Quem é Helena?

1 Capítulo 1 - Começando o futuro


Por Helena

A casa se preparava para aquele dia antes mesmo da semana começar. Mamãe me fez participar da faxina completa de todos os cantos. Tapetes e estofados aspirados, banheiros minuciosamente limpos e quartos arrumados de forma impecável. A casa parecia até diferente depois de tanta arrumação. Não era ruim a mudança de visual, trazia até mesmo uma alegria no meio de toda aquela confusão que estava acontecendo.

Foi tudo meio rápido, turbulento. Cheguei da escola certa tarde e lá estava Isaac, colega de trabalho de minha mãe, para o almoço. A cena se tornou frequente até minha mãe questionar insistentemente qual minha opinião sobre rapaz. Eu deveria ter percebido as coisas antes; os sorrisos bobos, as ligações escondidas, os suspiros ao ouvir uma música mais suave ou ver uma propaganda de margarina. Era eu, quem queria enganar? Eu nunca haveria percebido antes. E percebi agora por ela finalmente decidir anunciar.

Casamento. Seu segundo. Confesso que não sei o que me veio à cabeça primeiro: o absurdo das palavras de minha mãe, Isaac agradando querendo ganhar terreno comigo, o fato de eu ser idiota de não ter percebido nada ou meu pai.

Foi difícil superar a separação de meus pais. Não por eu ser apegada a ele, não mesmo. Eu simplesmente não o reconhecia como pai, era apenas um estranho dentro de nossa casa que tinha por hábito me repreender por algo bobo. O problema foi como minha mãe ficou depois de tudo. Desamparada, perdida, completamente desolada. Viveu anos mergulhados numa depressão tão profunda, que a fez emagrecer de forma tão absurda que os boatos a diagnosticavam com SIDA. Foram tempos difíceis. Assumi um papel que não era meu, adotei minha mãe como responsabilidade, não por que eu era madura o suficiente para isso, eu possuía apenas meus 12 anos. Aquela era minha forma de bloquear da cabeça meus problemas, me ocupando.

Os dois meses de preparo passaram voando. Eu era filha única, estava bem deste jeito. Agora eu iria ganhar dois novos irmãos, que viriam morar conosco. Joaquim e Lívia. A menina não passaria muito tempo em casa, acho que fazia alguma faculdade em algum lugar próximo, menos mal. Já Joaquim viveria conosco, tinha apenas 8 anos e segundo mamãe, “é um garoto cheio de energia”, interpretei isso como uma criança difícil que daria trabalho.

Mamãe estava radiante naqueles últimos dias, sua pele tinha mais brilho, que ainda perdia do brilho de seus olhos que vibravam com uma luz própria. Isaac era um homem na sua meia idade, de cabelos pretos, com fios brancos que contrastavam a cabeça bem aparada, de barba por fazer contornando a mandíbula quadrada e o queixo largo. Tinha um sorriso bonito e que de nada lembrava meu pai. Seus olhos escuros eram calmos. Era um homem bonito, confesso. Além de simpático e inteligente, não poderia negar. Mamãe parecia ter acertado. Mas por que eu ainda sentia aquela queimação no estômago toda vez que eu pensava nesse casamento?

A cerimônia foi feita apenas entre amigos e parte da família dele e nossa. O pequeno Joaquim foi-me apresentado ali, tinha cabelos castanhos claros de fios compridos e olhos muito brilhantes, tão escuros feito os do pai. Seu rosto era levemente quadrado também, mas bastante suave. E eu estava errada. Era um garotinho muito atencioso e agradável. Gostava de falar e se contentava com um ‘hurum’ de resposta. Tentou me puxar para ver uma lagarta que devorava uma planta no jardim, esquivei facilmente indo buscar um pedaço de bolo e ele resolveu questionar um tio sobre a metamorfose.

Era sábado de manhã quando o evento se iniciou e se encerrou ao anoitecer. Eu já estava cansada, meus pés doíam de andar de um lado para o outro e de oferecer sorrisos mecânicos para pessoas que mal me recordava. Era perceptível que mamãe também estava exausta, mas não desgrudava da mão de Isaac. O menino dormia jogado no sofá. Despedi de todos, levei-o até seu quarto e também me recolhi. O dia seguinte ainda requereria meus esforços, a filha mais velha finalmente chegaria e as férias da família seriam organizadas.

O banho afastou meu sono, apenas até o momento em que o corpo bateu na cama e afundou no colchão. Parecia que o mundo me esmagava e senti a respiração ficar mais profunda. Não me recordo de nada, apenas de uma vaga sensação de ver minha casa na infância, com as paredes amarelo ovo e o sofá chocolate. Não havia ninguém, somente o perturbador tilintar de chaves que ecoava por todos os lados. Eu precisava me esconder, meu pai havia chegado!

Acordei com um aperto no peito, já era manhã. O celular ainda não havia atingido as horas programadas para despertar; sentei na cama e tentei não pensar no sonho ruim que havia tido. Levantei e me arrastei até o banheiro, olhei no espelho e vi horríveis olheiras no rosto que lembrava muito minha mãe quando adolescente. Espreguicei-me e lavei a face, escovei os dentes e ouvi agitação vinda da cozinha. No mínimo seria minha mãe tentando deixar tudo perfeito para a recepção do almoço. Preferi me demorar um pouco mais e deixar o relógio atingir as dez horas. A chegada da menina estava marcada para logo após as onze e trinta. Ouvi a voz de alguém se despedir e a porta bater. Era chegada minha hora de me fazer presente. Ajeitei a cama, cruzei o corredor e passei pela sala, um calafrio me tomou a espinha. Sacudi a cabeça para afastar os pensamentos e então a campainha tocou. A imagem de um homem me surgiu na cabeça e minhas mãos suaram. A campainha chamou mais uma vez, ouvi minha mãe gritar da cozinha. Aproximei-me da porta em passos pesados, com receio do que estava ali detrás da porta. Girei a chave, respirei fundo e disse a mim mesma ser impossível. Abri a porta.

A figura por trás dela era ainda pior do que eu poderia haver sequer imaginado. Com um capuz envolto na cabeça, uma máscara de gás sobre a boca e tufos de cabelos verdes escapando para todos os lados, a criatura avançou com as mãos erguidas para cima de mim. Institivamente recuei, caçando algo no ar que pudesse me amparar, por que eu já não sentia as pernas. A boca abriu e preparei para gritar ‘chame a polícia’, mas o que saiu foi apenas um miserável:

— MÃÃÃÃE!!!

Notas finais
Se encontrar erros, por favor reporte para correções futuras. Obrigada pela Leitura!