Notas iniciais
Depois de séculos de hiato no Nyah, vamos lá

Era mais um fim de tarde comum numa pequena e afastada cidade qualquer do interior de São Paulo. Ficava entre dois vales, o que permitia que esta fosse quase sempre fria e cinza, mesmo em dias de verão. As noites proporcionavam o clima perfeito para um filme de drama, suspense ou terror. E era exatamente quando a lua subia e o sino da velha igreja na pracinha tocava, que Morgan colocava os pés na rua e caminhava, com passos pesados até o colégio.

Aquele era um sujeito estranho, controverso: Com nome de garota, rosto um tanto afeminado, franzino e pálido como uma vela. Certamente um ótimo alvo para bullying, embora isso fosse o contrário do que acontecia realmente. O garoto impunha um certo ar de respeito, diluído numa dose de medo entre os outros alunos.

Lembro-me de uma vez, há muito tempo, em que uma espécie de bad boy teve a audácia de tentar fazê-lo de vítima, como havia feito com muitos. Tenho certeza de que quando ele teve esse pensamento infeliz, não imaginou o que lhe aconteceria em seguida.

Não se sabe o que realmente aconteceu, o corredor estava vazio, mas quando o dito cujo o empurrou contra a parede e suspendeu seu corpo leve do chão, segurando pelo colarinho da blusa, havia algo em seus olhos. Algo que paralisara o agressor, o fizera recuar e cair, se afastando. Morgan se aproximara, sua íris negra agora havia escurecido todo o seu globo ocular, mas não chegou á alcançá-lo, já que o outro fugiu aos berros, porque afinal, é isso o que covardes como aqueles fazem.

Pelo menos foi esse o boato que se espalhou pela escola. Não houve tempo de esclarecer bem a história, já que o bad boy resolveu se mudar pra longe na mesma semana, e bem... ninguém teve coragem de perguntar á Morgan sobre o caso. Era um cara de poucas palavras, raramente escutavam sua voz. Uns diziam que era dramática e grave, outros que era rouca e baixa, mas a verdade é que ninguém tinha na memória o dia em que ele disse alguma frase completa.

Ele soltava uns múrmuros de vez em quanto, silabava algumas coisas quando falava sozinho, mas nada de voz. Apresentar trabalhos para a classe era um problema, já que ele sempre dava um jeito de sumir quando sabia que seria obrigado a falar em alto e bom som, o que não quer dizer, é claro, que suas notas eram tão baixas quanto sua voz.

O boletim era repleto de notas azuis, pois era inteligente, absorvia rápido as informações, mas algo acontecia no último bimestre que o garoto desparecia por semanas, e quanto voltava, errava tudo propositalmente, provocando uma reprovação súbita, inexplicável.

E assim ele ficava preso sempre no terceiro ano no ensino médio, com a mesma aparência de dezessete anos. Depois de tantas reprovações, já não se sabia quantos anos aquele ser peculiar tinha vivido, nem onde estariam seus pais, assim como não sabiam de coisa alguma.

O que era de conhecimento geral? Morgan era a figura exótica que não tirava o sobretudo preto do corpo, não falava, nem esboçava emoções, era emancipado dos pais e vivia na última casa da rua, depois da praça, de costas pra igreja, daí vem o apelido de “fantasma”. Ah, e é claro, o essencial: Não o perturbe que tudo continua em paz.

Infelizmente, Olivia não sabia disso e teve que descobrir da pior forma. Não que isso tenha sido sacrifício pra ela, já que a mesma adorava o sabor do desconhecido, o frio na barriga e a sensação fazer o que não devia.

Recém-chegada na cidade, a primeira coisa que lhe chamou a atenção não foi surpresa pra ninguém. Nunca teve dificuldade em fazer amigos, então logo se enturmou.

— Quem é o da capa preta? – Indagou ela, assim que teve a oportunidade.

— Esquisito, né? – O veterano sorriu – Se eu fosse você, nem tentava uma aproximação.

— Por que? – Sua curiosidade era maior que tudo

— Confie em mim, você não iria querer saber...

— Ah, qual é... – Despencou os braços sob os ombros – Me conta!

— Mais cedo ou mais tarde tu descobre – Afirmou ele, logo mudando de assunto.

Havia uma certa pitada de receio em sua expressão, e a garota, esperta como raposa notou rapidamente isso, mesmo não tendo insistido na conversa, por um tempo. Mais tarde, interrogou uma outra veterana sobre a figura de preto, também não obtendo informação alguma. Sua sede de curiosidade acerca do tal alienígena só crescia, e foi se espalhando pela escola, até ficar conhecida como “a pobre novata apaixonada pelo fantasma”.

Haviam feito um complô de negar á ela toda e quaisquer notícia sobre o tal menino fantasma, para que a mesma se roesse na agonia do desconhecido. O que para eles era uma sádica diversão, para ela não havia graça nenhuma.

E depois de tanta aporrinhação por parte dos alunos, decidiu ir ela mesma até o menino fantasma, tirar suas próprias conclusões. Caminhou até o canto do fundo da sala onde o mesmo ficava, com o coração na mão, puxou uma cadeira ao seu lado e se sentou, suspendendo os pés sobre a mesa á frente.

Notas finais
Tem gente que tem coragem