Notas iniciais
Espero que gostem e, por favor, comentem para, assim, me ajudar! Boa leitura.

Quem sou? Quem somos nós, seres sujos de lama que se arrastam nessas trincheiras imundas da terceira guerra mundial? Não podemos ser considerados assassinos, pois fazemos isso pelo nosso país, tampouco nos achamos patriotas, pois a quantidade de crianças e homens e mulheres que já matei superam o orgulho pelo meu país.

Então, quem somos? Escrevo isso agora dentro de uma fétida barraca que cheira à pólvora, sujeira e sangue. A chuva cai forte lá fora, ameaçando derrubar as alinhadas construções de pano que fizemos dia anterior.

Quem somos? Lembro-me vagamente de minha esposa... sim, tinha uma esposa! O nome... O nome não me recordo mais, começava com “H”, “L” talvez. Anos sendo obrigado a pegar em armas e bombas, minas e miras, corpos e refugiados apagaram minha memória! Não sei sequer meu próprio nome! A única lembrança que não me esqueço foi a da minha primeira vítima. Um jovem, russo (reconheci pela língua), com cabelos marrons, curtos e cuidadosamente cortados que tinha uma pequena cicatriz no lábio superior.

Quem somos? Humanos? Como? Se as minhas únicas lembranças marcantes são a do jovem russo gritando, entrando em falência, sem ar e desesperado?! QUE TIPO DE HUMANOS NÓS SOMOS, PORRA?!

A chuva piorara. Estou só, como de costume, em minha barraca. Só, mas atormentado pelos fantasmas do passado! Fantasmas que pereceram sob minhas armas e bombas. Fantasmas que morreram e sofreram sob minhas ordens!

Lembrei-me do aviso que havia recebido do General, mais cedo:

“A terceira guerra chegou a um fim, vocês todos estão livres. Voltem para a casa e festejem, pois saímos vitoriosos!”... o aviso foi divulgado em todas as mídias nacionais e a todos os soldados que se encontravam fora do país também.

Mas ao contrário do que todos os “não-envolvidos-com-a-guerra” esperavam, não houve festa. Não houve sequer uma dança, um beijo apaixonado, rosas entregues, nada. Não houve nada, e o campo de guerra agora parecia abandonado por anos. Sem movimento, barulho, sombra, ou voz. Não sabíamos o que fazer, pois duvidávamos até se éramos considerados humanos ainda!

Mesmo depois de tantas atrocidades eles esperavam que comemorássemos? Mesmo após matarmos, esquartejarmos, sermos obrigados a beber sangue por falta de água, eles esperam que voltemos felizes para casa?!? Mesmo depois de presenciarmos, e às vezes até cometermos, diversos estupros em mulheres que ao menos sabemos os nomes? MERECEMOS O DIREITO DE SERMOS FELIZES?

Primeiro veio do lado esquerdo, então do direito, enfim de ambos. Quando vi, derramava lágrimas abertas, e, caído no chão, chorava como um recém-nascido. Após os 17 anos que havia passado nas trincheiras, essa possa ser a primeira vez que realmente choro.

Quem somos? Humanos... Como sei? As lembranças de casa finalmente voltam... E eu posso sair deste inferno que é a guerra.

Um soldado qualquer,

08/12/2032

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!