o sangue daquela mulher, suas roupas e seu rosto estavam ensanguentados, em seu olhar havia uma mistura de medo e prazer e um sorriso sádico havia começado a tomar conta de seus lábios.
A garota se pôs do lado do cadáver da pequena senhora, pegando a faca de volta, passando-a lentamente na parte do rosto que não estava afogada em sangue. Os olhos leitosos e assustados da senhora pareciam ainda temer a garota. Caroline aproximou-se do ouvido da senhora e sua voz saiu tão fria e cruel que quase sentiu-se mudar a temperatura do quarto.
— Você não devia ter corrido querida.
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